Silêncio Tenebroso
1 Surpresa?
Notas iniciais
Raios, trovões e chuva, muita chuva. Uma terrível tempestade atingia insanamente o céu escuro e nublado da pacata cidade de New Lake. Não havia qualquer estrela no ar, a lua também estava sendo coberta por nuvens cinzentas que levariam a chuva pela madrugada a fora. Era um quatro de dezembro bem tenebroso para ser uma data comemorativa para o grupo de amigos... Alguma coisa ruim poderia acontecer fácil, fácil naquele ambiente...
Na porta do cinema “Line Cine”, alguns jovens estavam parados abaixo de uma bancada de concreto que servia como proteção da chuva – ou sol. Enquanto ali, não tinha qualquer outro individuo no ambiente. Atentos, olhavam para os lados, à procura de alguém...
Fora então que a morena, com cabelos encaracolados e olhos pretos, abrira a porta de entrada e chamou a atenção do resto para si. Seu nome era Eslyn.
— O Tyler já chegou? – Perguntou ela.
Os outros três à sua frente acenaram negativamente, voltando a olhar para as ruas inundadas de poças. A jovem então se aproximou de um rapaz negro, da sua altura e com cabelos quase escassos. Era Harley, seu melhor amigo desde a infância.
— Harley, tem certeza que falou com ele? – Eslyn questionou. — Está demorando demais... Já estou ficando preocupada.
— Sim, falei. Já deveria estar aqui. Não sei por que está demorando tanto.
— Talvez já tenha descoberto que estamos planejando a festa surpresa pra ele e simplesmente não virá. – Nolan entrou na conversa.
O loiro com pele clara e olhos verdes estava na outra parede do pequeno acostamento juntamente de uma moça loira com olhos azuis, Adlyn. Também eram amigos dos outros dois, todos da mesma turma do colégio, e planejavam uma grande festa de arrepiar para um amigo...
Cruzando os braços, Adlyn encostou-se de costas na parede e olhou lateralmente para os outros dois.
— Gente, ainda acho isso uma péssima ideia. – Indagou, chamando a atenção dos demais. — O Tyler é legal, nunca fez nada com a gente e não tem qualquer censo de humor. Não acho certo fazermos isso com ele. Estou com um mau pres...
— Está vindo... – Murmurou Harley em voz baixa.
Todos olharam para a direção na rua ao leste e viram alguma pessoa vir andando. Estava com as mãos no bolso, cabisbaixo e com touca na cabeça. Era exatamente o estilo do amigo felizardo.
— Tudo lá dentro está pronto? – Nolan se virou para Eslyn, que fez sinal de positivo. — Então vamos entrar... Se ele nos pegar aqui, vai tudo festa abaixo.
Apressados, os quatro entraram no cinema e trataram de dirigirem-se para a sala cinematográfica 13, local onde iria acontecer o verdadeiro aniversário com bolo e tudo mais. Porém, com decorações de halloween espalhadas por todos os corredores, o pobre rapaz iria levar alguns sustos antes.
Todos entraram na última porta do corredor. Na mesma havia uma pequena aresta para deixar visível o que acontecia do outro lado. Fora então que, em silêncio, os quatro viram quando Tyler abriu a porta de entrada do cinema.
Vendo tudo escuro, calmo e silencioso, o rapaz revirou os olhos e visualizou se realmente tinha entrado no lugar certo. A placa “Line Cine” acima da porta entreaberta demostrava que sim.
— Galera, vocês estão aqui? – Gritou, retirando sua touca molhada para trás e a jaqueta jeans toda ensopada de água. Ajeitou os cabelos castanhos e percebera que não houvera uma resposta sem ser o próprio eco de sua voz. — Galera?
Com luzes especiais, coloridas, acesas lateralmente nas paredes, ele começou a andar para o corredor. Poucos passos e chegou diretamente enfrente a um grande “caixão” de madeira, fechado. Nas laterais da parede havia quadros de caricaturas. Abaixo, quase próximo dos seus pés, uma caixinha de surpresa rodava e emitia uma musiquinha tentadora.
— O que tá havendo aqui? – Perguntou a si mesmo, aproximando-se com o rosto do objeto musical. — Parece que querem...
“Surpresa!”. Uma caveira entojada em sangue saiu de repente da caixinha, presa em uma mola, e fez o rapaz levantar-se assustado e bater-se de costas na tampa do caixão de madeira.
— Que isso?! – Gritou assustado.
O caixão começou a tremer, causando barulhos de gargalhadas macabras. Quando se virou, Tyler deu de cara com uma horripilante escultura de algo com roupa negra e olhos vermelhos.
— AHHH!
Enquanto isso, atrás da porta os amigos apenas riam, visualizando o susto do outro.
— Agora vai vim o grande final... – Sussurrou Nolan em um tom irônico.
— Final? Que final? – Eslyn se virou preocupada. — Não concordamos em acabar aqui?
Todos olharam novamente para a greta da porta e viram...
Virando-se para o corredor, ficando contra o caixão e a caixinha de musicas, o rapaz sentiu os olhos dos quadros vibrarem nas paredes. Ao olhá-los, percebera que as imagens haviam se tornado outras: Uma de seu pai falecido entojado a sangue, outra da mesma forma com sua falecida mãe.
Tyler não conseguira dizer nada. Estava paralisado, gelado. Sentia que seu coração iria parar, enquanto lágrimas começaram a brotar de seus olhos. Seus pais haviam morrido num grande assalto... Tinham sido mutilados em vários pedaços na frente do filho, quando este tinha apenas 7 anos. Agora tudo tinha voltado, todas as mágoas e lembranças.
Atrás da porta, os amigos notaram algo estranho...
— O que aconteceu? – Harley perguntou.
— Ei gente, cheguei!
Todos se viraram e notaram Owen, sempre o atrasado da turma. Estava usando seus óculos que sempre o acompanharam e seu cabelo ruivo estava espetado com gel. Ao ver as faces quietas dos amigos, perguntou:
— O que houve? Já fizeram a surpresa?
— Sim... – Eslyn fora a que respondeu, voltando a olhar para a greta. — Mas parece que algo deu errado... O Tyler está imóvel, paralisado, chorando.
Adlyn virou o rosto para Nolan, e cruzando os braços, perguntou seriamente:
— Que surpresa a mais você fez?
— É... Coloquei ketchup nas fotos dos pais dele.
— Você é doido? – Owen entrou de vez na conversa. — São falecidos. Morreram brutalmente na frente dele.
— Eu não sabia...
Fora então que abriram a porta e, para tentar quebrar o clima tenso que tinha se formado, gritaram todos juntos “Surpresa!”.
Vendo os amigos, realmente Tyler havia se surpreendido. Jamais pensava que pessoas da sua confiança pudessem fazer algo tão horrível com si próprio. Sinalizando negativamente com a cabeça, o moço pôs-se a afastar para trás.
— Ei, espere... – Gritou Eslyn.
— Foi só brincadeira, cara. – Tentou explicar Nolan.
Mas o outro não ouvia nada daquilo. Apenas se virou para a porta de saída e começou a correr. Enquanto as lágrimas pingavam, ele corria o mais rápido que podia. Abriu a porta num salto e continuou a correr... Pretendia atravessar a rua, mas uma grande buzinada, derrapagem, faróis... “Prack”.
Todos os outros jovens viram, amedrontados, do corredor o amigo ser atropelado e estraçalhado por um carro. O veículo parou, mas o sangue estava presente no para-brisa e nos faróis, que refletiam luzes vermelhas.
— Ai meu Deus! – Gritou Eslyn, chocada.
— Eu disse que não era boa ideia. – Adlyn avisou.
— A culpa é minha! – Nolan finalizou.
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