Silent Town
17 Capítulo 17
Notas iniciais
10 de julho de 2012. 12h30min
Nada aconteceu por um bom tempo. Tempo longo demais, segundo Alyce. Aquela caixa no seu colo simplesmente não fazia nada. Nada! E ela quase morrera por aquilo! Ingratidão. Sim. Essa era a palavra: ingratidão.
– Ah, qual é?! Ei! — ela balançou a caixa — Ei! Tem que ter alguém, algo, ou sei lá o que você seja! Vamos, me responda! Você está ai, não está?
Era maluquice, ela sabia. Esse by Text-Enhance\">negócio de falar com objetos que não podiam responder e tal. Ela sabia que ele não iria responder.
– Cara! — gritou — Saia daí! Não seja acanhado! Vamos — começou a choramingar — Ei! Regnatimalus! Saia logo, quero ir pra casa e ficar de bobeira, como sempre. Regnatimalus! Regnatimalus! Regnatimalus!
De repente tudo mudou. Parecia que aqueles três últimas palavras fizeram algo. Ela não sabia mais no que pensar. Só viu o momento que uma nuvem negra e densa saiu de dentro da caixa, fazendo ela soltá-la no chão ao seu lado. A nuvem se transformou em um redemoinho genuinamente maligno, cheio de raios e alguma coisa vermelha que parecia fogo, ou algo assim. Era fantástico e assustador. Uma mistura de tudo. O vento ali havia mudado de parado para agitadíssimo. Papéis voavam — não se sabia de onde tinham saído -, folhas se agitavam vigorosamente e pedras e pedregulhos iam de uma lado para o outro. Era uma loucura. Loucura maior era o que estava acontecendo com as criaturas. Todos estavam imóveis. Parados onde estavam, sem mexer nem um by Text-Enhance\">músculo. Um segurava James no alto — ele não se importou quando o monstro parou, pois também estava pasmo -, outro segurava Leon pelo braço. Kaio estava embaixo de um. Todos imóveis. Tão imóveis quanto estátuas. Alyce não ficara fora daquela demonstração de estátuas. Sua boca estava entreaberta e os olhos fixos naquela coisa.
– Vocês – a voz era grossa e arrastada — O que está acontecendo aqui?
– Hãn... — Alyce percebeu que ninguém iria dizer nada, então resolver fazer algo, ficou de pé e encarou o que quer que fosse a coisa — Bem... O que está acontecendo? Simples. Essas coisas escrotas estão aqui na Terra, um lugar onde não deveriam estar. E a culpa disso tudo é sua! Então, tome vergonha na cara e leve todos que não são humanos pra onde... Hm... Você sabe... Pra onde deveriam estar!
Alyce disse aquilo no impulso. Não estava pensando racionalmente e resolveu que pensar com razão seria a pior coisa a se fazer.
– Eu?! Você está enganada minha jovem. Eu me lembro...– a voz parecia de um velho sábio — Lembro sim! A culpa é deles não minha.
– Explique-se!
– Fácil.
E em um piscar de olhos Alyce não estava mais lá. Não era a praça que conhecia. Não, de jeito nenhum. A praça de antes era sombria e estranha, cheia de monstros e fantasmas. Mas aquela... Aquela tinha o mesmo asfalto, as mesmas pedras, a mesma estátua e as mesmas casas e prédios que a rondava, só que era diferente. Estava cheia de pessoas — pessoas de verdade– e ali, perto da estátua, tinha uma espécie de uma fogueira improvisada. A fogueira era feita basicamente de galhos pobres e secos, e no centro um tronco grosso e firme. O que estava acontecendo ali? Alyce não conseguia entender. As pessoas olhavam umas para as outras com uma expressão, que estranhou Alyce, parecia ser de pena e culpa. Todos deveriam estar ali. Todas as pessoas da cidade. Ali reunidas para algo importante, ou especial.
Ouviu vozes altas e gritos em algum lugar, estava perto, mas não tão perto. Parecia uma garotinha gritando, e as outras vozes eram homens. O que está acontecendo? Onde estou? queria gritar, mas não podia, nem conseguia.
– Você está em Silent Town. Só que em uma época diferente. Na época onde tudo aconteceu e mudou a vida de todos na cidade. Você entender. Agora preste atenção! – a voz era aquela que vinha da nuvem negra, mas estava em sua cabeça.
Ela não protestou. Não podia protestar. Ficou observando e tentando entender o que estava acontecendo.
– Soube também que a garota pode estar possuída — uma mulher disse para outra.
– Não creio! — a outra colocou a mão na boca, parecendo estar horrorizada.
– É, sim. A garota gritava a noite toda. Podia ouvir lá de casa. Me surpreende você não ter escutado.
– Bem... Pensando melhor, acho que ouvi alguma coisa, mas não dei importância.
– Pobre garotinha. Era tão inocente! — arregalou os olhos.
Os gritos mais altos fizeram as duas mulheres pararem de conversar e olharem para frente, junto com toda a multidão. Alyce queria ver melhor, mas as pessoas eram mais altas que ela, e os chapéus dificultavam as coisas. Viu algumas caixas empilhadas no canto e foi até lá. Espero que me aguente, pensou. Subiu as caixas até o nível mais alto. Agora podia ver toda a cena de um ângulo bom.
– Não!– a voz de garotinha gritava entre soluços desesperados — Por favor! Eu não sou uma bruxa, ou uma possuída, ou sei lá o que vocês acham!
Alyce se assustou com o que viu. A garota ali, sendo segurado por dois homens fortes e com camisas rasgadas, parecia muito ela. Tinha os mesmos cabelos louros prateados e os olhos azuis cintilantes. Era assustadora a semelhança. Parecia que estava em um sonho em que se via em segundo plano. O que estava acontecendo?! Por que estavam segurando a garota daquele jeito? Por que ela chorava tanto? Por que as pessoas olhavam para ela com uma mistura de medo, pena, culpa, raiva e nojo? Quem era aquela garota?! Alyce queria gritar. Queria fazer as pessoas pararem com aquilo. Porque se súbito soube o que iriam fazer. Aquelas pessoas iam assistir de bom grado a cremação de uma pessoa viva. Viva! O que aquilo significava? As pessoas faziam aquilo sempre? A garota era uma bruxa? Um demônio, ou algo assim? Não parecia. Ainda mais que a garota se parecia com ela.
A garota foi levada para a fogueira. Relutava, chorava, debatia, mas aquilo não adiantava nada. Foi amarrada com uma grossa corda no tronco no centro da fogueira feita as pressas. E ali estava ela. Amarrada e relutante. Um homem pegou uma lata cinza e começou a jogar o conteúdo dela na garota e na fogueira. Alyce sabia o que era. Era gasolina. Iam jogar gasolina nela e queimá-la viva! Só de pensa naquilo seu estômago revirava e lhe dava náusea. Os murmurinhos foram crescendo. Uma mulher apareceu correndo na passagem entre a rua que a garota e os homens haviam passado até a fogueira. Aquilo fez os murmurinhos cessarem. As pessoas olharam a mulher correndo. Estava com o rosto encharcado de lágrimas velhas e novas.
– Anastácia! Ah meu Pai! Anastácia! — ela tinha chego perto da fogueira, mas os mesmos homens que haviam trazido a garota agarraram a mulher — Por favor! Ela não é nada disso que vocês pensam! É só uma menina! Minha menina.
– Bruxa! — uma mulher gritou — Você fez isso com ela! Você colocou satanás no corpo dessa jovem. Queimem o corpo dela! Deixem que sua alma descanse no céu, e que Deus mande satã de volta para seu lugar!
– Do que vocês está falando?! — a mulher realmente estava desesperado — Minha filha não é hospedeira do diabo. Nunca foi! Vocês não entendem. Ela está doente, por isso grita a noite. Nada fiz contra minha filha!
Era a mãe. A mãe! A garota se chamava Anastácia... Talvez fosse sobre aquela família de quem James contara... Aquela mulher devia ser... Amélia! Isso! A mulher que era como a filha — e como Alyce — só que mais velha. A mulher fantasma que aparecera para ela... Você voltou para mim, querida. Era o que a mulher havia dito. Talvez confundira Alyce com Anastácia. O que era normal, porque as duas pareciam assustadoramente irmã gêmeas. Só que de épocas complemente diferentes.
– Queima! — todos começaram a falar — Queima Satã! Leva pro inferno!
O homem que tinha jogado a gasolina na garota estava com uma lamparina na mão, pronta para jogá-la. E foi o que fez. Jogou a lamparina. E de repente tudo parou. As vozes, os movimentos. Tudo. Todos seguindo o trajeto do objeto.
– Não! — Amélia gritou com força, representando seus mais puros sentimentos dolorosos de mãe.
– Mamãe, eu te amo — Anastácia disse olhando para a mãe.
No mesmo momento que parou de falar o fogo tomou conta de seu corpo. Anastácia foi tomada por chamas por todos os lados, sua pele derretia. Seus gritos ecoavam por todo o lugar.
Alyce não viu mais nada. Agora estava ali. Parada diante da praça vazia. A mesma praça de antes. A praça com ar de abandono. A praça com o redemoinho negro com relâmpagos. A praça cheia de monstros e fantasmas.
– Ah meu Deus! Foi um erro! Foi, não foi?
– Sim. Ela não tinha culpa. A alma de sua mãe foi devorada por sentimentos de ódio por causa das pessoas da cidade. E ai eu apareci. Simplesmente apareci dentro daquela mulher, sentindo as dores e as angustias dela. E me deliciando com aquilo. Quando as pessoas tentaram matá-la, bem... Conseguiram. Mas o demônio ficou a solta. E eu matei todos. Um por um. E então soltei meu exército. De alguma forma, alguém conseguiu me colocar em uma caixa, e então permaneço ai, dormindo, por um bom tempo. Chegou a hora de voltar. Não há o que fazer por aqui.
A coisa/redemoinho começou a soltar fumaça negra por todo lado. A fumaça percorreu por todos os lugares. E os monstros foram caindo e viram cinzas. Os fantasmas sumiam do nada. Era tudo muito simples. Simples demais. Alyce até mesmo estranhou.
E tudo tinha acabado. Monstros e fantasmas foram embora. Todos foram para o lugar onde deviam estar. Todos. Até a coisa negra tinha ido embora. Alyce não sabia para onde. Qualquer lugar longe dela seria o suficiente para se sentir feliz. Viu James, Leon e Kaio se juntando a ela.
– Vamos para casa? — perguntou James.
Alyce ia responder que sim, pois estava cansada daquela coisa toda. E estava muito machucada. Mas alguém estava faltando. Não podia sair dali sem Lucy.
– Vamos procurar Lucy — disse finalmente
– O que? Mais isso agora? Fala serio?! — resmungou.
– Olha, cara. Foi você que quis nos trazer aqui. Agora nós vamos embora. Todos juntos. Todos.
– Ok... — disse levantando os braços na defensiva.
Ela não sabia onde procurar. Não fazia ideia.
– Vamos nos separar? — sugeriu.
– De novo? — perguntou Kaio, arregalou os olhos.
– É... É melhor assim. Vai ser mais rápido. Dessa vez vamos dois em dois.
– Se quiser assim — falou.
– Tudo bem...
– Alyce você vem comigo — James disse rapidamente.
– O que? Nem vem. Ela vai comigo! — falou Kaio.
– Não, não, não. Eu falei primeiro. Quero ir com ela. Ponto final.
– Olha, tudo bem. Não precisa brigar gente. Relaxa. Kaio, vai com o Leon. Não tem problema eu ir com o James.
– Alyce — ele ia começar a protestar, mas o olhar de Alyce o deteve.
Ela estava exausta. Não queria mais nada. Procurar Lucy era sua prioridade. Não pensava em mais nada. E quando Kaio quis protestar contra sua decisão, ela lançou para ele um olhar de fúria contida e cansaço. Esperava que ele entendesse. Nunca iria saber ao certo o que ele estava pensando naquele momento. E no outro momento, quando ele foi em uma direção qualquer ser dizer nada, fazendo Leon sair correndo atrás dele. Ela queria correr atrás dele também, mas James pegou em seu braço e a fez começar a andar na direção oposto.
Estavam caminhando pela direção do lago. Ela tinha o visto antes. Era sombrio e sinistro. Não achou muito legal ir para aquele lado, mas resolveu não protestar.
Ao chegarem perto do lago, Alyce andou a até a beirada dele e se virou para olhar James. A falta de luz ali fazia com que seus olhos ficassem malignos e obscuros, o que era estranho ao se tratar de James.
– Então... Acho melhor procurar Lucy em outro lugar... Parece que ela não iria estar por aqui. Quanto menos sombrio o lugar for, mais fácil de encontrá-la — disse sorrindo,
– Talvez ela estava aqui sim. Já olhou direito? — ele disso com um sorriso de canto de boca.
O sorriso pareceu o sorriso de um maníaco, mas Alyce não havia notado.
– Como assim? Não tem nada aqui — se sentia desconfortável naquele lugar.
– Olhe direito Alyce. Já tentou olhar para aquela árvore? — disse apontando em direção a uma árvore perto dali.
Alyce se virou lentamente na direção em que ele apontava. Tinha mesmo uma árvore ali. E realmente havia algo na árvore. Algo que ela não queria ter visto. Algo que não acreditava estar vendo.
– Ah meu Deus! James, o que você fez?! — disse com a mão na boca, horrorizada.
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