Silêncio

1 Capítulo Único


O dia começa como qualquer outro, chego a acreditar que tudo vai ficar bem.

Meus pulmões se enchem e exalam, parece tudo normal, nada demais. Mas então a sensação de que alguma coisa não está certa toma conta de mim. Nesse estágio ainda é suportável, só tenho que continuar respirando fundo e sorrir para as pessoas. Só que não para por aí, de repente as luzes começam a me incomodar demais, é como quando você acorda de manhã e não consegue abrir os olhos direito porque está desacostumado com a claridade. A diferença é que depois de alguns segundos a luz não te incomoda mais, só que no meu caso fica cada vez pior.

Então tento pensar em uma maneira de sair do lugar onde estou, seja a faculdade ou o mercadinho da esquina, e corro para o meu carro. Devo parecer um lunático para as pessoas “normais”, não me importo, só tenho que chegar ao carro.

Assim que ligo o rádio, as coisas parecem se acalmar mas dessa vez isso não acontece... O meu rádio está quebrado.

A música me distraía, fazia as minhas conexões cerebrais entrarem em um ritmo mais aceitável e minha ansiedade diminuir. Era a única coisa que preenchia meu vazio, mas agora nem isso eu tenho.

Começa a escurecer lá fora, percebo isso, mas não consigo dar a partida nem sair do carro. Está quieto demais. Estou sendo deixado sozinho com meus pensamentos e não consigo imaginar nada mais cruel do que isso. O silêncio pode ser muito violento às vezes.

Meu coração começa a acelerar, encosto no banco e tento respirar fundo mas minha respiração não me obedece e saí em um ritmo próprio, curta e inconstante. Minha cabeça parece girar e agarro o volante tentando não perder totalmente o controle ou o que resta da minha sanidade. Meu peito dói, não sei por quanto tempo já estou assim, podem ser poucos minutos mas tenho a impressão de que já se passaram horas.

O meu estômago se contorce dentro de mim e uma leve vontade de vomitar surge, tento controlar isso pois, do jeito que minha respiração está, tenho medo de sufocar com meu próprio vômito até a morte e acho que são poucas as formas de morrer piores do que isso. Suor gelado escorre pelas minhas costas e meu rosto, sinto gotas pingarem do meu queixo e o nojo que sinto de mim mesmo aumenta.

Dou um soco no volante.

Sinto as lágrimas escorrendo pelas minhas bochechas e se misturarem com o suor.

—Você é ridículo... – sussurro pra mim mesmo quando vejo minha aparência no espelho interno do carro. Meus cabelos grudam na testa, lágrimas escorrem dos meus olhos vermelhos, soluços sacudem o meu peito e fazem aumentar a vontade de vomitar e o medo toma conta de mim.

Sempre sinto medo quando tenho esses ataques, medo de que durem para sempre ou, pior, que eu os tenha outra vez. Eles sempre acabam e isso me alivia um pouco, é claro que eu sei que eles irão acontecer de novo mas não quero ter que lidar com isso então não conto pra ninguém, tento cuidar de tudo sozinho sem ter certeza de quanto mais eu poderei aguentar.

Aí acontece.

Sutil demais pra que eu posso perceber.

Meus batimentos diminuem gradativamente.

Retomo o controle da minha respiração.

O suor seca e deixa minha pele grudenta.

As luzes já não incomodam tanto.

E a sensação de que algo horrível vai acontecer desaparece.

Sou deixado só com meu cansaço.

E sem nenhuma música pra me consolar.

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