Silience
3 "Logo"
Deitar nas pernas de D é confortável, perigosamente aconchegante. Ela afaga meus cabelos, canta canções tristes, me deixa dormir, muito. Há dias que D não quer me levante, se tento, suas garras fincam minha cabeça, a dor fica por vários e vários dias.
Não me incomodo muito com as outras, mas Ana, Ana me irrita. Hoje, como em todas as noites, ela está lá em seu canto no quarto, me olhando, julgando. Mesmo de costas para ela, sei que olha.
Com ossos estralando, Ana se aproxima, deita-se no lugar vago atrás de mim. Seus braços ossudos me envolvem.
— Quando vai me deixar em paz? Quando todas vocês vão embora?_ Sussurro.
— Nós? Nós nunca mais iremos embora. Você nos procurou. Me procurou. Olhe só para você, a que ponto patético chegou. _ Ana passa seus dedos pontudos por todo meu corpo, cada “pega”, cada pedacinho de pele a mais, parando em minha barriga. _ Quando você vai parar? Não devia comer… lembra-se do quanto era bom poder dobrar as pernas? Os olhares de aprovação das pessoas? Os pequenos números em uma balança? Usar roupas bonitas? Você está patética. Está ouvindo besteiras demais daqueles que não sabem de nada…
Fecho os olhos. Ana pega minhas mãos, me faz passa-las pelo meu corpo.
— Se lembra de como era a sensação de sentir os ossos da costela? Da bacia pontuda saltando para fora? De doer quando se sentava? Do tempero da fome?
Abro os olhos. Mia me encara sentada em seu lugar, no travesseiro vago de frente para o meu. D continua a afagar meus cabelos, cantando tristemente. An está aos pés da cama, esperando a hora de atacar. Ana fala, fala, fala.
D me manda dormir, dormir, dormir. “Dormir é confortável, ninguém vai notar, sentir sua falta”, canta sua canção. “Tome um pouco disso e daquilo. Você tem, você pode. Você já fez, agora não falhe.”
Fecho os olhos novamente.
—Você nos procurou, não importa o que faça, nem a quem peça ajuda nunca mais a deixaremos sozinha…_ Ana sussurra em meus ouvidos.
Um dia, logo, irei deixar com que me levem, deixarei que peguem minhas mãos novamente e me guiem. Logo cansarei de lutar. Afinal, fomos, somos, eu e elas, desde sempre.
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