Sim, Senhor.

37 Capítulo 37


Notas iniciais
Peço perdão pela a minha longa ausência mas esses dias foram "eita atrás de eita". Sei que vocês pedem uma constância de postagem e o meu coração fica miudinho por não conseguir cumprir com isso. Mas sem delongas. Boa leitura

Las Vegas, 5 anos atrás.

Depois da viagem até Jackpot, Grissom e Alana obtiveram pouquíssimas evidências do crime. Como já era assinatura do serial killer, o local estava impecavelmente limpo e sem evidências. A detetive estava cada vez mais estressada, reconhecer o fato que Mount estava sempre um passo à sua frente a deixava extremamente frustrada.

Grissom cada vez estava mais atarefado, ainda designado ao caso do serial killer, ele ainda precisava cuidar de um caso que o xerife tinha colocado no topo como prioritário. Cabia a Alana o processamento e análise das evidências.

— Alguma novidade? — Brass estava na sala de convivência, dividindo seu tempo com a detetive.

— Estamos aguardando o resultado de uma parcial obtida no meu pingente mas não tenho muitas esperanças. — Ela passou a mão no queixo e relaxou o corpo na cadeira. Estava aproximadamente uma semana trabalhando sem o seu companheiro e estava quase esgotada.

— Grissom me disse que ele pegou o pingente na sua casa. Os CSI’s reviraram a sua casa e o único material genético encontrado foi o seu.

— Estou de mãos atadas. Meu chefe está me pressionando por resultados e eu não aguento mais quebrar a cabeça com esse caso.

— Uma hora esse desgraçado vai deslizar.

Brass e Alana despediram-se e o capitão retornou para delegacia. Alana ainda permaneceu alguns minutos em silêncio sozinha naquela sala, olhou para o seu relógio no punho e assustou-se com a hora. Precisava ir para casa.

Grissom tinha acabado de sair de uma reunião com o diretor do laboratório, em breve a sua equipe teria a tarefa de treinar alguns estagiários que visavam um cargo como perito. Declinou a opção de argumentar sobre aquela oferta e saiu logo da sala, não queria perder o seu tempo.

— Ei, Alana. — O supervisor aumentou o passo e alcançou sua parceira. — Onde você vai com toda esses papéis e essa caixa de evidências ?

— Para minha casa ! Eu preciso tomar um banho e estudar cada detalhe dessa caso. Estou deixando alguma coisa passar, eu tenho certeza. — Ela suspirou fundo e sua feição transparecia todo o seu cansaço.

— Já perdi a conta de quantas vezes revisamos esse caso, estudamos cada detalhe.

— Eu vou fazer mais uma vez. Me acompanha ?

Era primeira vez que Grissom estava no apartamento da detetive. Já havia deixado ela algumas vezes na porta depois do turno mas nunca tinha recebido uma oferta para entrar. O local era funcional, um cômodo amplo que comportava a sala e cozinha.

— Departamento de Chicago tem o orçamento limitado. — Ela havia reparado que o supervisor estava fitando o apartamento. Tentou sem sucesso disfarçar a inspeção e afastou-se quando o seu celular começou a tocar. — Fique a vontade para começar. Eu preciso tomar um banho e colocar uma roupa confortável.

Ele meneou a cabeça em afirmativa e foi até a cozinha para atender a ligação. Era sua esposa.

Griss, onde você está ? Hoje é aniversário da minha mãe e eu estou indo com as crianças para casa dela.

— Eu estou ocupado em uma investigação. Mande as felicitações para Virginia.

Arrependeu-se imediatamente por ter mentido para Maggie. As grandes discussões em torno das horas gastas com aquele caso e a companhia de Alana estavam se tornando cada vez mais frequente. Se revela-se que estava no apartamento de sua companheira, seria como uma fagulha para uma nova briga.

Jay e Emma vão ficar com ela essa noite. Eu e o meu pai estamos de plantão, as crianças vão ficar com ela.

— Amanhã eu vou até a casa da sua mãe para buscá-las. Não se preocupe.

— Se cuida.

Click

Grissom foi até a mesa onde estavam as pastas com as anotações e fotos de todos os crimes. Sentia-se totalmente impotente diante de tantas informações, acreditava que o Mount zombava de todo o departamento. Focou sua atenção em anotações antigas em busca de algum detalhe que poderia ter sido esquecido com o tempo mas tudo era mantido no mesmo padrão.

— Primeira etapa eu conclui com sucesso. — Alana surgiu do pequeno corredor que levava ao seu quarto. Com os cabelos soltos e usando uma roupa despojada, Grissom surpreendeu-se com o outro lado da detetive. — Tomei a liberdade e pedi um jantar.

— Você acha que Mount já está arquitetando o próximo ataque ?

— Eu acho que ele quer ser pego. Se ele se arriscou vindo até o meu apartamento, ele não está temendo mais nada. Acho que ele se cansou dessa brincadeira de “gato e rato”.

— Não gosto de imaginar que ele está se rendendo por achar que é soberano. — Rodou a caneta na mão, estava inquieto e com os pensamentos acelerados.

— Eu só quero colocar as mãos nele, não me importa como.

Ela sentou-se ao lado do supervisor e pegou algumas pastas que estavam espalhadas sobre a mesa. O local onde os dois estavam não era muito espaçoso e a detetive pouco se importava com isso, estava focada demais para se preocupar com toques repentinos em sua perna.

Após alguns minutos o jantar já estava servido. Os dois estavam famintos e deixaram por alguns minutos o assunto do laboratório de lado. Alana confidenciou que era a caçula de três irmãs, seu pai era proprietário de uma rede de hotelaria e toda a sua família trabalhava no seguimento, ela foi a única que seguiu caminhos opostos.

Ambos caíram na gargalhada quando a detetive contou a história da sua primeira perseguição policial e como ela ficou decepcionada ao perceber que estava correndo atrás da pessoa errada. Ainda confessou um pouco saudosa algumas decepções que acumulou ao longo dos seus 34 anos.

— Meu pai até hoje tenta me convencer a largar o meu cargo e entrar nos negócios. — Grissom analisava uma foto da família dela, todos estavam reunidos na festa de 60 anos do patriarca. Todo mundo possuía um sorriso sincero e uma felicidade genuína. — Se eu não tiver essa adrenalina correndo nas minhas veias eu adoeço.

— Ele apenas quer te proteger. Tenho certeza que ele conhece melhor os perigos da sua profissão que você. — Devolveu a fotografia e sorriu. Ele não era adepto a ter conversas íntimas com seus colegas de profissão mas Alana sempre se revelava sem pedir algo em troca.

— Isso se chama paternidade, Gil. Aposto que você também é assim com os seus filhos.

— Seus pais não sabem que o serial killer esteve na sua casa.

— Devo relatar o ocorrido somente ao meu superior. — Ela disse com um tom irônico e o supervisor revirou os olhos. Ela riu da atitude do entomologista. — Não tem necessidade de alertar meus pais. Tenho certeza que você tem seus segredos ou é o garotinho da mamãe?

Ele achou melhor não prosseguir com o assunto, não seria nada produtivo. Olhou em seu relógio no pulso e viu que a horas já tinham avançado a madrugada. Seu celular permanecia sem nenhuma nova chamada, sinal que a tranquilidade rondava o seu turno.

— Grissom !

O supervisor virou-se repentinamente e não percebeu a proximidade com a Alana. Suas pernas se tocaram mais uma vez, porém dessa vez seus rostos estavam muito mais próximos. A detetive estava inclinada segurando uma foto, ambos estavam paralisados. Alana pode reparar de mais perto o rosto liso de seu companheiro, os olhos azuis eram como o céu em Veneza e seu rosto com traços bem desenhados como uma escultura de Giovanni Strazza

Ela desceu olhar para os lábios finos e sua boca procurava o caminho da dele mas foi interrompida pelo requiem de Mozart ecoando no ambiente. Enquanto tocava Lacrimosa em crescente pela a sua sala, uma rajada de tiros cortou o ambiente.

Las Vegas, dias atuais.

Jason estava parado na porta do hospital onde seus avós trabalhavam, havia recebido uma ligação de Robert pedindo para encontrá-lo ali. Com a desculpa de estar com a rotina apertada e sentir saudades dele — nesse caso seria uma verdade. Apesar de não gostar de Grissom, Robert amava os seus netos — marcou um encontro atípico.

— Que bom que você veio ! Não é possível que tenha se esquecido do seu velho avô.

— Jamais, Bob ! Estou apenas muito focado nos estudos.

Robert trancou a porta e informou aos outros médicos que estaria indisponível por alguns minutos, podendo ser interrompido em caso de urgência. A sala era ampla e muito moderna, na parede tinha espalhado seu diploma e diversos certificados. Toda a família Woolf era referência em suas áreas de atuação.

— Já decidiu qual faculdade quer tentar medicina ?

— Nenhuma. Não vou seguir essa carreira. — Jason abriu um sorriso tímido, era primeira vez que iria admitir para ele suas pretensões. Sabia que tinha o apoio total de seu pai e contava que seus avós também o fizesse. — Estou inclinado para arte e design.

— Senti o meu coração falhar uma batida com essa informação. — Robert levou a mão no peito fingindo uma dor e logo em seguida abriu um sorriso capaz de iluminar um campo de futebol a noite. — Onde você colocar os seus pés e a sua mente, eu tenho certeza que vai ser o melhor.

— Eu… fico feliz — O jovem era tímido como o seu pai. Mordeu o lábio inferior e só então ergueu o olhar. — Obrigado.

— A reação da Virgínia que talvez não seja tão agradável. Mas faça como eu faço — Suspirou fundo. — Ignore.

— Ela já deve ter se acostumado com alguém fora da curva, tia Carol também não quis cursar medicina.

— Por isso que te disse que eu sei como vai ser a reação dela. — Os dois riram com a acidez da resposta de Robert.

Jason pegou um porta retrato que estava sobre a mesa. Era uma foto de Robert com o vocalista da banda The Cure. O rapaz amava aquela foto, seu avô havia prometido que o levaria em um concerto da banda assim que eles estivem em Vegas e ele esperava ansioso por esse dia.

— Tranquilas. — O rapaz devolveu o porta retrato para o seu local de origem e o encarou, o seu semblante se assemelhava como uma esfinge e ele não conseguiu decifrar. — Você está me perguntando isso por causa da briga do meu pai com a minha avó ?

— Achamos melhor dar um passo atrás em relação ao seu pai. Ele e sua avó precisavam de um momento para respirar. — Robert apoiou os dois cotovelos na mesa e uniu suas mãos debaixo do seu queixo. — Mas perdoe sua avó, ela só quer o melhor para vocês. Só queremos o bem de vocês.

— Eu acredito nisso, Bob. — Assentiu — Mas vocês também precisam confiar no meu pai, ele sempre se desdobrou para fazer tudo por mim e pela Emma.

— Sabemos muito bem disso. — Ele tentou não soar sarcástico mas foi em vão. — Acontece que nós começamos a divergir de alguns pensamentos do seu pai e você o conhece muito bem — Deu de ombros. — Ele não reagiu muito bem. Eu e Virgínia, merecemos participar da criação de vocês.

— Águas passadas ! — Ele espalmou as duas mãos. Não iria tomar “partido” naquela briga.

— Estamos por perto para evitar novos deslizes, Jay.

— Não entendi, que deslizes você está falando ?

Robert fechou os olhos e respirou fundo. Grissom tinha comprado uma guerra com ele e agora ele iria começar a primeira batalha. O supervisor tinha se arriscado demais querendo enfrentá-lo e ele não dimensionava o estrago que ele poderia fazer.

— Você é jovem demais para entender sobre isso. Temos receio que alguns erros do passado se repitam.

— Bob, eu não sou mais uma criança. — Ele estava visivelmente irritado com o tratamento dado por ele.

— Eu sei que você não é mais o menino aventureiro que passava horas intermináveis no quintal fazendo planos infalíveis. — Robert tinha ficado saudoso com aquela lembrança. Jason quando era criança era dono de fartos cachos bem modelados na cabeça e um corpo esguio que corria por toda parte. — O que eu quero dizer que nós adultos tomamos decisões sem pensar nas consequências.

— Seja direto.

— Chega, Bob ! — Jason irritou-se e suspirou fundo. Aquela conversa tinha algum objetivo e Robert estava demorando demais para chegar até a conclusão. — Eu me lembro muito bem dessa briga, escutei a minha mãe chorando várias noites. Não gosto de tocar nesse assunto mas qual é a sua finalidade em revirar essa memória.

— Seu pai já te contou o motivo da briga, Jason ? — Robert decidiu puxar uma de suas cartas na manga. Precisava que a relação entre seus netos ficassem abalada com Grissom, como da última vez. O supervisor teria que implorar por uma trégua.

— Não. Nem ele e nem a minha mãe me falaram o real motivo de toda aquela confusão. Mas depois que tudo se restabeleceu — Ele deu de ombros — Sinceramente, eu não quis saber.

— Alana.

Las Vegas, 5 anos atrás.

Alana tinha sido atingida com um tiro no braço e Grissom de raspão no abdômen. Depois de um longo tiroteio, a música tinha sido pausada e um silêncio sacro pairava na casa. No entanto, o gemido de dor da detetive cortava o ambiente.

— Aguenta firme, Alana. Eu já estou ligando para os paramédicos.

Com o celular discou para o 911 e recebia as instruções dos paramédicos. Uma ambulância seria enviada imediatamente para o endereço. Grissom retirou a sua blusa social e utilizou para estancar o sangue que se espalhava pelo o felpudo tapete sobre os seus pés. Certificou que ela conseguia fazer o procedimento e saiu em direção a porta, precisava encontrar com Mount naquele momento

Era a sua chance.

A arma em punho ele circulou rapidamente o perímetro mas não teve nenhum sinal do serial killer, porém avistou o bilhete na tapete de entrada.

Mount havia se aproximado demais.

Já no interior da casa, ele aguardou a chegada dos médicos e dos investigadores. Só deu-se conta que também tinha sido atingido quando viu a mancha de sangue em sua camisa branca. Em poucos minutos a casa já estava cercada por policiais e a sua equipe.

— Jim ! Ele ainda deve estar por perto. Precisamos percorrer todo o perímetro antes que seja tarde.

— Céus, homem ! — O capitão tentava a todo custo levar o seu amigo até a ambulância que relutava contra a idéia. — A partir de agora eu assumo tudo. Você acabou de sofrer um atentado. Não quero saber da sua opinião.

— Eu estou bem, Brass. — Ele falou mais alto tentando impor a sua moral mas foi em vão quando Catherine chegou e endossou a fala do policial.

— Gilbert, você agora é uma evidência. Suma daqui. — Catherine acompanhou até a ambulância e fechou a porta, certificando que ele não sairia dali.

Nos primeiros socorros, a médica Phyllis disse que o seu ferimento era apenas superficial mas que ele precisaria tomar algumas injeções para evitar o risco de uma infecção ou algo mais grave. Questionou sobre a situação de sua companheira e a jovem médica disse que o quadro era estável mas que iria inspirar alguns cuidados.

Já no hospital ele foi levado direto para a enfermaria, faria alguns exames rápidos e seria liberado na mesma noite. Desolado com todo o acontecimento não reparou quando Maggie abriu a cortina que o isolava dos outros pacientes.

— O que aconteceu, Gil? — Maggie estava assustada. Recebeu a notícia que dois pacientes iria dar entrada no hospital vítimas de um tiroteio e quando viu o nome do seu marido, sentiu suas pernas tremerem. — Que medo que eu tive em te perder.

— Estou bem, Maggie. Fui atingido de raspão, nada demais.

— Nada demais ? — Ela fechou a cortina para ter um pouco de privacidade. Estava extremamente preocupada com a situação e ficou irada quando percebeu que Grissom não dava importância para gravidade.- Você poderia ter sido atingido. Um tiro no abdômen pode ser fatal.

— Eu preciso que embale a minha camisa, agora elas são evidências. — Disse encarando o chão. Estava irritado por não tem conseguido alcançar o serial killer. Sentia que teve a oportunidade de encerrar aquele caso naquela noite.

— Não estou me importando com isso. Será que você pode ao menos me encarar ? — Maggie estava furiosa, não compreendia a atitude imprudente dele. — O que está acontecendo ?

— Tive a chance de acabar com esse inferno hoje. Ele teve a ousadia de aparecer na casa da minha companheira. — Passou a mão espalmada no rosto e levou ao cabelo para finalmente pousar em sua nuca. — Odeio essa sensação.

— Você é está sendo egoísta, Gilbert. Será que em momento algum pensou na sua família quando cometeu a sandice de sair machucado atrás de um assassino ?

Maggie encerrou o assunto e aproximou-se dele para aplicar as injeções e fazer os curativos. Dentro de algumas semanas, ele teria apenas uma pequena cicatriz. Ela sempre temia que algo acontecesse com ele devido a sua profissão. Grissom todos os dias encarava todos os tipos de assassinos e bandidos. Era o tipo de homem que sempre encarava os seus suspeitos olho no olho, e não se intimidava com ameaças.

— Como está a Alana ?

— Cirurgia. — Respondeu fria.

Ele apertou os lábios quando ela limpou o local com antisséptico, ardia um pouco e ele não esperava por isso. Maggie estava focada em seu trabalho quando um estalo surgiu em sua mente, Grissom havia mencionado que estaria em uma investigação e não na casa da detetive.

— Então a casa da detetive já era cena do crime antes dos tiros romperem a janela. — Ela disse sarcástica, levantando a cabeça para encará-lo.

Ele permaneceu com o mesmo semblante, sabia que tinha sido pego em uma mentira e não tinha como contra argumentar. Fechou os olhos se lembrou-se que segundos antes dos tiros, ele e Alana estavam bem próximos.

Se não fosse Mount, eles teriam se beijado ?

“Claro que não.”

— Liberado, Grissom. — Ela tirou as luvas e saiu da sala sem ao menos dirigir um olhar para ele.

A cirurgia de Alana tinha sido um sucesso, ela precisava ficar alguns dias no hospital apenas para ficar em observação mas logo estaria liberado para estar na ativa, no entanto com algumas restrições. Toda a equipe, inclusive Grissom, já tinha a visitado e estimando melhoras.

Quando sua mãe soube do ocorrido, embarcou no primeiro voo para Las Vegas e foi ao seu encontro. Cindy só ficou tranquila quando teve certeza que sua filha não ficaria com nenhuma sequela. Implorou diversas vezes para Alana abandonar aquela investigação e retornar para casa mas a detetive era irredutível.

— Nani. — Ela adora esse apelido carinhoso que apenas sua mãe a chamava. — Você teve sorte em não ter sido atingida em uma zona vital. Eu não sei o que seria de mim de ruim tivesse acontecido com você.

— Mãe, não se preocupe. Eu não acredito em sorte, acredito que não era a minha hora. — Ela sorriu com melancolia ao se lembrar do momento. Sentiu-se vulnerável e sabia que sua vida poderia ser esvaída a qualquer momento. — Mas foi o risco que eu assumi quando entrei para academia.

— Nani, você é viciada em adrenalina. Seu pai sempre me falou sobre isso e eu achava que era um exagero. — A mulher as mão próxima ao rosto e beijou o topo da cabeça de sua filha. — Não vamos pensar no que passou, vamos focar na sua recuperação.

— Analisando toda a situação, eu acho que os tiros me impediram de fazer uma grande besteira. — Ela encarava a grande janela que pintava um belo fim de tarde. Precisava compartilhar aquilo com alguém.

— Como assim ?

— Eu estava prestes a beijar o meu supervisor.

Robert estava parado do lado de fora do quarto, iria fazer alguns exames de rotina na paciente. No entanto, quando abriu a porta foi “agraciado” com aquela informação. Conteve um sorriso largo e manteve a seriedade.

Achei o meu pote de ouro”.

Las Vegas, dias atuais.

Grissom estava terminando de periciar um carro na garagem do laboratório. Estava com boa parte do seu efetivo trabalhando no campo e ele resolveu adiantar as evidências. Terminava de coletar as digitais no volante quando Brass apareceu na soleira da porta.

— Me observando, capitão ?

— Você tem visita, Mrs. Robison.

O supervisor abriu e fechou a boca diversas vezes, não estava acreditando que Jim tinha feito aquela comparação. Brass era muito discreto mas isso não o isentava das suas piadas e acidez.

— Não sabia que tinha virado menino de recados. — Grissom terminou as suas anotações e envelopou para levar para análise. — Quem está aí ?

— Jason. Mandei ele ficar na sua sala. — Brass mantinha um sorriso vitorioso. — Gostou na minha comparação ?

— Vou me abster de responder.

Jesus loves you more than you will know (wo, wo, wo) — O capitão cantarolou um trecho da música e Grissom revirou os olhos.

Os dois se despediram e discretamente Jim pediu que Grissom enviasse um abraço para Sara. O supervisor ruborizou-se e foi em direção a sua sala. Jason estava sentado em uma das cadeiras, com as mãos apoiadas na coxa, segurando sua cabeça.

— Está tudo bem, Jay ? — Trancou a porta e desceu as persianas. Sua vontade era que sua sala também fosse a prova de som e ouvidos afiados. — O que aconteceu ?

— Eu quero que você seja franco comigo. — Ele levantou a cabeça para encarar o seu pai. Ele não exitou em momento algum.

— O que aconteceu dessa vez, Jason ? — Grissom estava totalmente perdido em um mar de idéias. Não sabia qual seria o motivo da fúria do seu filho. A única coisa que vinha em sua mente era Sara mas não lembrava de ser descuidado com ela em momento algum.

— Alana. Esse nome te lembra alguma coisa ?

— Sim. — Grissom suspirou fundo. — Foi uma detetive que eu trabalhei alguns anos atrás.

_ Foi por causa dela que você e a minha mãe tiveram aquela briga ? Você teve a coragem de trair a minha mãe com alguém do seu trabalho.

— De onde você tirou essa loucura ? — O supervisor sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. Uma ânsia pairou em sua boca e ele precisou controlar. — Sua mãe foi embora por conta própria e com suas próprias pernas.

— Você me manipulou para ter acreditado nisso. — Esbravejou e bateu a mão das mãos em um relatório que estava na mesa.

— Isso nunca aconteceu.- Grissom sabia que aquela informação só poderia ter sido repassada por Robert. Ele estava cumprindo com a sua ameaça.- Nunca seria capaz de fazer isso. Não vou jogar baixo como seu avô quer.

— A única coisa que ele fez foi finalmente abrir os meus olhos sobre você.- Jason afastou-se e colocou as duas mãos em sua face. Estava tentando muito não perder o equilíbrio naquele momento.

— Vai me enxergar com os seus olhos ou com a versão monstruosa que seu avô criou de mim ? — A ânsia e o mal estar aumentavam cada vez mais. Respirou fundo e ficou encarando seu filho no fundo dos olhos. — Me responde, Jason. — Foi firme na voz.

— Isso tudo faz muito sentido quando é colocado em perspectiva. Eu sei que vocês não queria eu e Emma estivesse envolvidos nessa confusão mas eu lembro muito bem de todo o clima.

— Sempre fiz de tudo para toda essa família ter uma boa convivência, aguentei diversos ataques do Robert mas sempre procurei isolar os meus problemas de vocês.

— Então por que ela inventaria um absurdo como esse ?

Só então Grissom teve noção do quanto Jason estava ciente daquela história. Robert devia ter exposto toda a situação e provavelmente acrescentado alguma coisa. Ele precisava que seu filho acreditasse nele, havia demorado muito tempo para reconstruir uma boa relação entre eles.

— Não posso responder por ela, Jason.

As memórias daquela noite o atingiram como um raio, ele tinha certeza que não iria acontecer nada entre eles. Ele não era homem dado a esses tipos de rompante. Sempre foi franco em seus relacionamentos e não iria colocar o seu casamento em ‘xeque’ por conta de uma aventura.

Na realidade, ele nunca havia questionado Alana sobre aquele assunto. Quando soube da declaração através de Robert, ele acreditou que aquele mal entendido ficaria apenas entre eles.

— Eu talvez nunca consiga perdoar a minha mãe por ter ido embora, mas saber que ela foi embora por sua culpa…

— Não fale o que você não sabe. — Grissom elevou o tom de voz. Achava que já tinha superado a fase de levar a culpa sobre as decisões da Maggie. — Eu não sou covarde de abandonar você e sua irmã. Você pode querer me detestar por achar que eu sou esse monstro que o Robert fantasiou para você mas você nunca vai me detestar por ter virado as costas pra você.

— Eu só quero saber da verdade, pai. — Os olhos de Jason estava lacrimejando, ele se esforçava para segurar as lágrimas mas foi uma batalha facilmente vencida.

— Estou sendo o mais franco que eu posso ser com você. Talvez essa não seja a verdade que você queira escutar. — Grissom levantou-se e apoiou na mesa ao lado da cadeira de Jason. Levou sua mão até o seu ombro e apertou. — Sei que eu te dei vários motivos para não confiar em mim. Fui frio com você, não soube entender os seus medos e frustrações e até mesmo ausente.

— Preciso de um tempo. Toda essa história não me fez bem — Os olhos de Jason estava lacrimejando, ele se esforçava para segurar as lágrimas mas foi uma batalha facilmente vencida. — Eu amo muito você e o meu avô e não estou entendendo o motivo disso.

— Pegue o tempo que for suficiente. — Ele limpou as lágrimas teimosas que escorriam no bonito rosto do seu filho. Amava aquele rapaz com todas as suas forças e se fosse possível travar uma guerra para protegê-lo não pensaria duas vezes. — Estou te dando a minha palavra de homem, eu jamais magoaria sua mãe.

— É melhor eu ir embora. — Jason levantou-se e limpou as lágrimas. Estava totalmente destruído. Não sabia em quem acreditar mas, o que mais doía era saber que os homens que ele mais admirava, viviam em uma guerra fria. — Preciso colocar minhas ideias em algum lugar antes que eu surte.

— Me deixe te levar para casa. Não vou trabalhar tranquilo sem saber aonde você está. — Grissom pegou a chave do seu carro sobre a mesa mas foi impedido por Jason.

— Eu quero ficar sozinho. — Limpou as lágrimas com as costas da mão. Queria apenas dormir e esquecer o dia de hoje. — Eu vou para casa. — Deu de ombros e encarou seu pai. Reparou como o tempo estava passando, os cabelos dele já começavam a ganhar alguns tons grisalhos e sua aparência um pouco mais cansada.

Grissom assistiu seu filho sair de sua sala e não conseguia se mover. Sua mente fervilhava em mil emoções e seu corpo tremia sobre o chão. Pensou duas vezes em largar o turno e ir em direção de Robert, o que ele tinha feito beirava a loucura. Ele havia envolvido seu filho em seus conflitos e jamais o perdoaria por isso.

Aquela noite havia sido penosa para Grissom, as horas pareciam se arrastar no ponteiro do seu relógio. A conversa com Jason o havia tirado do seu eixo, ele não esperava um golpe tão baixo vindo de seu ex-sogro.

Explicou para os seus subordinados que estaria em sua sala assinando alguns relatórios mas na realidade, não tinha encostado em nenhum papel depois da saída de seu filho. Estava preocupado com a reação do rapaz e principalmente curioso em saber quais seriam os próximos passos de Robert.

Após liberar a sua equipe, ele dirigiu em direção a sua casa. Precisava certificar que Jason estava em casa antes de sair para escola. Havia enviado uma mensagem para Sara para confirmar que ele estava em casa mas não obteve nenhuma resposta, provavelmente a morena estava dormindo naquela hora.

— Oi Grissom. — Stella estava na sala ajudando Wanessa a organizar a limpeza da casa. — Procurando alguém ?

— Jason dormiu em casa? — Ele mapeava todos os cantos da casa em busca de algum sinal. Pelo o horário seus filhos estariam na escola.

— Sim. Ele chegou ontem um pouco tarde. Aconteceu alguma coisa ? — A governanta estava estranhando a atitude do seu patrão. Ele parecia um pouco nervoso e inquieto. — Jason aprontou alguma coisa, Grissom ?

— Não ! Não ! — Balançou as mãos próximas ao rosto. Não queria despertar nenhuma curiosidade da senhora naquele momento. Sabia o quão preocupada e super protetora ela era. — Eu apenas pensei que ele estivesse dormindo na casa da namorada.

Stella não se convenceu da resposta mas não tentaria entrar em detalhes. Mais tarde tentaria extrair alguma informação de Jason.

Grissom subiu as escadas e deparou com Sara saindo do quarto de Emma. Seus olhares se cruzaram por breves segundos e Sara limitou-se apenas acenar com a cabeça e falar um tímido “bom dia”. O supervisor apenas retribuiu educadamente e estagnou na porta do quarto.

— Podemos conversar ?

— Não acho que esse seja um bom momento.

— Por favor. — Ele dirigiu um olhar penetrante para ela. Sara sabia que ele não os colocaria em risco se o assunto não fosse sério mas, na realidade, ela queria manter uma certa distância dele. — Prometo não alongar o assunto.

Ela apenas assentiu e ele indicou a porta do seu escritório, se por acaso fossem vistos juntos, seria em um lugar neutro da casa.

— Eu sei o motivo que você estava procurando Jason. — Sara trancou a porta mas permaneceu no mesmo lugar. O seu tom de voz era baixo e sereno, o que causou uma estranha reação em Grissom. — Ele me contou tudo ontem. Eu acho que ele estava tão angustiado que acabou desabafando comigo.

— Imagino que você já tenha uma opinião formada. — Soltou o ar dos pulmões e levou a mão nos cabelos bagunçados.

— Você está enganado. — Ela caminhou até o pequeno sofá e sentou-se. — Escutei apenas uma versão dada pelo o Robert e sei como ele sempre o quis atingir. Mas a minha opinião não importa. O que importa é o Jason saber da verdade.

— Eu já contei mas parece que ele não quer acreditar.

Grissom resumiu toda sua história com Alana, não escondeu nenhum detalhe. Enfatizou que na época, passava por uma crise no casamento mas nada grave, apenas o incômodo da rotina. Falou em como Maggie reagiu ao escutar a história da “suposta” traição. Confidenciou que descobriu que Alana e Maggie haviam se encontrado após a sua alta hospitalar e que depois disso sua esposa parecia ter entendido o mal entendido.

— Eu não culpo Maggie por ter ficado decepcionada comigo. Eu menti falando que não estava me encontrando com ela, mas era estritamente profissional. Jamais teria coragem de trair a confiança dela.

— Então por que isso é um trunfo do Robert ?

— Alguns anos atrás, eu investiguei uma homicídio de uma dominatrix. E no decorrer da investigação, eu acabei descobrindo por acaso que o Robert era cliente da vítima.

— Ele foi acusado pela morte dela ?

— Não. O nome dele apenas constava no livro de registro da Heather, que é a dona da mansão. — Ele suspirou fundo. — Fui ingênuo em avisar para ele que as investigações em algum momento poderia virar contra ele e que ele tivesse um bom álibi para não estar com a vítima na noite do crime.

— Robert achou que você fosse o chantagear por saber do romance extraconjugal dele. — Ela concluiu antes mesmo dele terminar a história. Sabia que o homem não tinha escrúpulos mas não imaginou que ele fosse capaz de manipular até o seu neto.

— A única coisa que ele poderia se agarrar era essa história maluca com a Alana.

Sara ficou incomodada com toda aquela situação. Na realidade, tudo o que tinha acontecido entre ele e Alana, havia se concretizado com ela. Grissom ainda era um homem casado — apesar de não aceitar mais aquela condição — e se Jason descobrissem que eles estavam juntos, poderia complicar ainda mais a relação entre ele e o seu pai.

— Eu acho que você precisa de um tempo para colocar tudo em ordem.

— Não, Sara ! — Ele entendeu a mensagem subliminar. — Eu não posso deixar o Robert continuar a manipular a minha vida. Eu só peço que confie em mim

Notas finais
Robert é tão baixo que é capaz de encontrar petróleo. Essa briga Grissom X Robert ainda vai render bastante. Garanto pra vocês. Agora o supervisor vai ter que remar tudo novamente para conquistar a confiança de Jason e talvez de Sara que possa ter abalado com isso. Pessoal, espero que todos estejam bem. Fiquem bem e se cuidem ♥