Silêncio nas montanhas
5 Capítulo 4: O Jogo do Poder
Sentei-me numa mesa vazia no refeitório, perto das grandes janelas, apreciando minha vista para uma floresta fechada com um céu nublado e montanhas ao fundo, parecia uma vista que merecia um quadro famoso no Louvre. Uma vista melancólica, mas com certeza uma obra de arte. Esta absorta em meus pensamentos quando alguém puxou a cadeira que estava a minha frente.
— Nicole, não é – levei um susto e concordei com uma leve balançada de cabeça, enquanto tentava me recompor do surgimento do garoto esquisito. – Me chamo Max, Max Thompson – O jeito como ele se apresentou parecia que eu deveria saber quem ele era, mas eu não fazia a melhor ideia de quem era aquele sujeito.
— Oi, Max. Em que posso ajudar? – “Já que você com certeza quer algo atrapalhando a minha contemplação melancólica”. Ele continuava a me encarar como se eu estivesse tendo o privilégio de ter sua companhia, mas não estava correspondendo à altura.
— Você não sabe quem eu sou? – perguntou atônito e ligeiramente ofendido, aparentemente.
— Minhas sinceras desculpas, Majestade. Sou nova na nova na cidade. – olhei para minha bandeja de comida e o resto de bolo de chocolate que ainda estava lá. – A que devo a honra? – Eu sabia muito bem que aquele tipo de cara não ia curtir muito com o meu sarcasmo ou talvez ainda não tivesse desenvolvido o entendimento cognitivo suficiente para identificar isso.
— Soube que deu uma surra no Peter no debate – Surra? Como assim? Será que ele sabe como um debate funciona? Acho que a minha teoria sobre desenvolvimento cognitivo incompleto deve estar correta.
— Debates funcionam desse jeito. Debatemos ideias e posições. Não é um ringue ou o octógono de MMA. – Minha mãe sempre me disse que eu conseguia enxergar o mundo de um jeito diferente, com mais cores e detalhes, por isso me entediava rápido com pessoas que enxergavam o mundo com a profundidade de uma piscina de plástico para crianças.
— Seja como for, se alguém consegue calar a boca do Peter, já meu amigo.
E quem disse que eu queria amiga daquele cara. O típico padrão do High School. Alto, atlético, queixo marcado e musculação em dia. Eu queria distância de pessoas como ele, normalmente fúteis e perigosas. “Não seja tão pedante Nick, conheça gente nova, talvez você se surpreenda” Ouvia a voz da minha mãe bem clara na minha cabeça.
— O que o Peter fez para merecer tanto carinho? – iria continuar no sarcasmo que era onde me sentia segura e evitar a parte que sobre ser amiga dele.
— Algumas pessoas nascem para chamar atenção, outras não. – Mas que porra isso tem a ver com o que eu perguntei??
— Deixe-me adivinhar: você tentou fazer parte do grupo de debates e “levou uma surra” do Peter? – Ou levou um fora para uma garota que preferiu ficar com ele ao invés do rambo que estava sentado na minha frente.
Parece que acertei ou cheguei bem perto de resolver o enigma, a resposta mais geral seria “EGO FERIDO”.
— Nada disso, ele se acha demais e gosto quando o colocam no devido lugar – De alguma forma ele perdeu algo ou alguém para o Peter, esse ressentimento todo não viria do nada. Ou as vezes pode vir da quantidade de hormônios que ele deve tá tomando para ficar daquele tamanho. — Vamos ser amigos? — Ele perguntou, mudando bruscamente da feição de ódio para um sorriso largo e repentino. O sorriso parecia forçado, esticado demais, como se ele quisesse me convencer de algo antes mesmo que eu respondesse.
— Obrigada pela oferta, mas não. Não estou numa fase boa da vida. Não acho que seria uma boa amiga para você — tentei manter um tom neutro, sem ser rude, mas já esperando alguma reação exagerada.
Por um instante, Max congelou. O sorriso dele permaneceu no rosto, mas seus olhos perderam o brilho. Depois, sua expressão mudou sutilmente, como se estivesse processando minha recusa.
— Ah… claro — murmurou, balançando a cabeça, mas sem parecer convencido. — Você só… não entendeu ainda. Tá tudo bem.
Ele riu, um som curto e seco, como se estivesse tentando achar graça em algo que não era engraçado. Seus dedos tamborilaram na mesa, rápidos, inquietos.
— Quer dizer que… você não quer ser minha amiga? — Ele repetiu, como se testar as palavras em voz alta o ajudasse a entendê-las.
— Isso mesmo — confirmei, tentando não prolongar a conversa.
O sorriso dele desapareceu num instante. Suas narinas inflaram, e ele inclinou o corpo para frente, apertando os punhos sobre a mesa.
— Isso é… isso é ridículo! — Sua voz saiu entre os dentes, baixa, mas carregada de irritação. — Eu tô te oferecendo algo e você tá jogando fora?
Antes que eu pudesse responder, ele bufou, empurrou a cadeira para trás com um ruído alto e socou a mesa. Meu copo de suco tombou, o líquido escorreu rapidamente pela superfície, alcançando a pilha de livros.
— Foda-se então, Nicole! — Sua voz agora estava alta o suficiente para fazer algumas cabeças virarem na nossa direção.
Sem esperar resposta, ele se levantou bruscamente e saiu do refeitório, os ombros tensos, o maxilar travado.
Por um momento, ninguém disse nada. Apenas respirei fundo, me abaixei para pegar os livros antes que o suco sujasse todos, sentindo meu coração ainda acelerado.
— Bem, vejo que conheceu o Max — disse uma voz familiar atrás de mim.
Levantei o olhar e vi Peter segurando um dos livros que haviam caído.
— Não leve para o pessoal — continuou ele. — Ele é assim com todos que não correspondem às expectativas.
— Obrigada Peter. – Peguei o último livro que estava na mão dele e organizei na cadeira ao meu lado.
— Se importa se eu me sentar aqui? – Bem, pelo menos ele havia pedido...
Balancei a cabeça de leve e indiquei o assento q não estava sujo e nem ocupado pelos livros.
— Então, o que fez para ele odiar tanto você? – eu realmente estava curiosa para saber
— O mesmo que você fez agora – Respondeu dando de ombros – Não dei a ele o que queria. No meu caso era cola na prova de geometria no quinto ano.
Eu não conseguia entender como uma ódio tão grande poderia ser por causa de algo tão simples como isso... e acho que minha expressão entregou o que estava pensando para Peter.
— Surpreendente não? – Ele virou a cadeira para a janela e ficou contemplando a paisagem.
— Achei que neandertais já tivessem extintos – Virei meu olhar para a janela também
— No seu caso, o que negou a ele? – Ele me encarou rindo, mas parecendo genuinamente interessado.
— Ser amiga dele porque, segundo ele, “dei uma surra” em você no debate. – Encarei ele de volta para ver como reagiria. Ele apenas riu e se voltou para a paisagem.
— Fique feliz com o resultado do nosso debate, faz tempo que não preciso contra-argumentar opiniões vazias ou verdades tidas como absolutas. Foi uma novidade para mim. – ele sorriu e deu de ombros – Como melhorar se você já conhece a tática de todos os seus oponentes e eles não são bons em se reinventar.
Sorri com o elogio, mas uma pergunta ainda estava na minha cabeça.
— Por que ele parecia achar que eu o conhecia?
— Ele é filho problemático do prefeito. Todos na cidade o conhecem e têm um certo medo dele.
— Não julgo, afinal a personalidade dele é carismática e solar – Algo me dizia que eu deveria evitar sarcasmos e ironias por aqui, mas era mais forte do que eu. Sempre usava desse artifício para aliviar a ansiedade. – Alguém deveria falar para os pais deles que ele precisa de um terapeuta.
— Boa sorte com isso. O pai não é uma pessoa que vá aceitar que o filho é doente e a mãe dele sumiu há muito tempo. Acho que percebeu que não queria continuar com um marido merda e o filho que mais parece o anticristo. – O jeito como ele riu no final, não me pareceu muito certo. Apesar do meu sarcasmo, eu genuinamente achava que o Max precisava de ajuda médica e isso não o tornaria ele louco.
— Se todos na cidade pensam como você, por que ele ainda tem algum poder e por que o pai dele continua sendo o Prefeito? Não tinha uma opção menos merda para escolher?
— Há 7 gerações a família Thompson é responsável pela prefeitura, são a maior fonte de renda da cidade e empregam muitas pessoas na fazenda de Laticinios. Acho que é relativamente fácil se reeleger quantas vezes quiser com o slogam “Votem em mim e terão empregos!”
— E ninguém faz nada para mudar isso? – Como as pessoas podem ser tão adormecidas a esse ponto.
— Nicole, a última batalha que ocorreu no Estado de Vermont foi em 1864 no Incidente de St. Albans, durante a Guerra Civil. Somos pacatos e acostumados a aceitar certas imposições de maneira mais condescendente do que vocês do Sul.
— Como sabe que sou do Sul? – perguntei pensando que talvez minha avó já tivesse contado minha história trágica a todos daquela cidade.
— O sotaque, o jeito como se impõe, o humor um tanto quando corrosivo. – Meu palpite seria Lousiana porque apesar do sotaque, definitivamente você não é do Texas. Acertei?
— Errou por uns 1000km mais ou menos. Sou da Flórida.
— E como alguém da Flórida vem parar em Vermont?
— Oh, então você ainda não sabe sobre a minha história? – fingi estar chocada, mas não acreditava que ele não soubesse pelo menos alguma coisa sobre.
— Algumas partes, mas gostaria de saber direto da fonte. Os boatos correm e distorcem algumas informações. Gosto escolher bem minhas fontes. – O que será que estão falando de mim? Acho que podia barganhar algo útil com ele.
— Se me falar quais são os boatos posso te dizer se são verdadeiros ou não. – Não ia dar minha história de mãos beijadas para ele.
— Sei que é neta da Senhora Whitmore e se mudou recentemente pra cá, mas não sei o motivo. E é exatamente ai que começam os boatos, tenho algumas opções, que fique bem clara não são minhas criações, apenas ouvi:
Adolescente problemática que os pais mandaram para morar com o avó, porque já haviam tentado de tudo.Veio experimentar a vida no campo porque sua família é um tédio e nunca fica muito tempo em algum lugar.Seus pais resolveram viajar pelo mundo e deixaram você com sua avóVeio para cá gravida para tentar fazer um aborto clandestinoCada vez que ele falava dos meus pais um sentimento de raiva me invadia, eu não sei o que tornou tudo pior, a presunção dele, as risadas entre cada uma das opções ou ele possivelmente acreditar em alguma dessas opções ridículas.
— Diga-me você, em qual apostaria?
— Em nenhuma. Parece ser mais consciente sobre como as coisas funcionam aqui do que a maioria dos próprios moradores, então não acho que seja uma adolescente problemática ou que tenha vindo para abortar. Apesar de ter quase ideia de qual seria sua opinião sobre aborto já que o seu discurso é bem mais progressista do que o comum por aqui. Então, eu disse o que acharam, e agora, você pode me dizer a verdade?
Ele parecia honesto, mas desconfiava dele por algum motivo. Sabe aquele tipo de pessoas que sempre sabe o que falar e como falar, mas não necessariamente representa realmente o que ele é e sim o que ele quer?
— Meus pais e meu irmão morreram, só me restou minha avó como minha tutora legal até eu finalizar o high School. – Ele pareceu genuinamente triste, o sorriso que antes estava de convencido, tinha mudado para uma expressão empática.
— Sinto muito, mesmo – Ele de fato parecia sentir, mas por que? – Eu sei que todos falam que sabem bem como é passar por isso, mas eu sei. Meus pais morreram cedo, não os conheci muito bem, fui adotado logo depois. Nem de longe tem o mesmo peso e drama que a situação. Mas, lamento se alguns dos boatos possam ter te magoado de alguma forma.
Ficamos um tempo em silêncio. Não era um silêncio confortável, mas também não era completamente desconfortável. Apenas... estava ali, pairando entre nós dois, como se ambos tentássemos entender o que essa conversa significava.
O sinal tocou, trazendo um alívio inesperado.
— Espero que goste daqui — disse Peter, levantando-se. — Iria sentir sua falta nas aulas de debate. Gosto de desafios.
Ele sorriu, mas dessa vez não parecia o mesmo sorriso convencido de antes. Havia algo mais ali — um tom genuíno, talvez.
Observei enquanto ele se afastava, sentindo um peso estranho sobre mim. Em poucos minutos, ouvi mais sobre a dinâmica dessa cidade do que em todos os dias que passei aqui. O que significava tudo isso? Max, com sua raiva instável e seu senso de posse, Peter, sempre sabendo o que dizer, medindo as palavras com precisão cirúrgica.
O que era verdade e o que era encenação?
Meus pensamentos estavam um turbilhão. Eu ainda tentava assimilar o que tinha acabado de acontecer no refeitório — a fúria de Max, as insinuações sobre Peter, os boatos sobre mim. Era informação demais para um único dia.
Suspirei, passando as mãos pelo rosto.
Se Maple Hollow queria me cansar até a exaustão mental, estava conseguindo.
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