Silent Hill: The Artifact
23 Dor, Sofrimento e Fogo
Notas iniciais

Chang abre a porta cuidadosamente, pouco se importando com a frase a cerca do paraíso escrita e presa fortemente à porta. A subida foi um pouco longa e por momentos pensei que nunca chegaria ao topo, até que então vi uma esperança surgindo – a porta – a qual Chang está se encarregando de abrir. Pouco a pouco, vai se revelando para nós um ambiente semelhante a uma igreja, o santuário o qual Chang e Carl Thomas haviam citado. O santuário do deus, onde provavelmente seria realizado o ritual com Anette. O lugar se parece um pouco com a pequena capela existente na universidade de Aldebras, uma capela a qual eu sempre frequentava, conversando com o padre sobre meus sonhos malucos, sonhos estes que eram tão intensos que me amedrontavam o dia inteiro e eu sempre achei que era algo ligado ao sobrenatural pelo qual sempre busquei. Chegando à Silent Hill, constatei que meus sonhos eram muito parecidos com a realidade desse lugar, me remetendo a ele... Mas meus sonhos pareciam mais lembranças, e não sonhos inéditos. Eles sempre acabavam com o cara com a cabeça de pirâmide erguendo a sua espada. Quando contava ao padre, ele sempre me dizia que eu deveria parar de jogar videogames ou até mesmo deixar essa história de sobrenatural pra lá. Embora eu tenha tentado, sempre me pegava buscando sobre novos mitos na internet e até mesmo me surpreendo por nunca ter visto nada relacionado à Silent Hill.
O lugar está repleto de bancos grandes de madeira, formando duas filas nas laterais e deixando um estreito corredor ao centro e dois mais estreitos ainda nas laterais. O cheiro do lugar não é nada agradável, sendo completamente embargado em álcool misturado com o familiar cheiro de podre da cidade, que embora imergido no outro lado, parece intacto. As paredes estão apenas desgastadas do tempo e o chão é de cerâmica, um pouco quebrada, mas de cerâmica e não das horríveis e podres grades. As paredes não pulsam e tão pouco estão cheias de sangue. Me sinto de certa forma seguro. À frente, há alguns mosaicos completamente quebrados, não dando assim pra compreender a imagem a qual mostravam. Embaixo dele, um altar com uma mesa em cima, sem nada, está recoberto por um pano vermelho que à luz do próprio lugar parece molhado por algum líquido, provavelmente álcool, o que produz o cheiro forte presente no lugar. A mesa está exatamente no centro de um desenho com alguns círculos e alguns símbolos dentro, escritos ou desenhados no chão em vermelho, feitos com sangue. Então, lembro-me do real motivo de estar aqui: Anette.
–Chang... O ritual! – falo apontando para o altar.
–Calma Matthew. Ainda não foi feito. Podemos fazer alguma coisa!!
–Mas o quê? Temos que encontra-la...
–Não Matt! Pense bem!! Se o ritual vai ser aqui, então em algum momento vão trazê-la pra cá! Se procurarmos e nos perdermos, como poderemos impedir de algo acontecer? Temos que ficar aqui e tentar fazer o que pudermos!
Chang tem razão. Procurar como dois loucos só piorariam as coisas... Talvez seja melhor ficar e esperar, fazer alguma coisa... Mas como? Angela fez o favor de descarregar a arma, não encontramos mais munição desde então... Como poderemos impedir esse ritual? Eu ainda tenho minha chave inglesa na mochila, mas... Não sei se vai ser o suficiente. Pelo menos é melhor do que o ritual acontecer e nós não estarmos aqui.
–Tudo bem, vamos esperar.
Chang suspira e senta em uma dos bancos, de frente ao local preparado para o ritual. Eu começo a andar pelo lugar, não muito grande. Vejo uma porta à esquerda e alguns quadros presos nas laterais do lugar. Aproximo-me de uma das paredes e vejo três quadros. O primeiro mostra três pessoas sofrendo ou se lamentando, não consigo enxergar muito, pois parecem muito antigos. O segundo mostra um homem e uma mulher sentados em uma espécie de rocha, como se estivessem conversando com o nada. O terceiro é o mais diferente, porém me deixa um pouco perturbado: Há várias pessoas recebendo uma mulher, uma mulher cujo vestido vermelho toma conta de quase toda a pintura. Sinto calafrios ao olhar a pintura, como se aquela mulher fosse... Fosse... Deus. De repente, uma mão toca meu ombro e me viro rapidamente. É Chang.
–É nossa história... A história da humanidade.
Não me contenho e abro um sorriso sarcástico, não conseguindo imaginar que Chang ainda continuava com sua paixão fanática pela sua religião.
–Sempre achei que viemos de um monte de moléculas que se organizaram e formaram o primeiro ser vivo unicelular.
Ele fecha a cara e percebo o quão fanático ele é, levando inclusive a percepção de suas crenças contra as teorias científicas... Não que elas sejam perfeitas, mas vejo que ele acredita cegamente em sua religião.
–Ah Matt... Você parece tão ingênuo.
–Ah, claro... Até porque sou eu que acredito nessas mentiras.
–Mentiras? Não mesmo! Tudo tem lógica! Por exemplo, esse primeiro quadro mostra a humanidade, todos desesperados porque viviam cheios de sofrimento... Sofrimento eterno o qual nem a morte poderia aliviar deles. Sabe o quão horrível seria se vivêssemos eternamente nesse mundo podre?
–Nem consigo imaginar... – respondo sarcasticamente.
–O segundo mostra o ser humano clamando por alívio e no terceiro, deus tem pena de nós e resolve nascer. Ele define o tempo e o espaço e então permite que a morte acometa os humanos, permitindo a eles o fim de seus dias. Deus também cria todas as outras coisas existentes, inclusive outros anjos e outros deuses para auxiliar no governo e leis do universo que regem tudo, inclusive a moral humana. Ao final de tudo – Chang aponta para o outro lado – deus morreu por usar toda a sua força, mas ficou a promessa de...
–Oi? Pode concluir a história, sacerdote?
–Er... Parece que está faltando um quadro.
Olho para a parede oposta para onde Chang apontou. Estão presentes dois quadros e um espaço no meio deles, como se estivesse outro quadro ali. Ele parece confuso, mas retoma a conversa.
–Então, ficou a promessa de deus voltar e estabelecer seu paraíso, purificando o mundo do mal e dando aos seus seguidores a verdadeira paz.
–Então... Ele vai renascer?
–Sim Matt. É por isso que estamos aqui. Carl acha que Anette é a mãe sagrada e precisamos salvá-la. O ritual pode matá-la.
–Ok.
De repente a porta lateral se abre e vejo Don entrar com uma mulher aparentemente desmaiada em seus braços, Anette. Atrás dele, vejo o professor Thompson apontando uma arma na minha direção. Esse é o momento, preciso dar um jeito de salvar Anette. Se eu conseguir correr e derrubar Anette acordando-a, talvez seja mais fácil. Chang poderá distrair o professor enquanto corro. Faço um sinal discreto com a mão para Chang.
–Matthew! Que prazer vê-lo aqui!! Estou feliz por saber que você ainda não saiu de Silent Hill...
–Olá professor... – tento ser o mais falso que posso – então, o que está fazendo com ela?
Droga! Essa não foi a melhor coisa a se fazer. Ele continua mirando a arma em mim, e tento ver se Chang está a postos para agir ao meu sinal.
–Matthew Liward! Tudo que você acreditou sobre essa cidade está realmente certo, certíssimo! E que bom que você veio... Agora poderá assistir o ritual das chamas, já que a sua vinda fez com que Anette também viesse até aqui!
Respiro fundo. O momento é agora. Aceno levemente para Chang e começo a correr em direção a Don, mas sinto-me puxado pela perna e caiu no chão de cara, batendo com a boca no chão. Sinto gosto de sangue.
–Mas...?
–Confuso sir. Matthew? Chang, por favor, o segure direito!
Me viro para trás e vejo realmente o que me fez cair. Chang está segurando firmemente minha perna, não soltando de forma alguma. Ele me levanta e me segura com os braços, prendendo os meus. Tento correr, me debater... Mas de alguma forma, Chang consegue ser mais forte que eu. Don coloca Anette meio sonolenta em cima da mesa e vem até mim, ajudando a me prender. Por fim, o professor Thompson vai até o altar e puxa uma corda, amarrando meus braços e me sentando no banco da igreja amarrando também minhas pernas logo em seguida. Eu grito, grito por Anette. A raiva e o desespero sobem à minha mente... Fui traído, traído pelos meus amigos e meu professor.
–Carl, ela está pronta. Só precisa acordar mais um pouco.
–Carl?
Ele suspira.
–Pensei que fosse mais inteligente, sir Matthew! Carl Thomas Thompson, muito prazer – ele ri – prazer em conhecê-lo, senhor Matthew Liward, sobrinho de Yana Liward.
–Yana... Esse era o nome da minha tia?
–Sim. Ela morreu aqui em Silent Hill. Você sempre a vinha visitar, e agora está aqui novamente. Nunca parou pra pensar porque se sente tão ligado a esse lugar, Matthew? Você está destinado a vir aqui, você é o protetor sagrado!
–Mentiroso! Essa sua religião é uma farsa!
–Farsa? Há alguns anos atrás, uma mulher foi morta queimada nesse ritual que vamos presenciar. Ela, antes de morrer, deu a luz a uma criança... Ela já acordou?
–Sim.
–Anette, que prazer em vê-la!
Vejo Anette olhar para ele e gritar desesperadamente, mas sem forças para se levantar. Ao que parece, alguma droga age no seu corpo, mas deixa sua consciência intacta.
–Tão bela aquela criança era... E nós achamos que era deus! Mas então, descobrimos que havíamos matado a mãe sagrada, mas ela poderia renascer quantas vezes fosse preciso para que deus nasça dela. Temos aqui, Anette, a Mãe Sagrada... Foi difícil encontrar você, linda! – ela continua gritando.
–Vocês são loucos!
–Loucos... – Chang começa – Já disse que não somos loucos, Matt. Nós acreditamos que vamos livrar nosso mundo da maldade desse modo.
–Causando mais maldade? Que droga de deus é esse?
–Ei, não a insulte!
Continuo sentado e amarrado ao banco. Tento me soltar, fazer alguma coisa... Mas é impossível. Não consigo me mexer, não consigo fazer absolutamente nada. Tudo que me resta é a minha mochila, que Chang fez o favor de arrancar das minhas costas. Não sei o que fazer e se Anette morrer, não vou me perdoar...
–Socorroooo!!! – ela grita de desespero, um desespero que faz minha alma gelar.
–Anette, é o melhor pra você. Você será a mãe de deus e poderá ser a primeira a estar com ela no paraíso! – Chang fala calmamente.
–Não! Eu não quero droga de deus nenhum em mim!! Eu quero sair daqui!!
–Sinto muito Anette, sinto muito Matthew, mas ela precisa renascer.
–Nãããão!!! Não façam nada com ela!
–Tarde demais.
O professor Thompson vai até o altar com uma vela vermelha acesa e a coloca embaixo da mesa onde Anette está deitada, sem conseguir se levantar. A chama da vela toca o lençol embebido em álcool que logo começa a queimar. Don sai do local, não conseguindo suportar a cena enquanto Chang e Carl dão as mãos e entoam uma espécie de oração.
–Deus, que você receba como sacrifício e morada o corpo da jovem Anette. Venha até nós e estabeleça o seu paraíso em nosso meio!
–Calem a boca! – meus olhos começam a lacrimejar – Deus jamais ouviria essa oração ridícula, se é que ele existe. Isso não é um deus, é um demônio!
–Matt, já disse pra não profanar deus!
Os gritos de Anette vão se intensificando. O fogo agora toma conta de toda a mesa e começa a queimar o corpo da garota. A dor parece tão intensa que doi no meu ser só de olhar. Sua pele começa a aparecer em carne viva.
–Socorroooo! Alguém me ajudaaa!!
Meu olhos derramam lágrimas ao ver a garota a começar a perder a consciência à medida que os ferimentos se intensificam na sua pele e o seu cabelo é derretido pelas chamas. Chang não parece muito feliz, mas observa calmamente a cena. Anette consegue, com muito esforço, levantar fazendo assim uma cena assustadora de um corpo queimado se levantando em chamas. Tento me soltar, balançando fortemente o banco, mas não consigo. Tudo dói, meu corpo sente as dores dela, meu coração altamente acelerado se angustia ao ver a linda garota em chamas, agora completamente deformada se debatendo em meio aos ferimentos. Eu choro, choro como se fosse o último dia do universo. Choro de uma forma que nada consegue calar meus soluços enquanto a vejo desfalecer por sobre o chão. Aos poucos, as chamas vão se apagando até se apagarem totalmente, o que é estranho já que deveria causa um incêndio e matar todos aqui dentro. Eu olho completamente arrependido agora para o corpo praticamente sem vida dela, tudo por culpa minha, por ter vindo aqui, por tê-los trazido pra cá. Anette...
–Anetteeeeee!!! Seus idiotas! Conseguiram o que queriam? Agora ela está mortaaa!! – falo em meio a lágrimas.
Chang vai até o corpo completamente queimado e coloca a mão no pescoço, tentando verificar sinais vitais. Ele chama Thompson.
–Ela... Está viva! O ritual funcionou! Deus vive dentro dela!
Os dois sorriem. Chang com a ajuda de Thompson leva o corpo dela pela porta lateral do santuário de onde vieram. Eu tento gritar, mas não sou ouvido.
–Anetteee!!! Voltem aqui, seus... Seus...
Meus olhos se enchem de lágrimas. Tudo parece girar ao meu redor e sinto que vou desmaiar. Mas antes que isso possa acontecer, sinto uma pancada na cabeça, apagando.
...
Abro os olhos com um grande formigamento pelo meu corpo. Estou caindo velozmente e antes de perceber onde estou, meu rosto bate contra o chão provocando uma dor que se irradia por todo o meu corpo.
–Droga... Anette...
Estou sem as amarras, porém está escuro. Não consigo ver absolutamente nada. De repente, vejo uma luz cair em meio à escuridão infinita. Ela bate no chão fazendo um som metálico. Era uma lanterna. Vou até ela e a pego, vendo que está funcionando bem. Tento andar pelo chão, mas acabo tropeçando em alguma coisa. Ilumino com a lanterna e vejo a minha mochila no chão. Coloco-a nas costas, sentindo o familiar peso. Agora preciso sair daqui. Continuo andando, iluminando as coisas com a lanterna e então vejo um vulto negro, que vai ficando mais nítido à medida que me aproximo. A lanterna ilumina um quadro, com a mulher vestida de vermelho morta e várias pessoas chorando pela sua morte... Era deus. Ao lado do quadro que estava estranhamente posto em pé apoiado no meio do nada, vi também algumas velas apagadas. Caminho mais uns três passos e então o enxergo. Uma cabeça enorme com um rosto feminino num corpo completamente demoníaco e estranhamente intacto. Tinha costelas expostas e uma cintura feita apenas pela coluna vertebral... Uma coisa completamente não humana. De alguma forma, aquela visão me deixa completamente perturbado.
–Drogaaaa... Socorrooo!!! Preciso sair daqui, alguém me ajudaaaa! – Grito desesperadamente.
Então me lembro. Minha mochila, o selo de Metatron... Talvez se eu mudar a realidade... Começo a vasculhar dentro da mochila até encontrar o familiar objeto circular, que agora brilha estranhamente. Seguro ele firmemente em minhas mãos e penso em sair do lugar, em ser livre, em sair de Silent Hill. O objeto então começa a brilhar de forma muito intensa, tão intensa que vejo praticamente tudo presente naquele lugar. A luz se intensifica e tudo fica branco.
...
Abro meus olhos. Estou em algum lugar familiar, mas não lembro exatamente onde. Tudo parece tão... Então me dou conta que estou no meu dormitório, em Aldebras. Voltei para minha casa, meu lugar! Vejo a cama de Don e de Chang vazias. O relógio marca 8h da manhã, iluminado pelo sol que entra pela janela. Sem névoa, sem escuridão. Tudo voltou ao normal e de alguma forma, o objeto fez isso. Então eu começo a rir como uma criança. Estou livre, estou livre daquela droga de cidade. Acabou, finalmente acabou.
Levanto-me e arrumo a cama. Lanço um olhar para a cama de Chang, intacta como a de Don. Olho para a minha mochila jogada junto à porta... Tudo exatamente como era. Talvez não tenha passado de um sonho ruim. Pego uma toalha no armário e vou para o banheiro me aprontar para mais um dia NORMAL de aulas com um sorriso estampado na cara. Tudo acabou, acabou de verdade. Se tudo foi um sonho, então agora eu acordei.
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