Sim. Para sempre sim.

1 Sim. Pra sempre sim.


O cheiro de cerveja velha e fumaça de cachimbo era o perfume oficial do "Canto do Dragão", o único bar decente — se é que se podia chamar assim — na pequena e empoeirada cidade de Oakhaven. Francine, com seus dezenove anos e a paciência mais curta que a saia de uma dançarina, deslizava entre as mesas com uma bandeja pesada, o olhar afiado varrendo cada rosto. Ela conhecia cada um ali, dos velhos pescadores de rio aos caçadores de relíquias que vinham e iam, sempre com a mesma história de "enriquecer nas ruínas".

Mas hoje, havia um rosto novo. Um homem alto, de cabelos castanhos desalinhados e um olhar que parecia carregar o peso de mil milhas. Ele estava sentado num canto, mexendo num prato de ensopado de javali como se estivesse procurando um mapa do tesouro ali dentro. Johnny, ela ouviu alguém chamá-lo. Ele já estava ali há alguns dias, fazendo bicos e sorrindo para todo mundo, ganhando a simpatia de todos, inclusive a do seu pai, o velho Barnaby, dono do bar.

Francine se aproximou da mesa dele, a bandeja quase batendo na cabeça de um bêbado que roncava. "Mais alguma coisa, forasteiro?", a voz dela era um pouco mais áspera do que o necessário. Ela não gostava de gente "perdida". Oakhaven era um lugar para quem sabia onde estava.

Johnny levantou os olhos, um sorriso lento se espalhando pelo rosto. "Na verdade, sim, Leozinha."

O apelido. Aquele maldito apelido. O sangue de Francine ferveu. "É Francine pra você, e pra todo mundo que não quer um osso quebrado." Ela pousou a bandeja com um baque, fazendo os talheres chacoalharem.

Ele riu, um som baixo e agradável. "Ah, desculpe, Francine. Mas é que você se move como uma leoa, sabe? Rápida, feroz... e um pouco rabugenta." Ele deu uma provada no ensopado, saboreando devagar. "Sabe, eu observei você trabalhando. Você é boa. Mas eu acho que eu seria melhor."

Francine piscou. Ninguém, em todos os seus dezenove anos, jamais a havia provocado assim. Não na sua cara. Não com aquele tom de voz calmo e divertido. Ela cruzou os braços, o queixo erguido. "Ah, é? E o que um forasteiro como você sabe sobre servir cerveja e lidar com bêbados?"

"Eu sei o que vejo", Johnny respondeu, os olhos cintilando. "E vejo potencial. Mas também vejo... digamos, uma certa falta de otimização. Eu poderia organizar as mesas, agilizar os pedidos, talvez até... sorrir mais."

Ela bufou. "Sorrir? Eu não sou palhaça, forasteiro. E otimização é o meu nome do meio."

"Seu pai não achou isso, pelo visto", ele disse, dando de ombros. "Ele me contratou. Disse que precisava de alguém com 'atitude'. E que ninguém nunca tinha te enfrentado antes. Até me deu o quarto do seu irmão e disse que poderia começar amanhã"

O rosto de Francine esquentou. O pai dela! Aquele traidor! Ela sabia que ele gostava de Johnny, mas contratá-lo? E ainda por cima, dar-lhe o quarto do irmão, que estava em Sixcity?

"Olha aqui, Johnny", ela começou, apontando um dedo para ele, "você pode ter enganado o meu pai com esse seu papo de 'olhar perdido', mas eu não sou idiota. Você vai trabalhar, e vai trabalhar direito. E se você ousar me provocar de novo, eu juro que você vai se arrepender de ter pisado em Oakhaven."

Johnny apenas sorriu, um sorriso que não alcançou os olhos, mas que ainda assim era irritantemente charmoso. "Mal posso esperar, Leozinha."

Francine se virou, marchando para a cozinha, a cabeça girando. Aquele forasteiro ia ser um problema. Um grande e irritante problema. E ela não via a hora de resolvê-lo.


O Despertar da Leoa

O sol mal havia espreitado por trás das ruínas distantes quando um baque forte na porta do quarto de hóspedes fez Johnny pular da cama. Antes que ele pudesse sequer resmungar, a voz estridente de Francine cortou o ar como uma faca afiada.

"ACORDA, FORASTEIRO! O SOL NÃO ESPERA POR PREGUIÇOSOS! TEMOS UM BAR PRA ABRIR, SABIA?"

Johnny bocejou, esticando os braços. Ele tinha certeza de que o pai dela nunca acordava tão cedo para abrir o bar. Era uma provocação clara. Ele se levantou, vestiu a calça e a camisa, e abriu a porta para encontrar Francine parada ali, os braços cruzados, uma expressão de pura satisfação em seu rosto.

"Bom dia, Leozinha", ele disse, com um sorriso sonolento que a fez ranger os dentes. "Que energia matinal. Acordou o vilarejo inteiro só para me acordar?"

"Não me chame de Leozinha, seu... seu... ajudante de taverna!", ela retrucou, o rosto ligeiramente corado. "E vamos, o bar não vai se limpar sozinho. O pai disse que você é o responsável pela abertura hoje."

Ela o arrastou para o salão principal do "Canto do Dragão", que ainda cheirava à noite anterior. "Certo, forasteiro. Sua primeira tarefa: varrer. E não quero um grão de poeira. Depois, esfregar as mesas. E depois, lavar os copos. E depois...", ela listou uma série de tarefas que levariam horas, tudo com um tom de comando que beirava o abuso.

Johnny pegou a vassoura sem reclamar, mas enquanto varria, ele começou a cantarolar uma melodia irritantemente alegre. Francine o observava, esperando uma reclamação, um suspiro, qualquer sinal de fraqueza. Mas ele apenas varria, assobiava, e ocasionalmente a olhava com um brilho divertido nos olhos.

"Você não parece muito cansado para quem foi acordado às cinco da manhã", ela comentou, encostada no balcão, fingindo inspecionar uma garrafa vazia.

"Ah, eu sou um madrugador nato, Francine", ele respondeu, sem parar de varrer. "E a sua voz é um despertador melhor que qualquer galo."

Ela apertou os lábios. "Engraçadinho. Agora, termine de varrer e vá para as mesas. E faça direito! Eu vou inspecionar cada uma."

Enquanto Johnny esfregava as mesas, Francine o seguia, apontando falhas minúsculas. "Aqui! Ainda tem uma mancha de cerveja seca! Você é cego? E aqui! Um anel de copo! Isso é inaceitável!"

Johnny parou, limpou a mancha com um pano e, em vez de se desculpar, ele se inclinou para ela, um sorriso malicioso no rosto. "Sabe, Francine, você é muito boa em encontrar defeitos. Já pensou em ser caçadora de relíquias? Dizem que nas ruínas tem muita coisa escondida... tipo a sua paciência."

Ela deu um passo para trás, chocada com a ousadia. "Como ousa? Eu tenho a paciência de um santo comparado a você!"

"Ah, é? Porque até agora, você parece mais um demônio irritado", ele retrucou, voltando a esfregar a mesa com um vigor renovado. "Mas não se preocupe, eu gosto de desafios. E você, Leozinha, é um desafio e tanto."

Francine sentiu o rosto esquentar novamente. Ele não só não se abalava, como ainda a provocava de volta, e com um sorriso! Ela passou o resto da manhã tentando encontrar mais e mais tarefas para ele, mandando-o carregar barris pesados, limpar a lareira, e até mesmo polir os velhos chifres de alce pendurados na parede.

Mas Johnny parecia incansável. Ele fazia tudo o que ela mandava, sem reclamar, e sempre com um comentário sarcástico ou uma piada que a deixava ainda mais furiosa. No final do dia, Francine estava exausta de tanto gritar e mandar, enquanto Johnny parecia revigorado, até mesmo um pouco divertido.

Quando o pai dela entrou, Johnny estava atendendo um cliente com uma eficiência surpreendente, e até mesmo um sorriso genuíno.

"Ele é bom, não é, filha?", Barnaby disse, dando um tapinha nas costas de Francine. "Disse que ia ser. Tem atitude."

Francine apenas resmungou, observando Johnny, que agora a olhava de canto de olho, um brilho de vitória em seu olhar. Aquela guerra estava apenas começando, e ela sabia que não seria fácil. Mas, estranhamente, uma parte dela sentia um formigamento de excitação.


O Leite Quente e o Despertar Inesperado

Francine acordou com um sobressalto. Não foi um barulho, nem um grito. Foi a sensação de que não estava sozinha no quarto. Abriu os olhos e, no escuro tênue da manhã, viu uma silhueta parada ao lado de sua cama. Seu coração deu um pulo.

"Bom dia, dorminhoca." A voz de Johnny era calma, quase um sussurro, e a fez pular de vez. Ele estava ali, de pé, com o galo cantando lá fora como um relógio bem sincronizado. "O sol já está quase beijando as ruínas, e a gente não quer que a nossa Leozinha perca o melhor da manhã, quer?"

Francine piscou, ainda meio tonta de sono e de raiva. "O que... o que você está fazendo aqui? Você é louco?" Ela se sentou na cama, puxando o cobertor até o pescoço.

Johnny deu um passo à frente, segurando um copo fumegante. "Pensei que sua garganta devia estar um pouco arranhada depois de tanto rugir ontem. Trouxe um pouco de leite quente. É bom para acalmar a voz. A gente não quer que a nossa Leozinha pare de rugir, não é?" Ele estendeu o copo para ela, com um sorriso que era irritantemente genuíno.

Francine pegou o copo, desconfiada, sentindo o calor através do vidro. O cheiro de leite e mel subiu até suas narinas. Ela queria jogar o copo na cara dele, mas a garganta realmente estava um pouco áspera. "Eu não preciso da sua... caridade", ela rosnou, mas tomou um gole. Era bom. Quente e reconfortante. O que a deixou ainda mais irritada.

"Ah, mas é claro que precisa", Johnny disse, dando de ombros. "Um bom funcionário cuida do seu chefe... ou da filha do chefe, no caso. Agora, se me der licença, o bar não vai se abrir sozinho." Ele se virou para sair, mas parou na porta. "Ah, e não se preocupe com as tarefas de hoje. Eu já adiantei bastante coisa. Você pode ter um dia mais tranquilo. Afinal, a Leozinha precisa de energia para o show da noite." Ele piscou e saiu, deixando Francine sozinha no quarto, o copo de leite quente nas mãos e a mente em chamas.

"Adiantou bastante coisa?", Francine murmurou, levantando-se da cama. Ela se vestiu rapidamente e desceu as escadas, pronta para despejar uma lista interminável de tarefas sobre Johnny, para compensar a humilhação matinal.

Mas, ao chegar ao salão principal do "Canto do Dragão", ela parou, boquiaberta. As mesas estavam impecavelmente limpas, as cadeiras alinhadas. O chão estava varrido e esfregado, brilhando à luz fraca que entrava pelas janelas. Os copos estavam empilhados e reluzentes atrás do balcão. Até mesmo os chifres de alce na parede pareciam mais polidos do que nunca.

Johnny estava atrás do balcão, ajeitando as garrafas de bebida, cantarolando a mesma melodia irritante do dia anterior. Ele a viu e sorriu. "Bom dia, Francine. Chegou bem a tempo para o café. Fiz umas panquecas. O pai disse que você gosta."

Francine sentiu o rosto esquentar. Ele tinha feito tudo. Tudo! Não havia nada para ela reclamar, nada para ela mandar, nada para ela usar como punição. Ele tinha roubado a sua vingança antes mesmo que ela pudesse planejar.

"Você... você fez tudo isso?", ela gaguejou, incapaz de esconder a surpresa.

"Claro", ele respondeu, servindo duas panquecas em um prato e colocando-o na frente dela. "Pensei que, se eu adiantasse, você poderia ter mais tempo para planejar o seu próximo movimento. Afinal, uma boa Leozinha precisa de tempo para afiar as garras, não é?"

Francine pegou um garfo, espetando uma panqueca com força. Ele estava jogando o jogo dela, mas com suas próprias regras. E, de alguma forma, isso a deixava ainda mais furiosa do que os gritos e as provocações diretas. A guerra estava longe de terminar. E agora, ela sabia, seria muito mais interessante.


O Enigma do Forasteiro

As semanas se arrastaram no "Canto do Dragão", e a rotina de provocações se estabeleceu como um estranho ritmo. Francine continuava sua cruzada pessoal para encontrar um defeito em Johnny. Ela o mandava limpar o porão escuro e úmido, esperava que ele reclamasse do cheiro de mofo. Ele limpava, e ainda organizava as garrafas velhas por tipo. Ela o enviava para buscar lenha na floresta em dias de chuva, torcendo para que ele voltasse enlameado e irritado. Ele voltava, ensopado, mas com um sorriso no rosto e a lenha perfeitamente empilhada.

A eficiência de Johnny era irritante. Ele não só fazia o que era pedido, mas fazia melhor do que o esperado, antecipando as necessidades do bar e até mesmo as dos clientes. Os frequentadores habituais, antes acostumados com a ranzinzice de Francine, agora recebiam um serviço rápido e, para a fúria dela, até mesmo um sorriso amigável de Johnny.

Com o tempo, a raiva de Francine começou a se misturar com uma pontada de curiosidade. Quem era aquele homem? De onde ele vinha, com aquela calma inabalável e aquela estranha habilidade para tudo? Ele não parecia um caçador de relíquias, nem um mercador. Ele era diferente.

Um dia, enquanto eles limpavam o balcão depois do almoço, Francine não aguentou mais. "Então, forasteiro", ela começou, sem olhá-lo, polindo um copo com mais força do que o necessário. "Você não é daqui. De onde você veio, afinal?"

Johnny parou de limpar, mas seus olhos não encontraram os dela. Ele olhou para a rua empoeirada, para o horizonte distante onde as ruínas de Nygrims se erguiam. "Eu sou... de um lugar do outro lado do Lago das Lágrimas", ele disse, a voz baixa, quase desinteressada. "Um aglomerado de fazendas, nada demais."

Francine franziu a testa. "Fazendas? É por isso que você é tão... bom em trabalho braçal? Um camponês?"

Ele deu de ombros, voltando a limpar o balcão. "Pode-se dizer que sim. A vida no campo ensina a gente a ser eficiente. Não há tempo para preguiça quando a colheita depende de você."

A resposta era simples, sem detalhes, sem a história dramática que ela esperava de um forasteiro. Apenas um "camponês" do outro lado do lago. Era frustrante. Ela queria mais.

"E o que te trouxe para Oakhaven?", ela insistiu, tentando pescar algo mais.

Johnny hesitou por um momento. "Apenas... procurando um propósito. Um lugar para assentar. Oakhaven parecia... interessante, agora." Ele não elaborou. Não falou de sonhos, de fugas, de nada que indicasse uma vida complexa.

Francine bufou. "Propósito. Certo." Ela não acreditava em "propósito" para forasteiros. Eles sempre tinham uma história, um segredo. Mas Johnny era um livro fechado.

Ele, por sua vez, virou-se para ela, um brilho familiar nos olhos. "E você, Leozinha? Você nasceu aqui, certo? Sempre foi essa... leoa do cabaré?"

Francine revirou os olhos. "Nasci, moro e vou morrer aqui. E sim, sempre fui eu." Uma frase. Era tudo o que ele conseguiria dela. Ela não ia dar a ele a satisfação de saber sobre seus sonhos de infância, sobre como Oakhaven a havia prendido, ou sobre o quanto ela odiava aquele apelido.

Johnny sorriu, um sorriso pequeno, mas que a irritou profundamente. Ele parecia entender que ela não falaria mais, e aceitava isso. Aquele forasteiro era um enigma, e Francine, a "Leozinha do Cabaré", odiava enigmas. Mas, no fundo, a cada resposta evasiva, a cada sorriso calmo, a curiosidade dela crescia, alimentando ainda mais a estranha dinâmica entre eles.

A rotina no "Canto do Dragão" havia se tornado uma dança estranha entre Francine e Johnny. Ela, sempre buscando uma falha, uma oportunidade para repreendê-lo; ele, sempre um passo à frente, com sua eficiência irritante e seu sorriso calmo. A curiosidade de Francine sobre ele crescia, mas as respostas de Johnny eram sempre tão superficiais quanto a poeira na estrada.

Era uma tarde tranquila no bar, com poucos clientes. Francine estava limpando os copos atrás do balcão, e Johnny organizava as garrafas de licor na prateleira superior. O silêncio foi quebrado apenas pelo tilintar do vidro.

"Francine", Johnny começou, sua voz casual, sem o tom de provocação habitual. Ele se virou para ela, os olhos fixos nela com uma curiosidade genuína, mas desavisada. "Você disse que nasceu, morou e vai morrer aqui. Mas... você nunca pensou em sair? Em ver o mundo fora de Oakhaven? Fazer algo diferente?"

Francine parou de limpar o copo, o pano caindo de suas mãos. A pergunta, tão simples e aparentemente inocente, atingiu-a como um soco no estômago. O "Canto do Dragão" parecia encolher ao seu redor, as paredes de madeira velha e os cheiros familiares de cerveja e fumaça se tornaram sufocantes.

"O que você quer dizer com isso?", ela perguntou, a voz baixa e perigosa, muito diferente do seu tom habitual. Seus olhos, antes curiosos, agora ardiam com uma fúria contida.

Johnny, alheio à tempestade que se formava nos olhos dela, deu de ombros. "Ora, nada demais. É só que... Oakhaven é pequena. As ruínas são interessantes, mas o mundo é vasto. Não te dá vontade de explorar? De tentar algo novo? Tipo, sei lá, morar em Sixcity, ou ir para as terras do sul? Tudo bem morrer aqui?"

A última frase. "Tudo bem morrer aqui?" Aquelas palavras ecoaram na mente de Francine, distorcidas, como um insulto cruel. Ele estava zombando dela? De sua vida, de seus sonhos enterrados, de sua resignação? A ferida, que ela mantinha escondida sob camadas de rabugice e teimosia, havia sido exposta.

"Tudo bem morrer aqui?", ela repetiu, a voz subindo, o rosto vermelho. Ela jogou o pano no balcão com força. "E o que você sabe sobre isso, forasteiro? Você que aparece do nada, com seu 'olhar perdido' e suas perguntas estúpidas! Você acha que sabe alguma coisa sobre a minha vida? Sobre o que é 'tudo bem' pra mim?"

Johnny recuou um passo, surpreso com a explosão. A calma em seu rosto se desfez em confusão. "Francine, eu não quis... eu só estava curioso. Não foi um insulto."

"Curiosidade?", ela zombou, aproximando-se dele, os punhos cerrados. "Você me chama de 'Leozinha do Cabaré', me acorda com leite quente e agora vem com essa de 'tudo bem morrer aqui'? Você acha que eu sou o quê? Uma piada? Eu nasci aqui, eu cresci aqui, e eu vou ficar aqui! Entendeu? E não é da sua conta o que eu faço ou deixo de fazer!"

Ela o empurrou, não com muita força, mas o suficiente para que ele perdesse o equilíbrio por um instante. Johnny a olhou, a surpresa ainda evidente em seus olhos, mas agora misturada com uma pontada de algo que parecia... mágoa?

"Eu... eu não quis te ofender", ele disse, a voz mais suave do que o normal. "Eu só... achei que talvez você tivesse outros planos. Como eu tinha."

Francine não ouviu. As palavras dele se perderam na raiva que a consumia. Ela se virou bruscamente, pegando o balde e o esfregão. "Volta ao trabalho, forasteiro! E da próxima vez, guarde suas perguntas idiotas para você. Eu não preciso da sua pena, nem da sua curiosidade."

Ela começou a esfregar o chão com uma fúria renovada, os movimentos bruscos e desnecessariamente violentos. Johnny a observou por um momento, a confusão ainda em seu rosto. Ele não entendia a profundidade da ferida que havia tocado. E Francine, por sua vez, não queria que ele entendesse. A rivalidade entre eles, que antes era quase divertida, agora tinha um novo e amargo sabor.


A Tempestade Interna

A pergunta de Johnny, "Tudo bem morrer aqui?", havia se alojado na mente de Francine como um espinho. Não importava o quanto ela tentasse ignorá-la, ela latejava, desenterrando velhos sonhos e frustrações que ela pensava ter enterrado há muito tempo. Sim, ela queria mais. Queria sair, ver o mundo, fazer algo grandioso. Mas a vida em Oakhaven era uma âncora pesada, e a oportunidade, uma miragem distante.

Sua raiva, antes direcionada a Johnny em forma de provocações e ordens, agora se manifestava de outras maneiras. O bar virou o alvo de sua fúria silenciosa. Uma bandeja escorregava de suas mãos, e em vez de pegá-la, ela a chutava com força, quebrando os copos restantes. "Droga!", ela murmurava, sem se desculpar. Ao esfregar o chão, a força de seus movimentos era tanta que o cabo do esfregão estalava, e ela o jogava no canto, frustrada.

Johnny observava tudo, uma sombra de preocupação em seus olhos. Ele tentava ajudar, estendendo a mão para pegar um copo antes que caísse, ou oferecendo um esfregão novo. Mas Francine o ignorava. Completamente. Seus olhos passavam por ele como se ele fosse invisível, suas respostas eram monossílabas, e ela evitava qualquer contato visual. A provocação, a réplica, a faísca que antes existia entre eles, havia desaparecido, substituída por um silêncio pesado e tenso.

A indiferença dela era mais dolorosa do que qualquer grito para Johnny. Ele parou de provocá-la, respondendo apenas quando era estritamente necessário, mantendo uma distância respeitosa, mas perceptível. O bar, que antes era palco de suas pequenas batalhas diárias, agora parecia um lugar de luto.

Enquanto Francine limpava uma mesa com uma agressividade desnecessária, sua mente vagava. "Tudo bem morrer aqui?" A voz de Johnny ecoava. Não, não estava tudo bem. Ela se lembrava das noites em que sonhava em fugir, em se juntar a caravanas de mercadores, em aprender um ofício em Sixcity, assim como seu irmão havia feito.

Seu irmão. Aquele pensamento era um nó na garganta. Ele havia jogado tudo para o alto, como Johnny, e partido para a cidade grande, em busca de algo que Oakhaven não podia oferecer. E ele conseguiu. Ele estava lá, vivendo sua vida, enquanto ela estava presa aqui, servindo cerveja em um bar empoeirado.

"É fácil pra ele", ela pensava, observando Johnny atender um cliente com sua calma habitual. "Ele simplesmente vai e vive de sorte. Como meu irmão." Ela não percebia que a dor de não poder fazer o que gostava, de se sentir presa, estava intrinsecamente ligada à partida de seu irmão. Ele havia tido a coragem que ela sentia faltar em si mesma.

A cada copo que ela limpava, a cada mesa que ela esfregava, a frustração crescia. A vida em Oakhaven era um fardo, e a pergunta de Johnny havia apenas escancarado a jaula que ela havia construído para si mesma ao longo do tempo. Ela queria rugir, mas sentia que seu rugido estava preso em sua garganta, sufocado pela poeira e pela resignação.

Johnny, do outro lado do balcão, a observava. Ele não entendia a profundidade da dor dela, mas sentia a mudança no ar. A "Leozinha do Cabaré" não estava apenas rabugenta; ela estava ferida. E, pela primeira vez, ele não sabia como provocá-la de volta. O silêncio entre eles era mais pesado do que qualquer palavra.


A Queda e o Cuidado Inesperado

Para afogar os pensamentos e a pergunta incômoda de Johnny, Francine mergulhou no trabalho com uma ferocidade ainda maior. Ela varria, limpava, carregava caixas, tudo com uma intensidade que beirava a autodestruição. Seus movimentos eram bruscos, seus olhos fixos em cada tarefa, como se a exaustão física pudesse, de alguma forma, silenciar a tormenta em sua mente.

Johnny a observava, a preocupação genuína em seu rosto. Ele via as olheiras escuras sob os olhos dela, a forma como ela se movia com uma teimosia exausta. Ele tentou intervir, não com sarcasmo, mas com uma gentileza que a desarmava e, paradoxalmente, a irritava ainda mais.

"Francine, talvez você devesse descansar um pouco", ele disse, a voz suave, enquanto ela tentava arrastar um barril pesado que era grande demais para uma pessoa só. "Eu posso fazer isso. Você está se esforçando demais."

Ela parou, o barril a meio caminho da porta da adega. Virou-se para ele, os olhos faiscando. "O quê? Agora você está com pena de mim? Eu sou digna de pena agora, forasteiro?" A ideia de que ele a via como fraca, ou digna de compaixão, era um insulto ainda maior do que qualquer provocação anterior.

"Não é pena, Francine", Johnny tentou explicar, dando um passo à frente, as mãos estendidas em um gesto conciliador. "É preocupação. Você não precisa fazer tudo sozinha. Estamos aqui para ajudar."

"Ajuda?", ela zombou, uma risada amarga escapando de seus lábios. "Você quer 'ajudar'? Ou você quer roubar o meu lugar de uma vez por todas? Se você quer tanto o meu emprego, pegue! Pegue logo!"

Com um grito de frustração, ela tirou seu avental jogando contra Johnny. Caindo nos pés dele, passando por ele esbarrando de ombro.

A raiva borbulhava em Francine, mas, para sua surpresa, uma outra emoção, estranha e avassaladora, começou a se formar. Seus olhos marejaram, e uma pontada aguda de dor apertou seu peito. Ela não entendia. Por que ela queria chorar? A raiva era familiar, mas aquela vulnerabilidade... era algo que ela não sabia como lidar.

Johnny olhando pro seu avental aos seus pés abaixou se pegando, virando se para ela que saia andando, e a visão de sua dor fez algo dentro dela se contorcer.

"Francine...", ele começou, a voz rouca.

Mas ela não podia mais ficar ali. A confusão de suas próprias emoções, a pergunta de "morrer aqui" ecoando em sua cabeça. Era demais.

"Eu vou buscar lenha!", ela bradou, correndo para fora do bar.

Ela precisava de ar, de tempo para organizar os pensamentos, para entender por que estava sentindo tudo aquilo. Ela não percebeu o som da chuva que batia forte no telhado do bar, nem o vento gelado que açoitava as árvores lá fora. A única coisa que importava era fugir, mesmo que fosse para o meio de uma tempestade que a deixaria doente.

A escuridão a engoliu. Um momento ela estava correndo para a chuva, o coração apertado de raiva e confusão, no outro, o chão cedeu sob seus pés e tudo ficou preto.


O Despertar em Meio à Cura

Quando a consciência começou a retornar, foi como emergir de um poço profundo e lamacento. Uma sensação de fraqueza a dominava, e sua cabeça latejava. Havia algo fresco e úmido em sua testa, e o cheiro de ervas e umidade pairava no ar. Ela ofegou, abrindo os olhos lentamente, a visão embaçada.

O teto familiar de seu quarto. Ela estava em sua cama.

Seus olhos vagaram, e então pararam. Sentado ao lado de sua cama, estava Johnny. Ele segurava um pano úmido, espremendo o excesso de água em uma bacia ao lado. Com uma delicadeza que ela nunca esperaria dele, ele levou o pano à sua testa, limpando-a suavemente.

"O-o que... o que aconteceu?", a voz de Francine saiu arranhada e fraca, mal um sussurro. "O que você está fazendo? Quem está cuidando do bar?"

Johnny a olhou, e um pequeno sorriso de alívio surgiu em seu rosto. "Shii. Poupe sua garganta, Leozinha. Já já trago uma sopa." Ele continuou a limpar seu rosto, seus movimentos firmes e gentis. "Você desmaiou, Francine. Estava ardendo em febre. Pegou uma boa gripe lá fora na chuva."

Ele fez uma pausa, mergulhando o pano na bacia novamente. "Eu estou cuidando de você já faz um tempo. Seu pai está no bar, mas não se preocupe. A chuva forte espantou a maioria dos clientes. Um ou outro gato pingado, pelo menos." Ele riu suavemente, um som que, pela primeira vez, não a irritou.

Francine o observou, confusa. Depois de tudo o que ela havia feito, de como ela o tratou, ele estava ali, cuidando dela. A raiva que a consumia havia se dissipado, substituída por uma vulnerabilidade que a assustava.

"Por quê?", ela conseguiu sussurrar, a voz ainda rouca. "Por que você está fazendo isso por mim? Depois de tudo..."

Johnny deu de ombros, sem desviar o olhar do rosto dela. "Eu nunca levei para o pessoal, Francine. Eu entendo o seu lado." Ele fez uma pausa, e seus olhos agora estavam claros e sinceros. "Aquela pergunta... sobre sair daqui. Não foi um insulto. Eu só... queria saber mais sobre você. Assim como você queria saber sobre mim."

Aquilo a desarmou completamente. Não era pena. Não era provocação. Era apenas... curiosidade. Genuína. Assim como a dela. A febre, talvez, ou a fraqueza, quebrou as barreiras que ela havia construído.

Lágrimas quentes começaram a escorrer pelos cantos de seus olhos, molhando suas têmporas. Ela queria pedir desculpas, queria explicar a dor, a frustração, o medo de estar presa. Mas sua garganta doía demais, e as palavras não vinham.

Johnny percebeu as lágrimas. Ele parou de limpar seu rosto e, com o polegar, enxugou uma lágrima que escorria. "Shii. Não fale. Descanse."

E pela primeira vez em muito tempo, Francine obedeceu. Ela fechou os olhos, sentindo o toque gentil de Johnny em sua testa, o calor do pano úmido. Ela aceitou ser cuidada, a raiva e a teimosia dando lugar a uma estranha e inesperada sensação de conforto e alívio.

Os dias se seguiram, e Francine se recuperou da febre. Mas a recuperação física trouxe consigo uma nova e perturbadora dinâmica entre ela e Johnny. A memória dele cuidando dela, a gentileza inesperada, e o mais chocante de tudo, a sua própria aceitação daquele cuidado... era algo que ela nunca havia permitido em sua vida. A vulnerabilidade exposta a deixava desconfortável, e ela não sabia como lidar com isso.

A solução de Francine foi a fuga. Mesmo morando sob o mesmo teto e trabalhando no mesmo bar, ela começou a evitá-lo. Se ele estava na cozinha, ela ia para o salão. Se ele estava no balcão, ela encontrava algo urgente para fazer na adega. Seus movimentos eram calculados, uma dança estranha de esquiva para evitar qualquer contato prolongado ou, pior, qualquer conversa que pudesse tocar naquele dia.

Johnny, por sua vez, parecia ter percebido a mudança. Ele lhe dava espaço, não a seguia, não a provocava. Aquele brilho divertido em seus olhos havia diminuído, substituído por uma observação silenciosa e compreensiva. Ele respondia às suas perguntas curtas com a mesma brevidade, e o silêncio entre eles, antes tenso pela raiva, agora era preenchido por uma estranha camada de constrangimento e algo mais... algo que Francine não conseguia identificar.

No entanto, por mais que ela tentasse, Oakhaven era pequena, e o "Canto do Dragão" era menor ainda. Os encontros eram inevitáveis. E, para o tormento de Francine, Johnny parecia ter desenvolvido um sexto sentido para seus pequenos desastres.

Um dia, enquanto ela carregava uma pilha instável de pratos, um deles escorregou. Antes que pudesse cair e se estilhaçar, a mão de Johnny surgiu do nada, pegando o prato com uma agilidade impressionante. Ele a olhou, um pequeno sorriso nos lábios, e ela sentiu um calor subir por seu pescoço até as bochechas. Não era raiva. Era vergonha. E algo mais, um rubor que ela não conseguia controlar.

Em outra ocasião, ela tropeçou em um tapete gasto enquanto corria para atender um cliente. Seus pés se enroscaram, e ela se viu caindo para frente. Antes que pudesse atingir o chão, um braço forte a envolveu pela cintura, firmando-a. O cheiro de sabão e um leve toque de fumaça de madeira, o cheiro dele, a invadiu. Ela se endireitou rapidamente, afastando-se dele como se tivesse levado um choque.

"Cuidado, Leozinha", ele murmurou, a voz baixa, e o braço se afastou.

Francine não conseguiu olhá-lo nos olhos. Ela apenas acenou com a cabeça, o rosto em chamas, e correu para atender o cliente, o coração batendo descompassado. Era a primeira vez que ela corava de vergonha, não de raiva, por causa dele. A cada vez que ele a salvava de um pequeno desastre, a cada vez que ele agia com aquela gentileza silenciosa, a armadura de Francine parecia rachar um pouco mais. A "Leozinha do Cabaré" estava se sentindo estranhamente exposta, e não sabia o que fazer com aquela nova e perturbadora sensação.



Uma Visita Inesperada

Mais algumas semanas se passaram, e a dinâmica entre Francine e Johnny se tornou um balé silencioso de esquiva e cuidado. Ela, ainda tentando se esconder da própria vulnerabilidade; ele, dando espaço, mas sempre por perto, com um olhar atento e uma mão pronta para evitar qualquer tropeço. Os rubores de Francine se tornaram mais frequentes, e a raiva, antes sua companheira constante, dava lugar a um constrangimento que ela não sabia como disfarçar.

Foi numa tarde ensolarada que a porta do "Canto do Dragão" se abriu, e uma voz familiar e alegre preencheu o ambiente. "Francine! Sua Leozinha do Cabaré!"

Era Elara, amiga de infância de Francine, que havia partido há anos para se casar e viver em uma cidade maior. Elara era tudo o que Francine não era: expansiva, sorridente, e com um brilho nos olhos de quem havia visto o mundo. Ao lado dela, um homem grande e sorridente, seu marido. Segurando uma linda garotinha, com cachos cor de mel e olhos curiosos, que prontamente a amiga identificou como Lydia.

Francine largou o pano de prato e correu para abraçar a amiga, uma genuína alegria iluminando seu rosto. Era raro vê-la assim. "Elara! Sua sumida! O que você está fazendo aqui?"

As duas se sentaram em uma mesa no canto, e o papo fluiu como um rio. Francine, com os olhos arregalados, perguntava cada detalhe da vida de Elara, sobre as cidades que ela visitou, as pessoas que conheceu, as comidas que provou. Era como se ela vivesse o mundo através dos olhos da amiga, absorvendo cada palavra, cada história, com uma avidez que Johnny nunca havia visto nela. Elara, por sua vez, lhe contava os detalhes e apresentava seu marido e sua filha Lydia, que, assim que foi colocada no chão, saiu correndo como uma criança brincando, parando perto de Johnny, admirada por ele ser bem alto. Ele se agachou para ficar na altura dela, cumprimentando-a com um sorriso. O pai dela, com um aceno de cabeça para Johnny, pegou a menina nos braços, e os dois homens começaram a conversar.

Enquanto eles conversavam, Johnny, atrás do balcão, limpava copos, mas seus olhos discretamente observavam a cena. Era a primeira vez que via Francine tão relaxada, tão... feliz. Ela ria, gesticulava, e por um momento, a "Leozinha do Cabaré" desapareceu, dando lugar a uma jovem curiosa e fascinada. Johnny sorriu sem perceber, um sorriso suave e sincero que raramente mostrava.

Enquanto as amigas conversavam, Johnny se aproximava da mesa para repor as bebidas ou limpar algo. "Mais alguma coisa, senhoritas?", ele perguntava, sua voz calma e profissional.

Francine, que estava no meio de uma história sobre um mercado exótico, respondia a Johnny com sua voz normal, mas, para o seu próprio tormento, sentia o calor subir ao seu rosto. Ela corava. E Elara, com seu olhar aguçado, notou. Seus olhos se arregalaram ligeiramente, e um sorriso malicioso começou a surgir em seus lábios. Ela nunca, em toda a sua vida, havia visto Francine corar por um homem.

Quando Johnny se afastou o suficiente, voltando para o balcão, Elara se inclinou para Francine, um brilho de curiosidade em seus olhos. "Então, Leozinha", ela sussurrou, um sorriso divertido. "Quem é o forasteiro? De onde ele veio? O que ele faz aqui? E, mais importante, qual é a relação de vocês dois?"

Francine tentou parecer indiferente, pegando um pedaço de pão e mordendo-o com força. "Ah, ele? É só o novo ajudante do meu pai. Johnny. Veio de umas fazendas do outro lado do lago. Nada demais." Ela tentou soar casual, mas sua voz estava um tom mais alta do que o normal, e havia uma leve hesitação que Elara não deixou passar.

"Nada demais, é?", Elara provocou, um sorriso crescendo. "Porque eu nunca vi você corar por 'nada demais', Francine. E nunca vi você tão... quieta perto de um homem que não seja seu pai." Ela olhou para Johnny, que estava de costas, organizando umas garrafas. "Ele parece... diferente. E você também."

Francine bufou, mas o rubor em seu rosto se intensificou. Ela tentou mudar de assunto, mas a amiga não cedia. A "Leozinha do Cabaré" estava encurralada, e pela primeira vez, não tinha um rugido pronto para afastar a curiosidade. Havia algo diferente em sua voz, algo que traía a indiferença que ela tentava desesperadamente manter


O Segredo Revelado

A conversa entre Francine e Elara estava animada, cheia de risadas e sussurros cúmplices. Elara, com um sorriso malicioso, continuava a cutucar Francine sobre Johnny, que, para o tormento da "Leozinha", não conseguia parar de corar.

De repente, Johnny se aproximou da mesa, interrompendo a conversa. "Francine", ele disse, a voz calma, "chegou um carregamento de bebida. Preciso da sua assinatura."

Francine bufou, aliviada pela interrupção. "Certo. Já volto, Elara. Não fuja!" Ela lançou um olhar significativo para a amiga, que apenas sorriu inocentemente. Francine pegou a caneta e o papel e seguiu Johnny para a porta dos fundos, onde o carregamento esperava.

Assim que ela estava fora do alcance da voz, Elara não perdeu tempo. Levantou-se da mesa e caminhou até o balcão, onde Johnny estava limpando. "Então, Johnny", ela começou, apoiando os cotovelos no balcão e olhando para ele com um olhar perspicaz. "Francine é uma velha amiga. E eu nunca a vi corar assim por ninguém. Qual é a sua história com ela?"

Johnny deu de ombros, um sorriso sutil nos lábios. "Não há história, senhorita. Apenas... colegas de trabalho. Ela é a filha do chefe, eu sou o ajudante. Nada demais."

Elara riu, um som melodioso e descrente. "Ah, 'nada demais', é? Eu já ouvi essa antes. Tinha uma garçonete em uma cidade chamada Eletric. Ela dizia a mesma coisa sobre um forasteiro que apareceu do nada e..."

Johnny parou de limpar o copo, a mão no ar. Seus olhos, antes calmos, agora tinham um brilho de surpresa e reconhecimento. "Eletric?", ele interrompeu, a voz um pouco mais alta do que o normal. "Você esteve em Eletric?"

Elara piscou, pega de surpresa pela reação dele. "Sim! Eu moro lá há alguns anos. Mas como você sabe sobre Eletric? Ninguém de Oakhaven jamais foi para lá, a não ser eu."

Johnny ignorou a pergunta dela. "Você conhece a Dana? A dona do clube?" Ele perguntou, uma urgência em sua voz que como ser quisesse saber notícias.

Os olhos de Elara se arregalaram. "Dana? Claro que conheço a Dana! Ela é uma das minhas melhores amigas! Mas... como você conhece a Dana?"

Um sorriso genuíno e caloroso se espalhou pelo rosto de Johnny, um sorriso que Francine nunca havia visto. "Eu trabalhei para ela. Por um tempo. Ela é uma mulher incrível."

Elara levou a mão à boca, a surpresa se transformando em pura admiração. "Você... você é o Johnny? O Johnny de quem a Dana tanto falava? O 'filho de outra mãe' dela? Aquele que ajudou a reformar o clube e depois sumiu?"

Johnny riu, um som aberto e descontraído. "Sou eu mesmo. Ela falava de mim?"

"Falava? Ela não parava de falar de você!", Elara exclamou, batendo no balcão com entusiasmo. "Ela sentiu tanto a sua falta! Meu Deus, o mundo é pequeno! Ela vai ficar tão feliz em saber que eu te encontrei!"

Eles começaram a conversar como velhos amigos, trocando histórias sobre Dana, sobre Eletric, sobre os tempos passados. A calma de Johnny havia desaparecido, substituída por uma animação que Francine nunca havia presenciado.

Nesse momento, Francine voltou, o papel da assinatura na mão. Ela parou na entrada do salão, observando a cena. Johnny e Elara, rindo, batendo papo como se conhecessem há anos. A amiga de infância, que havia viajado tanto, e o forasteiro, que se dizia um simples camponês.

O sorriso de Johnny, a forma como ele falava de Eletric e de Dana... tudo isso atingiu Francine com uma nova onda de curiosidade. Ele não era apenas um "camponês" do outro lado do lago. Ele era viajado. Ele tinha um passado, uma história que ele não havia compartilhado com ela. E, de repente, a "Leozinha do Cabaré" queria saber cada detalhe.


O Andarilho do Presente

Elara, com um brilho travesso nos olhos, puxou Francine para um canto mais afastado do balcão, onde Johnny continuava a organizar as garrafas. "Francine, você não vai acreditar!" ela sussurrou, a voz cheia de excitação. "Ele é o Johnny da Dana! A Dana de Eletric! Ela falava dele o tempo todo, dizia que ele era como um filho para ela, o 'filho de outra mãe' que a ajudou a reerguer o clube!"

Francine piscou, absorvendo a informação. "Filho de outra mãe? Então ele não é...?" Uma pontada de alívio, estranhamente misturada com uma pontada de algo que ela não conseguia identificar, passou por ela. A "Dana" que a incomodava era uma mulher mais velha que o via como filho. Isso a desarmou.

A curiosidade, antes um fogo brando, agora se acendeu em Francine. Ela se virou para Johnny, que estava de costas para elas. "Então, forasteiro", ela chamou, a voz um pouco mais suave do que o habitual, mas ainda com um toque de sua antiga acidez. "O que mais você fez? Por onde você viajou? Você não é tão 'simples camponês' quanto dizia, não é?"

Johnny se virou, um sorriso pequeno e quase tímido nos lábios. Ele parecia mais à vontade agora que parte de seu passado havia sido revelada. "Eu... uh... trabalhei em alguns lugares. Ajudei em tavernas, em fazendas, em portos. Nada muito emocionante."

Elara riu, balançando a cabeça. "Ah, Johnny, não seja modesto! Ele é um andarilho, Francine! Não tão viajado quanto eu, claro", ela brincou, com um ar de superioridade divertida. "Eu estive em Porto Esmeralda, nas Montanhas Uivantes, e até mesmo em algumas das cidades costeiras do Reino do Sol!"

Johnny ouviu, e então, para a surpresa de Elara, ele começou a complementar suas histórias. "Porto Esmeralda mudou bastante. As muralhas foram reforçadas depois do último ataque do exército do Sétimo Reino de Smarron que estavam perdido longe da linha de frente. E as Montanhas Uivantes... a trilha para o Passo do Vento está mais perigosa agora, houve um deslizamento de terra no inverno passado."

Elara o olhava, chocada. "Como você sabe disso? Eu estive lá há cinco anos! Ninguém me contou sobre o deslizamento!"

"Eu passei por lá no outono passado", Johnny disse, um tom mais sério em sua voz. "E as cidades costeiras... algumas delas foram atingidas por uma tempestade terrível há alguns meses. A cidade de Salgema, por exemplo, ainda está se recuperando."

Francine, que estava apoiada no balcão, observava a interação. Os olhos de Johnny, antes tão fechados, agora brilhavam com a luz de suas memórias. Ele não estava apenas falando de lugares; ele estava falando de experiências, de mudanças, de coisas que aconteceram recentemente. Ele não era um viajante de histórias antigas como Elara; ele era um viajante do presente.

A "Leozinha do Cabaré" sentiu uma nova onda de curiosidade. Que tipo de vida ele havia levado para saber de tudo isso? Quem era ele, afinal, além do ajudante de seu pai e do "filho de outra mãe" de Dana?

Sem perceber, um pequeno sorriso se formou nos lábios de Francine enquanto ela o observava. A raiva havia sumido, a vergonha diminuído. No lugar, havia uma fascinação silenciosa, uma vontade crescente de desvendar cada pedaço do enigma que era Johnny, o forasteiro.

A conversa com Elara e Johnny se estendeu por mais tempo do que o esperado. Elara, com sua energia contagiante, parecia não querer parar de falar, mas seu marido, com um sorriso paciente, finalmente a arrastou para fora do "Canto do Dragão", prometendo que voltariam no dia seguinte para mais histórias.

"Obrigada por tudo, Francine! E Johnny, foi um prazer te reencontrar! Amanhã tem mais!", Elara gritou, enquanto enquanto pegava a sua filha e saindo contando as boas novas pro marido, Lydia que acenava para eles feliz nos braços de Elara, uma bela família.

Um Silêncio Promissor

Com a saída de Elara e sua família, um silêncio diferente caiu sobre o bar. Não era o silêncio tenso de antes, nem o silêncio de constrangimento. Era um silêncio que parecia carregar a promessa de algo novo. Francine e Johnny começaram a fechar o bar, arrumando as cadeiras, limpando as últimas mesas. Francine, ainda com a cabeça cheia das revelações sobre o passado de Johnny, tentava pescar mais informações.

"Então, você realmente viajou bastante, não é?", ela perguntou, enquanto limpava uma mesa, sem olhá-lo diretamente. "Mais do que um 'simples camponês'."

Johnny riu baixinho, o som ecoando no bar quase vazio. "A vida tem seus caminhos, Francine. Às vezes, a gente só precisa seguir o vento."

"E o vento te trouxe para Oakhaven?", ela retrucou, finalmente olhando para ele, um desafio sutil em seus olhos.

Ele apenas deu de ombros, um pequeno sorriso nos lábios. "Parece que sim."

A conversa não avançou muito mais. Eles terminaram de arrumar o bar e começaram a subir a velha escada de madeira que levava aos quartos para dormirem e na manhã seguinte os trazer para o trabalho. Francine ia na frente, ainda remoendo as novas informações e a frustração de não conseguir mais detalhes.

De repente, seu pé escorregou em um degrau gasto. Ela perdeu o equilíbrio, os braços se agitaram no ar, e por um instante, o mundo girou. Ela esperava a queda, a dor, o constrangimento.

Mas a queda nunca veio.

Em vez disso, braços fortes a envolveram, firmando-a. Ela se viu suspensa, segura, nos braços de Johnny. O cheiro dele – uma mistura limpa de sabão, fumaça de madeira e algo mais, algo só dele – a invadiu. Seus olhos se encontraram. Os olhos dele, antes tão fechados, agora brilhavam com uma intensidade que a fez prender a respiração. Os cabelos bagunçados, que ela sempre achou desleixados, agora pareciam... charmosos. Seus músculos, que ela só notava quando ele carregava barris, agora pareciam tão próximos, tão fortes.

E foi ali, suspensa nos braços dele, que o coração de Francine deu um salto. Um batimento forte, descompassado, que ela sentiu em cada parte de seu corpo. Tudo o que ela não percebia nele antes, tudo o que ela ignorava ou transformava em raiva, veio à tona de uma vez só.

Meio perdida em sua própria confusão de sentimentos, as palavras escaparam de seus lábios antes que ela pudesse impedi-las. "Quem realmente é você?", ela sussurrou, a voz quase inaudível, como se quisesse saber tudo sobre ele, cada segredo, cada história, cada pedaço de seu passado.

Assim que as palavras saíram, a vergonha a atingiu como um raio. Ela percebeu o que havia dito, a vulnerabilidade em sua voz, a forma como ela estava ali, indefesa, nos braços dele. O rubor subiu por seu pescoço, tingindo suas bochechas de um vermelho vivo.

"Eu... eu vou dormir!", ela gaguejou, desvencilhando-se apressadamente dos braços dele. Ela se virou, subindo os degraus restantes quase correndo, sem olhar para trás.

Pela primeira vez, Francine estava agindo como uma adolescente desajeitada, como as garotas que ela via às vezes no bar, saindo com um garoto e depois correndo para casa, envergonhadas e confusas. Ela, a "Leozinha do Cabaré", estava envergonhada. E Johnny, deixado para trás no meio da escada, apenas a observava, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios, um brilho de compreensão em seus olhos.


O Início de Uma Nova Dinâmica

A manhã seguinte trouxe uma nova tortura para Francine: o rubor incontrolável. Antes, era sutil, algo que ela conseguia disfarçar ou desviar. Agora, se Johnny aparecia na frente dela sem querer, ela virava o rosto abruptamente, evitando o contato visual, e murmurava um "Licença" que a fazia ranger os dentes. "Licença? Por que eu estou pedindo licença?", sua mente gritava, enquanto ela se afastava, resmungando para si mesma sobre como era idiota por estar agindo assim. A "Leozinha do Cabaré" estava se sentindo desajeitada, desajeitada como nunca.

Elara chegou um pouco depois, e para a surpresa de Francine, a amiga parecia ter encontrado um novo melhor amigo em Johnny. Eles conversavam sobre as aventuras e cidades que Elara havia visitado no passado e as que Johnny havia passado mais recentemente. Ele a atualizava sobre as mudanças, as novas construções, as coisas ruins que tinham acontecido.

"Você não vai acreditar, Elara, mas a velha taverna 'O Barril Furado' em Porto Esmeralda foi demolida", Johnny disse, um tom de melancolia em sua voz. "Virou um armazém de armamento para os exércitos de SixCity"

Elara arregalou os olhos. "Não! Eu adorava aquele lugar! E a ponte de pedra sobre o Rio Serpente? Ainda está de pé?"

"Sim, mas o guarda-chuva de ferro que ficava na entrada caiu na última tempestade", Johnny respondeu, e eles continuaram a trocar informações, como dois cartógrafos comparando mapas invisíveis. Johnny, por ser tão viajado quanto ela, sabia de tudo um pouco e, assim como aprendia com Elara, também a ensinava sobre o mundo lá fora.

Francine observava de longe, enquanto limpava o balcão com uma lentidão incomum. Ela via a facilidade com que eles se conectavam, a forma como suas histórias se entrelaçavam. Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios. Era bom vê-los se dando tão bem. Mas, ao mesmo tempo, uma pontinha de inveja a corroía. Ela queria ser assim como eles, ter histórias para contar, ter visto o mundo, aprendido coisas triviais que só se aprende viajando.

Elara, sempre atenta, percebeu a nova dinâmica entre Francine e Johnny. Ela viu a amiga, antes tão feroz e independente, agora desajeitada, corando com facilidade e agindo como uma adolescente apaixonada.

Quando Johnny se afastou para atender um cliente, Elara aproveitou a oportunidade. Ela se aproximou de Francine, um olhar conhecedor em seus olhos. "Então, Leozinha", ela começou, a voz baixa. "O que está acontecendo entre você e o forasteiro?"

Francine tentou fingir indiferença, mas as palavras se embolaram em sua garganta. "O que... nada. Nada... por que aconteceria? Você sabe... puff." Ela gesticulou vagamente, incapaz de formar uma frase coerente.

Elara apenas sorriu, um sorriso que confirmava todas as suas suspeitas. Ela não precisava de mais palavras. "Eu sei", ela disse, a voz suave, sem provocação, apenas uma simples constatação.

Aquelas duas palavras, "Eu sei", incomodaram Francine mais do que qualquer provocação direta. Ela esperava uma piada, uma risada, algo para rebater. Mas a calma de Elara, a certeza em sua voz, a desarmou completamente. Francine sentiu o rosto esquentar novamente. Ela olhou para Johnny, que estava de costas, rindo de algo que Elara havia dito. E, para seu desespero, pequenos rubores apareceram em suas bochechas, traindo todos os seus esforços para esconder o que estava sentindo.


O Toque Curativo e o Sorriso Desconcertante

A chuva começou a cair lá fora, um som suave no telhado do "Canto do Dragão". O marido de Elara apareceu na porta, segurando um guarda-chuva, um sinal de que era hora de ir. Elara se despediu de Johnny e Francine com acenos animados, mas antes de sair, ela lançou um olhar significativo para Francine, fazendo um gesto com a mão que imitava as garras de uma leoa, como se dissesse: "Pega ele, Leozinha."

Francine sentiu o rosto queimar, o rubor se espalhando até a ponta das orelhas. Ela só faltou explodir de vergonha. Johnny, que estava de costas para Elara, não entendeu o gesto, apenas acenou de volta com um sorriso educado.

Com a partida de Elara, o bar mergulhou em um silêncio confortável, preenchido apenas pelo som da chuva e pelo tilintar dos copos enquanto eles começavam a fechar. Francine tentava evitar o olhar de Johnny, concentrando-se em cada tarefa com uma intensidade desnecessária.

Eles estavam arrumando as últimas coisas quando, de repente, Johnny deixou um copo escorregar de suas mãos. O vidro se estilhaçou no chão com um barulho seco. Ele se abaixou para recolher os cacos, mas em sua pressa, ou talvez por um momento de desatenção, um pedaço afiado de vidro cortou sua mão.

"Droga!", ele murmurou, puxando a mão para trás, uma gota de sangue surgindo na pele.

Francine, que estava a poucos passos de distância, reagiu instintivamente. Sem pensar, sem hesitar, ela se ajoelhou ao lado dele. "Você está bem? Deixa eu ver isso!" Sua voz era suave, cheia de uma preocupação que ela não sabia que possuía. Ela pegou a mão dele com delicadeza, examinando o corte.

"Não é nada, Francine, eu posso..." Johnny começou, mas ela já estava de pé, indo até a cozinha.

Ela voltou com um pano limpo e um pequeno frasco de desinfetante. Com movimentos firmes, mas cuidadosos, ela limpou o sangue e aplicou o líquido no corte. A dor fez Johnny encolher um pouco, mas ele não se moveu. Ele apenas a observou, seus olhos fixos em seu rosto, enquanto ela cuidava de sua ferida.

Era a primeira vez que ele a via assim, tão focada, tão gentil, sem a raiva ou a teimosia que a caracterizavam. Ele percebeu que, por baixo de toda a sua armadura, Francine era uma pessoa que se importava, especialmente quando alguém se machucava. Um sorriso meio bobo, quase imperceptível, surgiu em seus lábios. Ele aceitou o cuidado dela, sentindo uma estranha paz enquanto ela terminava de enfaixar seu dedo. A "Leozinha do Cabaré" tinha garras, sim, mas também tinha um toque surpreendentemente gentil.


O Sorriso Inesperado

Na manhã seguinte, Francine acordou com uma nova missão: garantir que a mão cortada de Johnny não piorasse. Ela o interceptou na cozinha, antes mesmo que ele pudesse pensar em pegar uma vassoura.

"Nem pense nisso, forasteiro!", ela bradou, embora com um tom menos agressivo do que o habitual. "Você vai ficar no balcão hoje. Nada de levantar peso, nada de esfregar, nada de fazer força desnecessária."

Johnny, que já estava estendendo a mão para pegar uma panela, recuou. "Mas Francine, é só um corte pequeno. Eu posso..."

"É uma ordem!", ela o interrompeu, os olhos fixos nos dele, com uma determinação que não admitia contestação. "Você vai ficar no balcão e atender os clientes. E nada de tentar ser herói. Entendeu?"

Ele resmungou, mas aceitou. "Certo, certo. Agora eu tenho uma mãe, é?" Ele soltou uma provocação, no mesmo estilo que usava quando chegou, esperando a explosão de raiva dela.

Mas, para sua surpresa, Francine apenas deu um pequeno sorriso. Um sorriso genuíno, que alcançou seus olhos, e que o deixou completamente desconcertado. Era um sorriso que ele nunca havia visto nela, e que o atingiu de uma forma que nenhuma provocação ou briga jamais fizera.

O coração de Johnny começou a bater descompassado. Tum-tum. Tum-tum. Rápido, tão rápido que ele pensou que estava passando mal. Aquele sorriso... era como se o sol tivesse saído de repente em um dia nublado. Ele sentiu o rosto esquentar e, sem dizer mais nada, virou-se e foi para o balcão, pegando um pano e começando a limpar os copos com uma concentração exagerada. Ele atendeu os poucos clientes que apareceram com uma eficiência quase robótica, tentando ignorar a sensação estranha em seu peito.

Não demorou muito para Elara chegar, trazendo consigo a energia costumeira. Ela notou a nova dinâmica imediatamente. Francine estava pairando perto de Johnny, observando cada movimento dele com uma atenção quase maternal.

"Bom dia, Johnny! E essa mão, como está?", Elara perguntou, aproximando-se do balcão.

"Ah, está bem. Francine está sendo... protetora", ele respondeu, lançando um olhar rápido para Francine, que se virou para fingir que estava organizando umas garrafas.

Elara sorriu, um sorriso conhecedor. "Protetora, é? O que aconteceu?"

Johnny contou brevemente sobre o copo quebrado e o corte. Elara ouviu, e então olhou de Johnny para Francine, que estava de costas, mas com os ombros tensos. Um brilho divertido surgiu nos olhos de Elara. Ela não disse nada em voz alta, mas seu pensamento era claro como cristal: Eles já estão fisgados um pelo outro e nem percebem?


O Fio da Saudade e a Curiosidade Crescente

Elara e Johnny estavam imersos em uma conversa animada, trocando histórias e atualizações sobre as cidades que haviam visitado. Francine, ainda um pouco à distância, tentava se concentrar em organizar as prateleiras, mas seus ouvidos estavam atentos a cada palavra que eles trocavam.

"Então, Elara", Johnny perguntou, um brilho de curiosidade em seus olhos. "Para onde você, Lydia e seu marido vão agora? Qual é a próxima parada no seu mapa?"

Elara sorriu, um sorriso que parecia guardar um segredo. "Bem, Johnny, essa é a grande notícia. Nós... talvez a gente fique por aqui."

A "bomba" de Elara fez Francine parar o que estava fazendo. Ela se virou, os olhos arregalados. "Ficar? O quê? Por quê?" A surpresa era evidente em sua voz.

Elara se virou para Francine, um olhar suave em seu rosto. "Eu viajei por quase todo o mundo, Leozinha. Vi cidades grandes, montanhas imponentes, oceanos sem fim. Mas... não há lugar melhor que o lar." Ela olhou para o marido, que brincava com Lydia, apreciando o momento com um sorriso bob no rosto. "Oakhaven é a minha casa. E eu sinto que é hora de voltar e fincar raízes de novo."

Francine piscou, tentando processar a informação. Ela não entendia muito bem a lógica de Elara de viajar tanto para depois querer voltar, mas sentiu uma pontada de felicidade. Sua melhor amiga de infância estava voltando para casa, para ficar.

Johnny, por sua vez, parecia ter se perdido em pensamentos. Ele olhou para a janela, para as ruínas distantes, e um ar de melancolia suave pairou sobre ele. "Não há lugar melhor que o lar", ele murmurou, quase para si mesmo, concordando com Elara.

Francine percebeu a mudança no semblante dele. Aquele olhar, tão diferente do seu habitual sorriso calmo ou das provocações, a atingiu. Ele estava pensando em casa. Na casa dele. Naquele "aglomerado de fazendas" do outro lado do Lago das Lágrimas.

Uma nova onda de curiosidade a invadiu, mais forte do que nunca. Ela queria saber. Queria saber sobre o lugar de onde ele veio, antes de se tornar o andarilho que conhecia o mundo. Mas como perguntar? Como abordar um assunto tão pessoal, especialmente agora que a dinâmica entre eles era tão... delicada?

Ela mordeu o lábio, os olhos fixos em Johnny, que ainda olhava para a janela, perdido em suas próprias memórias. Francine sentiu o rubor subir novamente. Ela queria saber tudo sobre ele, mas a coragem, ou as palavras certas, simplesmente não vinham. A "Leozinha do Cabaré" estava em um dilema, dividida entre a curiosidade avassaladora e a nova e estranha timidez que Johnny despertava nela.

Uma Visita Inesperada

As semanas voaram em Oakhaven, tecendo novas rotinas e fortalecendo laços. Elara e seu marido, Danilo, e sua filha Lydia estavam oficialmente instalados na cidade. Johnny, com sua eficiência habitual e seu jeito prestativo, ajudou a familia com a mudança sempre que tinha um tempo livre. Ele e Danilo, um homem calmo e forte, rapidamente se tornaram amigos. Danilo, para se manter na cidade, conseguiu um emprego como guarda para a chefe de guarda local, que, por coincidência, já conhecia Johnny e não hesitou em contratá-lo a pedido do forasteiro. A vida na pequena cidade seguia seu curso, mas a dinâmica entre Johnny e Francine se intensificava a cada dia.

Eles estavam bem mais próximos agora. As esquivas de Francine diminuíram, substituídas por uma aceitação relutante da proximidade dele. O rubor ainda aparecia, mas não era mais de vergonha ou raiva, e sim de uma timidez que ela não conseguia mais controlar.

Uma noite, o "Canto do Dragão" estava excepcionalmente movimentado. Uma caravana de mercadores havia parado em Oakhaven, e o bar estava lotado de vozes altas e risadas. Francine e Johnny trabalhavam em sincronia, uma dança bem ensaiada entre as mesas e o balcão. Ela pegava os pedidos, ele os preparava. Ela entregava as bebidas, ele trazia os pratos vazios.

Em meio à correria, Francine tropeçou em um pé de cadeira. Antes que pudesse cair, Johnny, que estava atrás dela, a segurou pela cintura, firmando-a. Seus corpos ficaram próximos por um instante, o calor dele irradiando para ela. Francine sentiu o coração disparar e o rubor subir, mas desta vez, ela não se afastou bruscamente. Em vez disso, ela olhou para ele, e seus olhos se encontraram. Havia um entendimento silencioso, uma faísca que passava entre eles.

"Cuidado, Leozinha", ele murmurou, a voz baixa, quase inaudível no barulho. Mas o tom não era de provocação, e sim de uma preocupação genuína.

Ela apenas acenou com a cabeça, incapaz de falar, e ele a soltou gentilmente. Continuaram trabalhando, mas a energia entre eles havia mudado. Pequenos gestos, antes impensáveis, agora se tornaram comuns. A mão de Johnny pousava brevemente nas suas quando passavam um prato, um olhar demorado era trocado quando um cliente fazia uma piada sem graça.

Mais tarde, enquanto limpavam o balcão depois que a multidão diminuiu, Francine pegou um copo e, distraidamente, passou o polegar sobre um pequeno corte que ainda estava na mão de Johnny. Ele não se moveu, apenas a observou, um sorriso suave nos lábios.

"Está melhor?", ela perguntou, a voz baixa, quase um sussurro.

"Sim", ele respondeu, a voz rouca. "Graças à minha... enfermeira particular."

Francine sentiu o rubor novamente, mas desta vez, ela sorriu de volta. Um sorriso pequeno, sincero, que ele raramente via. A "Leozinha do Cabaré" e o forasteiro que sabia demais sobre o mundo estavam mais próximos do que nunca, e a pequena cidade de Oakhaven, sem que eles percebessem, estava testemunhando o florescer de algo novo e inesperado.


O Inverno e a Proximidade Inesperada

A neve começou a cair, fina e persistente, cobrindo os telhados de Oakhaven com um manto branco e silencioso. O inverno havia chegado, e com ele, o movimento no "Canto do Dragão" diminuía drasticamente. Apenas os andarilhos mais corajosos, ou os mais desesperados, se aventuravam por aquelas bandas, enquanto a maioria das pessoas ficava entocada em suas casas, esperando a estação passar.

Com o bar quase vazio, Francine e Johnny tinham tempo de sobra. O tédio, que antes era um inimigo, tornou-se um aliado para aprofundar a conexão entre eles. Eles passavam as horas conversando, jogando jogos de tabuleiro velhos e empoeirados que encontraram no depósito, ou simplesmente observando a neve cair pela janela, trocando histórias e risadas baixas.

Às vezes, os pais de Francine, que normalmente só apareciam para ajudar nos horários de pico ou para verificar como as coisas estavam, se juntavam a eles. E era nesses momentos que a dinâmica entre Johnny e Francine se tornava ainda mais evidente, e mais embaraçosa.

A mãe de Francine, uma mulher de riso fácil e olhar perspicaz, adorava provocá-los. "Então, minha filha", ela diria, com um sorriso largo, olhando de Francine para Johnny, "quando é que vocês vão se casar? Já está na hora de dar uns netinhos para a velha aqui!"

Francine sentia o rosto queimar, e Johnny, que antes era tão calmo, agora também corava visivelmente. Eles trocavam olhares de desespero, buscando apoio um no outro para aguentar as brincadeiras.

O pai de Francine, Barnaby, não ficava para trás. Ele dava um tapinha nas costas de Johnny, um brilho de aprovação em seus olhos. "E você, meu rapaz, é bom em tudo o que faz. Se continuarem assim, o 'Canto do Dragão' será de vocês em breve. Lógico se perdi a mão da minha filha antes, né?"

As provocações sobre casamento e o futuro do bar os deixavam em um estado de embaraço compartilhado. Era demais para eles. E, sem perceberem, em busca de conforto e apoio, suas mãos se encontravam. A mão de Francine, pequena e forte, deslizava para a de Johnny, que a segurava com firmeza. Um aperto silencioso, uma promessa de que estavam juntos naquela situação embaraçosa.

Eles se soltavam rapidamente quando percebiam o que estavam fazendo, ou quando os pais riam ainda mais. Mas o toque, mesmo que breve, era um lembrete silencioso da crescente intimidade entre eles. O inverno, que antes significava isolamento, estava trazendo um calor inesperado para o "Canto do Dragão", aquecendo não apenas o bar, mas também os corações de Francine e Johnny. Eles estavam mais próximos do que nunca, e a linha entre a rivalidade e algo mais profundo estava se tornando cada vez mais tênue.


Revelações do Passado e um Sorriso Quebrado

A neve caía incessantemente lá fora, transformando Oakhaven em um cenário de conto de fadas branco. O "Canto do Dragão" estava silencioso, apenas o crepitar da lareira e o som suave da conversa de Francine e Johnny preenchiam o ar. De repente, a porta se abriu com um rangido, e um casal, coberto de neve e com sorrisos largos, entrou.

Johnny, que estava atrás do balcão, arregalou os olhos. Um sorriso enorme e genuíno se espalhou por seu rosto, um sorriso que Francine nunca havia visto. Ele correu de trás do balcão, quase tropeçando, e abraçou o rapaz com força.

"Olha se não é o cabeça-dura!", disse o rapaz, retribuindo o abraço com vigor. "Meu amigo, você não arruma esse cabelo?" A mulher, com um sorriso doce, arrumou o cabelo de Johnny mesmo enquanto o abraçava, como se ele fosse um filho ou um irmão mais novo.

Johnny ria, um som aberto e alegre, como se não os visse há uma eternidade. "Math! Nana! Eu não acredito que vocês estão aqui! O que fazem por essas bandas?"

Ele os puxou gentilmente em direção a Francine, que observava a cena com uma curiosidade crescente. A forma como Johnny os abraçava, a familiaridade em seus gestos, tudo indicava uma conexão profunda.

"Francine", Johnny disse, a voz cheia de uma alegria contagiante, "esses são Math e Nana, meus irmãos de outra mãe. Eles vivem na fazenda de onde eu vim. Crescemos juntos"

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Francine sorriu, vendo o carinho entre eles, ela sentiu uma estranha mistura de alívio e uma curiosidade ainda maior sobre a vida de Johnny.

Ela os cumprimentou com um aceno de cabeça, um sorriso educado. "Bem-vindos ao Canto do Dragão."

Johnny, então, virou-se para Math e Nana, um brilho orgulhoso em seus olhos. "E essa é a Francine. Ela é a... a dona do lugar."

"A dona..." Francine sentiu o rosto esquentar. "A dona do lugar." Mas ela queria ser mais do que "a dona". Ela queria ser... "Pera, o que eu estou pensando?", ela pensou, sentindo o rubor subir por seu pescoço.

Johnny, alheio à tormenta interna de Francine, voltou a conversar com seus velhos amigos. "Mas o que vocês estão fazendo aqui? Não deviam estar na fazenda, especialmente agora com o inverno?"

Math, que era mais alto e robusto, tirou o gorro nevado. "Viemos de Sixcity, Johnny. Fomos comprar suprimentos para nos mantermos durante o inverno. Você sabe como é difícil nessa época."

Nana, com um sorriso gentil, completou: "E na sua última carta, você disse que estava relativamente perto. Pensamos: por que não passar e ver como o nosso Johnny está?"

Francine apenas observava, absorvendo cada palavra. Johnny tinha irmãos, uma família, mesmo que "de outra mãe". Ele escrevia cartas. Ele tinha uma vida antes de Oakhaven, uma vida que ele havia deixado para trás. Aquele "simples camponês" era muito mais complexo do que ela imaginava. A curiosidade em seu coração agora era um fogo ardente, e ela queria saber tudo sobre o passado de Johnny.


Histórias e Segredos Desvendados

Francine continuou a observar a conversa entre Johnny, Math e Nana, pegando pedaços do passado do forasteiro que ele nunca havia compartilhado. Eles falavam sobre a fazenda, sobre a vida no campo, e então Johnny perguntou, a voz um pouco mais suave, "Como está a antiga casa? Ainda está de pé?"

Math e Nana trocaram um olhar. "Sim, Johnny", Ana disse, um sorriso triste nos lábios. "Nós até pensamos em nos mudar para lá, como você disse quando foi embora. Mas... tínhamos esperança que você voltasse algum dia. A mantemos limpa e aconchegante, como se você nunca nem tivesse partido."

Johnny deu um sorriso fraco, um brilho de gratidão em seus olhos. "Obrigado. Tenho certeza que meus pais ficariam felizes se estivessem aqui para ver."

As palavras atingiram Francine como um choque. Os pais de Johnny estavam mortos. Aquela era a peça que faltava no quebra-cabeça. Seria por isso que ele havia se tornado um andarilho? A dor da perda, a falta de raízes... fazia sentido. Uma nova onda de compaixão, misturada com a curiosidade, inundou o coração de Francine.

Nana, percebendo o olhar de Francine, puxou-a gentilmente pelo braço. "Venha cá, Francine. Deixe-me contar algumas coisas sobre o nosso Johnny. Ele era um menino terrível quando criança, sabia? Sempre se metendo em encrenca na fazenda, subindo em árvores e caindo, e uma vez..."

Johnny, que estava pegando um jarro de água, virou-se, o rosto vermelho. "Nana! Não precisa contar essas coisas!"

Mas Nana apenas riu, ignorando-o. "Uma vez, ele tentou ordenhar a vaca com os olhos vendados, dizendo que era um 'desafio de confiança'. A vaca não gostou muito, e ele acabou coberto de leite e lama!"

Francine riu, uma risada genuína e inesperada. A imagem de um Johnny criança, desajeitado e aventureiro, era hilária. Ela olhou para ele, que estava com o rosto completamente vermelho de vergonha, tentando se esconder atrás do balcão.

"E na adolescência, ele era um desastre com as garotas!", Math acrescentou, rindo junto com Nana. "Ele ficava tão nervoso que mal conseguia falar, e as coitadas pensavam que ele as odiava!"

Johnny gemeu, cobrindo o rosto com as mãos. "Vocês dois são terríveis!"

Francine não conseguia parar de rir. Ver Johnny tão envergonhado, tão humano, era algo novo e encantador. Ela sentiu uma conexão ainda mais profunda com ele, não apenas o forasteiro misterioso, mas o menino que tentou ordenhar uma vaca vendado e o adolescente tímido. A cada história, ela sentia que o conhecia um pouco mais, e a curiosidade sobre o homem que ele havia se tornado, e sobre o que o havia levado a deixar tudo para trás, só crescia.


O Propósito do Andarilho

A tarde avançava, e as histórias de Johnny, Math e Nana preenchiam o "Canto do Dragão" com um calor que a lareira mal conseguia igualar. Depois de reviverem tantas memórias da fazenda, o casal se voltou para Johnny, um brilho de expectativa em seus olhos.

"Então, Johnny", Math começou, a voz suave, "você nos contou tudo em suas cartas. Mas... você finalmente achou o seu propósito? Aquilo que você estava procurando quando decidiu virar andarilho?"

Johnny, que estava limpando o balcão, parou. Seus olhos desviaram-se para Francine por um instante, que estava fingindo arrumar umas cadeiras, mas com os ouvidos atentos. Um rubor sutil subiu pelo pescoço de Johnny, e ele deu um sorriso sem jeito.

"Talvez...", ele murmurou, a voz baixa, deixando a pergunta no ar.

Math e Nana trocaram um olhar, um sorriso cúmplice crescendo em seus rostos. Eles olharam de Johnny para Francine, e de Francine para Johnny, a mensagem clara em seus olhos. "Talvez...", Nana repetiu, com um tom de quem já sabia a resposta.

Nana então abraçou Johnny com força, como uma irmã mais velha que o via crescer. "Ah, ele está crescendo! Que fofinho!"

Johnny riu, meio sem entender a brincadeira. "Nana, a gente tem quase a mesma idade!"

"Não é de idade que eu estou falando, seu bobo", ela retrucou, apertando o abraço.

O dia estava quase anoitecendo, e a neve continuava a cair. Math e Nana sabiam que precisavam ir. Johnny tentou convencê-los a passar a noite, preocupado com a viagem na neve. "Fiquem. A tempestade está piorando. É perigoso na estrada."

Mas Math balançou a cabeça. "Não se preocupe, Johnny. Você sabe que não é nossa primeira vez. É melhor irmos agora. Vamos usar a rota secreta, lembra? Aquela que corta caminho pelas colinas. Estaremos em casa antes do meio da noite."

Johnny suspirou, um ar de preocupação ainda em seu rosto, mas concordou. Ele os abraçou demoradamente, um abraço apertado e cheio de carinho, como se não quisesse que eles partissem. Math e Nana retribuíram com a mesma intensidade.

"Aparecerei por lá.", Johnny prometeu.

"É uma promessa?", Math e Nana perguntaram, a voz embargada.

"Sim. É uma promessa", Johnny respondeu, com um sorriso gentil.

Eles se despediram, a carroça se afastando lentamente na neve que caía. Johnny ficou parado na porta do "Canto do Dragão", acenando para eles, observando a silhueta da carroça diminuir até sumir completamente no horizonte branco. Francine observava-o de longe, o coração apertado pela cena. O passado de Johnny, sua família, seu "propósito" que ele "talvez" tivesse encontrado... tudo isso parecia se entrelaçar no silêncio da neve que caía.

Uma Noite de Consolidação

Naquela noite, depois que Math e Nana partiram, Francine sentiu que Johnny estava diferente. Uma tristeza sutil pairava sobre ele, uma melancolia que contrastava com sua habitual calma. Eles fecharam o restaurante em silêncio e, normalmente, cada um seguiria para seu quarto para dormir. Mas Francine não queria que ele subisse sozinho com aquela tristeza que parecia envolvê-lo.

Antes que ele pudesse se virar para a escada, ela estendeu a mão e segurou a dele. Com um gesto hesitante, ela levou a mão dele levemente ao seu próprio rosto, sentindo o calor da pele dele. Ela fechou os olhos por um instante, absorvendo a sensação de conforto e a fragilidade do momento. Sem dizer uma palavra, ela o abraçou. Ele também não disse nada, mas retribuiu o abraço, um aperto silencioso que falava de um entendimento mútuo, de uma dor que agora era compartilhada.

Ainda segurando a mão dele, Francine o puxou gentilmente e o guiou escada acima, não para o quarto dele, mas para o dela, que era um pouco mais espaçoso e tinha uma cama de casal. Ela o sentou na beirada da cama e, com um leve empurrão nos ombros, o deitou. Em seguida, ela se deitou ao lado dele, puxando o cobertor para cobrir os dois, em um gesto de cuidado e intimidade que superava qualquer palavra.

Ele olhou para ela, e ela para ele, ambos um pouco perdidos na quietude do momento, na doçura inesperada daquele gesto. Francine, com um gesto hesitante, entrelaçou seus dedos aos dele, apertando-os suavemente.

"Você está bem?", ela perguntou, a voz baixa, quase um sussurro, rompendo o silêncio apenas o suficiente para mostrar sua preocupação.

Johnny sorriu, um sorriso pequeno e cansado, mas que alcançou seus olhos, aquecendo o ambiente gelado. "Sim", ele respondeu, apertando a mão dela de leve, transmitindo uma gratidão silenciosa.


O Desabrochar de um Amor

Depois daquela noite de inverno, algo fundamental mudou entre Francine e Johnny. A linha tênue que separava a rivalidade da amizade e da atração havia se desfeito completamente. Eles estavam tão próximos, tão em sintonia, que a presença um do outro se tornou tão natural quanto respirar.

Não havia necessidade de palavras. O que sentiam era mútuo, um entendimento silencioso que se manifestava em cada gesto, cada olhar. Francine, a "Leozinha do Cabaré" que não levava desaforo para casa, agora se pegava sorrindo para Johnny sem motivo aparente, um sorriso suave que ele retribuía com um brilho nos olhos. Os rubores ainda apareciam em seu rosto, mas agora eram de um contentamento tranquilo, não de vergonha ou raiva, sinalizando uma aceitação plena dos sentimentos que floresciam.

Ele não a provocava mais com o apelido "Leozinha", mas às vezes, em um momento de carinho, ele o murmurava baixinho, e ela sentia um arrepio agradável, um formigamento que percorria sua pele. Ela, por sua vez, parou de chamá-lo de "forasteiro". Era apenas "Johnny", e a forma como ela dizia o nome dele carregava um tom de familiaridade e afeto que antes era impensável.

No bar, a eficiência deles se tornou ainda mais fluida. Eles se moviam em uma dança coordenada, antecipando as necessidades um do outro sem precisar de uma palavra. Um olhar de Johnny era suficiente para que Francine soubesse o que ele precisava, e um pequeno aceno dela era o bastante para ele entender o próximo passo. Os clientes habituais, e até mesmo o pai de Francine, observavam a mudança com sorrisos conhecedores, uma aprovação silenciosa pairando no ar.

Os toques se tornaram mais frequentes e menos hesitantes. Uma mão que se apoiava brevemente nas costas dela enquanto passava, um dedo que roçava o dela ao pegar um copo, um braço que se estendia para segurá-la antes que ela tropeçasse. E Francine não recuava mais. Ela aceitava, e às vezes, até buscava esses pequenos contatos, um sinal claro da entrega mútua.

À noite, depois de fechar o bar, não havia mais a separação automática. Eles subiam as escadas juntos, e o quarto de Francine se tornou um refúgio compartilhado. As conversas se estendiam pela madrugada, sobre o passado de Johnny, sobre os sonhos de Francine, sobre o futuro incerto, mas agora, de alguma forma, menos assustador. Eles se deitavam lado a lado, as mãos entrelaçadas sob o cobertor, o calor um do outro sendo o único conforto necessário na noite fria de Oakhaven.

A pequena cidade, com suas ruínas antigas e seus habitantes peculiares, havia testemunhado a chegada de um forasteiro e a transformação de uma garçonete rabugenta. E agora, sem que precisasse ser dito em voz alta, todos sabiam que Johnny e Francine eram, de fato, um casal. Uma conexão profunda e inquestionável havia florescido, silenciosa, mas inegável, no coração do "Canto do Dragão".


O Festival da Luz e a Nova Mulher

O ar gelado enfraquecia do inverno enfraquecia, assim carregava a promessa do Festival da Luz, a data comemorativa equivalente ao Natal naquele mundo. Era um festival de casais que era celebrando o Antigo Reino de Nygrims, mesmo hoje em dia sendo uma ruína manteve a tradição, havia danças e celebrações, e Francine nunca se importou muito. Ia por obrigação, arrastada pelos pais, observando os outros casais com um misto de indiferença e uma pontada de ressentimento. Mas este ano era diferente. Este ano, ela se importava. Este ano, ela tinha alguém.

Numa manhã fria, Elara foi surpreendida por uma batida na porta de sua casa. Ao abrir, encontrou Francine parada ali, os ombros tensos, um olhar hesitante no rosto, algo incomum para a "Leozinha".

"Elara", Francine começou, a voz um pouco mais baixa do que o normal, quase um sussurro. "Eu... eu preciso de ajuda."

Elara piscou, surpresa. "Ajuda? A Leozinha do Cabaré pedindo ajuda para quê? O bar pegou fogo?" A brincadeira visava aliviar a tensão de Francine, mas a amiga estava séria.

Francine balançou a cabeça, o rubor subindo por seu pescoço. "Não. É... é para o Festival da Luz. Eu... eu não sei o que vestir. Você poderia... me ajudar a me arrumar?"

Os olhos de Elara se arregalaram, e então um sorriso travesso se espalhou por seu rosto, um brilho de pura satisfação. "A Francine quer se arrumar? Para o Festival? Meu Deus! O que o Johnny fez com você?" Ela riu, puxando a amiga para dentro, já planejando a transformação. "Claro que eu ajudo! É a minha chance de brincar de boneca com a Leozinha!"

E assim começou a maratona de preparação. Francine, que nunca havia se importado com roupas além do seu avental de trabalho, agora se via em meio a tecidos, cores e espelhos. Elara, com seu senso de moda apurado e sua vasta coleção de roupas de viagem, aproveitou a oportunidade para transformar a amiga, revelando a beleza que Francine escondia.

"Não, isso não combina com o seu tom de pele", Elara diria, descartando um vestido com um ar crítico. "Isso aqui é muito simples para a nossa Leozinha. Precisamos de algo que mostre o seu brilho!"

Francine se sentia estranha, desconfortável no início, um peixe fora d'água em meio a tanta vaidade. Mas a cada peça que Elara escolhia, algo mudava dentro dela. Ela experimentou vestidos de veludo macio, xales bordados com fios brilhantes, e até mesmo um par de brincos que tilintavam suavemente a cada movimento. Elara penteou seu cabelo, que Francine geralmente prendia em um coque apressado, em tranças elaboradas e soltas, emoldurando seu rosto.

"Você tem um motivo agora, não é?", Elara provocou, enquanto Francine se olhava no espelho, quase irreconhecível, uma nova imagem que surgia diante de seus próprios olhos. "Um certo forasteiro de olhos brilhantes?"

Francine corou, mas não negou. Ela se olhou no espelho novamente, e pela primeira vez, não viu a garçonete rabugenta do "Canto do Dragão". Ela viu uma mulher linda, com olhos brilhantes e um sorriso hesitante, uma mulher que Johnny estava ajudando a desenterrar.

"O que o Johnny vai achar?", ela murmurou, a pergunta escapando de seus lábios, cheia de uma doce apreensão.

Elara sorriu, abraçando a amiga com carinho. "Ele vai achar que você é a mulher mais linda do festival, Leozinha. E ele estará certo."

Elas passaram quase o dia todo naquilo, e quando Francine finalmente saiu da casa de Elara, ela carregava não apenas um vestido novo, mas uma nova confiança, um brilho nos olhos que não existia antes. O Festival da Luz não era mais uma obrigação. Era uma celebração, e ela mal podia esperar para ver a reação de Johnny.


O Encontro Mágico e o Primeiro Beijo

Francine voltou para casa, o coração batendo forte com a expectativa, uma mistura de nervosismo e euforia. Ela se trancou em seu quarto, o vestido escolhido com Elara pendurado cuidadosamente, a promessa de uma noite especial. Enquanto se arrumava, ouviu uma batida na porta.

"Francine? Você está aí? Está tudo bem?", era a voz de Johnny, com um tom de preocupação que a fez sorrir.

"Sim, Johnny, estou bem!", ela respondeu, tentando soar casual enquanto ajustava o tecido do vestido, sentindo-o deslizar sobre sua pele. "Só estou experimentando uns vestidos. Pode ir na frente, ajudar meu pai a levar os copos e as bebidas para o festival. Eu te encontro lá."

"Certo. Não demore, Leozinha!", ele disse, e ela ouviu seus passos se afastando, um leve sorriso em seu rosto. Um sorriso bobo surgiu em seus lábios, a provocação antiga agora carregada de um carinho especial.

Quando Francine finalmente chegou ao local do festival, o ar já estava vibrante com a música, as risadas e o cheiro de comida quente e especiarias. As luzes coloridas penduradas entre as árvores criavam um brilho mágico na neve, transformando o cenário em algo saído de um sonho. Ela chamou a atenção imediatamente. Os moradores, que a conheciam apenas como a garçonete rabugenta do "Canto do Dragão", agora a elogiavam, seus olhos arregalados de surpresa e admiração.

"Francine, você está incrível!", disse uma vizinha, e Francine sentiu o rosto corar, mas desta vez, era um rubor de contentamento, de aceitação, de alegria.

Seus olhos varreram a multidão, procurando por ele, seu coração acelerando a cada passo. E então ela o viu. Johnny estava no centro de um círculo de dançarinos, rindo enquanto girava segurando a Lydia com Elara e Danilo, uma leveza e alegria que ela nunca havia presenciado. Ela o observava, um sorriso meio bobo em seu rosto, acompanhando cada movimento dele com os olhos, completamente fascinada pela sua liberdade e felicidade.

Assim que a música terminou, Johnny procurou por ela. Seus olhos se encontraram, e para ele, parecia que o mundo inteiro havia parado. A música, as luzes, a multidão... tudo desapareceu, desvanecendo-se para segundo plano. Havia apenas Francine, linda e radiante, no meio da neve iluminada, um anjo que desceu para ele. Ele a viu se aproximar, e seu coração disparou, batendo forte no peito.

Francine caminhou até ele, um sorriso suave nos lábios, um convite silencioso. Ela fez uma reverência graciosa, como uma dama de alta sociedade, algo que ela nunca imaginou fazer, um gesto que contrastava com sua antiga persona. "Boa noite, senhor."

Johnny ainda estava meio perdido na beleza dela, atordoado pela visão. Mas conseguiu sorrir. "Boa... boa noite, Francine. Você está... você está..." Ele se embolou nas palavras, pela primeira vez com ela, a calma habitual completamente desaparecida, substituída por uma admiração avassaladora.

Francine riu, um som melodioso que fez o coração dele pular, aquecendo sua alma. Ela estendeu o braço para ele, um convite para a dança da vida que estava por começar. "Gostaria de me acompanhar, senhor?"

Johnny sorriu, um sorriso bobo e apaixonado. Ele pegou o braço dela com delicadeza, e juntos, eles se misturaram à multidão, prontos para dançar a noite toda sob as luzes do Festival da Luz, a promessa de um futuro juntos brilhando mais forte do que todas as estrelas.

A noite no Festival da Luz foi mágica. Francine e Johnny se divertiram como nunca, rindo, conversando, dançando com uma alegria contagiante que irradiava deles. Eles trocavam carícias discretas – um toque de mão que se demorava um pouco mais, um sorriso cúmplice que só eles entendiam, um segredo compartilhado. A presença um do outro era um conforto constante, um calor que rivalizava com o fogo das fogueiras do festival, aquecendo suas almas.

Então, uma melodia calma e suave começou a preencher o ar. As luzes cintilavam, e os flocos de neve caíam lentamente, criando uma atmosfera etérea, de sonho. Um por um, os casais no festival começaram a se mover para a música, dançando lentamente, abraçados, perdidos em seus próprios mundos.

Johnny olhou para Francine, um convite silencioso e profundo em seus olhos. Ela sorriu, e ele a puxou para perto. As mãos dela encontraram o caminho para a nuca dele, os dedos se entrelaçando nos cabelos macios, um toque de pura familiaridade. As mãos dele repousaram suavemente em sua cintura, puxando-a ainda mais para perto, até que seus corpos estivessem quase colados, sem espaço para a dúvida.

Eles começaram a balançar suavemente ao ritmo da música, os olhos fixos um no outro. Para Francine, para Johnny, parecia que não existia mais ninguém no festival. A multidão, a música, o frio do inverno... tudo desapareceu, como se tivessem sido transportados para um universo particular. Havia apenas eles dois, perdidos no olhar um do outro, no calor de seus corpos, na batida sincronizada de seus corações, que agora pulsavam em um único ritmo.

O mundo se encolheu para apenas o espaço entre eles. Os olhos de Johnny desceram para os lábios de Francine, e ela sentiu um arrepio percorrer seu corpo, um presságio do que estava por vir. Ela fechou os olhos, em um convite silencioso, e ele se inclinou, sua respiração quente em seu rosto.

Então, seus lábios se encontraram.

Foi um beijo suave, hesitante no início, mas que rapidamente se aprofundou, carregando a força de todos os sentimentos guardados. Um beijo que carregava a promessa de tudo o que haviam sentido e guardado, de todas as barreiras que haviam quebrado. A doçura daquele momento, o calor que se espalhou por todo o seu corpo, era algo que Francine nunca havia experimentado, algo que transcendia o físico. Era o beijo que selava não apenas o amor que estava florescendo, mas também o fim de uma jornada solitária e o início de um futuro compartilhado. Quando se separaram, ofegantes, os olhos de Francine brilhavam com lágrimas de pura felicidade, e Johnny a olhava com uma adoração que tirava o fôlego, um amor incondicional refletido em seus olhos. A noite de inverno havia se tornado a noite mais quente de suas vidas, e o Festival da Luz, o palco de um amor que floresceria para sempre.

O Rugido da Leozinha e a Paz Restaurada

Após o beijo mágico sob as luzes do Festival da Luz, os dias se passaram como um rio calmo e feliz. Francine e Johnny eram, sem sombra de dúvida, um casal. A conexão que antes era um sussurro, agora era um rugido alegre, e a pequena Oakhaven testemunhava a transformação da "Leozinha do Cabaré".

A antiga Francine, que corava de vergonha e resmungava quando alguém perguntava sobre seu futuro com Johnny, havia desaparecido. Agora, quando os moradores mais curiosos, ou até mesmo Elara e Danilo, brincavam sobre quando eles iriam "ficar juntos de vez", Francine respondia com um sorriso confiante e um brilho nos olhos. "É só questão de tempo para a gente se casar", ela diria, deixando os fofoqueiros de boca aberta e os amigos em choque.

Até mesmo seus pais, que a conheciam como a filha teimosa e reservada, ficavam surpresos. Francine era uma locomotiva desenfreada, apaixonada por Johnny, e não fazia questão de esconder isso. Ela o elogiava abertamente, buscava seu toque, e seus olhos o seguiam por todo o bar com uma adoração que derretia o coração de qualquer um.

Johnny respondia na mesma sintonia. Seus olhos brilhavam quando ela se aproximava, e ele não hesitava em segurar a mão dela, em abraçá-la ou em sussurrar algo divertido em seu ouvido. A calma que o caracterizava agora era permeada por uma alegria contagiante, e ele parecia ter encontrado não apenas seu propósito, mas também seu lar ao lado de Francine.

Semanas e meses se passaram, e com eles, o inverno rigoroso começou a dar lugar à primavera. A neve derreteu, revelando a terra úmida e o verde brotando. O "Canto do Dragão" voltava a ter mais movimento, com a chegada de novos viajantes e o retorno dos moradores que haviam se isolado. Mas, para Francine e Johnny, o calor que havia florescido entre eles durante os meses frios continuava a aquecer seus corações, prometendo um futuro tão brilhante quanto os dias que se aproximavam. Eles eram a prova viva de que, às vezes, o amor mais inesperado pode surgir nos lugares mais improváveis, transformando vidas e corações.


A Sombra da Guerra e a Fúria de Johnny

Meses se passaram, e a primavera floresceu em Oakhaven, mas a tranquilidade da pequena cidade foi gradualmente substituída por uma tensão crescente. Havia uma guerra rolando, distante o bastante para não afetar diretamente o dia a dia, mas o conflito entre Sixcity e o 7º Reino de Smarron ecoava em rumores e na presença de forasteiros incomuns.

O mais estranho de tudo era a passagem frequente de cavaleiros de Nygrims por Oakhaven. Era algo inédito; em cem anos, cavaleiros de Nygrims nunca haviam se aventurado tão perto das ruínas do antigo reino. Eles passavam pelo "Canto do Dragão" com uma frequência alarmante, e Francine logo percebeu que, quando não estavam com seu líder, Antorio Nygrims, o próximo sucessor do 5º Distrito de Nygrims em Sixcity, eles eram abusados e arrogantes.

Antorio, quando passava pela cidade, era como se o próprio rei estivesse ali. Ele parecia gentil, com um ar de autoridade calma que controlava suas tropas. Mas quando ele não estava presente, os cavaleiros agiam como se fossem os donos do lugar, exigindo serviço, fazendo comentários grosseiros e tratando os moradores com desdém.

Francine, com sua personalidade de "Leozinha do Cabaré", não levava desaforo para casa. Ela batia de frente com eles, respondendo às suas insolências com a mesma ferocidade, seus olhos faiscando. "Vocês estão no meu bar, e aqui se respeita!", ela bradava, sem medo.

Os cavaleiros, acostumados a serem temidos, ficavam surpresos com a audácia dela. Mas quando a ameaçavam tocar, quando um deles ousava estender a mão em sua direção, aí, meus amigos, quem não se segurava era Johnny.

Ele, que normalmente era a calma em pessoa, se transformava. Seus olhos, antes brilhantes e gentis, se tornavam frios e perigosos. Uma vez, um cavaleiro, irritado com a resposta de Francine, levantou a mão para ela. Antes que o cavaleiro pudesse sequer tocar um fio de cabelo dela, Johnny estava lá, um borrão de movimento, o punho cerrado, a centímetros do rosto do homem.

"Não. Encoste. Nela.", a voz de Johnny era um rosnado baixo e ameaçador, tão diferente do seu tom habitual que assustava até Francine.

Danilo, que estava no bar, e a própria Francine, tinham que se apressar para segurá-lo. "Johnny, pare! Não vale a pena!", Francine sussurrava, puxando-o pelo braço, enquanto Danilo o segurava pelos ombros. O cavaleiro, pálido, recuava, sentindo o perigo que emanava de Johnny.

A presença dos cavaleiros de Nygrims trouxe uma nova camada de preocupação para Francine. Ela via a raiva contida em Johnny, a forma como ele a protegia, e sentia um misto de gratidão e medo. A guerra, antes distante, agora parecia ter chegado à porta de Oakhaven, e com ela, a ameaça de que a paz que ela havia encontrado com Johnny pudesse ser quebrada.


A Leozinha Defende Seu Reino

A presença dos cavaleiros de Nygrims no "Canto do Dragão" tornou-se uma fonte constante de atrito. Incapazes de provocar Johnny para uma briga direta, especialmente depois de sua demonstração de fúria controlada, eles recorreram a métodos mais mesquinhos para humilhá-lo. Deixavam copos "acidentalmente" caírem no chão, exigindo que Johnny os limpasse. Reclamavam da comida, dizendo que tinha algo errado, tudo para ter uma oportunidade de vê-lo se curvar.

Johnny, com sua paciência habitual e um desejo ainda maior de não causar problemas para Francine ou para o bar, aceitava calado. Ele limpava os cacos, pedia desculpas pela comida, e engolia as provocações com um olhar resignado. Mas cada vez que ele se curvava, a raiva de Francine fervia. Ela observava, os punhos cerrados, a "Leozinha" dentro dela rugindo silenciosamente, pronta para atacar.

Um dia, um grupo de cavaleiros estava sentado à mesa, rindo alto e fazendo comentários sobre o "serviço lento" de Johnny. Um deles, um homem corpulento com uma cicatriz no rosto, ergueu uma caneca de cerveja. "Ei, camponês! Esta cerveja está quente! Você não consegue nem servir uma bebida decente?"

Johnny se aproximou, a expressão vazia, pronto para se desculpar e trazer outra caneca. Mas antes que pudesse dizer uma palavra, Francine, que estava atrás do balcão, pegou a caneca da mão do cavaleiro.

"Quente, é?", ela rosnou, os olhos faiscando. Sem hesitar, ela ergueu a caneca e despejou o conteúdo gelado diretamente na cabeça do cavaleiro. A cerveja escorreu por seu rosto e armadura, pingando no chão. "E agora, está refrescante o suficiente para a sua excelência?"

O bar mergulhou em um silêncio chocado. O cavaleiro, encharcado e com a boca aberta, piscou, sem acreditar no que havia acontecido.

Francine não esperou por uma resposta. Ela jogou a caneca vazia no balcão com um baque. "Vocês querem briga? É isso? Pois bem! Fora! Fora do meu bar! E não voltem mais! Eu não vou tolerar a insolência de vocês aqui!", ela apontou para a porta, sua voz carregada de uma fúria que faria até um dragão recuar, um rugido que ecoou pelas paredes do "Canto do Dragão".

Os outros cavaleiros se levantaram, alguns com as mãos nos punhos, mas o olhar de Francine era tão intenso e os moradores no bar vendo a coragem dela, estando ao lado dela, e como os moradores estavam em maior número os cavaleiros bufaram e saíram resmungando.

Johnny, que havia ficado paralisado por um instante, rapidamente se moveu para o lado de Francine, colocando a mão em seu ombro, um gesto de apoio e preocupação. "Francine, calma. Não vale a pena.", ele tentou acalmá-la, um papel que ele raramente precisava assumir, acostumado a ser a calma em meio à tempestade de Francine.

Mas ela estava em chamas, defendendo seu reino e seu rei. "Vale sim! Eles não vão pisar na gente! Este é o nosso lar! E eles não vão nos humilhar!", ela empurrou Johnny levemente, querendo ir para cima dos cavaleiros, pronta para a batalha.

Johnny a segurou firme, puxando-a para trás, protegendo-a de si mesma. "Francine, por favor. Não é assim que resolvemos as coisas.", ele olhou para os cavaleiros, que se mover em direção à porta, chocados e humilhados, derrotados pela fúria da "Leozinha". "Vão. E não voltem."

Os cavaleiros, ainda pingando cerveja, saíram resmungando ameaças, mas sem se atrever a confrontar Johnny diretamente, sentindo o perigo que emanava dos moradores. Enquanto a porta se fechava atrás deles, Johnny se virou para Francine, que ainda tremia de raiva, mas com um brilho de orgulho em seus olhos.

"Francine, você não pode fazer isso toda vez", ele disse, a voz suave, mas firme, segurando-a pelos ombros, admirado com a coragem dela.

Ela o olhou, os olhos ainda faiscando, mas a fúria começando a diminuir, substituída por uma pontada de preocupação. "Eles estavam te humilhando, Johnny! Eu não ia deixar!"

Ele suspirou, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios, um sorriso de amor e gratidão. "Eu sei, Leozinha. Eu sei. Mas às vezes, é melhor deixar para lá.", ele a abraçou, e Francine, ainda ofegante, finalmente relaxou em seus braços, sentindo o calor e a segurança que ele lhe proporcionava. A "Leozinha do Cabaré" tinha defendido seu homem, e Johnny, pela primeira vez, havia sido o pacificador, um novo papel em sua relação.


A Vitória Silenciosa e a Paz Restaurada

A notícia do incidente no "Canto do Dragão" se espalhou como fogo pela pequena Oakhaven. A coragem de Francine, a "Leozinha do Cabaré", em enfrentar os arrogantes cavaleiros de Nygrims, inspirou os demais moradores. Se a Francine podia, por que eles não?

Nos dias seguintes, a atitude dos aldeões em relação às tropas mudou drasticamente. Quando os cavaleiros tentavam intimidar um comerciante, ele respondia com um olhar desafiador. Se tentavam exigir algo de um pescador, ele lhes dava as costas. Os métodos mesquinhos que usavam contra Johnny agora eram devolvidos em dobro pelos moradores, que se recusavam a se curvar. Oakhaven, antes um lugar de passagem silencioso, havia se tornado um ninho de vespas para as tropas de Nygrims, um lugar onde a arrogância não era tolerada.

A tensão aumentou até que, uma tarde, um grupo maior de cavaleiros apareceu no "Canto do Dragão", mas desta vez, eles não estavam sozinhos. À frente deles, montado em um cavalo imponente, estava Antorio Nygrims. Ele desceu do cavalo com uma graça calculada, seus olhos varrendo o bar com uma expressão séria, avaliando a situação.

Francine e Johnny estavam atrás do balcão, observando-o, lado a lado, prontos para qualquer coisa. Antorio caminhou até eles, e o silêncio no bar era quase palpável, a tensão cortando o ar.

"Senhorita Francine", Antorio disse, sua voz calma e ressonante, mas com um tom de autoridade inegável, impondo respeito. "Eu soube dos incidentes envolvendo minhas tropas. E eu vim pessoalmente pedir desculpas."

Francine piscou, surpresa. Ela esperava uma ameaça, uma repreensão, não um pedido de desculpas, algo que a pegou desprevenida. Johnny, ao lado dela, manteve-se em silêncio, observando Antorio com atenção, pronto para defender Francine se necessário.

"Meus homens", Antorio continuou, olhando para seus cavaleiros com um olhar severo, demonstrando sua desaprovação. "foram repreendidos por seu comportamento. Eles agiram de forma inaceitável, e isso não se repetirá.", ele então se virou para Francine, seus olhos fixos nos dela, buscando uma conexão. "Oakhaven é um ponto estratégico em tempos de guerra, e a cooperação de seus moradores é vital. Não podemos ter atritos desnecessários.", ele fez uma breve pausa, medindo suas palavras. "Minhas tropas serão retiradas da cidade e realocadas para uma rota mais distante. Elas não causarão mais problemas."

Um suspiro de alívio coletivo percorreu o bar. Os moradores, que estavam observando a cena em silêncio, prenderam a respiração e começaram a murmurar baixinho, celebrando a vitória.

Antorio Nygrims fez uma breve reverência, demonstrando respeito. "Mais uma vez, minhas desculpas. E obrigado pela sua... hospitalidade.", ele lançou um olhar rápido para Johnny, um brilho de reconhecimento em seus olhos, como se reconhecesse a força por trás da "Leozinha", antes de se virar e sair, montando em seu cavalo e liderando suas tropas para fora da cidade.

Oakhaven respirou aliviada. A ameaça havia sido removida. Francine olhou para Johnny, e ele sorriu para ela, um sorriso de orgulho e alívio, celebrando a vitória juntos. A "Leozinha do Cabaré" não só havia defendido seu bar, mas também havia inspirado toda a aldeia a se levantar. E Johnny, que havia sido seu protetor, agora era também seu parceiro em uma vitória silenciosa, mas significativa. A confiança entre eles havia se aprofundado ainda mais, cimentando seu lugar não apenas como um casal, mas como uma força a ser reconhecida em Oakhaven, um farol de esperança e resistência.


A Calma Perturbada e a Preocupação de Francine

Após a retirada prometida do exército de Nygrims, uma calma tensa pairou sobre Oakhaven. A presença de Antorio Nygrims e a subsequente partida de suas tropas deixaram uma pergunta inquietante no ar: por que eles estavam por aquelas bandas, tão perto das ruínas do antigo reino? Não havia nada de valor aparente ali, nenhuma rota comercial importante, nenhum recurso estratégico. A questão pairava como uma nuvem escura sobre a paz recém-adquirida, um presságio de que a tranquilidade era apenas superficial.

Algumas semanas depois, a resposta começou a se desenhar de uma forma mais sombria. Ataques nas redondezas de Oakhaven tornaram-se frequentes. Não eram ataques de bandidos comuns ou animais selvagens incomumente agressivos, o que era pior, de criaturas que os moradores não conseguiam identificar, vindas das profundezas da floresta ou das próprias ruínas. Um medo irracional começou a se espalhar, sussurrado de casa em casa.

Com poucos guardas na cidade – apenas Danilo e alguns outros – todos os homens, incluindo Johnny, começaram a se revezar para proteger Oakhaven à noite. Eles montavam vigília nos limites da cidade, armados com o que tinham, olhos e ouvidos atentos a qualquer som suspeito que viesse da escuridão. A cada noite, o cheiro de fumaça das fogueiras de vigília se misturava ao ar gélido, e o silêncio da noite era quebrado apenas pelo ranger da neve sob os passos vigilantes.

Isso deixou Francine profundamente preocupada. Cada noite em que Johnny estava lá fora, ela não conseguia dormir. Deitada em sua cama, ela ouvia o vento uivando, os galhos das árvores batendo na janela, e cada ruído distante a fazia pular. Sua mente imaginava o pior: um ataque de um urso faminto, a investida de uma criatura desconhecida, ou um confronto com algo ainda mais perigoso. O peito dela apertava-se em uma angústia crescente.

Ela se levantava da cama, ia até a janela e observava a escuridão, tentando discernir a silhueta de Johnny entre as sombras. A cada hora que passava, a ansiedade apertava seu peito. Ela sabia que Johnny era forte, capaz, mas a ameaça era invisível, imprevisível, e isso a consumia.

As noites se tornaram longas e insones para Francine. Ela preparava café quente para ele quando ele voltava, exausto, ao amanhecer, e só então, com ele seguro ao seu lado, ela conseguia fechar os olhos e adormecer, exausta pela preocupação. A guerra distante havia trazido uma nova e perigosa realidade para Oakhaven, e o medo pela segurança de Johnny era um fardo pesado em seu coração.


O Grito na Floresta e a Desesperada Busca

Era tarde quase anoitecendo, era a ronda de Johnny. Ele estava cobrindo Danilo que queria passar um tempo com Elara ele concordou tranquilamente, Danilo até pediu para avisa Lydia para quando termina de brincar com as crianças ir até o bar encontrá los, Francine estava ocupada no restaurante, a mente focada nos pedidos e na contabilidade. A preocupação com os ataques noturnos era uma constante, mas ela confiava na força e na astúcia dele.

De repente, a porta do "Canto do Dragão" se abriu com um estrondo, e um guarda entrou, ofegante, o rosto pálido de terror. Ele procurava por Danilo, a voz embargada pelo pânico. "Danilo! Danilo! Umas crianças... eu acho... Johnny disse... que Lydia estava junto também... foram levadas para dentro da floresta! Algo as arrastou! E Johnny... Johnny foi atrás sozinho!"

Francine, que estava servindo uma mesa, sentiu o mundo girar. A bandeja escorregou de suas mãos, os copos se estilhaçando no chão, mas ela não ouviu o barulho. Seu coração parou. Johnny. Sozinho. Naquela floresta escura, com "algo" que levava crianças. Um grito de desespero subiu por sua garganta, e ela fez menção de correr para a porta, para a floresta, para ele.

Elara, igualmente desesperada por terem levado sua filha Lydia também, reagiu rapidamente. Ela agarrou Francine pelos braços, segurando-a com força, enquanto ela mesma se segurava para ir atrás da filha. "Não, Francine! Não vá! Danilo, vá! Vá atrás de nossa filha e Johnny!", disse ela, quase gritando de desespero, contendo Francine que se debatia.

Danilo assentiu, pegando sua arma e correndo para fora, desaparecendo no meio da floresta com outros homens. Francine se debatia nos braços de Elara, as lágrimas escorrendo pelo seu rosto. "Me solta! Eu preciso ir! Ele está sozinho!"

"Ele não está sozinho agora! Danilo está com ele!", Elara tentava acalmá-la e se acalmar também, mas a voz de Francine era um lamento de angústia.

Horas se arrastaram, cada minuto uma eternidade. A cidade inteira estava em vigília. Homens com tochas se reuniam na praça, mulheres e crianças se amontoavam nas casas, os olhos fixos na escuridão da floresta. Francine não sabia o que pensar. Sua mente se recusava a formar imagens. Ela se segurava para não chorar, para não desabar, enquanto Elara a abraçava, murmurando palavras de conforto que não alcançavam seus ouvidos. Elara falava mais para si mesma também. O silêncio da noite foi quebrado por um grito vindo da floresta. "Olha! Tem algo está vindo!"

Todos se viraram para a direção do som. E então, eles apareceram. As crianças. As duas crianças e Lydia nos braços de Johnny, desacordada, que haviam sido levadas. Elas emergiram da escuridão, ofegantes, cobertas de sangue e lama, segurando-se em Johnny, assustadas. Ele sangrava de vários lugares, a roupa rasgada. Mas seus olhos estavam abertos, fixos nas crianças, um brilho de determinação ainda presente. Ele cambaleou, tentando se manter de pé, mas suas pernas cederam. Elara correu até ele, pegando Lydia, o agradecendo chorando, ouvindo a respiração de Lydia, indicando que ela estava bem. Ele sorriu com dificuldade. As demais crianças correram até seus pais, chorando, e eles os pegaram com delicadeza, chorando também, olhando para Johnny agradecendo. "De... na...da."

Ele olhou para Francine, que corria em sua direção, o rosto banhado em lágrimas. Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios, um sorriso de alívio por vê-la, por saber que as crianças estavam a salvo. E então, seus olhos se fecharam, e ele desmaiou, caindo pesadamente np chão

Francine caiu de joelhos ao lado dele, as mãos tremendo enquanto tocava seu rosto coberto de sangue. "Johnny! Não! Johnny!" Seu grito cortou o ar gelado da noite, um lamento de dor e desespero. A "Leozinha do Cabaré" estava quebrada, e o homem que havia se tornado seu mundo estava em perigo.


O Despertar no Verão e a Tempestade de Francine

Johnny não sabia quanto tempo havia se passado. A escuridão o havia engolido, e agora, a luz que filtrava pelas cortinas era suave, tingida de tons vibrantes e alegres. Parecia tarde. Ele sentiu uma pontada de dor em seu corpo, mas era uma dor familiar, não a agonia do momento em que desabou. Tentou se mover, e percebeu que seus ferimentos, embora ainda doloridos, estavam cicatrizados na medida do possível.

Ele olhou para a janela. O barulho das cigarras estava presente, indicando que era verão.

"Quanto tempo passou?", ele pensou, a voz em sua mente soando fraca.

Seu olhar então caiu sobre a poltrona ao lado de sua cama. Francine. Ela estava ali, encolhida, dormindo profundamente. Era o quarto dela, ele reconheceu o cheiro de lavanda e o cobertor familiar. Ela parecia exausta. Dava para ver pelas olheiras profundas sob seus olhos, que estavam levemente vermelhos. Sua pele estava pálida, como se não tivesse comido direito. O que ela passou?

Ele ficou ali, observando-a, o coração apertado por vê-la tão desgastada. A imagem dela correndo em sua direção, o desespero em seu rosto, a última coisa que ele viu antes de desmaiar, voltou à sua mente, ela estava ali, cuidando dele, exausta.

Ele continuou a observá-la, cada respiração dela, cada movimento suave de seu corpo na poltrona. Ele queria estender a mão e tocá-la, mas temia acordá-la. A gratidão e um afeto profundo o invadiram. Ele esperou, pacientemente, até que ela finalmente se mexesse, um pequeno suspiro escapando de seus lábios, e seus olhos se abrissem lentamente.

Francine despertou lentamente, a luz suave do quarto filtrando-se por suas pálpebras. Seus olhos se abriram, e a primeira coisa que viu foi Johnny. Ele estava ali, deitado na cama, olhando para ela. Por um instante, ela pensou que era um sonho, como tantos outros que teve durante as longas semanas de sua inconsciência. Nos seus sonhos, ele sempre acordava, sorria para ela, e dizia algo reconfortante.

Ela piscou, a visão ainda um pouco embaçada pelo sono e pela exaustão. "Johnny?", ela murmurou, a voz rouca, quase um sussurro. A esperança se misturava ao medo de que ele desaparecesse como nas outras vezes.

Ele sorriu, um sorriso fraco, mas que alcançou seus olhos. "Sim, Leozinha. Sou eu." Ele riu baixinho, e a voz dele era real, não o eco distante de seus sonhos. "Espero que não seja um sonho desta vez."

As palavras dele a atingiram como um choque. "Espero que não seja um sonho." Aquilo... ele sabia. Ele sabia dos seus sonhos, das suas noites de angústia. Aquela frase, tão simples, mas tão carregada de significado, a fez despertar completamente. Não era um sonho. Ele estava realmente ali, acordado.

Francine se levantou da poltrona com um sobressalto, o corpo dolorido pela posição desconfortável. Ela se aproximou da cama, os olhos arregalados, as mãos tremendo levemente. "Você... você acordou", ela gaguejou, as lágrimas começando a se formar em seus olhos.

Johnny estendeu a mão para ela, e Francine a segurou. O calor da pele dele, a firmeza de seu toque, tudo era real. Ela se inclinou, o rosto banhado em lágrimas de alívio, e o abraçou com cuidado, sentindo o cheiro dele, a respiração dele. Ele estava vivo. Ele estava ali. E não era um sonho.

Francine o abraçou com força, as lágrimas escorrendo pelo rosto, molhando a camisa dele. Ela não conseguia parar de tremer de alívio. Johnny, sentindo a fragilidade dela, a abraçou de volta com o braço que não estava ferido, confortando-a.

Quando ela finalmente se acalmou um pouco, Johnny a afastou gentilmente, olhando para ela com uma mistura de confusão e preocupação. "O que aconteceu? Quanto tempo passou? E as crianças? Lydia? Espera... quem está tomando conta do bar?" As perguntas saíram em um fôlego, a mente dele tentando preencher as lacunas da memória.

Francine enxugou as lágrimas com a palma da mão, um sorriso fraco surgindo em seus lábios. "Você... você desmaiou na floresta, Johnny. Você trouxe todas, incluindo a Lydia. Você estava muito machucado." Ela fez uma pausa, a voz embargada. "Passaram-se... quase dois meses. Você dormiu por toda a primavera. Agora é verão."

Os olhos de Johnny se arregalaram. Dois meses? Ele havia perdido uma estação inteira. A dor em seu corpo, embora suportável, agora fazia sentido.

"As crianças?", ele perguntou, a preocupação evidente em sua voz.

"Elas estão bem", Francine respondeu, um alívio claro em seu rosto. "Assustadas, mas bem. Você as salvou, Johnny. Você é um herói."

Ele balançou a cabeça, um leve rubor subindo por seu pescoço. "Eu só... fiz o que tinha que fazer. Mas o bar? Quem está cuidando do Canto do Dragão?"

Francine riu baixinho, uma risada que era uma mistura de cansaço e carinho. "Eu. Eu estou cuidando. E o papai, claro. Elara e Danilo também ajudam quando podem. Não se preocupe com isso, Johnny. O bar está bem. O importante é que você está acordado." Ela segurou a mão dele com mais força, os olhos fixos nos dele, cheios de uma emoção que ele não precisava de palavras para entender.

O alívio de Johnny por saber que as crianças e o bar estavam bem foi rapidamente substituído pela intensidade da emoção de Francine. Ela o olhava, e a alegria em seus olhos deu lugar a uma fúria crescente, uma raiva que vinha do medo mais profundo.

" Raiva de medo por perdê-lo. Como ele pôde ser tão irresponsável?", ela pensou, e as palavras escaparam de seus lábios, carregadas de uma dor que ela mal conseguia conter. "Como você pôde ser tão irresponsável, Johnny? Ir sozinho! Eu entendo que era pela Lydia e as crianças, mas você não estava sozinho! Você me tem agora em sua vida!"

A voz dela subiu, quase um grito, enquanto as lágrimas voltavam a rolar por seu rosto. Ela não conseguia se segurar. A raiva, o medo, a exaustão de dois meses de preocupação, tudo explodiu de uma vez. Ela se jogou sobre ele, abraçando-o cuidadosamente para não machucar seus ferimentos, mas com uma força que demonstrava a intensidade de seus sentimentos.

"Você tem que me prometer, Johnny! Prometa que nunca mais vai fazer uma coisa dessas novamente! Prometa que nunca mais vai me deixar com esse medo!" Ela tremia em seus braços, as palavras abafadas contra o peito dele. "Eu senti tanto... tanto medo de te perder."

Johnny, que havia ficado em silêncio, absorvendo a torrente de emoções dela, sentiu o corpo dela tremer contra o seu. Ele a abraçou de volta, a mão dele acariciando o cabelo dela. Ele não disse nada imediatamente. Não havia palavras que pudessem acalmar a tempestade que ela havia passado. Ele apenas a segurou, sentindo o peso de suas lágrimas e o medo que ela havia carregado.

Ele sabia que ela estava certa. Ele não estava sozinho. E a visão dela, tão exausta e assustada, fez seu coração se apertar. Ele beijou o topo da cabeça dela, um gesto de promessa silenciosa. Ele não faria isso de novo. Não a deixaria passar por isso novamente. Aquele abraço, as lágrimas dela, a raiva misturada ao medo, tudo isso era a prova do quanto ele significava para ela, e o quanto ela significava para ele.


O Herói Esquecido e a Protetora Francine

Com os dias se transformando em semanas, Johnny finalmente conseguiu voltar a andar, embora com uma leve claudicação que persistia. Ele voltou para o "Canto do Dragão", mas seu lugar agora era atrás do balcão, fazendo o mínimo. Seus movimentos eram mais lentos, e um ar de distração pairava sobre ele.

Os moradores de Oakhaven, aliviados e gratos, vinham ao bar para agradecer ao heroi que havia salvado as crianças. Eles o abraçaram, apertaram sua mão. Elara e Danilo não paravam de agradecê- lo por salvar Lydia assim o substituindo nos afazeres do bar até ele se recuperar, e Lydia que ficava com ele brincando e agradecendo-o. Inevitavelmente, perguntavam: "Johnny, o que aconteceu lá na floresta? O que era aquela coisa? Como você conseguiu?"

Johnny tentava se lembrar. Ele fechava os olhos, tentando puxar as imagens da escuridão, mas nada vinha. Apenas um vazio enorme, uma tela preta na sua mente. E, às vezes, um lampejo rápido, uma sensação de algo sinistro, e a imagem fugaz de olhos... olhos que eram de um amarelo intenso. Pareciam...

Mas antes que ele pudesse terminar a frase, Francine, que estava sempre por perto, atenta a cada conversa, o interrompia. "Deixem ele em paz!", ela diria, a voz firme, colocando a mão no ombro de Johnny. "Ele não precisa reviver isso. Ele está bem, e as crianças também. Isso é o que importa."

Ela lançava um olhar severo para quem quer que estivesse perguntando, e os moradores, compreendendo, recuavam. Francine não queria que ele se forçasse a lembrar. Ela via a dor em seus olhos quando ele tentava, a forma como ele se perdia naquele vazio. A "Leozinha do Cabaré" estava mais protetora do que nunca, guardando não apenas o corpo de Johnny, mas também sua paz de espírito. Ela o observava com um carinho que só ela podia ver, sabendo que, por trás daquele vazio, havia um herói que havia dado tudo de si.

Sim. Para sempre sim.

A paz finalmente retornou a Oakhaven. Após a morte da criatura misteriosa que havia aterrorizado as redondezas, nenhum ataque foi avistado. Os guardas de Nygrims eram raros, apenas passavam para coletar informações e comprar mantimentos, seguindo viagem, deixando a pequena cidade em sua tranquilidade habitual.

Johnny, agora recuperado de seus ferimentos, embora com a memória da floresta ainda um vazio assustador, tinha mais tempo para observar Francine. Ele a via se mover pelo bar, rindo com os clientes, brigando com os fornecedores, e cuidando dele com uma ferocidade protetora. A cada dia, a certeza crescia em seu coração: ele queria estar com ela para sempre. Ela era seu lar, seu propósito, a leoa que ele nunca soube que precisava.

Em uma noite, após fecharem o bar, o silêncio preencheu o "Canto do Dragão", que agora parecia um lar. Francine veio até Johnny, um sorriso cansado, mas feliz, nos lábios. "Vamos, forasteiro. Hora de ir para casa." Ela estendeu a mão para ele, um convite silencioso para subirem as escadas juntos, como faziam todas as noites.

Mas quando ela estava prestes a subir o primeiro degrau, Johnny a parou. "Francine... espera." A voz dele estava um pouco rouca, e ele parecia nervoso, algo que ela raramente via nele.

Ela se virou, curiosa. Ele se ajoelhou ali mesmo, no início da escada, um joelho no chão de madeira gasta. Francine piscou, o coração disparando. Ele levou a mão ao bolso, e de lá tirou uma pequena caixinha de madeira. Ao abri-la, um anel simples, mas bonito, com uma pedra azul que refletia a luz fraca do bar, brilhou.

Antes mesmo que ele pudesse formular as palavras, antes que ele pudesse fazer o pedido, Francine não conseguiu se conter. As lágrimas já escorriam pelo seu rosto, e a emoção era tão avassaladora que ela se jogou sobre ele, derrubando-o no chão da taverna.

"Sim! Sim! Sim!", ela repetia, os braços em volta do pescoço dele, as lágrimas molhando seu rosto.

Johnny riu, um som abafado e feliz, enquanto a abraçava de volta. "Eu nem consegui pedir, Leozinha!"

Francine balançou a cabeça, rindo e chorando ao mesmo tempo. Ela o olhou nos olhos, a felicidade transbordando. "Sim. Para sempre sim, Johnny." E ali, no chão do "Canto do Dragão", entre risadas e lágrimas, eles selaram seu futuro, um futuro que seria construído juntos, um dia de cada vez.

A notícia do noivado de Francine e Johnny se espalhou por Oakhaven mais rápido que um incêndio em palha seca. Os moradores, que haviam acompanhado a estranha e cativante história dos dois, inundaram-nos com parabéns e votos de felicidade. O pai e a mãe de Francine, especialmente, estavam eufóricos.

"Vamos marcar o casamento para amanhã!", a mãe de Francine exclamou, os olhos brilhando de alegria. "Não há tempo a perder! Oakhaven precisa de uma festa!"

Francine, embora radiante de felicidade, sentiu um aperto no peito. "Mãe, pai! Calma! Temos o bar para cuidar. As coisas estão muito movimentadas agora, não podemos simplesmente parar de trabalhar." Ela olhou para Johnny, que assentiu em concordância.

Johnny observava Francine, a forma como ela falava sobre o bar, a dedicação em seus olhos. Ele sabia o quanto ela amava aquele lugar, o quanto ela se sentia responsável por ele. Mas ele também se lembrou de suas conversas com Elara, da curiosidade de Francine sobre o mundo, e daquele dia em que, sem querer, ele tocou em sua ferida ao perguntar se "tudo bem morrer ali". Ele percebeu que, por trás de toda a sua dedicação ao "Canto do Dragão", havia um desejo mais profundo, um sonho adormecido.

Naquela noite, depois que o bar fechou e eles estavam sozinhos no quarto de Francine, Johnny se virou para ela. Ele segurou as mãos dela, olhando em seus olhos. "Francine, eu sei que você ama o bar, e eu também. Mas... o que você realmente quer? O que você sonha em fazer, além de cuidar do Canto do Dragão?"

Francine piscou, surpresa pela pergunta direta. Ela já havia falado sobre isso antes, mas sempre de forma superficial. Desta vez, ela se aprofundou. "Eu... eu gostaria de conhecer outros lugares, Johnny. Pelo menos uma vez. Eu queria ter sido como você, ou como a Elara, ou até mesmo como meu irmão. Ver o mundo, aprender coisas novas, ter histórias para contar." Ela suspirou, um sorriso melancólico nos lábios. "Mas agora... agora que você está aqui, eu não preciso de mais nada. Eu tenho você."

Johnny sorriu, um sorriso caloroso que a fez sentir-se completamente amada. "Eu digo o mesmo, Leozinha. Eu tenho você, e isso é tudo o que eu preciso." Ele apertou as mãos dela. "Mas... eu desejo pelo menos realizar parte desse seu sonho."


O Plano Secreto de Johnny

Nos dias seguintes, Johnny agiu em segredo. Ele foi até os pais de Francine, encontrando-os na cozinha do bar. Barnaby e sua esposa o olharam com curiosidade.

"Senhor e senhora", Johnny começou, um pouco nervoso, mas determinado. "Eu preciso pedir um favor. Um favor... um pouco ousado."

Os pais de Francine trocaram um olhar. "O que é, meu rapaz?", Barnaby perguntou, desconfiado.

"Eu... eu gostaria de sequestrar a filha de vocês", Johnny disse, e a mãe de Francine soltou um pequeno grito. "Calma! Não é o que vocês estão pensando! Eu quero levá-la para ver o mundo. Apenas por uns três a seis meses. Para mostrar a ela os lugares que ela sempre sonhou em conhecer."

Ele viu a confusão nos rostos deles e continuou. "Francine faria de tudo por este lugar, por vocês. Ela se sente presa, mas nunca admitiria. Ela tem sonhos de viajar, de ver o mundo, de ter histórias. E eu quero dar isso a ela." Ele respirou fundo. "Eu prometo que vamos voltar. E quando voltarmos, e se ela quiser, assumimos o bar de vez.’’

Barnaby e sua esposa se entreolharam, surpresos. A ideia de Johnny, a paixão em seus olhos ao falar do sonho de Francine, a promessa de assumir o bar... Era um plano louco, mas fazia todo o sentido. Eles sabiam o quanto Francine se sacrificava pelo bar, e o quanto ela sonhava em segurar o mundo nas mãos.

Um sorriso lento se espalhou pelo rosto de Barnaby. "Você é um bom rapaz, Johnny", ele disse, um brilho de aprovação em seus olhos. "E a nossa Leozinha... ela merece ver o mundo."

A mãe de Francine, com lágrimas nos olhos, assentiu. "Sim. Ela merece."

E assim, em segredo, os pais de Francine aceitaram o plano de Johnny. A "Leozinha do Cabaré" estava prestes a embarcar em uma aventura que mudaria sua vida, sem saber que o homem que amava estava orquestrando tudo para realizar seu sonho mais profundo.


O Grande Desvio

Era um dia comum, ensolarado e fresco, perfeito para uma das habituais viagens de carruagem que Johnny e Francine faziam para pegar estoque nas fazendas locais. Francine estava relaxada ao lado de Johnny, cantarolando baixinho, enquanto a carruagem balançava suavemente. Ela não percebeu nada de diferente no início.

Mas os minutos se estenderam, e a paisagem começou a mudar. As fazendas familiares deram lugar a estradas menos batidas, e a vegetação se tornou mais densa. Francine franziu a testa. "Johnny?", ela perguntou, a voz um pouco confusa. "Por que estamos demorando tanto? E... essa estrada não parece familiar. Estamos no caminho errado?"

Johnny sorriu de lado, um brilho travesso em seus olhos. "Eu sei, Leozinha."

Francine o olhou, completamente confusa. "Sabe? Sabe o quê? Johnny, temos que voltar! O bar..."

Ele riu, uma risada suave que a fez prender a respiração. "Estamos pegando um desvio, Francine. Um desvio que vai levar... em torno de três a seis meses." Ele parou a carruagem em uma pequena clareira, o sol filtrando-se pelas árvores. "Mas vai valer a pena, eu prometo."

Os olhos de Francine se arregalaram. Três a seis meses? A ideia era absurda. "O quê? Três a seis meses? Johnny, você enlouqueceu? Não podemos deixar o bar! Meus pais... o movimento..." Ela começou a listar todas as razões pelas quais aquilo era impossível, a voz subindo em um tom de pânico.

Johnny estendeu a mão acariciando o rosto dela, que ser virou pro mesmo parando de fala. "Seus pais vão aguentar as pontas, Leozinha. E a Elara e o Danilo também vão ajudar. Eu tenho a bênção deles."

Francine piscou, as palavras dele a atingindo como um raio. A bênção deles? Meus pais sabiam? Ela tentou responder, mas as palavras se embolaram em sua garganta.

Aproximando-se dela. Seus olhos se encontraram, e um sorriso terno se espalhou pelo rosto de Johnny. Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, ele a interrompeu com um beijo. Um beijo suave cheio de promessa, que silenciou todas as suas dúvidas e medos.

Quando ele se afastou, seus lábios roçando os dela, ele sussurrou: "Shii. Apenas aceite, Francine. É a sua vez de ver o mundo."

E assim, em um desvio inesperado em uma estrada familiar, Francine e Johnny partiram em uma viagem ao mundo afora. A "Leozinha do Cabaré", que pensava que morreria em Oakhaven, estava finalmente embarcando em sua própria aventura, guiada pelo homem que a amava e que havia prometido realizar seus sonhos. O mundo esperava por eles.


O Lar de Johnny e a Surpresa Inesperada

A carruagem de Johnny e Francine balançava suavemente pela estrada, e a cada milha percorrida, o coração de Francine batia mais forte. A surpresa inicial havia dado lugar a uma excitação crescente. Ela estava realmente fazendo isso. Viajando. Com ele.

A primeira parada de Johnny foi seu antigo lar. A carruagem subiu uma colina suave, e então Francine a viu. Não era apenas uma fazenda, mas duas enormes, com campos que se estendiam até onde a vista alcançava. E um pouco afastada das construções principais, perto de uma colina coberta de árvores, havia uma pequena casa de dois andares, aconchegante e convidativa. Algumas árvores antigas e frondosas a cercavam, oferecendo sombra e um ar de tranquilidade.

Johnny parou a carruagem, e Francine desceu, os olhos arregalados. A casa era simples, mas tinha um charme rústico, com uma varanda convidativa e janelas que pareciam sorrir. Ele a guiou para trás da casa, e foi então que a verdadeira beleza do lugar se revelou.

A vista era de tirar o fôlego. Ao longe, as imponentes e misteriosas ruínas dos 5 Reinos de Nygrims se erguiam, banhadas pela luz do sol, parecendo ainda mais grandiosas daquela distância. E abaixo, estendendo-se majestosamente, havia um grande lago,O lago das lágrimas, suas águas cintilando sob o sol. Era um cenário de uma beleza serena e selvagem, um contraste marcante com a poeira e a agitação de Oakhaven.

"É aqui", Johnny disse, a voz baixa, um misto de nostalgia e orgulho. "Minha casa."

Francine não conseguiu dizer nada. Ela apenas olhou para a paisagem, para a casa, para Johnny. Era lindo. Mais do que ela poderia ter imaginado. Era o lar do homem que ela amava, e de repente, ela sentiu uma conexão profunda com aquele lugar, com o passado dele, com tudo o que ele havia deixado para trás. A aventura havia apenas começado, e já estava superando todas as suas expectativas.


Reencontro e Celebração

A luz das velas na pequena casa de dois andares de Johnny cintilava através das janelas, um farol na escuridão da noite. Não demorou muito para que Math e Nana, de suas fazendas vizinhas, notassem a carruagem parada e as luzes acesas. Curiosos e um tanto surpresos, eles se aproximaram, e seus rostos se iluminaram ao ver Johnny e Francine na varanda.

"Johnny! Vocês chegaram!", Nana exclamou, correndo para abraçar o amigo, seguida de perto por Math. "O que fazem aqui?

Johnny riu, abraçando-os de volta. "A gente resolveu adiantar a visita. E eu tenho uma novidade para vocês." Ele olhou para Francine, que estava ao seu lado, um sorriso radiante no rosto.

Francine não esperou. Com um brilho nos olhos e um sorriso que ia de orelha a orelha, ela anunciou: "Nós estamos noivos!"

Math e Nana piscaram, e então seus rostos se abriram em sorrisos ainda maiores. Nana soltou um gritinho de alegria e abraçou Francine com força. "Meu Deus! Eu sabia! Eu sabia que vocês combinavam!"

"E ele me sequestrou!", Francine acrescentou, com um tom de brincadeira, mas com os olhos cheios de carinho por Johnny. "Disse que vai realizar meu desejo de conhecer o mundo antes de voltarmos para o casamento!"

Math e Nana se entreolharam, e seus olhos se encheram de uma "fofura" que Francine nunca havia visto. Nana apertou as mãos de Johnny. "Oh, Johnny! Você é tão romântico! Eu não acredito! Math, você está vendo isso? Você precisa fazer igual!"

Math, que estava com um sorriso bobo no rosto, apenas balançou a cabeça, rindo. "Eu já sou romântico, Nana! Só não sequestrei ninguém ainda!"

Johnny, com o rosto ligeiramente corado, mas um sorriso de pura felicidade, abraçou Francine pela cintura. "Ela merece ver o mundo."

Eles passaram a noite colocando o papo em dia, com Math e Nana fazendo mil perguntas sobre o noivado e a viagem. Francine, pela primeira vez, sentiu-se completamente à vontade para compartilhar seus sonhos e a loucura romântica de Johnny. O lar de Johnny, com suas paisagens deslumbrantes e sua família de coração, era o começo perfeito para a aventura que os esperava.

Os dias se desenrolaram na antiga fazenda de Johnny, preenchidos por conversas, risadas e a descoberta de um passado que Francine ansiava por conhecer. Johnny mostrou a ela cada canto da casa, cada cômodo, cada detalhe que guardava uma memória.

"Meus pais eram tipo os administradores das fazendas", Johnny explicou, enquanto eles observavam os campos verdes da varanda. "Por isso a casa fica aqui na colina. Não éramos os donos, mas cuidávamos de tudo em troca de comida e mantimentos para a nossa família."

Eles entraram na sala de estar, e Johnny apontou para um retrato empoeirado pendurado na parede. Era uma imagem antiga, desbotada, mas Francine reconheceu os rostos. Johnny, ainda criança, com Math e Nana, e ao lado deles, os pais de Johnny e os pais de Math e os pais de Nana. Uma família unida, sorrindo para o futuro.

O sorriso de Johnny se desfez em uma melancolia suave. "Eles... eles foram mortos em um transporte que traziam para cá", ele disse, a voz baixa, quase um sussurro. "Uma avalanche pegou a carruagem deles nas Montanhas Uivantes."

Francine sentiu um aperto no peito. A história que ela tanto queria saber, a peça que faltava no quebra-cabeça do andarilho, era uma tragédia.

"A última vez que falei com eles...", Johnny continuou, os olhos fixos no retrato, "foi uma briga. Eu queria conhecer o mundo, viajar, mas eles estavam preocupados. Queriam que eu ficasse na fazenda, seguro. E depois... com o luto, eu não aguentava mais ficar aqui. Tudo me lembrava deles."

Francine ouviu em silêncio, absorvendo cada palavra. A dor na voz de Johnny era palpável. Ela sabia agora o que o havia transformado em um andarilho, o que o havia levado a buscar um propósito em terras distantes. Sem pensar, ela foi até ele, e o abraçou com força, aninhando o rosto em seu ombro. Ele a abraçou de volta, e por um longo momento, o silêncio preencheu o quarto, um silêncio de conforto e compreensão mútua.

Depois de um tempo, Johnny se afastou um pouco, um sorriso fraco nos lábios. "Venha. Tem mais uma coisa que eu quero te mostrar."

Ele a levou para um pequeno quarto no segundo andar. Era um quarto simples, mas as paredes estavam cobertas de mapas, alguns desenhados à mão, outros velhos e desgastados. Havia anotações rabiscadas em pedaços de pergaminho, e uma pilha de livros sobre história, geografia e lendas antigas.

"Este era o meu quarto", Johnny disse, um brilho de nostalgia em seus olhos. "Meu quarto de futuro explorador." Ele apontou para um mapa antigo. "Eu sonhava em ir para cá, e para cá... Eu passava horas planejando rotas, lendo sobre lugares distantes."

Francine olhou para os mapas, para os livros, para as anotações. Ela viu o menino que Johnny havia sido, o sonhador que ansiava por ver o mundo. E agora, ela estava ali, ao lado dele, prestes a realizar não apenas o seu sonho, mas também o dele. O quarto era um testamento silencioso de sua jornada, e Francine sentiu uma onda de amor e gratidão por aquele homem que estava compartilhando seu passado e seu futuro com ela.

Johnny a abraçou em seu antigo quarto, cercado pelos mapas e sonhos de sua juventude. "E é isso", ele disse, a voz baixa, olhando para os mapas na parede. "Como eu não tinha mais nada, me tornei andarilho. Clichê, né? Conheci várias pessoas, cidades e reinos... mas quem diria que acharia meu propósito tão perto de casa." Ele a olhou, e o carinho em seus olhos a atingiu profundamente.

Francine retribuiu o olhar, aninhando-se mais perto dele. "O mesmo para mim, Johnny", ela sussurrou. "Eu pensava que estava presa em Oakhaven, mas na verdade, eu estava esperando por você."

Eles passaram quase um mês ali, na antiga casa de Johnny, vivendo já como casados. Os dias eram preenchidos com a simplicidade da vida na fazenda, com Math e Nana por perto, e as noites, com conversas sussurradas e o calor de seus corpos sob os cobertores. Johnny mostrou a ela os campos, ensinou-a a identificar as estrelas que ele usava para se guiar em suas viagens, e Francine, pela primeira vez, sentiu-se completamente em paz.

Ela observava Johnny enquanto ele ajudava Math com a colheita, ou quando ele sentava na varanda, olhando para o lago e as ruínas distantes. Ele era tão diferente do forasteiro que havia chegado ao "Canto do Dragão", tão mais aberto, tão mais feliz. E ela, a "Leozinha do Cabaré", sentia-se mais leve, mais livre do que nunca.

Francine pensava que adoraria morar com ele ali para sempre. Ter uma família, ver os filhos correndo pelos campos, viver uma vida simples e feliz. Aquele lugar, o lar de Johnny, havia se tornado também o seu lar, um refúgio de paz e amor. O mundo lá fora ainda os esperava, mas por enquanto, naquele canto tranquilo, eles estavam construindo as bases de um futuro que parecia mais brilhante do que qualquer mapa poderia descrever.


O Início da Jornada Real

A manhã da partida da fazenda chegou, trazendo consigo um misto de emoções para Francine. Ela estava feliz, sim, por continuar a aventura, por ver o mundo que Johnny prometera mostrar a ela. Mas havia uma pontada de tristeza, uma relutância em deixar aquele lugar que, em tão pouco tempo, havia se tornado um refúgio, um lar.

Nana e Math também expressaram a mesma relutância. "Fiquem mais um pouco!", Ana implorou, os olhos marejados. "A casa é de vocês!"

Mas eles entendiam. Johnny ainda tinha muito o que mostrar a Francine, e a promessa de uma jornada os chamava. "Nós vamos manter a casa em perfeito estado para o retorno de vocês", Math prometeu, com um sorriso.

Johnny agradeceu aos irmãos de coração. "Quando estivermos para voltar para o Canto do Dragão passamos por aqui, mandarei uma carta avisando. Contem com isso."

E assim, Francine e Johnny partiram, a carruagem balançando suavemente pela estrada que os levava para longe da fazenda. Eles estavam um pouco longe, mas ainda dava para ver a pequena casa na colina ao longe, um ponto aconchegante em meio à vasta paisagem.

Francine observava a casa diminuir no horizonte, e um pensamento, que vinha crescendo em seu coração nas últimas semanas, finalmente escapou de seus lábios. "Johnny...", ela começou, a voz baixa, quase hesitante. "Depois que nos casarmos... eu sei que prometemos cuidar do bar. Mas... eu gostaria de vir morar com você aqui e ter uma família."

Johnny, que estava concentrado na estrada, virou-se para ela, completamente surpreso. Aquilo era algo diferente. Não era apenas sobre ver o mundo, mas sobre um futuro, um lar, que não era o "Canto do Dragão". Pela primeira vez, Francine admitia em voz alta que queria algo diferente, algo mais do que apenas a vida no bar.

Um sorriso lento e caloroso se espalhou pelo rosto de Johnny. Ele parou a carruagem, virou-se completamente para ela e segurou suas mãos. "Sim,Francine", ele disse, a voz cheia de carinho e uma promessa silenciosa. "Sim."

A carruagem seguiu em frente, levando Francine e Johnny para o desconhecido. A próxima cidade demoraria alguns dias para ser alcançada, e a estrada, embora menos movimentada, era um convite à contemplação e à intimidade. Johnny continuava a guiar a carruagem, seus olhos fixos no horizonte, enquanto Francine dormia na parte de trás, aconchegada sob os cobertores, embalada pelo balanço suave do veículo.

Mas ela não dormia a noite toda. No meio da madrugada, Francine acordava, o frio da noite convidando-a a buscar o calor de Johnny. Ela se arrastava para a frente da carruagem, aninhando-se ao lado dele, e ali, sob o manto estrelado do céu, eles conversavam. Falavam sobre o futuro, sobre o casamento que os esperava, sobre o sonho da fazenda e da família que construiriam juntos.

Johnny, com seu conhecimento vasto das terras, conhecia várias rotas secundárias, atalhos que levavam a lugares escondidos e de uma beleza singular. Às vezes, eles paravam para acampar em clareiras secretas, à beira de riachos cristalinos ou sob a sombra de árvores milenares. Eram lugares onde apenas ele havia estado no passado, e agora, ele os compartilhava com Francine.

Ao redor da fogueira crepitante, sob um céu salpicado de estrelas, Johnny contava histórias. Histórias de como ele havia encontrado aqueles lugares – um antigo mapa rabiscado, uma dica de um velho ermitão, um instinto que o guiava. Ele compartilhava mais de sua história como andarilho, desde o momento em que deixou a fazenda após a tragédia de seus pais. Falava sobre as pessoas que conheceu, as dificuldades que enfrentou, as lições que aprendeu.

Era como um tour pelo seu passado, um mapa vivo de sua jornada. Francine ouvia, fascinada, absorvendo cada palavra, cada detalhe. Ela via os lugares através dos olhos dele, sentia o vento em seu cabelo, o cheiro da floresta, a emoção de cada nova descoberta. A cada história, ela o conhecia um pouco mais, e a conexão entre eles se aprofundava, tecendo uma tapeçaria de memórias compartilhadas que seriam a base de seu futuro juntos. A carruagem seguia em frente, levando-os não apenas para novas cidades, mas para um novo capítulo de suas vidas.


Desafios na Estrada

A viagem de Francine e Johnny não era feita apenas de paisagens deslumbrantes e noites estreladas. Às vezes, o mundo lá fora mostrava seu lado mais selvagem. Havia perigos, desastres naturais que surgiam sem aviso: chuvas torrenciais que transformavam estradas em rios de lama, ou pequenos deslizamentos de terra que bloqueavam caminhos.

Mas Johnny, com sua experiência de andarilho, sempre parecia prever o pior antes que acontecesse. "Sinto o cheiro de terra molhada no ar, Leozinha. Chuva forte a caminho", ele diria, desviando a carruagem para uma rota mais segura antes que a tempestade desabasse. Ou, "Aquele barranco não parece firme. Melhor dar a volta", e segundos depois, pedras rolavam pela encosta.

"Aprendi na marra", ele explicava, um sorriso melancólico nos lábios, referindo-se aos perrengues de suas próprias viagens.

Para Francine, que estava vivenciando tudo aquilo pela primeira vez, era aterrorizante. A força da natureza, a imprevisibilidade dos perigos, a deixavam muito assustada. Quando a chuva era forte demais ou um obstáculo surgia de repente, ela se encolhia na carruagem, o coração batendo forte.

Johnny percebia o medo dela. Ele parava a carruagem em um lugar escondido que ele conhecia, um refúgio seguro sob a copa de árvores densas ou em uma pequena caverna. Ele descia e ficava com ela, abraçando-a, acariciando seus cabelos, murmurando palavras de conforto até que ela se acalmasse.

"É assim mesmo, Leozinha", ele dizia, a voz suave. "Nem toda viagem é só sol e flores. Tem os perrengues, os sustos. Mas a gente aprende a lidar com eles."

Francine começava a pensar. Geralmente, as pessoas apenas contavam o lado divertido da viagem, as paisagens bonitas, as aventuras emocionantes. Nunca os perrengues, os medos, os momentos em que a vida parecia por um fio. Será que com Elara e seu irmão era assim também? Será que eles também enfrentaram esses perigos e simplesmente não contavam?

Mas o bom é que ela tinha Johnny ao seu lado. Ele não escondia a realidade, mas a confortava através dela. Ele era seu guia, seu protetor, e sua calma a ajudava a enfrentar o desconhecido. A cada susto, a cada abraço de conforto, a confiança dela nele se aprofundava, e a certeza de que havia escolhido o parceiro certo para aquela jornada, e para a vida, se tornava inabalável.


Encontros Inesperados e Segredos

Às vezes, Francine acordava no meio da noite, não pelo balanço da carruagem ou pelo frio, mas por vozes baixas vindas de fora. Johnny falava com alguém. Ela tentava ver pela fresta da lona sem fazer barulho, lembrando-se da instrução dele: "Se me ouvir falando com alguém tarde da noite, fique escondida e não faça barulho." Nunca havia acontecido antes. Até agora.

A primeira vez a deixou extremamente assustada. Ela ouvia as vozes, masculinas e rudes, perguntando o que Johnny fazia ali, no meio da estrada, àquela hora. E, inevitavelmente, a pergunta vinha: "O que tem nessa carroça, forasteiro?"

Johnny respondia com a calma habitual, mas Francine sentia a tensão em sua voz. "Estou de passagem", ele dizia. "E o que tem na carroça... é para Cristal. Para a dona Dana."

A cidade de Cristal. Era para lá que estavam quase chegando, a próxima parada em sua jornada. E o nome de Dana. As vozes do lado de fora da carruagem não questionavam. Apenas balançavam a cabeça e os deixavam passar.

Quando a carruagem estava afastada o suficiente, e o silêncio da noite retornava, Francine se revelava, saindo de debaixo dos cobertores. "Johnny? Está tudo bem?" Sua voz era um sussurro, cheia de preocupação.

Ele lançava um olhar para ela, um sorriso cansado, mas tranquilizador. "Sim, Leozinha. Está tudo bem. Em Cristal, algumas pessoas me devem favores, e o nome da Dana... bem, o nome dela tem peso. Isso ajuda a gente a passar por alguns lugares sem problemas."

Ele suspirou, um lamento suave. "Da primeira vez que passei por aqui, eles me pediram minhas botas. Eu gostava tanto delas..." Ele riu baixinho, uma risada sem humor. Francine o abraçou, sentindo o alívio e a tensão que ele carregava. A viagem era mais perigosa do que ela imaginava, e Johnny, com seu passado misterioso, parecia ter um preço a pagar por cada atalho e cada favor.


A Chegada a Cristal

A carruagem balançou uma última vez antes de parar. Francine abriu os olhos, e o que viu a fez prender a respiração. Cristal. Era uma cidade imensa, muito maior do que qualquer coisa que ela já havia imaginado. Muros enormes e imponentes a rodeavam, erguendo-se como uma fortaleza contra o mundo exterior. Não era como Oakhaven, com suas casas de madeira e ruas empoeiradas. Cristal era uma metrópole vibrante, um caldeirão de vida.

Havia gente de todos os reinos ali, aventureiros com armaduras brilhantes, mercadores com carroças carregadas de mercadorias exóticas, magos com vestes estranhas. O ar estava cheio de um burburinho constante de vozes, o tilintar de moedas e o cheiro de especiarias e metal. Era a típica cidade de aventureiros, um centro de negociações e compras, um lugar onde o mundo se encontrava.

Francine estava maravilhada. Seus olhos varriam as ruas movimentadas, os edifícios altos, os estandartes coloridos que adornavam as construções. Ela nunca havia visto algo tão grandioso. Era uma sinfonia de cores, sons e cheiros, um espetáculo vibrante que contrastava intensamente com a pacata Oakhaven.

Enquanto Johnny conduzia a carruagem pelas ruas, Francine percebeu algo estranho. Comerciantes nas portas de suas lojas acenavam, gritando o nome de Johnny. "Johnny! Meu amigo! Que bom te ver!" ou "Johnny, você por aqui de novo! Precisa de algo?"

Ele apenas acenava de volta, um sorriso discreto nos lábios. Francine, toda curiosa, olhava para ele com um olhar que dizia claramente: "Você vai me contar depois, né? Tudo isso." Seu olhar era manhoso, e Johnny riu baixinho.

"Sim" ele sussurrou, sabendo exatamente o que ela queria. "Vou te contar tudo."

Ele conduziu a carruagem por algumas ruas movimentadas, passando por tavernas barulhentas e lojas de armas, até que parou na parte de trás de um edifício grande e chamativo. Um letreiro pendurado acima da porta, iluminado por lanternas coloridas, anunciava: "A Noite Uivante". Francine franziu a testa. Um bar. E pelo que parecia, um clube de strip. Aquilo prometia ser interessante. Johnny estacionou a carruagem na parte de trás, longe da agitação da rua principal.


O Reencontro com Dana

A carruagem parou nos fundos do "A Noite Uivante". Francine desceu, ainda absorvendo a grandiosidade de Cristal, quando a porta dos fundos do bar se abriu com um rangido. Uma moça madura, de avental sujo e um cigarro pendurado nos lábios, saiu mancando, a fumaça enrolando-se em volta de seu rosto.

"Quem é o porco imundo que estacionou aqui, achando que é o rei do mundo?", ela rosnou, a voz rouca de cigarro e cansaço.

Johnny, que já havia descido, levantou o chapéu, revelando seu rosto. A expressão ranzinza da mulher se iluminou. Ela jogou o cigarro no chão, pisando para apagá-lo, e abanou a fumaça com a mão, sabendo que Johnny não gostava do cheiro.

"Ora, ora, o que os ventos trazem por aqui", ela disse, as mãos na cintura, um sorriso largo se abrindo em seu rosto.

Johnny abriu os braços instintivamente, e ela o abraçou com força, como uma mãe que reencontra um filho perdido. "Dana", ele murmurou, a voz abafada pelo abraço. "Senti sua falta também."

Era um momento fofo, a Dana das histórias de Johnny com Elara, ali, em carne e osso. Mas a ternura durou pouco. Dana se afastou, ainda sorrindo, e deu um tapa estalado no rosto de Johnny. "Isso é por ir embora sem se despedir, seu moleque!" E antes que ele pudesse reagir, outro tapa veio. "E esse é por não escrever! Vai cair a mão de me manter informada, rapaz? Sabe quanta preocupação eu tive..."

Ela nem terminou a frase. Francine, que observava a cena, sentiu uma pontada de raiva e ciúmes. A forma como Dana o tratava, mesmo que fosse com carinho, fez a "Leozinha" dentro dela rugir. Instintivamente, Francine puxou Johnny para perto de si, quase o escondendo atrás de seu corpo, e lançou um olhar furioso para Dana.

Dana parou, a mão ainda no ar, surpresa com a reação de Francine. Seus olhos se arregalaram ligeiramente, e ela olhou de Johnny para a garota protetora à sua frente, um sorriso divertido começando a surgir em seus lábios. Johnny, por sua vez, estava meio chocado com a possessividade de Francine, mas um sorriso bobo começou a se formar em seu rosto.

"Está tudo bem" Johnny murmurou, acalmando Francine, que ainda o olhava com uma mistura de preocupação e raiva, lançando um olhar de canto para Dana, que sorria. Ele apertou a mão dela, tranquilizando-a. "Sim, está tudo bem."

Então, Johnny se virou para Dana, um sorriso orgulhoso em seu rosto. "Dana, esta é Francine. Minha noiva."

Os olhos de Dana se arregalaram, e ela coçou a cabeça, visivelmente surpresa. "Noiva? Ora, Johnny! Você não perde tempo, hein?" Ela olhou para Francine com um novo brilho nos olhos, um misto de curiosidade e aprovação.

Johnny, percebendo a mudança na expressão de Francine, rapidamente explicou. "Francine, a Dana foi quem me acudiu quando cheguei em Cristal pela primeira vez. Me deu um emprego, um lugar para ficar. Ela é como uma segunda mãe para mim."

A raiva de Francine se dissipou, substituída por uma curiosidade genuína. Ela olhou para Dana com interesse, a história de Johnny ganhando mais profundidade.

Dana riu, um som rouco e caloroso. "Então você finalmente achou alguém, Johnny. As meninas não vão gostar nada disso..." Ela parou, coçando a cabeça, um pouco sem graça.

"Meninas?", Francine pensou, uma pontada de algo que ela não conseguia identificar, mas que parecia familiar ao ciúme, voltando a surgir.

"Vamos entrar, está frio aqui fora", Johnny disse, mudando de assunto, e guiou Francine para dentro do bar.


"A Noite Uivante" e Velhas Conhecidas

Francine piscou, maravilhada. O "A Noite Uivante" era completamente diferente do "Canto do Dragão". Era enorme, bem iluminado por dezenas de lanternas e tochas, e o balcão em si devia ser do tamanho do "Canto do Dragão" inteiro. Havia um palco com cortinas de veludo, mesas e cadeiras espalhadas por um salão amplo, e um burburinho constante de vozes, música e risadas. Era um lugar vibrante, cheio de vida, e Francine sentiu-se como uma camponesa em um castelo.

Dana os conduziu até uma mesa mais reservada. "Então, me contem tudo", ela disse, apoiando os cotovelos na mesa e olhando de Johnny para Francine, um sorriso curioso em seu rosto. "Como vocês se conheceram? E você conseguiu domar o meu Johnny?"

Francine corou, mas um sorriso se formou em seus lábios. A aventura estava apenas começando, e ela mal podia esperar para compartilhar sua história.

Johnny começou a contar a Dana toda a história, desde o primeiro encontro no "Canto do Dragão", passando pelas provocações iniciais, a febre de Francine, o resgate das crianças, o despertar de Johnny, até o pedido de casamento e a decisão de viajar. Francine, sentada ao lado dele, ouvia tudo, meio envergonhada, apenas concordando com a cabeça, os rubores surgindo e desaparecendo em seu rosto.

Dana ouvia atentamente, seus olhos perspicazes observando cada detalhe, cada troca de olhar entre os dois. Quando Johnny terminou, Dana se virou para Francine, seu rosto sério, mas com um brilho de ternura.

"Francine", Dana começou, a voz um pouco mais suave do que o habitual, "Johnny é como um filho para mim. Eu nunca o vi se entregar a alguém assim. Ele é um andarilho, um homem livre. Isso quer dizer que você é muito especial para ele." Ela fez uma pausa, olhando profundamente nos olhos de Francine. "Então, me diga, mocinha. É sério mesmo? Você o ama na mesma intensidade que ele te ama? E espero que ele seja assim para você também."

Francine nem pensou. A pergunta de Dana, tão direta e cheia de carinho, tocou seu coração. Ela olhou para Johnny, que a observava com um olhar de expectativa. "Sim", Francine disse, a voz firme, sem hesitação, sem gaguejar. "Sim, Dana. Ele é tudo o que eu procurava no mundo. E eu faria de tudo por ele. Sem pensar."

As palavras saíram de seu coração, puras e verdadeiras. Dana a olhou por um momento, e então um sorriso enorme e orgulhoso se espalhou por seu rosto. Ela se levantou da cadeira e, com um suspiro manhoso e os olhos marejados, abraçou Francine com força.

"Oh, Johnny!", Dana exclamou, apertando Francine em seus braços. "Você tem tanta sorte! Ela é tão fofinha! Eu tenho inveja!"

Johnny riu, um som alegre e sincero, enquanto observava as duas mulheres que significavam tanto para ele. Ele concordou com a cabeça, um sorriso bobo em seu rosto. Sim, ele tinha muita sorte. A "Leozinha do Cabaré" havia encontrado seu lugar no mundo, e ele, seu propósito. E Dana, a mulher que o havia acolhido, agora abençoava o amor que ele havia encontrado.

A conversa se estendeu até o anoitecer. Dana, com sua voz rouca e cheia de histórias, contava como Johnny havia chegado a Cristal, aquele "olhar perdido" que Francine reconheceu como o mesmo que ela vira pela primeira vez no "Canto do Dragão". Dana falava da melancolia que Johnny carregava, da forma como ele se agarrava ao trabalho, buscando um novo rumo. Francine ouvia, um sorriso suave nos lábios, pois só ela sabia a verdade por trás daquele olhar perdido agora – que ele havia encontrado seu propósito, e esse propósito estava ali, ao lado dela. Ela olhava para Johnny, que sorria para ela, e sentia o coração aquecido.

À medida que a noite caía, o clima do bar mudava. As luzes, antes suaves, tornaram-se mais vibrantes, e a música, antes um murmúrio, começou a pulsar com um ritmo mais animado. Johnny começou a corar, olhando em volta, um certo nervosismo em seu rosto.

"Eh... acho melhor a gente ir, né?", ele disse, olhando para Dana, que tinha um sorriso divertido no rosto.

"Não, ainda não, Johnny", Dana retrucou, com um brilho nos olhos. "Você ainda não cumprimentou 'elas'."

Francine franziu a testa, confusa. "Elas? De quem vocês estão falando?" Ela nem conseguiu terminar a pergunta.

Nesse exato momento, a porta principal do bar se abriu com um floreio, e um bando de garotas entrou. Elas estavam vestidas de forma bem vulgar e provocativa, com tecidos esvoaçantes e decotes ousados, rindo alto e reclamando de "caras chatos" e esperando que a noite fosse boa. Elas varreram o salão com os olhos, e então, uma delas as viu sentadas à mesa.

"Johnny!", uma delas gritou, e as outras a seguiram. Em uníssono, elas gritaram o nome dele, e vieram correndo em sua direção.

Antes que Francine pudesse sequer piscar, as garotas se jogaram em Johnny, puxando-o e abraçando-o como se ele fosse um urso de pelúcia. Elas o sufocavam com abraços apertados, risadas e exclamações. "Johnny! Meu amor! Que saudade! Por onde você esteve?" "Você sumiu! Pensei que nunca mais ia te ver!" "Você está mais lindo do que nunca!"


Ciúmes no Salão

Francine observava a cena, paralisada. A raiva subiu por seu pescoço, o ciúme queimando em seu peito como um fogo incontrolável. "Meninas?", ela pensou, a voz em sua mente um rosnado. Aquelas eram as "meninas" de quem Dana falava? A "Leozinha do Cabaré" estava louca de ciúmes.

Johnny mal conseguia falar, sufocado pelos abraços apertados das garotas. "Meni... nas... é... muito bom... vê-las... eu estou ficando... sem ar", ele conseguiu dizer, a voz abafada, enquanto elas o bombardeavam com perguntas sobre onde ele esteve e por que havia sumido.

Francine observava a cena, o sangue fervendo em suas veias. A visão dele sendo abraçado e apertado por aquelas mulheres, que pareciam não ter limites, fez a "Leozinha" dentro dela explodir. Com um grito abafado de fúria, ela se levantou da mesa, batendo as mãos na madeira com força, chamando a atenção de todos.

Com um movimento rápido e possessivo, Francine puxou Johnny para perto de si, agarrando-o como se ele fosse um objeto de sua propriedade, e ele era. Ela o segurou firme, lançando um olhar irritado para as garotas, que pararam de abraçá-lo, surpresas com a interrupção abrupta.

As garotas, que antes estavam tão animadas, agora olhavam para Francine com desconfiança e um desafio crescente. Uma delas, com os braços cruzados, perguntou com insolência: "E quem é essa?"

Antes que Johnny pudesse sequer abrir a boca para responder, Francine, com a voz carregada de fúria e possessividade, bradou: "Eu sou a noiva dele! E a dona dele! E quem seriam vocês?"

Um silêncio tenso caiu sobre o grupo. As garotas, que pareciam acostumadas a ter Johnny só para elas, olharam para Francine com uma mistura de choque e raiva. Uma batalha silenciosa de olhares e desafios se instalou entre elas, a tensão palpável no ar.

Felizmente, Dana, que observava a cena com um sorriso divertido, decidiu intervir antes que a situação escalasse para algo mais sério. Ela se aproximou do grupo, colocando as mãos nos ombros de Francine e das garotas.

"Certo, certo, meninas", Dana disse, a voz calma, mas firme. "Vamos dar um pouco de espaço para o nosso Johnny, sim? Ele acabou de chegar e está noivo." Ela lançou um olhar significativo para as garotas, que, embora ainda irritadas, pareciam respeitar a autoridade de Dana.

Dana as separou gentilmente, afastando-as de Johnny e Francine. A "Leozinha do Cabaré" ainda lançava olhares furiosos para as garotas, mas Johnny, agora livre dos abraços sufocantes. O ciúme de Francine era evidente, e Johnny, apesar do embaraço, sentia uma pontada de satisfação com a possessividade dela.

As meninas, agora mais contidas pela presença imponente de Dana e pelo olhar de Francine, ainda cercavam a mesa. Francine, por sua vez, não perdeu tempo em marcar seu território, sentando-se no colo de Johnny, um sorriso irônico nos lábios enquanto ele tentava se ajeitar, visivelmente corado.

"Então, Johnny", uma delas começou, a voz ainda um pouco aguda, "por onde você esteve? Por que foi embora? E... quem é essa?" O olhar delas para Francine era de puro desafio.

Francine apenas sorriu ironicamente, sem dizer uma palavra, deixando Johnny responder. Ele suspirou, lançando um olhar para Francine que dizia "me ajude aqui".

"Meninas", Johnny começou, a voz firme, mas gentil, "eu estive viajando. E 'essa'", ele enfatizou, olhando para Francine com um amor inegável, "é a mulher da minha vida. Minha noiva. Por favor, a tratem com respeito, assim como eu sempre as tratei quando estive aqui com vocês."

As garotas suspiraram em uníssono, algumas revirando os olhos. "Está bem, Johnny", uma delas disse, com um tom de relutância. "Faremos isso porque você pediu... mas só por você." A pontada de possessividade em suas vozes era clara, e Francine podia ver que elas ainda queriam Johnny para si.

A "Leozinha do Cabaré" não aguentou. Aquela insinuação, aquele "só por ele", foi a gota d'água. Para provocar, para deixar claro quem era a única dona do coração de Johnny, Francine passou os braços ao redor do pescoço dele, puxando-o para um selinho demorado. Um beijo suave, mas carregado de significado, que dizia a todas as presentes que Johnny era dela, e de mais ninguém.

As garotas ficaram possessas. Seus olhos faiscaram de raiva e ciúmes. Elas se entreolharam, e então, com um bufo de frustração, se viraram. "Vamos, meninas! Temos que nos preparar para o trabalho!", uma delas bradou, e as outras a seguiram, marchando para os bastidores do bar.

"Até mais, Johnny!", elas gritaram em coro, sem sequer olhar para Francine.

Johnny riu, abraçando Francine, que ainda estava em seu colo, um sorriso vitorioso em seu rosto. A batalha de ciúmes havia sido travada, e a "Leozinha do Cabaré" havia saído vitoriosa, deixando claro quem era a mulher em sua vida.

A saída das garotas não acalmou Francine. Pelo contrário, a raiva e o ciúme que ela sentia explodiram com uma intensidade que a surpreendeu. Suas mãos, que antes estavam carinhosamente em volta do pescoço de Johnny, agora apertavam-no de forma agressiva, embora leve. Ela se inclinou, sussurrando em seu ouvido com uma voz assustadora e possessiva.

"Quem eram elas? Você teve algum lance com alguma delas? Explique-se!", ela rosnou, o rosto a centímetros do dele. Era a primeira vez que ela agia assim, e a intensidade da emoção a assustava tanto quanto a Johnny.

Johnny, pego de surpresa pela fúria dela, ficou nervoso e suando frio. Ele tentou responder, a voz tremendo. "Leozinha, calma! Elas... elas são funcionárias daqui. Eu trabalhei com elas normalmente, sempre as tratei com respeito. Nunca aconteceu nada, eu juro!" Ele levantou a mão, como se fizesse um juramento solene.

Francine apertou levemente o pescoço dele. "É bom mesmo."

Dana, que observava a cena com um sorriso divertido, decidiu intervir. Ela se aproximou da mesa, um brilho nos olhos. "Calma, Leozinha. Ele está falando a verdade." Ela olhou para Johnny, que estava visivelmente envergonhado de ser exposto assim. "Johnny sempre foi um cavalheiro com elas. Tratava-as com um respeito que nenhum outro homem naquela cidade fez, por isso eram tão apegadas a ele. Mas nunca rolou nada, Francine. Você é a primeira que ele amar de verdade. A única."

Francine olhou para Dana, depois para Johnny, que estava com o rosto completamente vermelho, evitando o olhar dela. A confirmação de Dana, e a vergonha de Johnny, dissiparam a raiva e o ciúme. Um sorriso suave se formou nos lábios de Francine.

Ela soltou o pescoço de Johnny e o beijou, um beijo suave e cheio de carinho e ele retribuiu o beijo, aliviado e feliz. A "Leozinha do Cabaré" havia aprendido uma nova emoção, e Johnny, embora um pouco assustado, estava feliz por ser o objeto de tanto amor e possessividade.

Johnny voltou ao assunto com Dana, contando sobre a viagem com Francine e como estava realizando o desejo dela de conhecer o mundo. Ele disse que ficariam apenas alguns dias em Cristal. "Vou mostrar a cidade para ela, alguns lugares que valem a pena ver", ele explicou.

Dana, sem hesitar, rapidamente ofereceu a casa dela para eles ficarem. "Bobagem, Johnny! Vocês não vão ficar em uma estalagem. Minha casa está vazia a maior parte do tempo. Eu passo mais tempo aqui no bar do que lá."

Johnny estava relutante em aceitar. "Dana, não precisa. Não queremos incomodar."

Mas Dana fez questão, um sorriso teimoso em seu rosto. "É como um presente de casamento, Johnny! E", ela acrescentou, com um brilho divertido nos olhos, "gostaria de alguns netinhos, se é que me entende. Podem usar a casa como quiserem!"

As palavras de Dana os deixaram completamente envergonhados. Francine sentiu o rosto queimar, e Johnny corou visivelmente. Ele riu, balançando a cabeça, mas acabou aceitando a oferta. Eles se despediram de Dana, que lhes deu um abraço caloroso.

Eles pegaram a carruagem e Johnny a conduziu para a parte "nobre" da cidade. À medida que se aproximavam, Francine sentiu o queixo cair. A casa de Dana não era apenas grande; era gigantesca. Erguia-se imponente, com uma arquitetura suntuosa, janelas altas e uma fachada que parecia esculpida para a realeza. Parecia a casa de um rei.

Johnny riu, vendo a reação de Francine, os olhos arregalados de admiração. "É um pouco exagerado, não acha, Leozinha?", ele comentou, um sorriso nos lábios. "Eu só estive aqui algumas vezes."

Eles desceram da carruagem e Johnny abriu o portão de ferro forjado. Ao entrarem, Francine sentiu como devia ser a vida de um rei. O hall de entrada era grandioso, com um teto alto e lustres cintilantes. Os móveis eram de madeira escura e polida, os tapetes eram macios e luxuosos, e obras de arte adornavam as paredes. Era um contraste gritante com o "Canto do Dragão" e a simplicidade da fazenda de Johnny.

Francine olhou para Johnny, um brilho de excitação em seus olhos. A aventura estava apenas começando, e cada nova parada trazia uma surpresa maior que a anterior.


O Passado de Dana

Johnny conduziu Francine pela gigantesca mansão de Dana, os passos ecoando nos corredores espaçosos. Ele apresentava cada cômodo, cada detalhe, e enquanto o fazia, contava um pouco do que sabia da história de Dana.

"Eu nunca fui muito de perguntar sobre o passado dela", Johnny explicou, enquanto eles passavam por uma sala de jantar imponente, com uma mesa que poderia acomodar dezenas de pessoas. "Só sei o que ela comentou brevemente comigo, ou o que as meninas do bar falavam."

Ele a levou até a sala principal, um cômodo vasto e ricamente decorado, mas que parecia estranhamente vazio, apesar da mobília luxuosa. Ali, pendurado na parede, havia um enorme quadro. Era um retrato de Dana, muito mais jovem e sorrindo, cercada por duas crianças pequenas e um homem alto e gentil – seu marido.

"Ela perdeu o marido e os filhos na guerra que está acontecendo", Johnny disse, a voz baixa, um tom de tristeza em suas palavras. "Para não ficar afundada no luto, ela abriu o bar. Para se ocupar, para ter algo para fazer, para não pensar."

Francine olhou para o retrato, o coração apertado. A alegria nos rostos daquela família contrastava dolorosamente com a solidão que preenchia a casa agora. Ela entendia o porquê de Dana não passar muito tempo ali. A mansão, por mais grandiosa que fosse, era um lembrete constante de uma felicidade perdida, um eco de vozes que não podiam mais ser ouvidas.

"Ela é muito gentil quando a conhece", Johnny continuou, como se lesse os pensamentos de Francine. "Quando pedi emprego a ela, me contratou sem pensar. Ela gosta de fazer o bem, de ajudar as pessoas." Ele olhou para Francine, um sorriso suave nos lábios. "Ela viu algo em mim, assim como você viu."

Francine assentiu, os olhos ainda fixos no retrato. Ela sentia uma nova camada de respeito e carinho por Dana. A mulher forte e ranzinza do bar era, na verdade, uma alma gentil que havia sofrido uma perda imensa e encontrado uma forma de seguir em frente, ajudando outros em seu caminho. A mansão, com sua beleza e sua melancolia silenciosa, era um testemunho da história de Dana, uma história de amor, perda e resiliência.


O Céu de Cristal

A visita pela casa de Dana foi linda, cada cômodo revelando uma nova faceta da vida luxuosa e, ao mesmo tempo, melancólica de sua anfitriã. Mas a verdadeira admiração de Francine veio quando eles subiram para os andares superiores, onde as janelas ofereciam uma vista panorâmica de Cristal.

A cidade, mesmo à noite, continuava viva. Milhares de luzes cintilavam, transformando a escuridão em um mar de brilho. Ruas iluminadas, edifícios com janelas acesas, o movimento constante da vida noturna de uma metrópole. Francine estava admirada, os olhos arregalados, absorvendo cada detalhe daquela paisagem urbana que era completamente nova para ela.

"É linda, né?", ela perguntou a Johnny, a voz cheia de um encantamento genuíno.

Johnny, que estava ao lado dela, olhando para a mesma vista, balançou a cabeça. "Eu não gosto do céu daqui."

Francine o olhou, confusa. "Não gosta? Por quê?"

Ele apontou para o alto. "As estrelas somem pelo brilho das luzes."

Francine ergueu os olhos para o céu noturno. E então ela percebeu. Johnny estava certo. Acima do mar de luzes da cidade, o céu não era um manto escuro salpicado de pontos brilhantes, como ela estava acostumada em Oakhaven ou nas noites de acampamento. Era apenas um fosco céu escuro, quase sem estrelas, engolidas pela poluição luminosa da cidade.

Uma pontada de algo que ela não sabia identificar – talvez uma leve decepção, talvez uma nova compreensão – a atingiu. A beleza da cidade era inegável, mas vinha com um preço. O céu de Cristal, embora iluminado por baixo, era um vazio em cima. Johnny, o andarilho que conhecia as estrelas como a palma da sua mão, sentia falta delas. E Francine, que estava aprendendo a amar o mundo através dos olhos dele, começou a sentir falta delas também.


Explorando Cristal e o Castelo de Sixcity

Na manhã seguinte, e nos dias que se seguiram, Johnny dedicou-se a mostrar Cristal a Francine. Ele a levou pelas ruas movimentadas, não apenas pelos mercados e lojas, mas também por becos charmosos e praças escondidas que revelavam a sutileza e a beleza da cidade. Francine, com seus olhos curiosos, absorvia cada detalhe, cada cheiro, cada som.

Johnny a apresentou a velhos amigos que havia feito por ali: um ferreiro ranzinza com um coração de ouro, uma florista que vendia as mais raras espécies de plantas, e até mesmo um bardo que costumava frequentar o "A Noite Uivante" e que, ao ver Johnny e Francine, dedicou-lhes uma canção improvisada sobre amor e aventura. Francine observava a facilidade com que Johnny se conectava com as pessoas, a forma como ele era respeitado e querido, e sentia um orgulho imenso por ele.

No fim de um desses dias, com o sol começando a se pôr e pintando o céu de tons alaranjados e roxos, Johnny a levou para fora dos muros da cidade. Eles subiram uma colina íngreme, e quando chegaram ao topo, a vista que se descortinou diante deles tirou o fôlego de Francine.

Bem ao longe, quase um ponto no horizonte, mas inconfundível em sua majestade, erguia-se o Castelo de Sixcity. O Reino entre os Reinos. Era uma visão imponente, mesmo àquela distância, suas torres e muralhas parecendo brilhar sob a luz do crepúsculo. Francine nunca havia imaginado que um lugar assim pudesse existir.

"É Sixcity", Johnny sussurrou, ao lado dela, sentindo a admiração dela. "O coração de todo o reino."

Francine olhou para o castelo, tão pequeno ao longe, mas tão grandioso em sua imaginação. Ela pensou na guerra, nas perdas de Dana, na razão pela qual Johnny havia se tornado um andarilho. Aquele castelo, tão majestoso, era também o epicentro de tanta dor.

Ela se virou para Johnny, e ele a abraçou, sentindo o misto de admiração e melancolia dela. A viagem estava revelando a Francine não apenas a beleza do mundo, mas também suas complexidades, suas dores, e a história que a conectava a Johnny de maneiras que ela nunca havia imaginado.


Partida de Cristal e o Brilho das Estrelas

Não havia muito mais o que mostrar em Cristal. Johnny e Francine foram até "A Noite Uivante" para se despedir de Dana. Desta vez, Johnny a abraçou com sinceridade, pedindo desculpas pela última vez por ter ido embora sem dizer nada anos atrás.

Dana, que parecia ter guardado aquela mágoa por todo esse tempo, o abraçou de volta com força, perdoando-o. "Nunca mais faça isso de novo, seu moleque! E mantenham contato... vocês dois", ela disse, olhando para Francine por cima dos ombros de Johnny enquanto o abraçava, um sorriso terno nos lábios.

As meninas do bar também vieram se despedir, quase sufocando Johnny novamente com seus abraços e lamentações. Elas choravam, dizendo que sentiriam falta dele. Francine riu, um riso leve e genuíno, pois não sentia mais ciúmes. Ela sabia que, não importa o que ou quantas elas tentassem, Johnny só tinha olhos para ela.

Com os abraços e as promessas de manter contato, Francine e Johnny partiram de Cristal. A carruagem rolou pelas ruas movimentadas da cidade, passando pelos muros imponentes e seguindo em direção à estrada aberta. A jornada continuava, levando-os para novas paisagens, novas cidades e novas histórias. Mas agora, eles não estavam apenas viajando pelo mundo; estavam construindo o seu próprio, juntos.

Assim que a carruagem deixou os muros de Cristal para trás, Francine ergueu os olhos para o céu. E lá estavam elas. Milhares de pontos cintilantes, brilhando com uma intensidade que ela não via há dias. Um sorriso se espalhou por seu rosto. Ela se lembrou das palavras de Johnny em Cristal: "Eu não gosto do céu daqui. As estrelas somem pelo brilho das luzes." Agora, ela entendia perfeitamente. A beleza das estrelas, a vastidão do universo, era algo que a cidade grande não podia oferecer. Ela assentiu, concordando silenciosamente com ele.

E assim, eles seguiram caminho. As outras cidades que visitaram foram variadas: algumas mais calmas e pacatas, com mercados locais e um ritmo de vida tranquilo; outras, agitadas e barulhentas, com festivais e multidões. Cada uma tinha sua beleza particular, e Johnny, com seu conhecimento de andarilho, mostrava a Francine os pontos mais interessantes, as histórias por trás de cada ruína, a lenda de cada montanha.

Às vezes, Johnny passava por um desvio ou por uma estrada que Francine percebia levar a uma cidade ou vilarejo, mas ele seguia em frente sem hesitar. Francine, curiosa, perguntava: "Johnny, por que não vamos lá? O que tem naquele lugar?"

Ele balançava a cabeça, um olhar sério em seu rosto. "Não vale a pena, Leozinha." A forma como ele dizia, o tom de sua voz, fazia Francine entender que nem todos os lugares eram belos e convidativos. Alguns eram perigosos, outros estavam marcados pela dor ou pela miséria. Johnny, com sua experiência, sabia onde pisar e onde evitar.

Francine começou a perceber que a vida de andarilho não era apenas sobre a liberdade e a descoberta de maravilhas. Era também sobre a cautela, sobre a capacidade de discernir o bem do mal, o seguro do perigoso. Johnny era seu guia não apenas para as belezas do mundo, mas também para suas realidades mais duras. E, ao seu lado, ela estava aprendendo a ver o mundo de uma forma mais completa, com todas as suas luzes e sombras.

Quatro meses se passaram em um piscar de olhos. Francine descobriu e aprendeu muitas coisas que não havia nem sonhado em seus dezenove anos de vida em Oakhaven. Johnny sempre esteve ali, ao seu lado, guiando-a, ensinando-a, protegendo-a. Se o relacionamento deles já era forte antes, com a viagem se aprofundou ainda mais, tornando-os um só. A vida na estrada não era fácil, com seus perigos e desafios, mas Francine estava sempre a postos para ajudá-lo, enfrentando cada situação com uma coragem que ela não sabia que possuía. Houve algumas situações tensas, sim, mas eles conseguiram contornar todas, juntos.


O Limiar de Smarron

Eles estavam se afastando, quase na fronteira de Sixcity. Após isso, seria a fronteira do 7º Reino de Smarron. Johnny parou a carruagem e desceu, estendendo a mão para Francine. Juntos, eles caminharam um pouco floresta adentro, o silêncio da natureza os envolvendo.

Demorou um pouco, mas finalmente chegaram a uma colina suave. No topo, havia uma árvore solitária, antiga e majestosa, que parecia ter testemunhado séculos de história. Abaixo deles, um vasto campo verde se estendia até onde a vista alcançava, e acima, um lindo céu azul, pontilhado por nuvens brancas e fofas.

E lá no fundo, quase um ponto distante no horizonte, erguia-se uma montanha negra enorme, imponente e sombria. E em suas costas, bem pequeno, quase imperceptível, havia um castelo.

"Lá é o 7º Reino de Smarron", Johnny disse, a voz baixa, sentando-se e encostando-se ao tronco da árvore. Francine sentou-se ao lado dele, observando a vista. "O campo marca o fim da fronteira entre os reinos. Eu nunca fui lá. Mas sempre gostei dessa vista. E pensar que, se seguir reto, há uma guerra acontecendo."

Ele apontou para o castelo distante, um contraste gritante entre a paz daquele momento e a realidade do conflito. Francine olhou para o castelo, para a montanha, e sentiu um arrepio. A beleza da paisagem era inegável, mas a presença da guerra, mesmo que distante, era um lembrete sombrio da fragilidade da paz. Ela se aconchegou mais perto de Johnny, buscando conforto em sua presença.

Aquela vista era de uma beleza indescritível. Eles ficaram ali, na colina, observando o pôr do sol pintar o céu com tons vibrantes de laranja, rosa e roxo, que se transformavam lentamente na escuridão profunda da noite, pontilhada por milhões de estrelas. O ar estava fresco, e o silêncio da natureza era quebrado apenas pelos sussurros deles e pelo suave roçar da brisa.

Eles conversavam, trocando carícias e sussurros de amor. Francine, com o coração transbordando de gratidão, o agradeceu por tudo, por aquela viagem, por aquele momento, por ter realizado seu sonho.

De repente, ela se levantou, os braços abertos, e começou a rodopiar no vasto campo verde, sentindo a brisa suave em seu rosto, os cabelos voando ao seu redor. Parecia um sonho. A alegria pura e desinibida dela era contagiante.

Johnny, sentado encostado na árvore, observava a cena, um sorriso bobo e apaixonado em seus lábios. Para ele, Francine ali, rodopiando sob o céu imenso, era a pintura mais linda que ele já havia visto, uma imagem que ele queria registrar em sua memória para sempre. Era a personificação de tudo o que ele havia procurado em sua jornada.

"Eu te amo", ele soltou, as palavras escapando de seus lábios como um suspiro, carregadas de toda a emoção que sentia.

Francine parou de rodopiar, o sorriso ainda em seu rosto, e olhou para ele, os olhos brilhando. "Eu também te amo, Johnny", ela respondeu, a voz embargada pela emoção.

Ela correu até ele, sentando-se em seu colo, e o beijou. Um beijo profundo e apaixonado, que selava aquele momento perfeito, sob as estrelas e a sombra da montanha negra distante. Era um beijo que prometia um futuro juntos, cheio de amor, aventura e a certeza de que haviam encontrado seu verdadeiro lar um no outro.


O Coração do Reino: Sixcity

Havia uma última parada na jornada, um pedido dos pais de Francine também, que a deixou curiosa. Ela perguntava a Johnny qual era a surpresa, mas ele apenas sorria, aumentando ainda mais sua curiosidade.

Estava amanhecendo. Francine acordou bocejando, espreguiçando-se na carruagem e dando um beijo suave na bochecha de Johnny. "Bom dia", ela murmurou. Johnny, que já estava tomando café para se manter acordado, respondeu com um sorriso e um "Bom dia, Leozinha".

Quando Francine coçou os olhos e olhou para fora, ela viu. A magnitude que se encontrava diante dela era Sixcity. Enormes muros se estendiam de ponta a ponta, até onde a vista alcançava, erguendo-se como montanhas artificiais. Acima de tudo, o imponente castelo dominava a paisagem. Parecia a entrada dos fundos da cidade, mas mesmo assim, era colossal.

Francine ficou fascinada, sem palavras. Todas as cidades que eles haviam visitado antes não se comparavam àquele reino. Era o Reino entre os Reinos.

Johnny, observando a reação dela, começou a explicar. "O reino é enorme assim porque é a junção dos antigos reinos, Leozinha. O Reino de Alice, o Reino de Lázari, o Reino de Magares, o Reino de Florece, o Reino de Nygrims e o Reino das Mines. Todos em um só. Sixcity."

Ele fez uma pausa, e um tom mais sério tomou sua voz. "Como você já sabe, o 7º Reino de Smarron traiu e tentou destruir os antigos reinos. Por isso a guerra."

Francine olhou para a grandiosidade de Sixcity, para a imponência do castelo, e sentiu o peso da história e do conflito. Aquele lugar não era apenas uma cidade; era um símbolo de união e de uma luta contínua. A última parada da jornada prometia ser a mais impactante de todas.

A magnitude de Sixcity era tal que a carruagem não podia entrar. Eles tiveram que deixá-la nos estábulos fora dos muros, pois apenas nobres e figuras de alta patente tinham permissão para adentrar a cidade com seus veículos. Johnny pagou a estalagem, e então, a pé, eles se dirigiram para a entrada.

Ao passarem pelos portões gigantescos, Francine sentiu-se minúscula. Ela rodopiava, tentando absorver tudo ao seu redor, mas a cada giro, havia algo novo, algo mais grandioso para ver. As construções eram imponentes, arranha-céus de pedra e metal que se erguiam em direção ao céu, fazendo-a parecer uma formiga. A cidade era um turbilhão de atividade, um zumbido constante de vozes, o tilintar de armas, o cheiro de comida exótica e a energia de milhares de vidas.

Eles haviam entrado pelo Distrito de Nygrims, e a arquitetura refletia a austeridade e a força militar que Johnny havia mencionado. A cidade era tão vasta que era dividida em distritos, cada um correspondendo aos antigos reinos que se uniram para formar Sixcity. No centro de tudo, elevando-se acima dos distritos como um guardião silencioso, estava o castelo do atual rei, que governava todo o reino.

Francine estava fascinada e um pouco sobrecarregada. A agitação, a grandiosidade, a diversidade de pessoas e culturas... era tudo muito diferente de Oakhaven. Ela se agarrou à mão de Johnny, sentindo-se um pouco perdida na imensidão daquele lugar. Ele sorriu para ela, um sorriso tranquilizador, e a guiou pela multidão, pronto para mostrar a ela o coração do mundo.


O Reencontro com Josh

Eles andavam pelas ruas movimentadas de Sixcity, Johnny com uma carta na mão, parecendo procurar por alguém. Francine, curiosa, estava prestes a perguntar, quando uma voz familiar cortou o burburinho da cidade.

"Leozinha!"

Francine congelou. Aquela voz... ela se virou, e lá estava ele. Seu irmão, Josh, o mesmo que havia partido de Oakhaven para Sixcity. Ele estava diferente, mais alto e mais forte, vestido com um uniforme militar que o fazia parecer ainda mais imponente.

Josh abriu os braços, e Francine correu para ele, abraçando-o com força, surpresa e aliviada. Ela o olhou de cima a baixo para ter certeza de que estava bem. Então, era essa a surpresa? Pensou ela, os olhos marejados, olhando para Johnny por cima do ombro de Josh enquanto o abraçava.

Josh a apertou, a voz embargada. "Senti tanto a sua falta, Leozinha! Você não faz ideia!"

"Eu também, Josh! Eu também!", Francine respondeu, as lágrimas escorrendo pelo rosto.

Com um sorriso radiante, Francine pegou a mão do irmão e puxou Johnny para perto. "Josh, este é Johnny. Johnny, este é meu irmão, Josh."

Josh estendeu a mão para Johnny, o rosto sério, um olhar protetor em seus olhos. "Então é você o rapaz que meus pais tanto falam nas cartas. Dizem que domou minha irmã." Ele apertou a mão de Johnny com firmeza. "Só espero que não esteja brincando com ela. E que a proteja com a sua vida."

Francine, sentindo o rosto queimar de vergonha pela pose superprotetora do irmão, deu uma cotovelada discreta nele. "Josh!", ela sibilou, lançando-lhe um olhar furioso que o fez perder a pose séria e rir.

Johnny sorriu, um sorriso genuíno e calmo. "Eu a amo, Josh. E daria a vida por ela, sem pensar duas vezes."

Josh olhou para Johnny, e um sorriso finalmente se formou em seu rosto. Ele soltou a mão de Johnny e deu um tapinha em seu ombro. "É bom saber. Cuide bem da minha irmã, Johnny."

Francine, aliviada e feliz, abraçou os dois homens mais importantes de sua vida. A surpresa havia sido perfeita, e o reencontro com seu irmão em Sixcity era mais um presente inesperado em sua incrível jornada.


Explorando Sixcity e os Desaparecimentos dos irmãos

Josh se tornou o guia deles em Sixcity. Johnny havia estado ali apenas uma vez, e só havia andado pelo Distrito de Alice, nunca se aventurando nos outros. Com Josh, Francine e Johnny teriam uma visão completa do Reino entre os Reinos.

Enquanto caminhavam pelas ruas movimentadas do Distrito de Nygrims, Josh perguntou sobre Oakhaven. "Como estão as coisas em casa? A cidade? As pessoas? O pai e a mãe?"

Francine, animada, começou a atualizá-lo sobre tudo. Ela falou sobre o "Canto do Dragão", sobre os pais, sobre Elara e Danilo, e sobre os ataques recentes que haviam cessado. E então, com um brilho nos olhos, ela soltou a notícia que a enchia de alegria.

"E eu estou noiva, Josh!", ela exclamou, mostrando a mão com o anel. "Vou me casar com o Johnny!"

Josh sorriu, um sorriso genuíno de felicidade pela irmã. "Eu já imaginava! As cartas dos pais estavam cheias de 'o Johnny fez isso', 'o Johnny fez aquilo'... Eles estão radiantes!"

"Mas antes de tudo isso", Francine continuou, um sorriso travesso em seus lábios enquanto olhava para Johnny, "ele me sequestrou! Disse que ia realizar meu sonho de conhecer o mundo antes do casamento. E aqui estamos!"

Josh riu, balançando a cabeça. "Sequestrou, é? Fico feliz por você, Leozinha. Você sempre sonhou em ver o mundo." Ele deu um tapinha nas costas de Johnny. "Então, Johnny, qual é o roteiro? Onde vamos primeiro?"

"Eu não sei", Johnny disse, rindo, em resposta à pergunta de Josh sobre o roteiro. "É a minha primeira vez neste distrito. Eu espero que você possa nos guiar." Ele pegou a mão de Francine, que estava tão fascinada pela cidade que quase esbarrou em um transeunte. Johnny a guiava, desviando-a das coisas para que não batesse, pois ela estava tão feliz e desorientada pela grandiosidade de Sixcity que esquecia sua própria coordenação.

Josh riu, observando a cena. Ele conhecia bem aquele comportamento da irmã; ela fazia o mesmo com ele quando criança, confiando nele cegamente. Vê-la assim com Johnny, tão à vontade e desorientada, era a prova de que ela realmente o amava profundamente.

Josh assumiu o papel de guia, mostrando a cidade e suas belezas. Eles passaram por mercados vibrantes, templos antigos e bairros movimentados, cada um com sua própria atmosfera e arquitetura, reflexo dos antigos reinos que o compunham. A cidade estava mais agitada que o normal, um burburinho de conversas ansiosas e patrulhas mais frequentes.

"A cidade está uma confusão", Josh explicou, enquanto os guiava por um beco menos movimentado. "O sucessor do posto de Comandante de Nygrims, o equivalente a um príncipe, Antorio Nygrims, desapareceu. Ninguém sabe onde ele está."

Johnny e Francine se entreolharam. Eles se lembravam de Antorio na cidade deles, em Oakhaven. "Antorio Nygrims?", Johnny perguntou, a testa franzida. "Nós o vimos em Oakhaven, há alguns meses. Ele retirou as tropas de lá."

"Sim, ele mesmo", Josh confirmou, parecendo surpreso. "E para piorar, a irmã dele, Nighty Nygrims, partiu sem avisar com um grupo atrás dele. Está uma confusão por aqui."

Francine e Johnny trocaram outro olhar, a lembrança de Antorio e sua presença misteriosa perto das ruínas do antigo reino voltando à mente. "Josh", Francine começou, "você sabe por que as tropas de Nygrims estavam tão perto de Oakhaven? Perto do Beco do Dragão?"

Josh balançou a cabeça. "Não. Ninguém sabe ao certo. Eles nunca disseram os motivos. Alguma escavação dizem os rumores bem estranho, sim. Mas com tudo o que está acontecendo agora, ninguém mais se importa com isso."

A resposta de Josh, ou a falta dela, não satisfez Johnny e Francine. O mistério da presença de Antorio perto de Oakhaven, e agora seu desaparecimento, adicionava uma camada de intriga à sua jornada. A guerra, que antes parecia distante, agora se mostrava mais complexa e perigosa do que eles imaginavam.


O Luxo e a Descoberta em Sixcity

Eles continuaram o passeio, e Josh os levou a diversos restaurantes locais, sendo um anfitrião exemplar. Francine provou pratos e bebidas que nunca imaginou existir, e cada sabor era uma nova descoberta. Por fim, Josh os conduziu a uma estalagem fina, com uma fachada imponente e janelas que brilhavam com luzes convidativas.

"Está tudo certo aqui", Josh disse, um sorriso satisfeito no rosto. "Um presente de casamento adiantado, para vocês relaxarem depois de tanta caminhada."

Francine abraçou o irmão com força, agradecendo-o. Ela apertou a mão de Johnny, os olhos brilhando de felicidade. Josh se retirou, dizendo que tinha assuntos a resolver, mas prometeu: "Amanhã à noite, naquele restaurante que passamos mais cedo. Contem comigo!" Ele saiu acenando para eles.

Johnny e Francine entraram na estalagem, e Francine ficou boquiaberta. O lugar era luxuoso, no mesmo nível da casa de Dana. O hall de entrada era grandioso, com tapetes macios e lustres cintilantes. O cheiro de flores frescas e madeira polida preenchia o ar.

Eles foram para o quarto, que era espaçoso e elegantemente decorado. Havia uma cama enorme com lençóis de seda e uma vista deslumbrante da cidade. Com os pés cansados de tanto andar – e pensar que eles haviam explorado apenas um distrito, nem mesmo o reino inteiro – eles se jogaram na cama macia.

Francine, deitada de lado, virou o rosto para Johnny. Um sorriso suave surgiu em seus lábios, e ela começou a beijar sua bochecha. "Obrigada", ela sussurrou, a voz cheia de carinho e gratidão. "Obrigada por tudo isso. Por essa surpresa. Por me mostrar o mundo."

Mesmo com o reino em ebulição devido ao sumiço de Antorio e à partida de Nighty Nygrims, Johnny e Francine conseguiram aproveitar e explorar Sixcity. Para ambos, era tudo novo: para Francine, a grandiosidade de uma metrópole; para Johnny, a oportunidade de conhecer os distritos que nunca havia visitado.

Eles passaram por uma praça magnífica no Distrito de Nygrims, adornada por um enorme chafariz. No centro, uma estátua imponente do antigo rei de Nygrims se erguia, um lembrete dos tempos em que Nygrims era um reino independente. As águas cristalinas do chafariz dançavam sob o sol, e Francine observava, maravilhada, a arte e a história que permeavam cada canto da cidade.

Passaram também por uma casa luxuosa, com guardas postados em seu portão de ferro forjado. "Dizem que é a casa da família Nygrims", Josh explicou, um tom de reverência em sua voz. E entre outros pontos turísticos, como o Grande Mercado e a Biblioteca Real, Johnny e Francine se perdiam na imensidão e na riqueza cultural de Sixcity.

Josh, sempre que tinha um tempo livre de seus afazeres militares, encontrava-se com eles. Ele mostrava sua nova vida para a irmã, os desafios e as recompensas de ser um cavaleiro em Sixcity. Outrora, Francine sentiria uma pontada de inveja, desejando ter a liberdade e as experiências que ele tinha. Mas agora era diferente. Noiva, realizando seu sonho de conhecer o mundo e ao lado de Johnny, ela se sentia completa. Ficava genuinamente feliz pelo irmão, vendo-o prosperar.

E, com a nova confiança que a viagem lhe trouxera, Francine não perdia a oportunidade de provocá-lo. "Então, Josh", ela perguntava, com um sorriso maroto, "não tem ninguém na sua vida? Nenhuma dama para roubar seu coração de cavaleiro?"

Josh corava, tentando mudar de assunto, enquanto Johnny ria ao lado dela. Era a vez de Francine fazer as provocações que ele costumava fazer com ela antigamente. Mas a diferença agora era que ela tinha Johnny, e com ele, a certeza de que seu próprio coração estava mais do que preenchido.

E assim foram os dias e semanas em Sixcity. Johnny e Francine conseguiram explorar bem o reino, absorvendo suas belezas e complexidades. A única parte que não puderam visitar foi o castelo, que permaneceu fechado devido aos acontecimentos envolvendo os irmãos Nygrims. A cidade, embora grandiosa, já não tinha mais segredos para eles.


O Adeus a Sixcity

Era hora de partir. Johnny escreveu uma carta para Math e Nana, provavelmente quando a carta chegasse a eles, Johnny e Francine já estariam de volta ao "Canto do Dragão".

Naquela manhã, Francine se despediu de seu irmão. Josh a abraçou com força, entregando-lhe uma carta para os pais. "Dê isso a eles, Leozinha. E desejo toda a felicidade do mundo para vocês dois. Quando tiver um tempo, passarei por lá, prometo."

Johnny também se despediu de Josh, abraçando-o. "Fique atento com ela", Josh disse a Johnny, um sorriso divertido no rosto, mas com um tom sério por trás.

E assim, eles se despediram, partindo de Sixcity e iniciando a longa jornada de volta para casa. A carruagem rolou pelas estradas familiares, mas agora, para Francine, o caminho parecia diferente. Ela não era mais a mesma garota que havia partido de Oakhaven meses atrás. Havia visto o mundo, conhecido novas pessoas, enfrentado perigos e, acima de tudo, encontrado um amor que a transformou.

A cada milha percorrida, a expectativa de retornar ao "Canto do Dragão" crescia. Não apenas para rever seus pais e o bar, mas para começar um novo capítulo de suas vidas, um capítulo que incluía um casamento, uma família e um lar na fazenda de Johnny, sob um céu cheio de estrelas.

Eles estavam perto de casa. Francine conduzia a carruagem agora, enquanto Johnny descansava, embalado pelo balanço suave do veículo. Ainda era tarde, o sol começava a se inclinar no horizonte, tingindo o céu de tons dourados.

Quando Francine viu a casinha de Johnny no alto da colina, uma ideia surgiu em sua mente. Ela pensou consigo mesma que ainda faltava uma semana para completar os seis meses de viagem. Um sorriso travesso se formou em seus lábios. Sem dizer uma palavra, ela desviou o caminho, virando a carruagem para a estrada que levava à fazenda de Johnny.

Chegando lá já era noite. Johnny acordou bocejando, espreguiçando-se, e então seus olhos se abriram em surpresa ao ver que estavam em casa. Ele pensou que iriam direto para o "Canto do Dragão".

"Leozinha? O que estamos fazendo aqui?", ele perguntou, confuso.

Francine desceu da carruagem, um brilho intenso em seus olhos. Ela se virou para ele, um sorriso sedutor em seus lábios. "Antes de voltarmos para Oakhaven... eu quero ser apenas sua, Johnny." Ela deu um passo em direção à casa, a voz baixando para um sussurro carregado de intenção. "E que você possamos te uma família."

Com cada palavra, ela tirava uma peça de roupa, deixando-as cair no chão da varanda: o casaco de viagem, o xale, as luvas. Ela caminhava para a casa, a duplicidade em suas palavras deixando bem claro o que ela queria dizer. Uma trilha de roupas marcava seu caminho até sumir dentro da casa.

Johnny, com o coração disparado, observou-a. A ousadia de Francine, a paixão em seus olhos, a promessa implícita em cada peça de roupa que caía. Ele sorriu, um sorriso de pura adoração, e a seguiu, recolhendo as roupas dela do chão enquanto entrava na casa, fazendo dela o seu próprio lar, um lar de amor e paixão.


O Retorno à Fazenda e a Decisão de Francine

A manhã seguinte na fazenda de Johnny amanheceu suave e preguiçosa. Os raios de sol filtravam pelas janelas, pintando o quarto com tons quentes. Francine e Johnny acordaram nos braços um do outro, os corpos ainda exaustos, mas os corações cheios de uma alegria serena. A noite havia sido uma culminação de sua jornada, um selo para o amor que havia crescido e se aprofundado a cada milha percorrida.

Eles passaram o dia na fazenda, desfrutando da quietude, da companhia um do outro e da beleza do lugar que agora era o lar de ambos. Francine caminhou pelos campos, sentiu a brisa no rosto e imaginou a vida que poderiam construir ali. Johnny a observava, um sorriso constante em seus lábios, feliz por vê-la tão à vontade em seu mundo.

No dia seguinte, com o coração cheio de novas memórias e a promessa de um futuro, eles se prepararam para a última etapa da viagem. A carruagem, agora carregada não apenas com suas poucas posses, mas com a riqueza de suas experiências, partiu da fazenda. Francine olhou para trás, para a casinha na colina, e sabia que não era um adeus, mas um "até breve".

A viagem de volta para Oakhaven foi mais rápida, e a paisagem familiar começou a surgir. Francine sentiu uma mistura de emoções: a nostalgia de deixar a estrada, a excitação de rever seus pais e o bar, e a ansiedade pelo que o futuro lhes reservava.

Finalmente, a silhueta de Oakhaven apareceu no horizonte. As casas de madeira, o "Canto do Dragão" com sua fumaça subindo pela chaminé, tudo parecia menor, mas mais acolhedor do que nunca. A carruagem parou em frente ao bar, e o cheiro familiar de cerveja e comida os envolveu.

Os pais de Francine, Barnaby e sua esposa, estavam na porta, os rostos iluminados ao vê-los. Gritos de alegria, abraços apertados e lágrimas de felicidade marcaram o reencontro. Elara,Danilo e Lydia também estavam lá, sorrindo e cumprimentando-os com entusiasmo.

"Leozinha! Johnny! Vocês voltaram!", a mãe de Francine exclamou, abraçando a filha com força.

Johnny entregou a carta de Josh aos pais de Francine, que a leram com um sorriso. A promessa de Josh de visitá-los e a notícia de seu sucesso em Sixcity trouxeram mais felicidade à família.

A noite no "Canto do Dragão" foi uma celebração. Os moradores de Oakhaven vieram dar as boas-vindas, curiosos para ouvir as histórias da viagem. Francine, com Johnny ao seu lado, contou sobre as cidades, as paisagens, os perigos e as maravilhas que haviam encontrado. Ela falou sobre Dana, sobre Josh, e sobre a beleza das estrelas que só podiam ser vistas longe das luzes da cidade.

Johnny, com um sorriso orgulhoso, observava Francine, que havia se transformado de uma "Leozinha do Cabaré" um tanto ingênua em uma mulher corajosa e experiente, com um brilho nos olhos que refletia o mundo que ela havia visto.

O retorno a Oakhaven não era o fim da aventura, mas o início de uma nova. Eles estavam de volta ao lar, mas com a certeza de que seu mundo havia se expandido, e que, juntos, eles poderiam construir o futuro que sempre sonharam, seja na fazenda de Johnny ou no coração de Oakhaven.


Os Planos para o Futuro

Faltavam poucas semanas para o casamento, e o "Canto do Dragão" estava em um frenesi de preparativos. Johnny, que havia se tornado o principal organizador, corria de um lado para o outro, ajeitando cada detalhe. Ele perguntava sobre os gostos de Francine, de Elara, dos pais dela, encomendava flores, fazia pedidos de comida, enviava cartas para confirmar presenças. Ele acordava sobre uma pilha de papéis, exausto, mas determinado a fazer do casamento de Francine o dia mais perfeito de sua vida.

Francine, ao vê-lo tão dedicado, sentia o coração transbordar de amor. Ela se aproximava dele pela manhã, dando um beijo suave em sua bochecha. "Bom dia, meu amor. Você está exausto. Vá descansar, eu assumo agora." Ela o deixava dormir mais um pouco, admirada pelo esforço dele.

Mas, além dos preparativos, Francine tinha algo importante a dizer. Uma decisão que havia amadurecido durante a viagem e que ela precisava comunicar aos seus pais. Em uma tarde, ela convocou-os para uma conversa séria.

"Pai, mãe", ela começou, a voz firme, mas com um toque de nervosismo. "Eu preciso dizer algo a vocês."

Barnaby e sua esposa a olharam, curiosos.

"Depois do casamento...", Francine continuou, respirando fundo, "eu e Johnny vamos morar na casa dele. Na fazenda."

Um silêncio pesado caiu sobre o cômodo. Os pais de Francine piscaram, surpresos. "Mas, Leozinha", o pai começou, "vocês poderiam ficar aqui! O bar será de vocês! Podemos até construir uma casa maior aqui, se quiserem..."

A mãe dela assentiu, os olhos marejados. "Sim, querida. O Canto do Dragão é o seu lugar. É o seu lar."

Mas Francine os interrompeu, erguendo a mão. "Não. É isso o que eu quero." A voz dela era calma, mas carregada de uma nova autoridade, uma convicção que seus pais nunca haviam visto nela. "Eu não estou pedindo permissão. Estou avisando."

Ela olhou para eles, seus olhos brilhando com uma determinação que vinha de dentro. "Pela primeira vez na minha vida, eu escolhi algo que eu realmente quero seguir. Algo que eu quero para mim. E é a vida ao lado dele, na casa dele…. na nossa casa, construindo a nossa própria família lá."

Os pais de Francine se entreolharam, chocados com a assertividade da filha. Mas, ao ver o brilho em seus olhos, a felicidade que irradiava dela, eles souberam que era a decisão certa. A "Leozinha do Cabaré" havia crescido, e a viagem com Johnny a havia transformado em uma mulher que sabia o que queria. Com um suspiro de aceitação, e um sorriso orgulhoso, eles assentiram. O lar de Francine não seria mais apenas o "Canto do Dragão", mas o mundo, ao lado do homem que a amava.


Um Encontro Inesperado

Faltavam poucas semanas para o casamento, e a pressão era imensa. Johnny, que normalmente era a calma em pessoa, estava no limite. Francine estava ocupada com os últimos detalhes do vestido, das decorações e da comida, deixando-o sozinho para segurar as pontas no "Canto do Dragão". Ele atendia os clientes, limpava mesas, servia bebidas, tudo sozinho. O cansaço e a pressão eram palpáveis, e ele ainda tinha que aturar clientes folgados e exigentes.

Em um dia qualquer, com o bar movimentado e a mente de Johnny em milhas de distância, um grupo de jovens aventureiros entrou. Pareciam recém-saídos de uma jornada, cheios de energia e barulho. Entre eles, uma garota de cabelos loiros e olhos da mesma cor, vestida com roupas de aventureira, parecia ser a líder. Ela devia ser mais nova que Johnny, talvez uns três anos.

Johnny, com uma pilha de pratos na mão e a cabeça nas nuvens, esbarrou acidentalmente nela. "Me desculpe", ele disse, quase por reflexo, sem sequer olhar para ela.

A moça, no entanto, achou um ultraje. "Quem você pensa que é para esbarrar em mim assim?", ela esbravejou, a voz alta e cheia de indignação.

Normalmente, Johnny teria ignorado e seguido em frente, pedindo desculpas novamente. Mas ele estava com a cabeça tão quente, tão exausto pela pressão do casamento e do bar, que algo estalou dentro dele. Ele se virou lentamente para ela, um sorriso irônico nos lábios, uma mão na cintura e a outra segurando a bandeja.

"Eu sou o dono", Johnny disse, a voz baixa, mas carregada de sarcasmo. "E você, baixinha?" Ele a provocou, referindo-se à altura dela.

A garota loira ficou boquiaberta, sem acreditar na audácia dele. Ela ia esbravejar novamente, mas foi puxada pelo resto do grupo. "Nighty! Calma! Não arrume confusão!", disse uma das garotas, enquanto outra pedia desculpas a Johnny. "Por favor, senhor, desculpe-a. Ela não está acostumada a ser contrariada."

Johnny ouviu uma delas sussurrar: "Este é o único restaurante em milhas, Nighty. Nada de briga!"

Ele respirou fundo, o sorriso irônico desaparecendo. A exaustão voltou a dominá-lo. "Certo", ele disse, e foi servir a mesa, a tensão ainda pairando no ar. A "baixinha" era Nighty, a irmã de Antorio Nygrims, a mesma que havia sumido de SixCity a procura do irmão. Faz sentido ela estar por ali.

Mas Nighty não ia deixar barato. Ela, filha e descendente do antigo rei de Nygrims, não podia permitir que um plebeu qualquer a tratasse daquela forma. Nem pensar.

Em algum momento, Johnny teve que atender a mesa deles. Todos fizeram seus pedidos, mas na vez de Nighty, ela pedia o que estava no menu e alterava todinho, quase sobrando apenas o pão com carne. "O suco tem que ser na temperatura exata, colhido na hora, e de um tipo específico de fruta que só nasce nas Montanhas Uivantes", ela exigiu, com um sorriso irônico. "E para sobremesa... ah, não sei. Talvez eu queira um potinho de pudim. Mas tem que ser de leite de unicórnio." Era claro que ela estava apenas tentando dar trabalho, e ela sabia disso, dando um sorriso provocador.

Johnny anotava tudo, com um sorriso irônico que espelhava o dela. Ele foi e trouxe os pedidos de todos, mas o de Nighty... ele trouxe exatamente como era no cardápio, sem nenhuma alteração. E, com um tom de voz que não deixava dúvidas sobre a provocação, ele disse: "Senhorita, infelizmente, o pudim de leite de unicórnio acabou. Mas o resto a senhorita consegue tirar com a mão, não é?"

Nighty bateu na mesa com força, levantando-se para peitá-lo, os olhos faiscando de raiva. "Quem você pensa que é? Sabe quem eu sou?"

Johnny, já de saco cheio, não recuou. Ele a encarou, o sorriso irônico voltando ao seu rosto. "Tenho uma ideia. E também tenho outras ideias de que estive em Sixcity recentemente e, olha... procuravam por uma tal de Nighty e o seu grupo. Estavam querendo qualquer informação." Ele fez uma pausa dramática, o olhar fixo no dela. "Agora... será que eu devo dar alguma informação?"

Ele sabia que eles eram procurados, mas infelizmente para eles, Johnny sabia até demais. Nighty ficou pálida, mas ainda queria bater de frente. "Ora, como se..."

Ela foi interrompida por um dos membros do grupo, que a puxou, tapando sua boca. O outro membro se desculpou com Johnny. "Por favor, senhor, desculpe-a. Ela não está bem." Eles rapidamente pegaram a comida e pagaram a Johnny, dando-lhe uma quantia bem maior do que o necessário, enquanto levavam os pratos.

Johnny bufou e revirou os olhos, observando-os sair apressadamente. Aquele dia estava sendo mais cansativo do que o normal.

Nos dias que se seguiram, Nighty e seu grupo ainda frequentavam o "Canto do Dragão", mas suas visitas eram estritamente comerciais, focadas apenas na aquisição de mantimentos. Nighty permanecia do lado de fora, a fúria evidente em seu rosto, os braços cruzados e uma carranca profunda. Johnny, por sua vez, deleitava-se em provocá-la. De dentro do bar, ele acenava com um sorriso largo, um gesto que a levava ao limite, sendo contida por uma das companheiras para não avançar.

Apesar da tensão ocasional com Nighty, a vida em Oakhaven estava impregnada de uma alegria contagiante. A cidade inteira fervilhava com os preparativos para o casamento de Francine e Johnny. As semanas voavam, e cada dia trazia novas decorações, uma atmosfera de celebração que envolvia a todos.

Francine irradiava felicidade, dividindo seu tempo entre os últimos ajustes do vestido, as provas de comida e a ajuda a Johnny no bar, que agora desfrutava de uma calma incomum. Ela o observava com carinho, testemunhando seu trabalho incansável para que tudo fosse perfeito. O amor entre eles era palpável, e a cidade inteira sentia a energia daquele casal que havia encontrado o amor de forma tão inesperada.

O grande dia se aproximava. O "Canto do Dragão" estava sendo transformado, as ruas de Oakhaven adornadas com flores e fitas. O casamento de Francine, a "Leozinha do Cabaré", e Johnny, o andarilho, prometia ser o evento mais comentado da história da pequena cidade.

Após terminar algumas tarefas, Johnny deixou o restante sob os cuidados de Danilo, para que este pudesse se arrumar. Caminhou em direção à casa de Elara, que havia perdido alguns acessórios. O tempo parecia bom, mas um frio incomum pairava no ar, estranho para a estação, talvez um prenúncio de um inverno precoce. O casamento estava a poucas horas de distância, e a casa de Elara era uma adorável desordem de preparativos de última hora. Johnny chamou por Elara, que não respondeu. Ele subiu para o andar de cima e, no meio do caminho, viu Francine. Não havia palavras para descrevê-la; estava tão linda e radiante que o fez recordar a memória dela rodopiando nos campos verdes entre as fronteiras, uma cena simples, porém genuína.

Francine se assustou, pensando que era Elara, e tentou se esconder. "Não! Você ainda não pode ver...", disse ela, desesperada para ocultar o vestido de casamento, mas ao tentar virar-se para subir, pisou em um piso gasto e caiu. Rapidamente, Johnny a segurou, revivendo a primeira vez em que a havia impedido de cair nas escadas do bar, aquele momento que fez seu coração bater pela primeira vez. Dessa vez, Francine riu, tentando disfarçar com a mão, e sorriu, envolvendo os braços no pescoço dele e lhe dando um beijo suave. "Eu te amo", ela sussurrou. Ele sorriu, olhando em seus olhos, e sentiu-se o homem mais sortudo do mundo. De toda a beleza por onde havia andado, nada se comparava a ela, aquele momento que hoje seria o começo de um novo capítulo, cheio de propósito e felicidade para suas vidas. Ele queria agradecê-la por lhe dar tudo apenas sendo ela, afirmando que não precisava de mais nada a não ser ela ao seu lado. Ainda seriam poucas palavras para descrever o que sentia por ela, mas naquele momento tudo poderia ser resumido em três palavras. "Eu te amo" disse ele, com um sorriso de lado, dando-lhe um último selinho e a colocando gentilmente no chão, ajudando-a a se equilibrar com o vestido.

Antes que pudessem dizer algo mais, Elara entrou, carregada de coisas e segurando o terno de Johnny. "Não! Johnny! Você não pode ver! Francine!", exclamou ela, vindo em direção a eles e jogando uma caixa no chão. Francine riu e segurou a barra do vestido para se locomover melhor, subindo as escadas. Elara passou por Johnny, entregando-lhe o terno. "Apague! Apague a memória! Hum!", disse ela, tampando os olhos dele para que não acompanhasse Francine subindo as escadas. Ele riu para Elara, que lhe mostrou a língua. "Se arrume e espere, tome conta de Lydia por mim", e as duas desapareceram no andar de cima, com Elara reclamando e Francine rindo. Johnny ficou ali, ao pé da escada, com a visão de Francine no vestido de noiva... Se soubesse ele que seria a última vez que a veria.

Johnny brincou um pouco com Lydia, que estava com uma energia inesgotável, correndo pela sala. "Vá brincar por aí com os amiguinhos, pequena", Johnny disse, com um sorriso cansado, "mas fique por perto, sim?" Lydia assentiu e saiu correndo pela porta dos fundos, a risada ecoando no ar. Johnny deitou-se no sofá, relaxando um pouco. Elara e Francine ainda não haviam descido, e todas aquelas semanas de exaustão começaram a cobrar seu preço, o sono o invadindo. Um leve vento frio entrou pela janela, incomum para o verão, mas ele não pensou muito nisso. Seus olhos se fecharam, e ele mergulhou em um sonho.

Era um sonho tão bom, tão real. Francine estava em casa com ele, na fazenda, preparando o café. O cheiro de pão fresco e grãos torrados preenchia o ar. Seus filhos corriam ao redor dela, risadas infantis ecoando pela cozinha. Francine ria, tentando ser autoritária, pedindo para que tomassem cuidado. Johnny chegava em casa após colher alguns legumes, o cheiro de terra fresca em suas mãos. Ele ia até ela, abraçando-a gentilmente por trás, dando-lhe um beijo no pescoço e um "Bom dia, Leozinha". Suas mãos desceram para a barriga dela, acariciando-a com ternura. Havia um novo membro vindo, a promessa de mais vida fazendo-a derreter e cair suavemente sobre ele. "Eu te amo muito", ela sussurrava, adorando quando ele fazia aquilo. Ele, por sua vez, sussurrou em seu ouvido, perguntando qual nome dariam se fosse menina ou menino. Francine sorriu, um brilho nos olhos. Se fosse menino, chamaria de Deodoro. E se fosse menina... se chamaria Solo.

De repente, houve um baque. O céu do sonho ficou vermelho, não como um pôr do sol normal, mas intenso, cegante, como se o próprio sangue estivesse escorrendo pelo firmamento. Francine havia sumido, assim como seus filhos. Johnny estava sozinho na floresta, naquele dia fatídico em que salvou as crianças. Uma voz o chamava... era doce e suave, mas com intenções nefastas por trás, um sussurro que prometia escuridão. Ele corria desesperado, chamando por Francine e seus filhos, mas sempre acabava no mesmo lugar, preso em um ciclo sem fim ouvia as crianças que salvo rindo. No escuro, dois olhos amarelos surgiam, como os de um gato predador. "Está chegando!", a voz dizia, perto do ouvido dele.

Johnny acordou ofegante, o coração batendo forte no peito. Seus olhos se abriram bruscamente, e ele olhou em volta. Já era noite. Uma luz estranha entrava pelas janelas, um brilho avermelhado que parecia um pôr do sol... mas não era. Era muito mais intenso, e o céu lá fora estava escuro, tingido por um tom carmesim assustador.

Ele se levantou, a adrenalina correndo em suas veias. "Francine? Elara? Quem está aí?" Ele chamou, a voz rouca. De repente, ouviu a voz desesperada de Lydia vindo do porão. Um grito agudo de terror.

Johnny saiu em disparada. Chegando às escadas do porão, uma criatura horrenda se erguia. Parecia humana, mas era completamente preta, com cabelos longos e esvoaçantes, e seus olhos... seus olhos eram de um amarelo intenso, exatamente como os do seu sonho. A criatura chamava o nome de Lydia, uma voz gutural e assustadora.

Johnny não pensou. Ele partiu para cima da criatura, tentando afastá-la de Lydia, jogando-se contra ela com toda a força que tinha. Mas a criatura era forte, incrivelmente forte. Ele lutava, seus músculos queimando, tentando empurrá-la para longe da escada.

De repente, ouviu gritos por todos os lados, abafados ao longe, e o desespero tomou conta. A cidade estava sendo atacada. Ele lutava contra a criatura, Lydia, em choque, gritava sem parar.

Em um movimento desesperado, Johnny conseguiu ferir a criatura, que soltou um urro de dor. Ele caiu com ela sobre algo pontudo, algo que perfurou a criatura. Mas o grito dela foi tão poderoso, tão estrondoso, que a casa inteira explodiu. Escombros voaram por todos os lados, a madeira estalava, as paredes desmoronavam. No último ato, Johnny se jogou sobre Lydia, protegendo-a dos escombros e do peso da casa que desabava. Ele sentia como se fosse morrer.

Johnny estava perdendo as forças, não sentia mais nada além de uma dor lancinante que consumia cada fibra de seu ser. Ele ouvia a voz desesperada de Lydia o chamando, mas parecia tão distante, abafada pelos escombros e pelo zumbido em seus ouvidos. Tudo o que conseguia pensar era em Francine. O rosto dela, o sorriso, a promessa de um futuro.

"Por que você sempre atrapalha, hein?"

A voz. Era a voz dela. Johnny piscou os olhos, e de repente, Francine estava ali, diante dele, no meio do que parecia ser o "Canto do Dragão". Era como os primeiros dias de trabalho, em que eles se bicavam por qualquer bobagem.

"Perdão?", Johnny conseguiu murmurar, confuso, a dor real se misturando com a estranha clareza do sonho.

Francine retrucou, com a mão na cintura, a expressão irritada que ele conhecia tão bem. "Você é surdo ou se faz? Eu estava no seu caminho, deveria olhar para onde anda!" Ela o provocava, exatamente como fazia antes.

Mas então, o sorriso dela mudou. Não era o sorriso que ele estava acostumado, aquele que iluminava seu rosto e aquecia seu coração. Havia algo de diferente, algo sinistro. Seus olhos... a cor deles era um amarelo intenso, como os olhos da criatura do seu sonho, da criatura que o atacara. E seu sorriso lhe causava um apavoro gelado, um terror que arrepiou sua espinha.

De repente, o céu dentro do "Canto do Dragão" ficou vermelho, o mesmo tom cegante da lua de sangue em seu sonho, o mesmo tom que tingia o céu lá fora. A "Francine" se aproximava, a voz doce e suave, mas carregada de uma intenção maligna que o fez estremecer.

"Toda vez que eu estava perto de concluir meu plano, você estava lá. Você simplesmente não poderia... sei lá."

Ela passou por uma sombra, e a figura de Francine começou a mudar. A pele pálida se tornou um preto profundo, os cabelos castanhos se alongaram, caindo até o chão, transformando-se em fios negros e esvoaçantes. Os olhos, antes amarelos, agora eram pretos, com pupilas amarelas que brilhavam na escuridão. As vestes, antes as roupas simples de Francine, tornaram-se negras, revelando apenas os ombros. Ela era a criatura.

Ela se aproximou, a figura sombria pairando sobre ele. "Morrer", disse ela, terminando a frase que Johnny havia começado em seu sonho, a voz agora um sussurro rouco e gélido que ecoou em sua mente.

Johnny sentiu o pavor o consumir. Não era um sonho. Era real. E a criatura, a fonte de todo o seu tormento, estava ali, diante dele, com o rosto de Francine, prometendo sua morte.

Johnny tentou responder, mas sentiu uma dor alucinante que o rasgou por dentro. Seriam os escombros esmagando-o, ou algo mais sinistro? A criatura riu, um som que parecia se divertir com sua agonia. E então, ela voltou à forma de Francine, abaixando-se perto dele, que estava caído no chão, contorcendo-se de dor e agonia.

"Own, olha como ele é resistente", a "Francine" sussurrou, a voz dela misturada com um tom gutural e arrepiante da criatura. "Tudo isso por essa mulher? Ah, o amor... uma das forças de motivação mais fortes desse mundo. Tenho que admitir que para um simples camponês, sua força de vontade é... louvável. Mas quanto tempo vai resistir, até que todos que ame acabe... morrendo?"

A pergunta, sussurrada tão perto de seu ouvido, com a voz de Francine, mas com a intenção maligna da criatura, atingiu Johnny como uma facada. Ela indicava que Francine estava lá fora, provavelmente com os outros, sendo... Ele cospia sangue, engasgando de dor, querendo desesperadamente se libertar, sair daquele pesadelo.

A criatura ria, um som seco e cruel, enquanto se levantava e batia palmas lentamente. "Isso, é isso. Força! Faz tempo que eu não via uma casca assim..."

"Você quer salvá-la? Assim como todos que ama? Ter o poder de salvar e moldar a realidade a seu favor? Você quer?" A voz era de Francine, mas a pergunta era da criatura, cheia de uma promessa perigosa. E então, a forma de Francine parecia muito machucada e sangrando, uma imagem que rasgava a alma de Johnny. Mesmo assim, ela ainda sorria, um sorriso que, apesar do sangue, parecia de apoio.

"Tudo o que tem que fazer é se levantar", ela sussurrava, como se estivesse dando apoio, a voz suave e encorajadora. Johnny, mesmo sentindo uma dor alucinante que o consumia, tentava se levantar. Ele caía diversas vezes, os músculos recusando-se a obedecer, o corpo esmagado e ferido. Mas a "Francine" o motivava, a voz dela ficando cada vez mais alta, mais clara, mais insistente a cada tentativa.

Com um esforço sobre-humano, Johnny conseguiu ficar de pé, quase caindo, ofegante, o sangue escorrendo de sua boca. A "Francine" se aproximou, seus olhos amarelos fixos nos dele. "Tudo o que você tem que dizer é... sim. Para sempre, sim."

As palavras dela ecoaram em sua mente, fazendo Johnny se lembrar do pedido de casamento que ele fez a Francine, daquele momento perfeito na escadaria do bar, da promessa de "Sim. Para sempre sim" que ela havia feito. Era como se revivesse a memória dela falando, a voz dela, pura e cheia de amor.

Ele respirou fundo com dificuldade, a dor latejando em cada nervo, mas a imagem de Francine, Lydia, Elara, Danilo e de todos que ele amava, o impulsionava. Ele fechou os olhos, e com a última gota de sua força, sussurrou: "Sim."

De repente, toda a dor... tinha sumido. O peso dos escombros, o zumbido em seus ouvidos, a agonia que o rasgava por dentro – tudo desapareceu. Uma sensação estranha, quase leveza, o preencheu mas também havia muita dor e um choro de bebe distante. O vermelho do céu do sonho parecia mais vibrante, e a criatura, ainda na forma de Francine, sorria para ele, um sorriso vitorioso e aterrorizante. Johnny estava de pé, mas a que custo?

De repente, tudo ficou branco. Ele ouvia cavalos e pessoas gritando ao longe. Estava abraçado a Lydia, protegendo-a, sentindo o peso de algo sobre eles, alguns escombros. Abriu os olhos e viu o rosto de Nighty, que gritava, chamando por ajuda. Havia desespero em seus olhos, tristeza e dor... ela lutava para segurar o choro. O protagonista, ainda catatônico, olhava em volta. Tudo estava destruído. A casa havia virado ruínas. Lydia estava em seus braços, também desmaiada. Com um esforço imenso, ele a entregou primeiro a Nighty, que rapidamente a passou para os guardas que chegavam, correndo para o local.

Nighty voltou seus olhos novamente para ele, oferecendo a mão. De repente, ele sentiu o ar novamente em seus pulmões, uma lufada fria e cortante. Ele não sentia nada e, ao mesmo tempo, sentia tudo. Sua mente só conseguia perguntar: "Francine?"

Ele saiu de lá com a ajuda de Nighty, que o segurava para não cair. Seu corpo doía, mas seu espírito... nada. Uma estranha dormência o envolvia. Assim que saiu da casa em destroços, a cena que viu o destruiu ainda mais. Toda a cidade estava reduzida a cinzas. Havia sangue, destroços e um cheiro nauseabundo de fumaça e morte. Alguns corpos estavam carbonizados, outros mutilados...

As lágrimas escorriam pelos olhos dele, mas ele não esboçava nenhuma reação, nem tinha força para se manter de pé, fazendo-o cair de joelhos. Só não caiu de cara no chão porque Nighty o segurava firmemente. Ela dizia algo, mas ele nem conseguia ouvir... parecia um zumbido distante. A única coisa que ele conseguiu dizer, em um sussurro rouco e desesperado, foi: "Francine..."


Notas finais
A historia continua no meu próximo livro chamado de ''J.S''.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!