Sim?
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Rick dizia que era uma espécie de narcisismo. Dizia que éramos parecidas fisicamente e que não deixávamos de ser duas versões diferentes do mesmo arquétipo, e que ele poderia passar dias nos mostrando outras como nós. Ele falava que teria acontecido a mesma coisa se fosse outra pessoa, outro mundo, outra realidade. Meu avô afirmava que estávamos juntas por nossas semelhanças e que as diferenças, por mais fascinantes que iriam parecer conforme as notávamos, logo seria o motivo da primeira grande briga. Depois, da segunda. Da terceira. Da vigésima. Da última. Ele me disse que insistir em algo assim era burro, que ele mesmo pôde comprovar e que repetir seu erro seria estupidez minha.
Wendy me contou que Stanford Pines, alguém que raramente falava com ela, havia dito o mesmo — de forma mais respeitosa e sensível, claro —, e eu, que não sou burra, rapidamente conectei os pontos. Isso me fez querer abraçar vovô Rick, mas, infelizmente, não tenho abertura para isso. Tanto eu quanto ela percebemos que, por mais que eles tenham dito tudo isso, eles estão muito felizes por nós. O que lhes falta é o mesmo que nos sobra: esperança. Seus passados carregam muita dor, eles já passaram por muito, muito mesmo. Eu e Wendy ainda temos muito caminho pela frente, porém caminharemos juntas.
Talvez eles estejam certos. E se estiverem? E se estivermos fadadas a cometer os mesmos erros das gerações anteriores? Eu simplesmente não consigo me impedir de pensar nisso. Ford e Rick não são basicamente a pessoa mais inteligente de suas respectivas realidades? Não tem como os dois estarem errados! Não importa o quanto eu ame ela, o quanto ela diz me amar, eu sempre vou ter medo de tudo dar errado. E tem tanta coisa que pode dar errado, ainda mais com tantas aventuras com risco de morte que pulamos de cabeça constantemente. É, nós realmente repetimos a história deles.
— Summer? — Sinto uma mão em meu ombro, olho para trás e lá está ela: linda, poderosa; seu machado está cheio do sangue dos elfos assassinos, sua boca com um lindo sorriso, mas seus olhos tomados por preocupação e um certo nervosismo. — ‘Tá tudo bem? Você ‘tá estranha hoje, nem se empolgou com a emboscada…
— Ãn? Ah, eu... — Quero falar a verdade, mas não consigo. — Eu não sei se estou muito afim de uma realidade de fantasia medieval…
— É uma merda repetitiva, eu sei. — Rick, que provavelmente percebeu a mentira, me ajuda a ser convincente, sua forma sutil de demonstrar afeto — Morty sempre escolhe essa porra, então vamos terminar isso de uma vez.
Eu concordo e rio, seguindo eles pela floresta encantada. Posso tentar evitar contato visual com ela, mas Wendy me conhece, e logo me puxa para um local isolado, nos separando do grupo. Eu acho que ela quer respostas, mas não sei se sou capaz de dá-las. Ela abre a boca e eu começo a esperar que ela fale algo que acabará por me fazer chorar. Mas ela não diz nada. Em vez disso, me beija. Ainda sim, eu choro. Ela para o beijo e me abraça. Eu não estou entendendo nada, mas a abraço de volta. No meu ouvido, ela cochicha:
— Eu não sei por que você não ‘tá bem e nem por que você não quer me contar o que é, eu só sei que te amo demais e que vou estar aqui, te amando e apoiando até que esteja pronta para falar. — Ela se afasta e pega meu rosto nas mãos, secando minhas lágrimas — Você realmente é um monstro! — Ela grita as duas últimas palavras.
— Quê? — Ainda me segurando pelo rosto, ela me puxa para o chão, desviando de um ataque de um ogro — Puta merda!
Ponho a mão na minha cintura, procurando a arma laser que Rick me deu, mas ela não está lá. No entanto, quando olho novamente para o monstro, Wendy já está com seu machado fincado no pescoço dele. O golpe por pouco não o decapitou, mas foi o suficiente para matá-lo. Com o rosto sujo de sangue, ela me olha, ofegante.
— Se machucou?
— Não, ‘tô bem. — Começo a me levantar — Eu tenho medo. É por isso que ando estranha. É medo.
— Medo do quê? — Ela pega nas minhas mãos e olha nos meus olhos, enxergando minha alma.
— Medo de te perder. Medo de eles estarem certos.
— Eu também tenho esse medo, mas… Temos que aprender a viver o agora. — Ela se ajoelha na minha frente, me deixando confusa — Me deixe melhorar o agora.
— O que você…? — Ela tira uma caixinha de anel do bolso e a abre, tirando meu fôlego.
— Summer Smith Sanches, casa comigo?
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