Silêncio nas montanhas
17 Capítulo 16: O cartel
Peter/Ben
Na filosofia havia uma frase que nunca fez tanto sentido na minha vida quanto agora, segundo Epicteto, um filósofo estoico grego:
“Não são as circunstâncias da vida que definem nosso destino, mas sim a maneira como reagimos a elas “
Depois de tudo que havíamos descoberto eu continuava deixando que essas circunstâncias definissem o meu humor, a minha vida, enquanto na verdade eu deveria estar pensando no que fazer a partir dela. Não posso ficar a mercê dos acontecimentos, eu preciso aceitar que a minha vida de fato foi uma grande mentira, mas o que eu tenho agora é a verdade. A Nick e a Joe fazem parte da verdade e preciso estar com a cabeça no lugar para de fato conseguir ajudá-las sem que elas se prejudiquem no meio do caminho.
Se vou ser obrigado a interagir com o Max cada vez mais, eu preciso estar preparado para qualquer coisa, não posso ficar acuado como fiquei quando ele. Também preciso trabalhar mais ativo nessa investigação, será que conseguiria arrancar algo relevante do Max? Talvez a burrice dele seja péssimo para ele, mas ótimo para mim.
Boa parte da investigação está sendo feita pela Nick e a Joe, eu não posso apenas ficar parado, enquanto elas colocam as vidas em risco.
As poucas horas de sono que tive para dormir, pareceram ser suficientes, decidir não ficar mais à deriva esperando para ver onde o oceano me levaria, foi uma decisão que me fez ter um sono mais tranquilo, apesar de ser curto.
Acordei, tomei meu banho, meu café e segui para pegar o ônibus.
Assim que cheguei já procurei o Max, eu precisava fingir melhor ser amigo dele.
— E ai? Como foi com sua prova de trigonometria? – perguntei com um tom animado demais, vou ter que melhorar a atuação.– Saiu como esperava? – ficou melhor assim, uma animação bem contida. Acho que seria assim que o Hank falaria.
— Tirei B+.
— Uau, parabéns – por essa eu não esperava, mas parte do meu cérebro não parava de pensar em quanto o pai dele pagou para o professor Torrence dar essa nota. Seja por dinheiro ou ameaça, alguma coisa havia impactado nessa nota.
— Meu pai quer que você seja meu professor particular. Todas as matérias. Quanto você quer?
— Não precisa me pagar, cara. Podemos estudar lá em casa.
Max franziu a testa, como se minha resposta não fizesse sentido.
— Se não quer o dinheiro, então qual é a jogada? Você tem alguma coisa em mente, né?
Ele sorriu, como se tentasse me decifrar.
— Somos amigos, não somos? Amigos estudam juntos sem cobrar nada.
— Hm. Então quer dizer que eu ganho um tutor de graça? Meu pai ia rir disso. Mas falando sério agora, está recusando o meu dinheiro? Você se acha superior a ponto de recusar o MEU dinheiro?
— Vamos fazer um trato, então, Ok? – pensa rápido – Se eu te ajudar a passar em todas as matérias no final desse ano letivo você me paga o valor que achar justo. Combinado assim? Até lá, somos apenas amigos e no ano que – quando pretendo não morar mais na merda dessa cidade – eu viro seu professor particular.
— Gostei, você parece um amigão mesmo.Já vai pensando no que quer ganhar quando eu passar em tudo.
Eu sorri porque sabia exatamente o que eu queria ganhar, você preso em um instituição psiquiatra e o resto dos merdas da sua família na cadeira elétrica. Aquele pensamento me fez ter um relampejo de felicidade que eu não sentia a muito tempo
— Pode pensar grande, um carro... o que você quiser. – Então era assim que ele comprava a cidade toda. – Ai, por falar nisso, você parece muito cansado, não quer um remedinho não? Vai te acordar na hora.
Ele me mostrou o saquinho que provavelmente era de cocaína.
— Não posso cara, tenho asma. Mas onde consegue isso? – Perguntei já querendo saber algum podre. – Não vou te dedurar para ninguém – disse sorrindo
— Eu sei, o delegado e metade dos policiais estão na folha de pagamento do meu pai – Nós dois rimos, eu de nervoso e ele por eu achar engraçado, eu acho.
— Mas sério, como conseguiu? Sempre ouvi falar que a cidade era limpa de drogas, esse sempre foi o slogan do seu pai.
— Você que pensa – É só um slogan cara, ninguém leva a sério isso, até porque não tem como perder se só você é o candidato – nos dois rimos e eu tentando esconder o meu ódio e repulsa crescente.
— Acha que minha família ganhou dinheiro com a fazenda. Aquilo é um disfarce cara. A gente produz muita coca lá, quase todos os estabelecimentos daqui ajudam na distribuição. – Como uma pessoa é tão burra a ponto de me contar tudo isso em questão de minutos só por que disse que éramos amigos?
— Sério, então a distribuição deve ser muito boa ou eu que sou muito careta, porque nunca percebi nada. Isso que é uma mente de negócios. – Filho da puta, ninguém escapa deles? – Não sabia que também trabalhavam com esse ramo.
— Desde a floricultura, os quiosques e conveniências, todos vendem. Uma mão lava a outra, sabe como é? – Não, não sei o porquê, não sou um ser humano de merda igual a você.
— Eles vendem a troco de nada?
— Claro que não, você é inteligente para umas coisas e muito burro para outras cara. Precisa colar comigo que eu te mostro como ganhar dinheiro aqui. É o seguinte, meu pai quitou a dívida da hipoteca de muitos comerciantes em troca desse “favorzinho”, sacou?
— Sabe por que estou te contando isso? – acenei que não com a cabeça – Porque seu pai distribui isso na clínica. Você não ia ferrar o negócio do seu pai né? – apenas um pensamento veio na minha cabeça, “apenas ria e leve na brincadeira”.
— Eu lá tenho cara de X9, cara? — disse rindo.
Max riu junto, mas com um brilho estranho nos olhos.
— Espero que não. Porque, sabe como é... X9 sempre acaba do mesmo jeito. Ele fez um gesto com a mão, como se estivesse tampando o nariz de um morto no caixão. — Gelado e com algodãozinho.
— Vamos fumar unzinho aqui antes de entrar?
— Não posso por causa da asma, vou entrando a fumaça não vai me fazer bem – Era a desculpa perfeita.
— Ah, foi mal cara, esqueci, vai lá, a gente se vê no intervalo.
Quando passei pelo corredor, encostei na parede e congelei:
“Meus Deus! No que eu estou me metendo”
Vi pelo canto do olho a Nick passando, ela pegou o celular – que a vó dela havia comprado para ela já que a gente não poderia se comunicar tão facilmente como antes e começou a digitar algo que eu tinha certeza que era pra mim.
“Você está bem? Parece que viu um fantasma!” – recebi a mensagem no celular
“Me encontra no intervalo na floresta aqui atrás, mas seja discreta. Tem um trilha, saindo diretamente dos fundos da escola, segue direto até acha uma arvore com um X grande, vou te encontrar lá. Vai ser breve” – Terminei de enviar a mensagem e fechei o celular correndo.
Aproveitei que o professor de espanhol havia liberado a turma mais cedo para o intervalo porque ficou sem ideia de como enrolar mais na aula – já que ensinar espanhol não é uma das coisas que ele saiba – e fui logo em direção ao meu ponto de encontro com a Nick, que para a minha surpresa já estava lá.
— Como você sempre chega primeiro? – não tem lógica isso.
— Disse que estava com cólica para o professor de trigonometria e ele nem quis ouvir o resto e me liberou para sair mais cedo e ir tomar um remédio e a enfermeira do posto me deu o remédio e disse para me deitar um pouco na maca, mas eu disse que tinha trauma de hospital depois de ficar 3 semanas em um. Fingi que ia começar a chorar e ela me deixou sair para deitar-me na grama. – Ela fingiu que ia começar a chorar e depois riu.
— Alguém já te disse que você leva muito talento para atuação? – ela riu, mas logo ficou série de novo
— Vamos ao que interessa temos 10 minutos antes do sinal tocar, o que foi que aconteceu com o Max?
— Eu descobri como a família dele faz dinheiro e mantém todos os estabelecimentos da cidade como reféns: Eles produzem cocaína e fazem o comércio local distribuir em trocar eles pagam as dívidas de hipotecas atrasadas dos comerciantes.
— O idiota do Max te disse isso do nada?
— Não do nada. Foi depois dele me oferecer dinheiro para ser professor dele e quando eu o recusei ficou meio puto e então eu disse que se ele passasse em tudo no final do ano que ele poderia me pagar o valor que quisesse, até lá pretendo estar fora daqui.
Continuei
— Então ele achou que era confiável depois do nosso “trato” e começou a falar um pouco sobre a distribuição das drogas e eu só fui dando corda para ela, até que ele me disse que só estava me contando aquilo porque até o meu pai estava envolvido na distribuição. Hank está usando a clínica para distribuir cocaína e sabe-se lá mais o que... Quando fui tranquilizar ele dizendo que não era X9, ele me solta essa frase:
“Até porque cara de X9 é gelada e com algodãozinho”
— Quanto tempo ainda acha que consegue jogar esse jogo duplo? Estou começando a ficar preocupada. E convenhamos, você não é muito bom atuando, você parecia ter visto um fantasma na sua frente quando te vi no corredor.
— Não vi um fantasma, tava mais para um demônio mesmo. – Respirei fundo — Eu consigo, eu tenho que conseguir fazer algo útil. É a minha vida que eles foderam por completo. Não vou ficar esperando mais. – Respirei mais profundamente, tentando me livrar de toda aquela energia caótica que estava na minha mente – Se eu perceber que o barco vai afundar, eu vou do jeito que tiver para sua casa e a gente some. Nem me despeço da minha mãe. Está bom assim?
— Está.
— Agora me diz como está sendo com a casa cheia de idosos jogando bingo...
— Jogando bingo? Isso que você pensa... um dos amigos do meu avô levou um karaokê para lá e a minha avó que quer chamar o máximo de atenção sobre o fato da casa estar cheia, não podia perder a oportunidade. Minha avó bêbada tentando cantar Frank Sinatra foi o ápice da minha tarde. – ela ficou pensativa – Já sei, eu tenho uma câmera digital que trouxe da Flórida, vou ver se ainda funciona e gravo para você ver quando for lá.
Eu ainda rindo, disse:
— Promete?
— Prometo. Mas nosso tempo acabou. Vai que daqui a dois minutos o sinal toca e a gente tem que entrar separados no refeitório e ninguém pode ver a gente saindo juntos daqui.
Eu não sei no que eu pensei, ela estava tão próxima. Até demais, quando vi já tinha começado a beijar ela. E para piorar tudo, ela me beijou de volta. Depois me empurrou:
— Vai logo Benjamin – Eu olhei para ela e sorri. – Foi mal confundi os nomes.
— Desde que não faça em público, pode me chamar assim, eu adorei. Preciso pedir desculpa pelo beijo?
— Claro que não né, Peter... Ben, — ela parecia genuinamente confusa — agora some. E limpa a boca porque eu passei batom hoje. – Ouvir ela gritar enquanto eu já saía da floresta. Não sabia se estava mais feliz pelo beijo ou pela confusão que causei nela.
Esfreguei o dorso da minha mão para ter certeza de que a minha boca esta sem marca de batom e antes de entrar, olhei pela porta de vidro para ver se não restava nem um sinal do ocorrido.
Sabe aquele momento impulsivo em que o seu cérebro apenas desliga e quando você vê já foi? Pois é. Esse foi um daqueles momentos. Cheguei no refeitório feliz e leve, mas sabia que tinha q ignorá-la quando ela entrasse. Dessa vez ela entrou junto com um grupo grande de alunos, sentou-se numa mesa longe, tirou o lanche e um livro da bolsa. Parei por um segundo para tentar descobrir qual era o livro... Só podia ser ela tentando fazer uma piada interna comigo, “Crime e Castigo — Fiódor Dostoiévski.”
“O castigo que ele sofria era o castigo mais cruel, o castigo da consciência.” – Essa frase representava bem como eu me sentia, saber de todas as merdas de um sistema corrupto, mas ainda não poder dar o castigo definitivo a quem merecia. Isso se um dia eu fosse capaz de fazer isso. Mas para mim, uma coisa já estava definida, eu iria embora no final do ano letivo, eu precisava sair dali e não importa para onde. Eu precisava recomeçar em um lugar onde eu não fosse assombrado por uma comunidade corruptível e por um cartel maquiavélico. Eu sei que nenhum lugar é perfeito, mas ser novo em algum lugar te permite não saber das coisas podres que eles empurram para debaixo do tapete e no momento o que mais me doí e saber e não pode fazer nada.
O meu prazo era esse e se nada fosse concluído até lá, eu iria embora com a convicção que fiz o que deu, mas não ia ficar mais tempo aqui... Quanto tempo eu aguentaria até ser obrigado a me corromper para me manter vivo? Quanto tempo ia levar até o Max me pedir favores nos quais eu não poderia negar? A pior coisa de se ver preso numa situação é perceber que há muito tempo você já perdeu a sua liberdade e eu não quero chegar a esse ponto. Não quero normalizar que a minha liberdade depende da minha subserviência.
Foi então que eu lembrei de uma das primeiras frases que ouvi a Nick dizer:
“igreja tem usado a religião para controlar a população, eliminando o livre arbítrio e transformando todos em uma massa de manobra para o interesse da elite.”
Eu não era tão diferente quanto acreditava, eu apenas fazia parte da massa de manobra, talvez com um pouco mais de consciência do que os demais, mas eu era um animal sendo empurrado lentamente para o curral para ser abatido.
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