Sim, Senhor.
33 Capítulo 33
Notas iniciais
Era um final de tarde na sexta-feira e o último dia de férias de Emma e Jason. Ambos iriam aproveitar o fim de semana na companhia de Virgínia e Robert, o casal havia reservado um passeio até o Clark Country Wetlands Park e depois iriam aproveitar o restante da noite na Fremoont Street. O casal sabia que os netos adoravam aquele tipo de programa e ficaram felizes em saber que Mackenzie também era adepta a esse tipo de passeio.
Sara terminava de ajudar Emma organiza a sua mochila com suas roupas. A menina que a cada dia mais ficava independente, escolhia suas roupas e entregava para morena guardar na mochila vermelha. A caçula sempre ficava empolgada com essas atividades, adora passar um tempo com os seus avós e adorava ainda mais passear.
— A mocinha vai ficar quantos dias fora de casa? Pela a quantidade de roupas que você está separando, eu fico em dúvida se devo ou não alertar o seu pai.
— Por que, Sarinha ? — A menina parou segurando um pesado casaco preto. O clima em Las Vegas estava bem quente e não tinha a mínima necessidade daquela peça.
— Porque parece que você está de mudanças, Em ! — A babá sorriu e logo foi acompanhada por Emma. — Até roupa de frio você está levando.
— Sarinha, eu preciso estar prevenida. Imagina se o tempo muda de uma hora para outra e eu não tenho um casaco ?!
A babá balançou a cabeça e deu-se por vencida naquela conversa. Já conhecia Emma o suficiente para saber que ela não iria desistir de levar aquela mochila cheia de roupas. A cada dia mais ela se tornava cheia de personalidade.
— Planos para o fim de semana ? — Jason entrou no quarto e jogou-se na cama de sua irmã. — Estudar ou dormir ?
— Ainda estou em dúvida mas o projeto inicial será dormir. — Sara bagunçou as madeixas encaracoladas do rapaz. — Mas vou aproveitar para reencontrar alguns amigos da faculdade.
— Não vejo a hora de ganhar essa liberdade.
— Não queira, meu jovem. A sua liberdade será proporcional a sua responsabilidade, lembre-se disso.
— Qual o seu último nome mesmo ? — O rapaz arqueou uma sobrancelha e encarou a morena que via o sarcasmo na fala do rapaz.
— Sidle. Por que ? — Ela projetou os lábios para frente tentando segurar um riso.
— Vou tatuar essa frase no meu braço e acho justo te dar os créditos !
Os dois caíram na risada e Sara aproveitou um descuido dele para jogar uma almofada na sua cabeça. Emma ria da bagunça deles e logo juntou-se. Era uma verdadeira festa quando os três estavam juntos. Sara adorava a boa energia que eles tinham. Ficaram ali por mais um tempo até escutarem o barulho da buzina anunciando a chegada de Robert e Virginia.
— Bem ! A companhia para o fim de semana acabou de chegar. — Jason levantou-se e foi para o seu quarto pegar os seus pertences. Emma deu uma última conferida na sua mochila e fechou o zíper, com a ajuda de Sara colocou o objeto nas costas.
Do alto do mezanino, viam Grissom conversando com Virginia e Robert. As conversas sempre mantiam o mesmo padrão, eles não tinham muito assunto e principalmente Grissom não tinha o interesse em permanecer no assunto por muito tempo.
— Animada para o passeio, Em ? — Virginia acenou para neta que retribuiu com um largo sorriso. Desceu as escadas sob o olhar atento de Sara.
— Eu não via a hora de chegar ! — Emma recebeu um abraço caloroso de seu avô e um beijo estalado na bochecha de sua avó.
Sara cumprimentou educadamente o casal e saiu em direção ao seu quarto. Não tinha motivo algum para estar na sala aquele momento e sabia que podia ser alvo de um comentário maldoso a qualquer momento. Robert discretamente seguiu o olhar de Grissom enquanto a babá atravessava o cômodo.
— Então Grissom, aproveitando as férias? — Robert sentou-se no sofá ao lado de sua esposa.
— Descansando apenas. — Com a mão no bolso de sua bermuda, ele encarava o homem à sua frente. Agradeceu internamente por Sara não ter ficado ali. Robert estava com o olhar muito afiado.
— É a melhor coisa que você deve fazer. Maggie sempre disse que você trabalha demais.
Grissom suspirou fundo e cruzou os braços na altura do peito. Se existisse algo que o deixava profundamente irritado era referir-se sobre Maggie no presente. Achou melhor ignorar — mais uma vez — a fala de sua sogra.
— Você tem notícias de Stella, Gil ?
— Ela está aproveitando alguns dias em Chicago mas liga todos os dias para saber como estamos. Retorna semana que vem.
— Ela vai chegar cheias de novidades. — Virginia concluiu. A médica nutria uma grande admiração pela governanta. Ela estava na família desde a primeira gravidez de Maggie e auxiliou em todos os momentos que era necessário. No início era contra a idéia de ter uma terceira pessoa influenciando na criação de seus netos mas Stella era uma mulher de alma nobre.
— E Sara, não saí de férias ? — Robert levantou-se e parou ao lado de Grissom. Não fez a pergunta em um tom tão elevado para não despertar a curiosidade de Virginia e Emma.
— Bem, ela sai de férias quando ela quiser. Eu não obrigo ninguém a fazer nada por aqui. — Grissom virou em direção ao seu sogro e o encarou. Precisava dar um basta nessa provocações sem sentido.
Grissom sabia que esses ataques vindo de Robert não tinha nenhuma influência com a partida de Maggie. Era apenas por conta da Lady Heather e de todo o segredo que ele escondia. Grissom havia abandonado a razão quando decidiu acobertar as idas do cirurgião até a mansão da dominatrix. Ele imaginava que agindo protegeria a sua família mas enganou-e
— Emma, por que você não vai até o quarto do seu irmão e pergunta se ele precisa de alguma ajuda? Seus avós não vão ficar esperando o tempo todo do mundo.
A menina assentiu e subiu as escada em direção ao quarto de Jason. O clima entre os três na sala havia ficado pesado no instante que a caçula tinha saído. O motivo era um só: a presença de Sara na casa.
Para Virginia aquilo era um péssimo sinal. Se Grissom estava de férias, não tinha necessidade de manter a jovem em casa, ainda mais sem a presença de Stella,
Para Robert era o motivo que ele precisava para criar ainda mais “caraminholas” na cabeça de sua esposa.
— Você tem certeza que não quer ir, Griss? Vai ser legal estarmos todos juntos. Vamos relembrar os velhos tempos.
— Agradeço o convite, Virginia. Mas as crianças vão apreciar mais o passeio sem as minhas ordens.
— Por acaso está falando que não damos limites aos nossos netos ? — Virginia fingiu uma insatisfação com a fala do genro. Soltou uma gargalhada e Grissom acompanhou a risada de forma discreta.
Maggie sempre falava que Grissom ficava furioso quando o casal cedia as vontades de seus filhos.
Sara estava no seu quarto terminando de guardar os seus livros em sua bolsa. Iria para casa naquele fim de semana, aliás não tinha motivo algum para ficar naquela casa. Inclusive tinha recebido uma ligação de Stella orientando sobre o assunto. Pelo menos em casa ela ia poder pensar no últimos acontecimentos sem ter a presença de Grissom.
Iria retornar a sala apenas para despedir de todos e avisar que estava de partida. Checou o quarto para ter certeza que não estava deixando nada de importante ficar. Trancou a porta e foi em direção ao grupo reunido. Sentiu o olhar intimidador de Robert e Virgínia mas dessa vez ela não evitou, os encarou da mesma forma.
— Estou indo para a minha casa, passei apenas para desejar uma boa noite e um bom fim de semana. — Sara ajeitou a mochila em seu corpo e cruzou com olhar de Grissom. Havia uma dúvida pairando na feição do supervisor e ela não conseguiu decifrar.
— Finalmente, Jason ! — Virginia ignorou Sara e levantou-se do sofá, já estava ficando impaciente com a demora de seu neto. — Que demora para organizar uma muda de roupa !
— Me desculpe, vó ! Acabei deixando para última hora. — Ele deu um sorriso discreto e desceu as escadas. — Vai viajar com a gente também, Sarinha?
— Não ! Ela já está de partida, não é Sara? — Virginia cortou a fala do neto de uma forma imperiosa.
— Sua avó está certa, Jay. Eu estou indo para a minha casa. — Sara encarou Virginia.- Vim apenas me despedir.
Grissom esticou os lábios para frente e ergueu uma sobrancelha. A morena tinha sido ousada em responder a médica daquela forma. Ela tinha mais coragem que ele para encarar o casal.
“Ponto para Sara”
Todos despediram-se com um rápido abraço e Grissom os acompanhou até a porta. Era a primeira vez em anos que ele ficava completamente sozinho naquela casa. O final de semana seria ele e seus pensamentos. Sentiu-se vulnerável e perdido por alguns instantes.
Enquanto Jason e Robert acabavam de colocar as bagagens no porta malas, Sara tentava a todo custo dar partida em seu carro. A morena virava a chave na ignição mas nada no painel acendia, ele repetiu o processo diversas vezes até perder a paciência.
“Eu tenho que jogar essa porcaria no primeiro lixo que eu achar”.
— Problemas com o carro, Sara? — Robert fechou o bagageiro e aproximou-se da babá. Sara desceu do carro e bateu com força a porta. — Parece que está saindo uma fumaça do seu motor.
— Ele simplesmente não ligou e para piorar agora tem essa fumaça ! — Sara estava irada. Queria ir embora e poder relaxar mas, pelo o visto teria que perder o restante da noite tentando achar uma solução.
Grissom aproximou-se da dupla e abanava a mão próximo ao rosto tentando afastar a fumaça branca. Aquilo provavelmente era algum problema no motor. Pediu Sara para abrir o capô para dar uma averiguada na situação. Quando levantou a peça tiveram que proteger o rosto devido a enorme fumaça branca.
— Péssimas notícias. Parece que você está problema no motor. — Robert olhava por cima do ombro de seu genro. — Você observou a água no radiador?
— Não me lembro a última vez que fiz isso.
— Solucionamos o seu problema então. Se você tem algum tipo de fé, se agarre a ela.
Sara ficou sem entender a fala do médico mas pelo o diagnóstico preciso de Robert o problema era sério. Fecharam o capô do carro e se afastaram, aos poucos a fumaça ia se espalhando pelo o ar.
Então seria aquilo. Um fim de semana sem o seu carro e para piorar a situação ela não conhecia nenhum mecânico. Na realidade entendia pouco da parte mecânica de carro, que sempre a orientava era os seus amigos David e Simon.
— O que aconteceu aqui? — Jason aproximou-se dos outros homens. — Sara sempre achou que carro é só acelerar e frear — O rapaz começou a rir mas ninguém o acompanhou na risada, inclusive seu pai o lançou um olhar de reprovação
— Não é hora para brincadeiras, Jason.
— Me desculpem. — O rapaz deu de ombros depois do comentário de Grissom. Sara estava visivelmente chateada. — Podemos te dar uma carona, Sarinha. Acho que não fica muito longe da nossa rota. Não é, vô ?
Aconteceram dois estalos simultâneos
Robert e Grissom
Seria uma oportunidade para Robert — e consequentemente Virginia — em fazer algumas perguntas para a morena e principalmente impor alguma regras longe de Grissom.
E Grissom sabia muito bem qual seria a postura de seus sogros, se eles já eram hostis com a babá na presença dele, eles poderiam ser muito mais incisivos em relação a Maggie longe dele.
— Eu vou para o laboratório daqui a pouco, eu levo a Sara. — Grissom respondeu antes mesmo de Sara esboçar alguma reação. Se pudesse, ele evitaria que ela entrasse naquele carro.
— Mas você não está de férias, Grissom? — Robert questionou. — Eu posso deixar a jovem em casa.
Sara estava estagnada com a reação dos homens, principalmente com a atitude de Grissom. Ele havia praticamente decidido no lugar dela. Ela não iria aceitar a carona de Robert por motivos óbvios mas não aprovou a atitude dele, não precisava de um interlocutor.
— Agradeço o convite de ambos mas eu posso ir andando. Ninguém vai precisar desviar a sua rota por minha causa.
Robert encarou Grissom e abriu um sorriso discreto. Já tinha conseguido desestabilizar o supervisor e tinha acabado de ter a confirmação que existia alguma coisa acontecendo entre ele e Sara.
— Sara você mora muito longe para ir a pé — Jason interveio no assunto. Ele preferiu ignorar a tensão entre seu pai e seu avô, e ajudar Sara. — Se você for caminhando até a sua casa provavelmente vai gastar uma hora até lá. Aceite a nossa carona, por favor.
Jason tinha razão, o apartamento onde morava era afastada da casa deles. Como sempre fazia o trajeto de carro, conseguia chegar ao local em vinte minutos. Na verdade ela estava bem cansada e caminha até a sua residência seria realmente cansativo.
Mas entrar naquele carro com Robert e Virginia estaria fora de cogitação.
— A distância do laboratório até a casa de Sara é pequena. Você se importaria de andar do laboratório até a sua casa?
— Você já foi até a casa dela? — Virginia que tinha saído do carro para entender o motivo da demora de Robert, surpreendeu-se com a “revelação” do seu genro. Olhou indignada para Sara que revirou os olhos.
— Já vó ! Ele já foi na casa da Sara. Quando a mãe da Sara faleceu todos nós — ele apontou o dedo para ele e Grissom, foi enfático.- fomos até lá. Por isso que sabemos onde ela mora. Agora que já resolvemos o problema, podemos ir embora ? Mackenzie está nos esperando.
Todos estranharam a reação explosiva de Jason, aquilo não fazia parte da sua personalidade. Grissom encarou o rapaz que apenas balançou a cabeça. Jason já estava irritado com a maneira que seus avós tratavam Sara.
Robert deu-se por vencido e Sara novamente agradeceu pela “boa vontade” deles. Voltaram em silêncio para o carro e finalmente puderam iniciar a viagem. A morena torcia para não ficar nenhum tipo de atmosfera tensa durante o passeio.
— Só vou trocar de roupas e já te levo em casa. — Grissom saiu do devaneio enquanto acompanhava a Mercedes GLB sumir atráves das ruas. Virou-se e encontrou Sara com uma feição pouca amistosa. — O que aconteceu ?
— Sara. — Ele suspirou fundo e fechou os olhos — Eu realmente preciso ir ao laboratório, eu tenho uma avaliação para assinar. Teria que ir mais cedo ou mais tarde. Era isso ou você estaria sendo atacada nesse exato momento.
— Eu já fui enfática em falar que eu não preciso de proteção. — Ele deu de ombros e revirou os olhos.- Vou embora. Quanto mais cedo eu sair, mais cedo eu chego em casa.
— Eu só preciso pegar a chave do carro e trocar de roupa.
Grissom ignorou a última fala de Sara. Se ela quisesse andar até o seu apartamento seria uma escolha dela mas ele realmente não se importaria em deixá-la em casa. Ele precisava tomar muito cuidado com as exigências de Sara, a intenção dele não era ser manipulador ou super protetor. Em poucos minutos ele já estava de volta a garagem.
Ambos entraram no carro em silêncio. Sara ainda estava irritada com atitude dos dois homens, sabia que ela era apenas um objeto na disputa entre Robert e Grissom. Fechou os olhos por alguns minutos e sentiu o seu celular vibrar, pegou o aparelho e viu uma mensagem de Jason.
“Me desculpe pelo o papel ridículo dos meus avós.
Espero que não tenha ficado chateada”
O supervisor achou melhor ligar o som do carro, o clima entre os dois estava desconfortável e isso estava o incomodando. Sintonizado em uma rádio local, o locutor anunciava que aquela seria uma noite fresca em Las Vegas, as temperaturas começavam amenizar depois de uma longa onda de calor. Quando os primeiros acordes da música You Are the Sunshine of My Life e a voz marcante de Steve Wonder ecoou pelo o carro, Grissom abriu um largo sorriso. Tamborilava os dedos no volante e aumentou um pouco o volume.
— A primeira vez que eu escutei essa música foi no dia que Emma nasceu. Estava em uma reunião com o xerife e o prefeito da cidade. Quando Stella me ligou avisando que Maggie estava entrando em trabalho de parto, eu simplesmente deixei os dois homens falando sozinhos.
— Isso explica o sorriso no seu rosto. — Sara só então entendeu a reação de seu chefe. Nunca tinha o visto com uma feição tão leve e serena.
— Eu não sou um homem religioso mas, no dia que eu escutei essa canção parecia ter sido uma resposta celestial. — Ele apertou o volante com um pouco mais de força. — Emma conseguiu restabelecer uma força enorme em mim.
Sara reparou em como ele ficou contraído com a última frase, achou melhor não comentar e deixar o espaço para ele.
— Algumas semanas antes de Emma nascer, eu fui encarregado de processar uma cena de um crime. Era um homicídio em uma região muito rica de Las Vegas. — Ele suspirou e focou totalmente a sua concentração para o tráfego. — Eu fui sozinho investigar. Como de praxe, depois de todas as formalidades de coleta de evidências eu dispensei o policial. Depois de alguns minutos o suspeito retornou para a cena.
A morena reparou em como aquilo era o mais perto que ela poderia chegar da fragilidade dele. Os olhos azuis estavam foscos e pareciam sem vida. Grissom tinha a respiração pesada e os lábios secos.
— A gente nunca se esquece da sensação de ter uma arma apontada para o rosto. — Grissom mordeu o lábio inferior e engoliu a seco. — Fiquei sob a mira dela por algumas horas, que pareciam durar toda a eternidade. Eu só conseguia pensar que eu não veria a minha filha nascer e dar um último abraço em Jason.
— Mas no final deu tudo certo. Você está aqui hoje e é um pai incrível para os seus filhos.
— Quando Emma ainda era bebê, eu cantava essa música para ela dormir. Era como fosse a nossa prece diária.
Sara esticou seu braço até o rosto de Grissom, afagou o rosto liso por um tempo. O supervisor pegou sua mão e levou até os seus lábios, depositando um beijo. Sussurrou um “obrigada” para a babá e ficou quieto novamente. Resgatar aquela memória ainda era dolorosa.
— Por isso que eu já escutei Emma cantando essa música diversas vezes. Ela parece gostar da música tanto quanto você.
Ainda quieto com os seus pensamentos, Sara viu quando ele desviou a rota de seu apartamento. Conhecia aquelas ruas e sabia que não as levaria até onde ela morava. Pensou em questionar se ele estava perdido mas logo obteve a resposta. Estavam parados no estacionamento do Cherish Restaurant.
— Eu estou com fome e imaginei que você também estivesse. — Grissom retirou o cinto e tirou a chave da ignição. Virou-se e encontrou Sara o encarando sem entender a situação. — Se você quiser eu posso te deixar em casa.
Ela desceu do carro sem dar explicações. A verdade era que ela estava morrendo de fome e iria acabar ligando para algum fast food para poder se alimentar. Não conhecia o restaurante e o lugar não parecia estar muito cheio para uma sexta-feira a noite.
— Esse restaurante fica próximo ao laboratório, diversas vezes durante a semana eu venho até aqui para jantar ou simplesmente fazer uma refeição rápida.
— Grissom. — Ela parou na porta do restaurante. Varreu o ambiente com o olhar e não reconheceu ninguém. — Você pode encontrar alguém que trabalha com você.
O supervisor semicerrou os olhos, encarou a morena e abriu a porta. Eles não estavam fazendo nada de errado e o além do mais, não precisava dar satisfações da vida dele para seus companheiros de trabalho. Sorriu de lado e apontou a cabeça para dentro do estabelecimento. Sara ainda que um pouco receosa aceitou a proposta. Acomodaram-se em uma mesa próxima a janela, rapidamente fizeram os seus pedidos.
— Eu não consigo entender uma coisa. — Sara bebericou um pouco do suco que havia pedido. — Robert e Virgínia me odeiam pelo simples fato de estar próxima a sua família.
— Eles tendem ser os olhos da Maggie. Eu já tive diversas discussões com eles sobre esse comportamento mas nunca adiantou e eu parei de me importar. — Ele deu de ombros. — Mas com você é diferente. Depois que você apareceu, eu recebi uma foto de Maggie.
— Como assim ? Uma foto recente ? — Sara estava abismada com o que ela tinha acabado de ouvir. Era muito sério o que estavam tentando fazer com Grissom.
— Parecia ser bem recente. Ela está se comunicando com alguém, disso eu tenho certeza. — Havia ressentimento na voz dele. Jamais perdoaria Maggie pela atitude dela — Eu realmente desejo que ela esteja obtendo informações por alguém, quero que ela saiba que estamos muito bem sem ela.
— Você acha que ela pode voltar?
— Sim ! — Ele suspirou fundo e soltou todo o ar do pulmão. Levou as mãos até a nuca e pendeu a cabeça para trás. O retorno dela seria dez vezes pior que a sua partida, ele podia apostar. — Eu não estava preparado para partida dela e não sei se vou estar preparado para o retorno.
— Griss… — Em um gesto ousado, ela segurou a mão dele sobre a mesa. Era segunda vez naquela noite que ele se mostrava vulnerável. — Viva o presente ! Somente faça isso. — Com o polegar, acariciou o dorso da mão. Quando o garçom chegou com os pedidos, eles desfizeram o toque.
Fizeram boa parte do jantar em silêncio, apenas trocando alguns olhares curiosos. Sara tinha que concordar a comida era deliciosa, fazia tempo que não se alimentava tão bem. Grissom que terminou o jantar primeiro, colocou-se a observar os frequentadores do local, alguns rostos eram conhecidos do departamento. No entanto, um rosto desagradável cruzou o seu olhar.
O homem loiro ao perceber que o supervisor noturno estava acompanhado de uma velha conhecida, não conteve o sorriso largo. Sabia que mais cedo ou mais tarde aquilo iria acontecer. Caminhou em passos lentos até onde o casal estava acomodado.
— Que bela noite para um jantar.
Sara reconheceu a voz do paramédico e sentiu seus músculos contraírem diante do sarcasmo dele.
— Eu achava que vocês seriam mais discretos. — Hank olhou para os lados certificando que ninguém ali estaria ouvindo a conversa entre eles. — Mas pelo visto me enganei.
— Você por acaso teria se enganado sobre… ? — Grissom cruzou os braços na altura do seu peitoral. Olhou para Sara que tinha os olhos fechados e a respiração pesada.
— Ah, qual foi, Dr. Grissom ! — O paramédico riu, chamando atenção de algumas pessoas que estavam próximas. — Eu pensava que vocês fossem esconder o relacionamento por mais tempo mas pelo visto já estão jantando juntos.
— Hank, por que você não faz o favor de nos ignorar assim como fazemos com você ? — Sara encarou o loiro pela primeira vez. Se ela pudesse apagar algumas memórias, com certeza ele estaria no “Top 3”. — Eu tenho quase certeza que você tem algo de muito mais importante para fazer.
— Doce Sara... — Ele piscou para a morena e sorriu. — Por acaso o Dr. Grissom já sabe da mania que você tem de ir embora após o sexo ?
Sem nenhum tipo de pudor, o paramédico falou aquilo da forma mais natural possível. Grissom respirou fundo e controlou-se mas a vontade que ele tinha era de realmente cumprir com a promessa que ele havia feito quando o homem invadiu a sua casa: dar uma boa surra.
Sara levantou-se e parou ao lado de Hank. Podia sentir o cheiro da colônia barata que o homem usava. Ela colocou uma mão no ombro dele e virou-se para Grissom, que via aquela cena sem entender o que estava acontecendo.
— Isso não é uma mania, Hank. Eu vou embora para enfim ter um orgasmo… — Ela aproximou-se do ouvido dele — Sozinha. — Disse sussurrando. Ela piscou para ele e caminhou em direção a porta. Provavelmente ele teria aprendido a lição. Um homem com a masculinidade frágil como a dele, ficaria remoendo a frase por um bom tempo.
Grissom assistiu a cena toda em silêncio, estava atônito com a reação de Sara. Retirou a carteira de seu bolso e colocou algumas notas sobre a mesa. Levantou-se vagarosamente enquanto encarava Hank.
— Fica longe da Sara. — O supervisor bateu com a mão aberta duas vezes sobre o ombro do rapaz e antes que ele esboçasse qualquer reação, ele apertou o braço dele impedindo de sair dalí. — Eu não vou tolerar isso novamente. Você vai ficar longe da Sara e de qualquer outra pessoa que esteja ao meu redor.
Grissom saiu e foi direto para o estacionamento. Encontrou Sara encostada em seu carro com as mãos na nuca e encarando o chão. Ele limitou-se em abrir o carro e dar partida para sair logo do local. Queria comentar sobre o ocorrido mas não achava a melhor forma de se expressar, abriu e fechou a boca algumas vezes.
— Você quer me falar alguma coisa?
— Eu fiquei surpreso com a sua reação. — Falou de uma vez só, como quem estivesse engasgado com aquilo.
— Ele só teve o que mereceu. Nada demais.
O supervisor a cada dia conhecia mais a força interna de Sara. Ela era totalmente independente e segura de suas ações. Ela não era influenciável e tinha noção de cada passo que estava dando.
— Espero que tenha aproveitado o jantar. — Ele estacionou na frente do prédio dela. — Está entregue, sã e salva. — Ele sorriu sem mostrar os dentes. — Espero que Hank não tenha aborrecido o seu fim de semana.
— Sinceramente eu espero que eu tenha estragado o dele. — Ela riu e ele acompanhou logo em seguida. Pelo visto aquilo não tinha afetado nenhum pouco. No entanto, Sara temia que essa história chegasse até o trabalho de Grissom, ou pior, até Virgínia e Robert. — Mas eu te disse que não seria uma boa idéia.
— Não se preocupe, depois da sua brilhante resposta, eu dúvido que Hank vai querer se gabar para alguém sobre o ocorrido.
— É verdade. — Ela assentiu e retirou o cinto. — Muito obrigada pela carona e pelo jantar. — Encarou a fachada dos prédios e virou-se para Grissom. — Você quer entrar ?
— Não acho que seja uma boa idéia. — Com uma das mãos apoiada no volante, estreitou o olhar e observou o movimento dos carros na rua. — Aliás, eu ainda preciso passar no laboratório.
— Somente uma cerveja. — Por mais que ela quisesse estar a sós para colocar seus pensamentos no lugar, sua mente e seu corpo pediam para aproveitar um pouco mais da companhia do supervisor. Estranhamente ela sentia que ele não estava bem. — Depois você pode voltar para a solidão do seu quarto.
Ele sorriu e aceitou a oferta. Os dois estavam sozinhos em uma sexta-feira a noite e nada os impedia de aproveitar o resto do dia juntos. Trancou o carro e segui os passos de Sara até o apartamento, enquanto eles subiam as escadas, o celular de Sara tocou.
Stella.
As duas conversaram por alguns minutos. Grissom ao ouvir sobre o carro, ergueu uma sobrancelha. Para Stella estar sabendo sobre essa história, Virginia já devia ter ligado para governanta para alertá-la e possivelmente conseguir noticiais sobre o paradeiro deles.
— Virginia não perde tempo. Aparentemente de uma conversa ingênua entre as duas surgiu a informação que você iria me trazer em casa. — Sara jogou o aparelho sobre a mesa e foi em direção da cozinha, abriu a geladeira e pegou duas latas de cerveja. — Eu pude ouvir o suspiro de alívio quando ela percebeu que eu estava sozinha.
— Ela busca ter os olhos em todos os lugares. — Ele aceitou a cerveja e levou a garrafa até os lábios. O líquido gelado percorrendo por sua boca e garganta, o fez fechar os olhos por alguns segundos. — Acho que não foi só o fim de semana do Hank que você arruinou.
— Vamos dividir em 50% essa culpa. — Eles riram e Sara juntou-se a ele na pequena varanda do apartamento. — Mas vamos deixar essas histórias de lado. Não quero ter ficar pensando nesse assunto sem necessidade.
— Você está certa. Vamos deixar essa história de lado.
— Sabe, as vezes eu me pego pensando em como a nossa relação mudou com o tempo. — Sara bebeu o líquido âmbar, tomou fôlego e olhou para o supervisor, que estava totalmente atento a fala dela. — No início você era totalmente ríspido comigo mas depois de um tempo você parecia se importar com algumas coisas.
— Acho que desde o início eu queria negar qualquer tipo de proximidade com você. Pensava que você seria apenas mais uma pessoa julgando a minha vida.
— E o que te fez mudar de idéia ? — Uma suave brisa noturna cortava a varanda, amenizando a temperatura.
— Eu te mostrei as minhas piores versões e mesmo assim você resolveu ficar.
Sara ficou atônita com a resposta direta dele. A verdade era que Grissom sempre foi reservado com todas as pessoas mas quando ela chegou em seu lar, ele passou a tratá-la com indiferença. Talvez aquilo fosse uma provocação para ela desistir de ficar ali mas, ele desconhecia a inteligência emocional dela.
— Você vai precisar ser muito pior para me afastar. — Ele sorriu com a resposta dela. — Mas confesso que a companhia de Emma e Jason foi crucial para eu poder ficar. Mas hoje em dia eu acho que já superamos as nossas diferenças.
Grissom sorriu tímido. A realidade era que não conseguia pensar na sua rotina sem a presença dela. Mantê-la por perto era uma linha muito tênue entre o equilíbrio e a confusão. Por diversas vezes ele gostava de cruzar os limites mas sabia que o preço a ser pago por isso fosse grande demais.
— Eu costumo analisar muitas coisas. Analiso objetos, pessoas e evidências. Eu calculo todas as variáveis até chegar a uma conclusão. — Ele aproximou-se de Sara que o recebeu com um sorriso que transformou-se em um “biquinho”. Céus ! A vontade de beijar aqueles lábios era imensa. — Mas você é muito maior que qualquer previsão minha.
— Você nunca deve analisar uma evidência isolada. — O rosto de Grissom contorceu em uma careta engraçada. Ficou surpreso em vê-la utilizando seus termos técnicos. Sara riu brevemente e enlaçou seu braço no pescoço dele. — Você me julgou por pequenos feitos ou ações.
— Eu realmente não te conhecia. — Ele concluiu o pensamento dela. Ele conseguia afastar muitas pessoas do seu convívio pelo o seu jeito reservado, provavelmente essas pessoas não se importavam com ele.
Sara encarou os belos olhos azuis por alguns instantes. Ele finalmente tinha entendido. Ela não estava ali para desafiá-lo. Fechou os olhos e sentiu os lábios macios dele contra os seus e novamente a brisa noturno atravessou os corpos colados.
Era sempre assim, estar com Grissom não necessitava de muitas permissões. A companhia já tinha se tornado agradável e a necessidade de cada vez mais estarem perto aumentava gradualmente. O que antes o supervisor entendia como proteção, começava a encorpar um sentimento de carinho.
Abandonaram a varanda com os corpos unidos, gargalharam alto quando Grissom perdeu o equilíbrio e ambos caíram sobre o sofá. Se não fosse pela destreza de Sara, ambos tinham ido direto para o chão. Ele capturou os lábios dela novamente e viu quando ela encarou por cima de sua cabeça, em direção ao quarto. Tinha entendido o recado.
Ele já conhecia bem o cômodo, estivera ali algumas outras vezes. Grissom trilhou com beijos o pescoço dela enquanto ela tentava retirar a sua blusa. Sem pressa dessa vez, eles descobriram novos prazeres e novas sensações. A cama de Sara não parecia ser suficiente para os dois, os corpos aquela noite estavam inquietos.
A cada troca de olhar, era uma sensação nova que energizava os seus corpos. A dança sensual que seus corpos estavam ritmados aumentava o prazer de ambos. O mundo lá fora não existia, o tempo parava apenas para os dois. O supervisor ficava encantado o prazer estampado no rosto de Sara. Ela era um espírito livre e selvagem e ele não tinha nenhuma pretensão em domar.
Quando ambos já estavam saciados, caíram cansados no macio estofado da cama. Ficaram em silêncio regularizando suas respirações. Com os olhos fechados, o único som que ecoava no quarto eram as respirações. Sara deitou no peito de Grissom e beijou-lhe o queixo, o supervisor abriu os olhos e sorriu ao encontrar o olhar dela.
— Está cada vez mais difícil de ficar discreto ao seu lado. — Ele concluiu. Na realidade ele tinha suas dúvidas se ainda conseguia disfarçar seus sentimentos por ela. — Acho que vou precisar reaprender.
— Só me ignorar. — Ela levantou a cabeça e o encarou. — Como você sempre fez.
— Ei ! — Ele fingiu uma revolta e ganhou um beliscão no braço. — Isso não é verdade. E isso doeu.
— Você entendeu o que eu quis dizer. — Ela sorriu e piscou. Fazia muito que ela não se sentia bem ao lado de alguém. Grissom tinha se mostrado uma pessoa completamente diferente e ela gostava dessa versão. — Vamos manter tudo isso em sigilo para garantir as próximas vezes.
Grissom mordeu o lábio inferior. Era segunda vez na noite que Sara o deixava completamente excitado com as suas colocações. Beijou o topo de sua cabeça e fez um leve carinho sobre suas costas nuas. Ela permitiu-se fechar os olhos e aproveitar o momento. Não sabiam dimensionar quanto tempo ficaram em silêncio apenas se acariciando.
— É melhor eu voltar para casa. — Ele tentou levantar mas Sara segurou o seu corpo e encarou séria. — O que foi?
— Por que não fica?
— Olha… — Ele começou a rir lembrando da fala de Sara sobre Hank. Quando a morena entendeu o motivo da risada, mordeu os lábios tentando segurar a risada mas foi em vão.
— Se você vai usar a minha frase contra mim, você já pode parar por aí. — Por fim ela conseguiu puxar o corpo dele de volta para a posição inicial.
— Nem passou isso pela a minha cabeça. Até porque não vem ao meu caso. — Ele puxou o corpo dela para cima do seu, envolveu seus braços na sua cintura e depositou um beijo em sua face. — Mas eu acho que eu devo ir. Você deve querer ficar sozinha ou ter privacidade.
— Eu quero muita coisa e ficar sozinha não está na minha lista. — Ela piscou maliciosamente e ele entendeu o recado.
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