Silent Town

16 Capítulo 16


10 de julho de 2012. 12h00min

Sua cabeça doía. Na verdade, o corpo todo reclamava. Sua visão ainda estava meio desfocada. Alyce podia ver, com um pouco de dificuldade e confusão, James e Leon lutando bravamente contra aquelas coisas. Tinha mais alguém ali, era impressão dela? Ouvia Leon gritando seu nome, mas sua voz era distante, como um som quando se está em sonho. Então... Ela estava sonhando? Portando aquilo tudo passara de um sonho muito realista? Talvez. E talvez agora sua mente iria religar e voltar a realidade. Ia voltar e perceber que estava deitada em sua cama bagunçada e olhar para seu quarto desorganizado. Iria ver a luz do sol batendo em sua janela e perceber que estava atrasada para seu primeiro dia de aula. Ouviria Lucy batendo na porta e gritando seu nome para que corresse. Reveria seus amigos e faria novas amizades. Entraria na sala de aula e prestaria atenção nas coisas mais importantes. Seria ela novamente. Sem cidade abandonada, sem casas destruídas, sem amigos perdidos, sem monstros, sem fantasmas.

Sentiu seu corpo sendo chacoalhado por mãos firmes. Relutante, abriu os olhos. A visão estava toda embaçada. Os olhos não queriam ficar abertos; queriam a escuridão reconfortante em que estavam. Fechou os olhos novamente. Foi chacoalhada mais uma vez. Como aquele alguém era persistente! Não poderia deixá-la em paz?! Estava atrapalhando a volta dela para casa. Pare! Pare! Pare! Alyce conseguiu, com certa dificuldade, erguer a mão e empurrar a cabeça da tal pessoa. Como persistia! Mas que droga! Pare com isso seu idiota! Sua mente gritava e ela queria dizer aquilo também, mas sua língua estava pousada no chão da boca, pesada demais para ser erguida.

– Alyce! Alyce, pelo amor de Deus, pelo menos fala alguma coisa! — aquela voz... Aquela voz não era estranha.

Alguém que ela conhecia, sim ela realmente conhecia. Mas não conseguia associar a voz com um rosto. Tentou abrir os olhos novamente e obrigou-os a ficarem abertos. A visão foi melhorando, e a figura acima de sua cabeça agora estava reconhecível.

– Kaio — conseguiu sussurrar com uma voz rouca e fraca.

– O que aconteceu? — ele estava preocupado.

Alyce finalmente conseguiu afastar a sonolência e se sentou vagarosamente. Aquilo não era um sonho. É, nem sempre as coisas acabam sendo o que a gente quer que seja. Tirou a mochila das costas — não fazia ideia de como aquilo ainda estava ali — e a colocou perto da estátua.

– Preciso... — ainda fazia um tremendo esforço para falar.

Sentia um dor latejante na região da nuca. Estava fraca. Logo passaria; era o que esperava. Olhou para o chão, onde o monstro tinha estado. Lá estava a faca e a chave. A chave! tentou dizer para Kaio, mas resolveu reunir forças para continuar se movendo. Começou a se levantar, mas a dor só aumentou. Decidiu se arrastar pelo chão.

– Ei! Não, fique quieta! Só vai piorar se você se mexer — ele disse segurando seu braço.

Ela engoliu em seco, tirou a mão dele do braço dela e o olhou nos olhos.

– Eu preciso fazer isso. Não me impeça — sussurrou.

Ele abriu a boca para falar algo, mas decidiu no meio do percurso não falar. Alyce andou de quatro pelo asfalto sujo até que chegou onde os restos do monstro estava. As cinzas tinham sido dispersadas pelo vento, agora só restava uma mancha escura e os dois objetos. Alyce pegou primeiro a faca. Não tinha mais pó. Estava completamente vazia. Deixou-a de lado. Pegou a chave e a girou em frente ao rosto. Tinha cerca de trinta centímetros, era prateada e tinha um pentagrama cravado.

– Cuidado! — ouviu alguém gritando.

Olhou para o lado e viu algo vindo em sua direção. Foi rápido e não deu tempo dela desviar. A coisa bateu contra ela, fazendo-a bater a lateral do corpo no chão e largar a chave, que caiu um pouco longe. A coisa — seja lá o que for — ia morder seu rosto, mas ela colocou o braço na frente. Recebeu uma mordida no antebraço. A dor consumiu o local, os dentes gravando cada vez mais fundo. Ela gritou e chutou a coisa em algum lugar. O chute foi efetivo, a coisa abriu a boca e recuou. Alyce deu mais um chute, dessa vez mais forte, bem no meio da barriga dele, jogando ele para um pouco longe. Viu Leon esfaquear o monstro. Alyce olhou o braço. A mordida era grande e profunda. Ardia bastante, parecia pegar fogo. Não conseguia mais gritar, sua garganta estava seca. Apertou dente contra dente, colocou a outra mão no asfalto e começou a pressioná-la; qualquer coisa para distraí-la. Esqueça a dor Alyce! Pegue a chave! eram seus pensamos, mas também não eram. Estava ficando maluca. Dor. Vozes. Dor. Vontade de viver. Mais dor. Virou para trás e rastejou para tentar pegar a chave. Tentou ignorar a dor sufocante no braço que irradiava para o corpo todo. A dor é psicológica. O desgraçado que falou isso com certeza não foi mordido por uma criatura demoníaca dos infernos! pensou nisso enquanto rastejava lentamente. Estava quase lá. Esticou o braço bom pra tentar alcançá-la mais rápido. Sentiu uma mão pegando em seu pé, e de repente foi puxada. Tentou agarrar a chave, mas não dava mais. Suas pernas, barriga e seios foram ralados no asfalto por poucos centímetros, talvez trinta ou quarenta, até que a mão a fez virar de barriga para cima. Finalmente viu o rosto da criatura. Não era tão nojento e feio. Tinha um rosto pálido, corpo esquelético, olhos completamente negros, boca sem lábios com dentes tortos e nariz pequeno. A coisa cravou as unhas em seus ombros e a pressionou contra o chão áspero. Abriu a boca o máximo que pode, soltou um rugido com bafo pútrido e foi com tudo para morder o pescoço de Alyce, mas ela deu um soco no rosto dele/dela. O soco não foi um sucesso, então deu um chute bem onde tinha dado da outra vez. O chute foi meio desajeitado por causa da posição em que se encontravam, mas foi o bastante para afastar a coisa. Dessa vez James deu um golpe e foi diretamente no coração, e a coisa sumiu em uma nuvem de cinzas. Alyce queria ficar ali chorando de dor, não se importava de parecer um criança. Mas tinha uma coisa importante para fazer. Obrigou seu corpo a se levantar para um último esforço. Conseguiu ficar de pé. Cambaleando e rastejando foi até a chave e a pegou, apertou-a contra a palma da mão. Ia mais perdê-la. Precisava da caixa. Andou, um passo de cada vez, aquilo exigia um esforço tremendo. Viu que James, Leon e Kaio estavam olhando para ela e lutando. Sentia o sangue escorrendo pela ferida no braço e por muitos outros cortes pelo corpo. Estranho como os ralados ardiam mais que a mordida. Ao chegar perto da mochila desabou no chão. Suas pernas já não conseguiam mais, lá se foi sua reserva de energia. Encostou as costas no mármore e pegou a mochila. Tirou de lá a caixa com o nome Regnatimalus cravado na madeira. E ali estava o cadeado enferrujado, pronto para recepcionar a chave. Ela respirou fundo. Aquele seria o fim. Certo, enfiar a chave, rodar, abrir a caixa e... E o que? Não pense nisso, anda logo! aquele realmente era o seu próprio pensamento, sabia pelo menos daquilo.

– Vamos acabando por aqui — sussurrou para a caixa — Não foi divertido, e não quero repetir essas desventuras. Está me ouvindo, certo? Não entenda errado! Nada de eu voltar aqui ou em qualquer lugar abandonado e mal-assombrado!

Colocou a chave no cadeado e a rodou. Com um clique ele cedeu. Ele retirou ele de lá e repousou-o ao seu lado. Finalmente abriu a caixa. Lá dentro tinha folhas secas, mato, ninhos — talvez de pássaros -, galhos e uma coisa que achava ser pelos e pele. Nada demais aconteceu por cerca de meio minuto. Nenhuma surpresa. Olhou ao redor, monstros e fantasmas ainda vagavam por lá, e James, Leon e Kaio ainda lutavam contra eles.

– Mas que porra é essa? — exclamou — Eu passei por esse inferno todo pra nada?! Nem pra levar essas aberrações pra puta que pariu?!

Notas finais
Reta final da história. O que vai acontecer? Alyce viverá o inferno para sempre? A caixa vai funcionar? Alguém vai ajudar? E Lucy, desapareceu? Hmm... Tudo no próximo capítulo!