Sim, Senhor.
47 Capítulo 47
Notas iniciais
Grissom estava cabisbaixo, sua vida tinha se transformado em um mês e ele ainda tentava entender tudo o que tinha acontecido. Sentia-se como um navio quebrado, sentia que apenas ficava vagando em busca de um porto. No entanto, conseguia animar-se quando via que tudo em sua casa estava se acertando. Em breve Jason iria se formar no ensino médio e partir para Nova York.
O tempo havia sido cruel com ele. Sentia que seus filhos começavam a deslizar por entre os seus dedos. Sorriu ao lembrar-se da infância de Jason, o menino era apaixonado por beisebol e sempre em suas folgas, praticavam no jardim. O seu primogênito era um menino curioso e a fase dos "porquês" foi a mais engraçada, tudo ele precisava de uma justificativa.
O início da adolescência dele foi uma grande mudança, os esportes deram lugar para a arte, e ele e Maggie apoiaram sua decisão. Assim como a grande maioria dos adolescentes, Jason ficou mais recluso e foi naquele momento que Grissom sentiu que estava o perdendo…
As tardes no jardim deram lugar para as horas intermináveis dentro do seu quarto.
E quando Maggie foi embora, ele se fechou de vez.
— Muito cedo para pedir um beijo em troca do seu pensamento ? — Grissom saiu do seu devaneio com o toque de Maggie em seu ombro. Ela estava abaixada com o rosto bem rente ao seu.
— Estava com a cabeça em outro lugar, me desculpe. — Levantou-se do sofá e ficou a uma distância segura da médica.
— Cabeça em Chicago ? — Ela o atingiu.
— Las Vegas, pra ser mais específico, nessa casa.
Grissom sentiu o olhar pesado de Stella em suas costas. Compreendia a atitude da senhora em relação a ele, mas não apoiava a forma como ela estava tratando Sara. As duas não se falavam mais desde o retorno de Maggie, e ele sabia que aquela atitude machucava demais a Sara.
Pegou as duas malas que já estavam prontas na sala e rumou para a garagem. Iriam viajar até Mount Charleston a pedido de Maggie. Era o último fim de semana antes do julgamento de MontBlanc e ela queria tirar um tempo para se isolar com a sua família, não seria tão calmo encarar aquele homem novamente.
Colocou as malas no carro e aproveitou o momento a sós para conferir o seu celular. Havia adquirido aquela pequena mania depois da partida de Sara, em seu subconsciente, acreditava que a qualquer momento poderia receber alguma ligação dela.
Mas assim como em todos os outros dias, o placar permanecia o mesmo:
0 ligações e 0 mensagens.
No entanto, o celular começou a vibrar em sua mão e o seu coração bateu fora do compasso.
Mas o visor informava que a ligação não era de Sara, mas também de uma pessoa importante.
— Oi mãe.
— Oi Gil, acabei de chegar em casa. Foi uma viagem tranquila e quase achei que Hanni não fosse mais me reconhecer.
— Mãe, ele é só um gato. — Grissom riu dos resmungos de sua mãe, falava aquilo apenas para provocá-la — Muito obrigada pelo o tempo que você passou aqui comigo.
— Não me agradeça. Só espero que você realmente esteja falando sério quando diz que está bem e feliz.
— Você sabe que eu não consigo te enganar.
— Por isso que eu fico preocupada.
Eles ficaram em silêncio, era um hábito dos dois. Sua família chegou na garagem e eles encerraram a ligação. Jason auxiliava sua irmã a afivelar o seu cinto, enquanto Maggie acomodava-se no banco da frente.
— Obrigada por esse fim de semana. Estava com saudades dos nossos passeios até o Mount Charleston. — Ela olhou pelo retrovisor interno e conseguiu capturar o olhar de seus dois filhos. Emma parecia estar um pouco mais alegre, mas ainda não era o seu habitual. Jason estava menos tenso com a presença dela.
— Vai ser bom relaxar um pouco antes de ir embora. — Jason concluiu o seu pensamento encarando sua irmã. Ela era a única pessoa que ele sentiria falta quando fosse para Nova York, e toda vez que via aquele olhar triste de Emma, tinha vontade de abandonar tudo. — Vou aproveitar cada minuto para irritar Emma.
— Isso você já faz o tempo todo.
Grissom riu da resposta de sua filha caçula. Respirou fundo e percebeu quando Jason desviou o seu olhar do retrovisor, ele não iria forçar uma aproximação, não naquele momento. Ainda passaram na casa da namorada de Jason para ela participar da viagem. O trajeto foi tranquilo e quando todos chegaram em casa, uma sensação de nostalgia invadiu o ambiente.
— Parece que eu nunca estive longe daqui. — Maggie abria as janelas da sala enquanto Grissom e Jason pegavam as malas.
Robert e Virginia tinham comprado aquele imóvel quando suas filhas haviam saído de casa para estudarem. O casal tinha feito um bom investimento na casa e ela era ótima para tirar alguns dias longe das luzes brilhantes do centro de Las Vegas.
— Pai ! Pai ! Eu posso entrar na piscina ? A vovó disse que o Max tinha deixado tudo pronto. — Emma só esperava a autorização, porque ela já estava com as roupas de banho e segurando uma boia laranja. — Posso ?
Grissom olhou de soslaio para Maggie. A médica já havia confidenciado que sentia-se incomodada pelo fato de seus filhos não a incluírem em algum tipo de decisão. Sempre que um dos dois precisavam de alguma autorização, dirigiam-se a ele. Ela sentia como se ainda não fizesse parte de suas vidas.
— Pergunte para a sua mãe. — Ele curvou o corpo e encarou Emma na altura dos olhos. — Se ela autorizar, você pode ir.
Emma mordeu o lado interno da boca e olhou para sua mãe por cima dos ombros de seu pai. Ela ainda não tinha se acostumado com a presença de sua mãe novamente e às vezes esquecia-se que também poderia falar diretamente com ela.
— Posso ? — Sua voz não expressava nenhum um pouco da empolgação de antes.
— Claro ! Vou pedir para o seu irmão e Mackenzie tomarem conta de você enquanto eu termino de arrumar os quartos. Depois eu vou me juntar a você. — Ela piscou para a menina que retribuiu com um sorriso meigo.
Maggie sumiu pelo o corredor em busca de seu filho. Grissom ficou ali parado no meio da sala, deslocado. Sua visão fixou na bela vista da casa, uma vista ampla do deserto e da dança que o calor fazia em contato com o solo. Respirou fundo e em uma prece interna, torceu para aquele fim de semana passar rápido.
Saiu em direção aos quartos e deparou-se com um dilema: Em qual quarto iria dormir?
Um quarto seria ocupado por Jason e Mackenzie, outro com uma cama de solteiro por Emma e ele ?
Ainda não sentia-se confortável em dividir uma cama com Maggie.
— Espero que não se importe, mas deixei a sua mala no quarto de casal. — A médica apareceu no corredor e parou ao lado dele. — Mas também deixei alguns travesseiros e cobertores extras, caso você não queira dormir comigo.
— Obrigado. Deixe que eu termine de organizar a casa, vá se trocar e aproveitar o dia com nossos filhos.
Maggie abriu um sorriso tímido. Ela sentia que as coisas começavam a evoluir entre eles e isso era um bom sinal. Ela entrou no quarto de casal e Grissom rumou para organizar os quartos, precisava abrir as janelas para arejar os ambientes e abastecer a geladeira. Eram tarefas simples, mas o manteria um pouco afastado daquele teatro de família feliz.
Terminou todas as suas atribuições e foi em direção a área externa. Todos estavam aproveitando o dia quente dentro da piscina. Emma era a que mais se divertia, ela estava brincando com Mackenzie e Jason, enquanto Maggie apenas observava a cena.
— A água está uma delícia, por que não se aventura ? — Maggie aproximou-se da borda e fez um movimento com a mão o convidado.
— Aqui está bom. — Ele sorriu tímido. Observou que Maggie ainda continuava linda. Os olhos cor de mel ficavam ainda mais claros com o reflexo da água, sua pele era cheia de pequenas sardas que pareciam pequenas constelações em seu corpo. O cabelo um pouco mais curto combinava exatamente com o desenho do seu rosto e o sorriso travesso ainda brincava em seus lábios.
— Eu não sei se eu me sinto preparada para encarar aquele homem inescrupuloso de novo. — Ela aproveitou que os seus filhos brincavam na outra extremidade da piscina para confidenciar.
— Pense que será a última vez e que talvez você seja a única vítima viva. O seu depoimento é de extrema importância. Estarei ao seu lado.
— Obrigada por isso, querido. — Ela tentou sustentar um sorriso, mas estava preocupada demais. — Eu só vou me sentir inteiramente aqui quando eu tiver certeza que ele não será mais uma ameaça.
— Eu e Alana fizemos o melhor relatório de nossa vida. Eu sei que sempre digo para os meus peritos que não devemos misturar emoções durante os casos, mas nesse em específico foi impossível.
— Finalmente eu posso aproveitar das vantagens de ser casada com o melhor investigador de Las Vegas. — Piscou para o supervisor e afastou-se da borda. Sabia que o olhar de seu marido estava fixo em sua nuca. Aproximou-se do trio que estava animado.
Grissom suspirou cansado, porque estava sendo tão difícil aceitar Maggie novamente em sua vida ? Tratou logo de afastar aquele pensamento e focar na felicidade de sua família. Aceitou o convite animado de Emma para juntar-se ao grupo, e mesmo desconfortável tentou aproveitar aquele momento.
Grissom ficou observando aquele presente singelo que Sara havia deixado para Emma. Era um colar dourado com um pingente de sol. Ele tinha entendido a mensagem. Lembrou-se que Emma cantarolava You’re the Sunshine of my Life e aquele presente simbolizava aquilo.
— Uma partida de polo aquático ? Ainda mantemos a hegemonia da família Grissom ?
Maggie passou o braço pelo o pescoço do supervisor e o seu corpo lentamente colou ao dele. Ele ficou paralisado sentindo seus corpos tão próximos. Seu rosto contorcia tentando esconder o seu incômodo, mas sua tentativa foi em vão. Sua mão tentou encostar na cintura da médica, mas mesmo debaixo da água, parecia que sua pele queimava.
— Ahn, eu… eu vou buscar — Jason balançou a cabeça e fechou os olhos, queria afastar aquela cena de sua cabeça. — Eu vou buscar as traves.
O rapaz saiu da piscina de forma brusca e caminhou em direção ao pequeno porão da casa. Sua mente trabalhava de forma rápida. Aquilo não estava certo, ele não conseguia ver a antiga reciprocidade que existia entre os seus pais, mas mesmo assim sua mãe ainda insistia naquela situação.
— Ei, Jason ! — A voz de Grissom ecoou no ambiente. Ele viu o corpo do rapaz arquear antes de virar para encará-lo. — Podemos conversar ?
— Não agora. Estão nos esperando na piscina. — Ele virou de costas novamente e começou a mexer em algumas caixas. Por enquanto o único barulho no porão era das caixas sendo arrastadas.
— Elas podem esperar. — Grissom uniu as pontas do dedo e prendeu o ar nos pulmões. — Daqui a pouco você sai de casa e eu ainda não tive a oportunidade de falar abertamente com você.
— Que inferno ! — Jason soltou as traves de ferro no chão, deixando o barulho tilintar em seus ouvidos. — Tem a minha atenção, Gilbert. — Ele sentou-se em uma caixa de madeira e cruzou os braços.
— Eu iria pedir para você sair da defensiva se acreditasse que você seria capaz de fazer isso. — Grissom deu de ombros e fechou a porta atrás de si. — Eu errei, ok ? Eu errei em ter escondido de você o meu relacionamento com a Sara.
— Você chama isso de erro ? Eu chamo de traição.
— Chame como você quiser. — A voz saiu ríspida. — Mas eu estou aqui pedindo desculpas para você. Eu sou adulto e sou capaz de enfrentar de frente tudo o que está acontecendo.
— Pai. — Ele movimentou as mãos próximas ao rosto, como quem quisesse afastar algum tipo de pensamento. — Ela é apenas uma garota qualquer.
— Não fale assim da Sara. — A voz de Grissom saiu carregada.
— Por que, pai ? Ele é tão importante assim pra você ?
— É Jason, ela é uma pessoa especial. E não merecia aquele tipo de humilhação. — Confessou e sentiu um alívio repentino. Precisava falar aquilo em voz alta. — Sara é sim especial.
Jason abaixou o olhar e ficou fitando os detalhes de sua mão. Sua mente focou na pequena cicatriz em sua palma. Aquele machucado havia sido o resultado de sua peripécia enquanto era criança. Era uma tarde quente e estava brincando no jardim de sua casa, ele achava que tinha forças o suficiente para abrir a torneira da mangueira.
Mas aquela cicatriz provou o contrário. Fez um pequeno corte, porém profundo na mão. Saiu correndo desesperado para o interior da casa e encontrou o seu pai recém chegado de um turno. O homem não pensou duas vezes para socorrer aquele ferimento. Lavou, higienizou e protegeu o machucado.
Mesmo cansado de um turno pesado, fez tudo aquilo sem reclamar e com um sorriso ‘a la Grissom' estampado no rosto. Depois de todos os cuidados, o menino dos cabelos encaracolados ainda foi agraciado com uma grande taça de sorvete.
“Não fale nada para a sua mãe”.
Os dois piscaram como uma forma de selar aquele segredo
— Então tudo isso que está acontecendo é muito errado. Você sabe que a minha mãe ainda te ama e tem expectativa que tudo volte a ser como antes.
— O fato da Sara ser uma pessoa especial não anula o que eu sinto pela a sua mãe.
— Pai. — Jason riu da ingenuidade do perito. Naquele momento ele havia abaixado toda a sua barreira defensiva e estava disposto a tentar abrir os olhos do seu pai. — Isso é impossível. Sabe por que eu sei disso ? Porque nós dois somos iguais. — Deu de ombros. — Não tem como você pegar tudo o que você sente sobre uma pessoa e guardar em uma gaveta.
— Jay, isso é página virada.
— Não é, pai ! Não é porque eu vejo como você se sente quando a minha mãe tenta algum tipo de aproximação, ou você acha que eu não vi que você quase chorou quando ela te abraçou na piscina ?
Grissom sentiu suas bochechas ficarem ruborizadas. Ficou inquieto e aquele porão parecia pequeno demais.
— Ok ! Eu não vou insistir em decifrar os seus sentimentos. Mas está claro que tem alguma coisa de errado. Eu não sei como estão as coisas entre você e a Sara. — Jason fez uma pausa, ainda tentava se acostumar com aquele fato. — Mas eu sei que entre você e a minha mãe não estão nada bem.
— Jason, eu…
— Deixe eu terminar. — Ergueu a mão — Eu não quero que aquela mulher sofra mais nada nessa vida — Ele apontou em direção a piscina. — Não quero que ela derrame uma lágrima por conta de tristeza ou qualquer outro problema. Ela merece toda paz e tranquilidade para toda a eternidade e você também sabe disso.
— Eu sei. — Cabisbaixo, ele sentia cada palavra do seu filho resvalando no seu cérebro.
— Então, se você não consegue fazê-la feliz da forma que ela espera, você vai ter que abrir todo o jogo. — Jason aproximou-se e segurou Grissom pelos ombros, o forçando a encarar. — Minha mãe merece ser feliz cada segundo da vida dela e você não está pronto para proporcionar isso.
— Você acabou de falar que não iria insistir em decifrar os meus sentimentos.
— Mas eu não estou fazendo isso. Eu quero a felicidade da minha mãe. — Jason esvaziou o ar dos seus pulmões e olhou para baixo. — Mas eu também quero a sua felicidade.
O silêncio ficou palpável. O olhar dos dois estava perdido. Grissom ainda tentava processar o que seu filho tinha acabado de falar, precisava ter certeza daquelas palavras. Ergueu o olhar e encontrou os olhos azuis de Jason.
— Eu estou falando sério. Talvez eu ainda leve um tempo para digerir e dissolver todos esses acontecimentos, mas eu espero que vocês possam ser felizes, mesmo que com outras pessoas.
Jason soltou os ombros de Grissom e deu um passo para trás. Como nada tivesse acontecido, ele retornou para a sua atividade inicial. Pegou o par de pequenas traves e antes de sair do porão, deu duas batidas no ombro de seu pai.
Grissom sentiu o ar queimar em sua garganta, só então percebeu como estava tenso com toda aquela situação. Momentaneamente, estava um pouco mais leve com aquela revelação. Seu filho mais velho entendia toda a situação e era mais um na lista de pessoas que não concordavam com a sua atitude.
…
O restante do dia havia sido agradável. Grissom tinha cozinhado para todos e estava sobrecarregado de tantos elogios por conta das suas habilidades culinárias, até Jason havia o auxiliado com o cardápio. A interação deles parecia ter melhorado uma porcentagem razoável.
Maggie encarava todos encantada. Era a sua família que estava reunida novamente, coisa que muitas vezes ela duvidava que poderia ocorrer novamente. Seus filhos tinham crescido, mas ainda continuavam os mesmos. As mesmas provocações entre Emma e Jason continuavam, e em momentos como aquele, sentia que não tinha perdido muitos momentos juntos.
Com o auxílio de Maggie, Emma e Mackenzie,o trio colocou toda a louça suja na lavadora e organizaram a cozinha. Ainda ficaram um pouco mais na sala, entretidos com um jogo de tabuleiro, até sentirem o cansaço do dia invadir os seus corpos.
Cada um foi para o seu respectivo quarto, mas Grissom ainda tinha a indecisão de onde iria dormir. Estava no banheiro da suíte escovando os dentes enquanto obrigava a sua mente a tomar uma decisão.
— Gostei do nosso dia. Confesso que morria de saudades de ter momentos como esse.
— Foi realmente bom. — Ele percebeu o aceno que Maggie fez, indicando para que ele senta-se ao seu lado na cama.
— Como estão as coisas entre você e Jason ?
— Acho que a palavra certa é fluindo. — Grissom acomodou-se na cama e encostou suas costas no macio estofado da cabeceira.
Maggie ficou satisfeita com a resposta. Se Jason estava perdoando o seu pai, era um sinal que o fantasma de Sara já estava se apagando de suas mentes, e aquilo era um bom sinal.
Os dois engataram em uma conversa sobre o passado, e ali parecia ser um ponto seguro para ambos. Lembraram-se das aventuras com os seus filhos, alguns sufocos que eles passaram por conta da inexperiência do primeiro filho e até mesmo as infinitas horas de sono perdidas por diversos motivos.
— Eu passaria por tudo isso novamente — A médica disse rindo daquelas memórias. Ela virou e apagou o abajur do seu lado na cama — Tinha noites que eu invejava a sua facilidade para dormir
— Sinto falta daqueles dias. — Grissom disse nostálgico. Ele observou que a médica acomodava-se na cama para finalmente descansar. Observou que Maggie aguardava alguma reação sua. Ajeitou o corpo na cama larga e levou a mão até o apagador.
O quarto ficou escuro, apenas algumas luzes externas do jardim iluminavam o ambiente. Fechou os olhos e percebeu que o seu corpo estava contraído, como estivesse com medo de um risco iminente.
— Boa noite. — Sentiu a mão de Maggie em seu ombro e logo em seguida uma rápida carícia em seu rosto.
— Boa noite. — A resposta saiu no automático e ela parecia não ter se importado.
Fechou os olhos e torceu para conseguir pegar no sono tão rápido como antigamente, mas sabia que só estava tentando se enganar. Percebeu que a respiração de Maggie começava a ficar mais leve e relaxada, e ele tentava fazer o mesmo.
Não soube dimensionar quanto tempo ficou com os olhos fechados e parado na mesma posição. As palavras da última conversa com Jason ainda ressoava em seus ouvidos. Ergueu tentando movimentar o menos possível. Pegou o seu travesseiro e observou a mulher ao seu lado dormindo tranquilamente.
“Minha mãe merece ser feliz a cada segundo da vida dela e você não está pronto para proporcionar isso”.
Fechou a porta do quarto atrás de si e foi em direção ao sofá da sala.
Jason tinha razão.
♦♦♦
Era o dia do julgamento de MontBlanc, ou melhor, Arthur Dyer.
Grissom, Maggie e o insistente Jason tinham acabado de pousar em Chicago. O rapaz havia sido categórico e até um pouco petulante quando disse que voaria para o julgamento do torturador de sua mãe, queria encarar aquele monstro de frente.
Emma havia ficado com Robert e Virgínia, que precisaram ser convencidos a ficar em Las Vegas.
— Vamos encontrar com a Alana no tribunal, ela já está nos aguardando.
— Ok ! — Maggie estava muito nervosa, não queria ter que reviver cada momento, mas o fato de saber que estava segura a deixava um pouco menos agitada. — Ok ! Vamos acabar logo com isso de uma vez.
O trajeto até o tribunal foi todo em silêncio. Na porta do imponente fórum, havia alguns jornalistas, mas o trio conseguiu passar despercebido dos olhares afiados. Alana acenava no fim do corredor e os chamou para se aproximar.
— Isso está muito perto de acabar, Maggie. — Alana a apertou em um abraço caloroso e sentiu que a médica precisava daquilo no momento. — Não existe a menor chance deste homem não sair com uma pena máxima daqui.
— Eu só quero que esse pesadelo chegue ao fim.
Os seguranças abriram as portas do salão e autorizaram a entrada. O grupo sentou-se logo atrás do promotor do caso, que os cumprimentou de forma cordial. Alana explicou para Maggie e Jason como seria a dinâmica do julgamento e tentou tranquilizá-la.
Maggie segurava a mão de Grissom e de Jason. Sentia que ambos tentavam acalmá-la com os seus toques. A médica sentiu todo o seu corpo tensionar quando viu Arthur entrar no salão e ser colocado na cadeira. O homem sádico mirou o seu olhar e sorriu, ergueu as mãos algemadas e acenou para ela.
— Ei, olhe para mim ! — Grissom havia percebido o gesto de Arthur. Colocou-se na direção do olhar dela. — Isso é para tentar te desestabilizar. Você é uma mulher forte e incrível, lembre-se disso.
A juíza Isabel Garcia entrou no salão e todos os presentes ficaram de pé. A magistrada deu início a todos os trâmites formais, respeitando a ordem de argumentação entre acusação e defesa. Arthur parecia estar tranquilo com todas as acusações e evidências apresentadas.
Grissom e Alana apresentaram todas as evidências forenses. O supervisor ficou responsável em esmiuçar todos os crimes ocorridos em Las Vegas. A cada imagem projetada no telão, uma reação diferente vinha dos presentes.
Alana completou a fala do entomologista. Expôs todos os detalhes dos crimes ocorridos em Chicago, e também ficou responsável em mostrar o caso de Maggie. Encarou a médica e como quem pedisse licença e perdão, projetou as imagens das lacerações do corpo dela.
O sangue ainda era muito vivo e Maggie sentiu cada cicatriz reabrir com aquelas imagens.
Jason reprimiu um choro na garganta, ele nunca tinha visto aquelas fotos.
Grissom tentou ser forte pelos dois.
— Maggie Woolf Grissom, à tribuna.
A médica acatou a ordem da juíza. Precisou respirar fundo antes de começar o seu relato. Ela recusava-se a encarar Arthur que estava sentado à sua frente. Reviveu toda a história sem esquecer nenhum detalhe, por mais dolorido que fosse.
Grissom saltou um banco e foi sentar-se ao lado do seu filho. Envolveu o rapaz em seu abraço e o segurou forte.
— Por isso que eu não queria que você viesse. — O perito sussurrou no ouvido dele.
— Eu não poderia descansar enquanto não tivesse certeza que aquele desgraçado vai estar atrás das grades ou morto. — Ele tremia dentro do abraço de Grissom.
Maggie encerrou todo o seu relato e a juíza respeitou o momento de choro da médica. Alana atravessou o salão e ajudou a mulher voltar para o lugar.
Chamado à tribuna, Arthur parecia confortável e feliz com toda aquela atenção.
— Eu poderia inventar alguma narrativa para convencê-la que eu não cometi esses crimes. — Arthur apontou para a juíza. — Mas estou diante dos melhores peritos dos Estados Unidos. — Ele apontou para Grissom e Alana, abriu um largo sorriso e foi prontamente repreendido por Isabel .- Me desculpe, doutora. Mas mentes geniais como essas me deixam excitado.
— Senhor Arthur, eu devo lembrá-lo que aqui não é um palco para as suas apresentações. Estamos falando de 14 vidas perdidas e o senhor está usando a minha tribuna como espaço para o seu entretenimento.
— Me desculpe, doutora Isabel. — Ele fez de rogado. — Mas devo atualizá-la que não são 14 vítimas, são 16. — O sorriso perfeito e alinhado poderia iluminar qualquer espaço escuro. Mordeu os lábios quando percebeu que os patronos e a juíza revisavam euforicamente os papéis do caso em busca das duas vítimas perdidas.
— Vossa Excelência, isso deve ser algum tipo de técnica da defesa para tentar alegar um tipo de insanidade. Os relatórios são bem enfáticos quando determinamos que são 14 vítimas mortas pelo mesmo modus operandi. — O promotor se exaltou.
— Esqueça esses inúteis. — Arthur apontou para os dois advogados de defesa sentados à sua frente. — Eu estou aqui confessando que eu sou autor de 16 homicídios e é tudo isso que importa, doutora.
A juíza encarava furiosa a promotoria, um erro como aquele não seria perdoado por ela. Fechou o punho próximo a sua boca e pensou nos próximos passos, iria deixar o autor concluir a fala.
— Prossiga, mas sem gracinhas.
— Ok ! — Ele pigarreou limpando a garganta. — Desde criança eu sempre gostei de pensar em como seria fascinante ter o controle da vida em minhas mãos. Sabe, decidir quem deve viver ou morrer. Quem deve sofrer — ele olhou diretamente para Maggie. — ou quem deve ter uma vida tranquila. Eu me lembro da primeira morte que eu ocasionei. Era um pequeno pássaro amarelo que o meu irmão criava. Qual era mesmo o seu nome ? — Ele fechou os olhos, como se pudesse acessar uma biblioteca mental. — Max ! Super Max ! Meu irmão amava aquele pássaro !
— Vossa excelência, isso é realmente relevante para o caso ? Temos presentes vítimas e parentes das vítimas desse homem e o quanto antes pudermos acabar com isso, será melhor para todos.
— Indefiro. Pode prosseguir. — A juíza não iria aliviar para a promotoria, ainda estava irritada com o erro das vítimas.
— Eu matei com as minhas mãos. Apertei o bicho até eu sentir a vida dele escorrendo entre os meus dedos, depois disso eu deixei o animal ao lado do travesseiro do meu irmão. Ele precisava entender que eu tinha o poder.
Maggie fechou os olhos e não conseguiu controlar o choro. Estava sendo uma sensação horrível ter que encarar aquele homem novamente. Ele permanecia o mesmo, e mantinha a mesma voz calma para falar.
— Enfim. Melhor eu encurtar toda essa história, ainda quero estar em casa para assistir o último episódio do meu show predileto. — Ele deu de ombros. — Matar animais já não me dava mais prazer. Quando eu estive na faculdade de medicina, foi como estar dentro do paraíso. Mas com o tempo, cuidar de moribundos já não me atraía, porque eu não estava sendo o deus de suas vidas, eu era apenas o facilitador para enviar os meus pacientes para o céu ou inferno.
— O senhor fala como tivesse a certeza que sairá andando pela a porta da frente.
— Sou um homem otimista, doutora. — Ele sorriu novamente. — Depois que eu fui expulso da faculdade, eu comecei a entender o meu papel aqui na Terra. Todos nós temos as nossas conexões, temos pessoas que somos espiritualmente interligadas. E eu fui o responsável por isso. Eu arrancava os seus corações e os trocava por pessoas opostas. Tinha a plena certeza que enviava uma alma para o céu e a outra para o inferno.
— Então o senhor trocava os seus corações para elas finalmente se conectarem ?
— Exatamente, doutora. Para cada alma boa eu trocava o seu coração por uma alma ruim. Sabe como funciona uma balança ? Eu só tentava equilibrar suas almas antes delas partirem dessa Terra. Eu gostava de brincar de deus, julgava quem era bom e que era ruim, mas no final de tudo, ambos mereciam morrer.
Os presentes escutavam tudo estarrecidos, estavam espantados porque Arthur estava muito tranquilo enquanto contava o seu relato. Ele parecia muito seguro e não receava em momento algum.
— Eu não fazia distinção entre homens e mulheres, ou crianças e idosos. Alma não tem idade.
A juíza Isabel ouvia tudo em silêncio, até para ela que tinha uma longa estrada na magistratura, escutar toda aquela história estava sendo de revirar o estômago.
— Então ao todo são 16 vítimas mortas e a doutora Maggie que eu deixei viver. Ela foi a única pessoa que eu deixei sentir o gosto do poder em suas mãos. — Ele acenou novamente para a família Grissom. — Lembre-se doutora Maggie, eu deixei você viver, aproveite cada minuto com sabedoria.
— Chega, Arthur ! -Isabel exaltou-se com o abuso dele. — Eu disse que aqui não é o seu palco.
— Peço perdão. Novamente reitero para que conste nos autos do processo. Eu, Arthur Dyer matei 16 pessoas. Nada mais a declarar.
Ele olhou paciente para a juíza.
Era hora de encerrar todo aquele show. Isabel pediu licença para os presentes e retirou-se para sua sala, um caso como aquele e um réu confesso não seria difícil sentenciar. Passados alguns minutos, ela retornou à tribuna para ler a sua sentença.
Após falar o nome das 14 vítimas mortas e de Maggie, ela sentenciou Arthur Dyer a prisão perpétua. Sua fala foi seguida de aplausos e choros de todas as formas. Maggie caiu cansada sobre o banco e não acreditava que tudo aquilo tinha chegado ao fim.
As cicatrizes em seu corpo não iriam sumir. Porém, Melissa Patterson já não fazia parte de sua vida, e as inúmeras mudanças pela América Central e Sul já eram coisas do passado e agora ela poderia voltar novamente ser Maggie Woolf Grissom.
Mas se tivesse que passar por tudo aquilo para proteger a sua família, assim o faria.
…
Arthur atravessou por todos os corredores do fórum que o levaria até a viatura novamente. Carl e Evan estavam o aguardando do lado de fora para levá-lo até a penitenciária de segurança máxima.
— Olá senhores ! Foi como eu imaginava — Deu de ombros — Prisão perpétua.
— Cale a boca. — Eddie, o policial do fórum apertou o braço do preso com uma força desproporcional. Não tinha mais paciência para aquele lunático.
— Ei, deixe que daqui nós iremos assumir. — Carl saiu da viatura e afastou o outro policial do preso. — Levar esse deus para o paraíso dele.
Eddie deixou Arthur sob os cuidados de Carl e Evan. Afastou-se e aguardou o preso ser posto dentro da viatura e devidamente preso para evitar uma possível fuga. Evan fez um aceno de cabeça para Eddie, indicando que estava tudo certo. O policial só então retornou para dentro do fórum.
— Então rapazes, espero que possam fazer bom uso de todo o dinheiro que paguei para vocês. Agora é hora do meu último espetáculo. — Ele esticou os braços e mostrou as algemas. Evan encarou Carl que apenas assentiu. Pegou a chave em seu bolso e livrou Arthur do objeto prateado. — Obrigado, Eddie não economizou na força na hora de prender.
Arthur olhou para o lado e viu a arma à sua disposição. Conferiu o pente e certificou que estava carregada. Matar a tiros não era a sua predileção, mas estava disposto a abrir aquela exceção.
— Rapazes, foi um prazer negociar com vocês e muito obrigado pela a carona.
Carl parou o carro na frente do fórum e Arthur desceu. Aproveitou que a noite já havia iniciado e com a baixa luminosidade espreitou por entre alguns carros estacionados e escondeu-se atrás de uma caixa dos correios.
— Vamos lá ! 15 — apontou a arma para Jason — e 16... — apontou a arma para Maggie.
Ele avistou Grissom, Maggie, Jason e Alana descendo as escadas do fórum e caminhando em direção a rua.
…
Sara estava parada do outro lado da rua. O prédio majestoso do fórum estava com um pequeno aglomerado de jornalistas e outros curiosos. Ela relutou para estar ali, ficou sabendo do julgamento no campus da universidade, uma das vítimas era aluno do campus e durante a semana o assunto não era outro.
Por ironia do destino, uma de suas novas colegas de curso havia convidado para jantarem juntas próximas ao tribunal. O namorado de Kelly era oficial de justiça e ela iria aproveitar o jantar para aguardá-lo.
Sara estava parada sozinha do outro lado da rua. Seus olhos ansiosos procuravam por Grissom e enquanto isso ela se odiava por estar naquela situação. Tinha feito uma promessa que toda a sua história com o supervisor tinha ficado em Las Vegas e não iria mais acessar aquelas memórias.
Mas ali estava: parada na frente daquele prédio para vê-lo apenas de longe.
Uma movimentação despertou a sua atenção.
Seu coração foi parar na boca quando viu um homem de uniforme laranja agachado atrás de uma caixa dos correios, ele empunhava uma arma e quando o seu olhar seguiu pelo o cano do artefato, ela viu quem ele mirava.
Jason !
Em um impulso, saiu correndo na pequena pista de mão dupla até o fórum. Precisa ser mais rápida e ágil que aquele homem armado. Uma última olhada para trás e viu quando o homem saltou com a arma em punho
Ela só tinha uma chance
Poucos segundos.
— JASON !
Foi tudo o que ela conseguiu fazer antes do barulho do projétil cortar o ar. Tudo parecia correr em câmera lenta. Lembrava-se do olhar assustado do rapaz quando ouviu o seu nome ser gritado de uma forma tão desesperadora.
Depois ela lembrava-se apenas do impacto.
Algo forte e pesado havia atingido a lateral do seu corpo, e depois de alguns segundos sentindo o seu corpo ser arremessado para trás, a última coisa que ela lembrava era do choque do seu corpo no chão.
Seu corpo delgado ainda havia sido arrastado por alguns centímetros e só então os seus olhos começaram a perder o foco e sua visão ficar turva.
O som da buzina era ensurdecedor. Ela queria pedir para pararem com aquele barulho, mas o seu corpo estava fraco demais.
Seus olhos foram fechando de uma forma lenta e gradual.
O céu não tinha nenhuma estrela naquela noite
Lembrou-se da sua mãe
Lembrou-se do sorriso de seu pai
Lembrou-se de Stella
A última imagem que ela viu foram os olhos azuis que ela tanto queria esquecer
— Griss
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