Silver Lights

1 Silver Lights


Um golpe. Dois golpes. Três golpes. Quatro... ou seriam sete? Já não sei mais quantos golpes você deu nesse cara. A cabeça dele virou geleia, e agora seu taco de baseball está inutilizável. O que não é relevante, já que você tem muitos em casa, ainda da época que o esporte conseguia suprir sua vontade de dar golpes em coisas.

Sabe muito bem que um golpe já o teria nocauteado. Não adianta tentar se convencer que você o matou porque ele seria uma testemunha: houve crueldade aqui. Você gostou. Deve ter gostado também de matar dois russos com apenas um tiro de escopeta. Pelo menos pare e admire a obra de arte que você fez com os miolos deles na parede.

Agora você anda pra fora do prédio como se nada tivesse acontecido. Anda, tire essa máscara. Só eu posso usá-la. Aparentemente eu sou o animal e você é o humano. Que divertido. Suas mãos estão tremendo muito agora. Arrependimento ou desejo por mais? Não cabe a mim saber, embora eu saiba tudo. Não me encare dessa forma, não com esses olhos azuis sem vida. Sua namorada é quem gosta de olhar para você, não eu. Falando nela, que tal você apressar o passo e ir até o carro? Ela está te esperando no apartamento.

Pare de encarar a máscara. Se olhar tanto para um galo de látex, pode ser que você se torne um. Assim como eu me tornei. Vamos, não fique com medo. Você não tem tido um descanso dessas máscaras desde o dia 3 de abril. Agora, ponha esse taco no banco de trás do carro e dirija.

Não me pergunte por que estou te encarando. Posso ver seus olhos brilhando ao pensar na garota, com aqueles shorts curtos e cobertores perfumados. Sim, eu sei o que você pensa. Ponha esses olhos na estrada, não em mim! Quer matar a gente? Morrer num acidente de carro depois de toda a merda por que passamos seria muito irônico, e eu não gosto de ironia.

Paramos? Por que paramos? Não me diga que é aquele ruivo barbudo mais uma vez. Você é previsível.

"Hoje foi um dia muito abafado, não acha? Não se preocupe, a fita é por conta da casa. Alien é um bom filme. Deve chover essa noite, cuidado pros raios não assustarem ainda mais sua garota! Passar bem."

Até que dessa vez foi rápido. Por que ele não te deu pizza de graça como na outra vez? Não me respondeu. Por que você sempre prefere me ignorar? Bem, não importa. É como escrever uma história e tentar perguntar coisas aos personagens que você mesmo criou. E nossa história já tem um final.

Finalmente estamos em casa. Não acredito que a garota coloca essa mesma música pra tocar todo santo dia. Você não se cansa? Creio que não, já que eu também não me cansei. Mas você prefere fingir que não me ouve, então esquece. Ouça a ela em vez disso.

"Você voltou bem tarde hoje! Desculpa por colocar Deep Cover no rádio de novo. É minha música preferida, dá um desconto. Espera... Alien? Você alugou Alien! Faz anos que eu quero ver esse filme! Vou lá fazer uma pipoca e nós assistimos. E seu... sapato... está sujo."

Só agora você notou seu sapato imundo de sangue. Que vergonha. Tire-os antes de me ver novamente. O quê, achou que ia se livrar de mim? Não tão cedo. Precisamos acertar algumas coisas.

"A pipoca tá pronta! E se ainda estiver se trocando, olha que eu já vou colocar a fita pra rodar. Não demora."

A garota está com pressa. Não tem o direito de estar. Já falei pra não me olhar com essa cara. No dia 25 de abril essa loucura começou. O que te faz pensar que há alguma chance de você dar uma vida plena a essa mulher? Ela estava jogada às traças naquele dia, com a maquiagem borrada pelas lágrimas. E você foi seu cavaleiro de armadura branca, carregando-a pelos corredores lotados de corpos que você mesmo matou. E agora ela está aqui, dormindo num lençol turquesa e limpando seu apartamento, e você se rendeu a ela. Me pergunto se ela olha pra você e vê aquela terrível máscara manchada de sangue. Ela implorou pra que você a matasse no dia 25 de abril. Só está adiando cada vez mais.

Não se sente repudiado pelo que faz? Pense um pouco naqueles russos. E se algum deles tivesse entrado nessa vida pra conseguir comprar fraldas pros filhos? Você não deixa sobrar nem a cara deles. Nunca terão funerais.

Quase todo dia aquele barbudo te dá cigarros. Devia parar com o fumo, você já cheira a nicotina. Mas eu sei que não vai parar, porque a garota gosta de fumar no sofá contigo. O cigarro barato na mão e a garrafa de whisky na outra, e suas tardes se resumem a ficarem sentados no sofá vendo aquele monte de fitas que o barbudo aluga por conta da casa. Até que o sossego é quebrado pela secretária eletrônica, e você tem que ouvir as mensagens. A garota nem se dá ao trabalho de desligar a música, então qualquer mensagem que você grava tem a amistosa Deep Cover tocando ao fundo. Só que você não sabe quem está do outro lado da linha, sabe? Nunca soube quem deixa as mensagens. Não sabe nem onde está. Mas isso é questão de tempo.

"Aconteceu alguma coisa? Posso começar o filme?"

Olha só, ela tá toda ansiosa. Vai lá e não a decepcione. Não como você me decepciona. Quem diria que a mesma pessoa que até algumas horas atrás estava explodindo a cabeça de um cara com um taco de baseball nesse exato momento vai assistir Alien e fingir que está assustado com a coragem da Ripley só pra não deixar a garota no vácuo.

A maioria dos gangsters e assassinos de aluguel carregam algum trauma, ainda mais você que esteve no exército junto com o barbudo. Uma vida de trabalho sujo deixa o mais forte dos homens traumatizado e com uma vontade enorme de lavar o sangue das mãos, mas você não é assim. Não, você sai de uma chacina todo banhado de vermelho e basta tirar a máscara que o homem que fuma assistindo filmes dos anos 60 retorna à sua face. Seus olhos não têm medo ou repulsa, pelo contrário, eles são olhos de uma pessoa adaptada. E nós dois sabemos o por quê, querendo ou não.

Você gosta de machucar outras pessoas.

Notas finais
Considerem esta uma fase não-canon xD
Seria bom ver alguma interação entre o Jacket e a Hooker só uma vez.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!