Silent Hill: The Artifact

11 O Protetor Sagrado


Notas iniciais
"Alguém dentro de mim mente para me proteger." - Desconhecido

Esfrego os meus olhos e torno a dar uma olhada no lugar com a lanterna. A igreja, ou seja lá o que for isso, está completamente diferente. Tudo está muito escuro e só consigo ver alguma coisa pela luz da lanterna. Ilumino o lugar e percebo que não há portas nem janelas: estou trancado dentro de quatro paredes completamente fechadas. As paredes pulsam, o chão é uma enorme grade enferrujada que me mostra um abismo profundo. Meu coração acelera e começo a vasculhar por qualquer buraco que possa encontrar: nada!

–Mas que droga!

Olho em volta. Os bancos queimados e bagunçados e a única coisa que faz sentido é o altar. Começo a andar em voltas dentro do local, procurando algum outro objeto ou coisa que possa me tirar daqui.

–Mateus!

O que esse menino queria? Me matar por asfixia ou inanição? Provavelmente ele sabia disso e me fez entrar aqui sozinho... Mas, como ele sabe? Ele não estava aqui perdido junto com o pai? Como pode saber de tanta coisa assim?

Continuo vasculhando pelas coisas, não acho nada. Vou até o altar, próximo à mesa coberta por um pano vermelho com uma espécie de vasilha cheia de um líquido transparente que parece água. Eu não consigo ver sentido nenhum. Tento dar a volta na mesa e consigo encontrar na toalha uma inscrição em grego antigo feito provavelmente com um objeto muito quente, queimando assim a toalha e deixando a escrita como buracos. Ilumino com a lanterna e agradeço por ter tido aula de grego na faculdade de história. Aos poucos, começo a entender o que está escrito.

“Para o protetor sagrado, uma oferta de sangue.”

De repente, as coisas começam a fazer sentido na minha mente. Sento no chão de grades e vasculho a mochila retirando o objeto, isto é, o Selo de Metatron e em seguida os escritos que encontrei dentro da maleta.

“O Selo de Metatron, um objeto circular de ouro que possui o selo gravado na sua frente. O objeto possui o poder da própria entidade, sendo emprestada a pessoa que o usar. O poder é capaz de fazer coisas além da naturalidade humana. Se assemelha ao poder da Mãe Sagrada, porém é ainda mais forte. O objeto foi deixado na Terra com o objetivo de capacitar a pessoa que seria responsável por cuidar da mãe sagrada, protegendo-a também do julgamento de deus enquanto o mesmo é gerado. Ao usar o selo, o seu portador obtém acesso ilimitado ao poder da entidade, entretanto, esse poder é incapaz de ser habilmente controlado se não for usada pelo seu usuário original, isto é, o protetor da Mãe Sagrada, uma vez que Metatron é o protetor de deus enquanto ele não assumir a sua forma completa. O objeto confere força suficiente para o seu utilizador para caminhar por entre as duas realidades presentes durante o julgamento de deus quando ele ainda não assumiu sua forma original.”

–É isso. Encontrei o selo e o protetor sagrado seria esse tal de Metatron aí... Agora as coisas fazem sentido. Pra continuar com o Selo, eu preciso derramar sangue.

Olho para o altar e vejo a bacia com a água dentro. Guardo as coisas na mochila, exceto o objeto. Vou até a mesa e coloco o Selo dentro da tigela. Respiro e puxo o canivete. Faço um corte na palma da minha mão, trincando os dentes por causa da dor e espero goteja um pouco dentro do líquido junto com o selo. Caem algumas gotas de sangue eu rasgo uma parte da camisa usando ainda o canivete, fazendo uma espécie de torniquete na mão. A minha mão dói. Espero acontecer alguma coisa: nada. Derramei sangue em vão.

Decido pegar o objeto e quando o seguro firmemente em minhas mãos, a mesa onde estava a bacia com o líquido começa a pegar fogo diante dos meus olhos, me fazendo recuar alguns passos. Vejo o fogo consumir por completo a mesa e os objetos e então se revela um pequeno alçapão com uma escada. Era a minha chance de sair. Jogo o Selo dentro da mochila e vou até a pequena escada descendo devagar. As coisas estão um pouco escuras e tento segurar a lanterna ao mesmo passo que uso as duas mãos para descer a escada, ainda sentindo um pouco de do corte que fiz em uma das mãos.

Ainda não consigo ver claridade nenhuma, apenas ouço gritos do que parece ser uma mulher vindo de baixo. Não sei quem é, mas parece desesperada. Tento descer o mais rápido que posso e logo começa a chegar um pouco de luz. O cenário vai se montando à medida em que desço: Vejo velas espalhadas por todos os lugares em candelabros, vejo um piso não de grade, mas de cerâmica suja e manchada de sangue. Vejo um homem estendido ao chão e uma mulher loira jogada por cima do corpo dele gritando e chorando. Acelero a descida e corro até ela. Ela parece desesperada.

–Er... Moça... Tudo bem?

–Como pode estar tudo bem se meu pai está morto?!

Ela levanta a cabeça e olha pra mim. É Anette, a minha colega de turma. Não consigo acreditar no que os meus olhos me mostram: ela está maquiada exatamente como Mateus havia feito no desenho, a exceção de que seu rosto estava completamente borrado da maquiagem. Ou ele a viu, ou... Mas ele também não havia visto que eu tinha trocado de camisa, muito menos teve algum encontro com a coisa com a pirâmide.

–Anette...

–Matt! – Ela corre em minha direção, me dando um abraço forte. – Meu pai... Ele está morto!

Olho para o homem estendido no chão com uma enorme poça de sangue. Vejo pedaços de dedos ao lado, fios de cabeços juntos com pedaços de couro cabeludo... Vejo até um olho no chão ao lado de alguns dedos do pé.

–Ele... Ele o torturou até a morte e tudo isso na minha frente! – Ela começa a chorar no meu ombro.

–Quem?

Ela permanece chorando e soluçando enquanto me agarra com força.

–Ele disse que você veio pra cá, que estava procurando por mitos... Ele, eu, Don e Chang estamos aqui. O professor Thompsom... Estávamos todos no carro e de repente adormecemos. Eu acordei aqui e vi ele torturando meu pai até... Até a morte!

–O professor Thompsom?

–Ele... – ela continua chorando – Nos trouxe pra buscar você... E agora matou o meu pai!

Ela continua chorando ao meu lado e eu não sei o que fazer. Não consigo imaginar qual a lógica de tudo isso. Talvez o professor tenha enlouquecido por ter vindo aqui... E só consigo ver um culpado nisso tudo: eu! Mesmo que o maníaco tenha sido ele, se não fosse pelo fato de ter permanecido aqui, ninguém viria atrás de mim.

–Chang... Ele encontrou sua carta num dos murais da faculdade. Viemos conve... – ela volta a chorar.

–Anette, tenha calma.

–O que mais me dói... É que eu não pude fazer nada. Meu pai estava amordaçado e só conseguia olhar pra mim. Os gritos eram em vão. Eu tentei bater nele, mas ele era mais forte que eu e me empurrava toda vez que eu chegava perto... – ela começa a chorar.

Começo a pensar. Se Thompsom voltar, com certeza vai querer nos matar. Preciso tirar ela daqui, não sei o que fazer ou como fazer. Tem essa escada, mas deve haver outra saída. Agora sei que Chang e Don também estão em perigo, precisamos encontrar eles antes que aconteça o pior. Olho pra Anette e ela coloca as mãos na barriga e começa a gemer de dor, tanto por estar com cólicas como pelo que acabou de acontecer. Sei que ela não quer deixar seu pai, mas eu preciso falar.

–Anette, temos que sair daqui.

Ela olha pra mim, sabendo que era o certo a se fazer agora. Estou feliz por tê-la encontrado, por poder ajuda-la. Ela dá uma ultima olhada para o corpo ainda enxugando as lágrimas dos olhos e segura em minha mão, apontando para uma porta à direita com a outra mão.

–Foi por ali que ele foi depois de... Essa escada não estava aqui antes.

–Vamos com cuidado então!

Caminhamos em direção à porta e eu continuo com a lanterna em mãos. A porta se abre normalmente e caminhamos por uma espécie de corredor também sem janelas. Mais a frente consigo ver uma porta e a abro. Vejo névoa e claridade, além de algumas árvores e mato. Estamos na ilha de novo. Saímos por um lugar que fica por trás da igreja. Sigo pela trilha com Anette segurando minha mão e a barriga com a outra, ela parece sentir dor.

Chegamos perto do ancoradouro e vejo Mateus me esperando. Ele sorri ao me ver, certo de que fiz o que deveria.

–Achei que você demoraria menos. – Ele começou falando, mas eu olho pra Anette e retorno o olhar com um balançar de cabeça pra Mateus.

–Anette, as coisas aqui comprovaram que esse lugar é mais do que uma lenda... As coisas que acontecem aqui são reais. O que vamos encontrar é terrível, então peço que se mantenha calma.

Ela torna a chorar. Ajudo-a subir no barco, Mateus também sobe não entendendo ao certo o que aconteceu. Subo por ultimo e começo a remar em direção ao hotel, seguindo a luz tremeluzente em meio à névoa. O barco ganha um pouco mais de velocidade, deslizando calmamente pelas águas tranquilas. Está tudo silencioso, a exceção do choro de Anette, o que me corta o coração. Sei que o que ela viu foi terrível, ver o pai sendo torturado e morto causa muita tristeza, ódio, dor... Espero que consigamos sair daqui e que ela consiga viver de forma normal. O barco vai se aproximando e eu diminuo a velocidade, atracando ele em uma das pontes do ancoradouro. Amarro a corda em uma das colunas e saímos do barco. Anette segura firmemente a minha mão e damos uma olhada no Lakeview Hotel. É grande e me lembra um castelo. Caminhamos em direção à entrada.