Silent Town
8 Capítulo 8
Notas iniciais
10 de julho de 2012. 09h12min
– Não consigo esperar mais. Vamos logo! — disse James sem paciência.
– Tudo bem... Vamos então — disse Lucy se levantando — Vocês estão realmente prontos?
– Só saberemos quando o momento chegar — disse Anne.
– Vamos parar de perder tempo, ok?! — disse Alyce abrindo a porta.
Ela estava com frio na barriga e seu corpo estava mole. Simplesmente estava morrendo de medo, mas não queria demonstrar aquilo para todo mundo. Queria ser forte, para mostrar que podia fazer algo por si só, tanto para os outros quanto para si mesma. Engoliu em seco, respirou forte e foi andando até a frente da casa.
– Lembrem-se — ela disse se virando para o grupo logo atrás — ao ultrapassar a linha da calçada e da rua, estamos sem a proteção da casa, então tomem cuidado, mesmo que estejam sendo protegidos pelos amuletos, não sabemos se eles funcionam de verdade. Não usem a lanterna, talvez eles possam ver. Fiquem atentos!
Não esperou resposta, se virou e seguiu adiante. Forçou suas pernas a pararem de tremer. A rua estava deserta. Nenhum monstro, nenhum fantasma, nada que se mexesse. Ouvia os passos do grupo a seguindo. Estava escuro e a nevoa não ajudava. Queria poder acender sua lanterna, mas seria perigo demais. Do jeito que estavam poderiam bater de frente com alguém, ou algo... Aquilo era torturante demais. Deveria ter algo por ali, não?
Viu no canto de sua visão um vulto passando. Parou abruptamente, fazendo os outros toparem com seu corpo. Seu coração batia muito forte. Parecia até que os fantasmas e os monstros poderiam ouvi-lo batendo. Tinha certeza, era um vulto, não era? Olhou de um lado para o outro, mas nada viu. Quem fosse que estivesse por ali já havia passado, ou se escondido. Virou-se para o grupo atordoado.
– Acho que deveríamos nos separar — ela sussurrou muito baixo, só Anne escutou.
– Não acho que seja uma boa ideia — sussurrou de volta.
– Eu acho que sim. Se continuarmos todos juntos será mais fácil de nos perceber. Se nos separarmos teremos uma chance a mais de achar o centro.
– Mas como vamos nos comunicar?
– Eu, Lucy, James e Kaio temos celulares que podemos nos comunicar. Anne, vá com o James, fale para Allison ir com Lucy e Luke com Kaio. Entendeu?
– O.K — ela se virou e começou a falar para os outros, era como aquela brincadeira de telefone sem fio.
Alyce esperou. Estava aflita e com um mal pressentimento. Não queria sair de perto de seus amigos, mas era preciso. Ela tinha que achar o centro primeiro. Kaio a segurou pelo braço e a forçou a olhar para ele.
– Você ficou maluca?! — ele estava bravo, mas não levantou a voz, era como uma brisa agitada — Não vou me separar de você!
– Mas você precisa Kaio. Eu não queria me separar de vocês, mas é preciso. Com um grupo menor de pessoas poderemos achar o centro mais rápido. A cidade tem muitos caminhos, e tenho certeza que alguns não levam a nada. Precisamos nos separar. Confie em mim! — sua voz estava fraca, quase não conseguia prosseguir com seu plano por causa da bola que formava em sua garganta.
– Não quero deixá-la sozinha...
– Vai ser melhor assim. Você não confia em mim?
– Não é que eu não confie em você, é que eu não quero perdê-la — ele olhou para o chão.
– Não irá me perder. Isso eu garanto — disse com mais certeza do que realmente sentia.
– O que iremos fazer? — ele se virou para o grupo, parecia não conseguiu olhar para ela.
– James, você ainda tem o mapa que pegou dos seus avós? — perguntou Alyce ficando de frente para James.
– Hm... Sim. Acho que sim — ele procurou nos bolsos da calça — Ah sim, aqui está! — puxou um papel amarelo e meio rasgado do bolso direito e o entregou para Alyce.
– Vejamos... — ela abriu o mapa com cuidado, era difícil ver no escuro, mas dava para entender alguma coisa.
O mapa da cidade mostrava ruas sinuosas, que se entrelaçavam. Era um verdadeiro labirinto, onde se perder era inevitável e mortal. Ela não poderia se perder de forma alguma. Tentou gravar na memória o máximo possível de informações.
– Hm... Bem... Lucy e Allison, vocês vão por esse caminho — apontou para uma trilha de ruas à noroeste — James e Anne por aqui — mostrou as trilhas à nordeste — Kaio e Luke por aqui — Disse apontando para trilhas que estavam entre o norte e o nordeste — eu vou para o norte.
– Tem certeza de que quer ir sozinha, Alyce? — perguntou Lucy.
– É, tenho — as duas se entreolharam. Lucy compreendeu.
– Acho melhor deixarmos o mapa com Alyce. Digo, ela está em desvantagem e tal... — disse Luke.
– Isso não é necessário pessoal...
– Eu também acho que você deveria ficar com o mapa — disse Kaio. Ele ainda não conseguia olhar para ela.
Alyce não conseguia dizer mais nada. Pegou o mapa e o embrulhou. Se virou para ir embora antes que fosse tarde demais. Sentiu uma mão pegando em seu ombro, fazendo-a se virar.
– Pegue isso — Kaio disse, esticou a faca que ela havia lhe dado. Olhava para as próprias mãos estendidas.
– Ela é sua. Você vai precisar — ela empurrou a faca de leve ao encontro dele.
– Você precisará mais do que eu. Luke trocou a dele com Allison, se algum monstro aparecer jogamos pó neles e corremos. Vamos, pegue logo e vá embora! — disse e empurrou a faca para Alyce, pressionando-a contra sua barriga.
Alyce a pegou com relutância. Queria olhar para ele mais uma vez. Queria poder olhar em seus olhos, mesmo que por poucos segundos. Mas ele não olhava para ela. Encaixou a faca em seu cinto do lado oposto que a outra se encontrava. Antes que fosse muito tarde e ela não conseguisse mais ir embora, deu as costas para o grupo e seguiu a rua principal. Pelo que o mapa estava informando a rua principal se ramificava um pouco, mas escolhendo a ramificação certa provavelmente chegaria ao centro rápido.
Uma lágrima percorreu sua bochecha. Por mais que tentasse não conseguia deixar de pensar que aquela separação seria para sempre. Não sabia se aquilo era sua intuição ou uma peça pregada por sua mente. Perder seus amigos... Sua irmã... Kaio... Não era fácil se distanciar assim sabendo que poderia nunca mais vê-los. Queria dar meia volta e abraçar cada um deles. Mas não podia. Tinha uma responsabilidade. Tinha que cumprir seu dever ali. A sobrevivência de cada um dependia dela. Isso não é justo.
Fale com o autor