Silêncios no Corredor
5 Pequenos Passos
Depois daquele breve “olá”, nada voltou a ser exactamente igual. Aoi tentou convencer-se de que tinha sido apenas um momento banal, uma coincidência sem importância, mas o seu corpo desmentia-a. Havia agora uma atenção nova nos seus gestos, uma consciência constante do espaço à sua volta. Cada corredor parecia mais longo, cada intervalo mais pesado, como se algo estivesse prestes a acontecer, mesmo que nunca acontecesse.
Ela começou a reparar nos horários dele. Não de forma consciente, dizia a si mesma, mas sabia quando ele costumava passar pela escadaria lateral ou quando se sentava perto das máquinas de bebidas. Observava-o à distância, protegida pela multidão, pelos ruídos da escola, pela sua própria timidez. Ele continuava silencioso, quase invisível para os outros, mas para Aoi tornara-se impossível ignorá-lo.
Um dia, durante a aula de Ciências, a professora pediu trabalhos em grupo. O simples anúncio fez crescer um murmúrio inquieto na sala. Aoi baixou o olhar, já preparada para ficar sozinha, como tantas outras vezes. Foi então que ouviu uma cadeira a arrastar-se suavemente.
— Posso… ficar aqui? — perguntou ele, apontando para o lugar vazio ao seu lado.
Aoi ergueu os olhos, surpreendida. Demorou um segundo a reagir, mas acabou por acenar afirmativamente. O coração batia-lhe tão forte que temeu que ele o ouvisse. Sentaram-se lado a lado, separados por poucos centímetros e por um mundo inteiro de palavras não ditas.
Trabalharam em silêncio, trocando apenas folhas e apontamentos. De vez em quando, os dedos tocavam-se por acidente, provocando um arrepio imediato. Nenhum deles comentava. O silêncio, estranhamente, deixara de ser desconfortável. Era um espaço seguro, onde ambos pareciam saber existir.
— Obrigado — disse ele no fim da aula, com um sorriso discreto.
Aoi respondeu com um sorriso tímido, quase escondido. Era pouco, mas era um começo.
Nos dias seguintes, esses pequenos momentos repetiram-se. Um cumprimento breve, um caminhar lado a lado por alguns metros, um comentário simples sobre a matéria. Pequenos passos, quase invisíveis para quem observasse de fora, mas enormes para Aoi. Cada gesto exigia coragem, cada palavra dita era uma vitória silenciosa.
Certa manhã, o céu estava pintado de tons suaves de laranja e rosa. Aoi chegou mais cedo à escola e encontrou-o no pátio, a observar o nascer do sol. Hesitou antes de se aproximar, mas algo dentro de si empurrou-a para a frente.
— É bonito — murmurou, olhando o horizonte.
Ele virou-se, surpreso, e assentiu.
— Faz-me pensar que… talvez seja possível recomeçar.
Aoi não respondeu, mas ficou ali, ao lado dele, partilhando o silêncio e a luz nascente. Pela primeira vez, não se sentiu sozinha. Não porque tudo estivesse resolvido, mas porque alguém caminhava ao seu ritmo.
— O meu nome é Ren. Qual é o teu? — Com um sorriso
— O meu é Aio. — Com uma voz tímida.
E, naquele amanhecer calmo, Aoi percebeu que não era preciso correr. Às vezes, avançar significava apenas dar pequenos passos… e continuar.
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