Silent Hill: The Artifact

34 Conversas Paralelas


Notas iniciais
Peço perdão pela demora nos capítulos. Minhas aulas na faculdade recomeçaram, então estou come menos tempo. Mas não desisti e só pararei quando acabar! "Só fale se você for melhorar o silêncio." - Rubem Alves

Termino de colocar o último pedaço de pão velho com geleia na boca e então me sinto satisfeito. Don olha pra mim com uma expressão de que tinha acabado de comer todo o chocolate de uma loja de doces.

–Aaahh cara! Fazia um tempo que não comia direito...

–E não comemos – respondo. – Essa porcaria tá longe de ser comida de verdade... Mas é o que temos, então... Deu pra resolver o problema. – Ele ri.

–Você também é muito chato! Cadê seu senso de humor, meu caro Matt? – Ele ergue o pote de geleia como se fosse um copo de chope.

–Acho que deixei lá trás...

Olho ao redor. A velha cozinha desgastada e completamente bagunçada do hospital não parece nem um pouco um lugar agradável. A tinta da parede, completamente desgastada mostra um reboco cinzento, quando não aparecem os tijolos vermelhos da construção. Estamos sentados no chão, com azulejos também cinzentos e sujos. Algumas bancadas e armários, completamente alheios ao resto da cozinha parecem implorar para sair dali e serem jogados no depósito de lixo mais próximo daquele lugar. Olho pra um armário de ferro caído no chão e sinto um calafrio. Mas não tenho como não me lembrar de Mateus. A última vez que o vi foi depois de destruir o corpo de Yana... Depois de mata-la novamente. Ele parecia realmente muito triste e isso me preocupa. Ele chorava, chorava como se eu fosse a pior pessoa do mundo.

–Aaaaarrrhhh... – Don se levanta esticando os braços como se tivesse acabado de almoçar e estivesse pronto para um cochilo. Isso quebra meus pensamentos.

–Vamos continuar procurando? – Sugiro em um tom que quase parece uma ordem. Isso faz com que ele olhe pra mim fazendo uma careta.

–Agora? Acabamos de comer...

–É, mas tem algo aqui que precisamos encontrar. Temos que procurar o mais rápido possível!

–Certo.

Saímos da cozinha e voltamos para o corredor. Ainda há mais uma porta e então vejo duas portas metálicas enferrujadas mediante a pouca luz que entra através das janelas quebradas. É um elevador.

–Vou tentar abrir essa porta, Matt. Veja se o elevador funciona.

–Ok.

Dirijo-me até as pesadas portas de metal e tento pressionar o botão de chamar: nada. Continuo apertando mais umas dez vezes, mas nada acontece. Penso se não está sem energia. Volto para Don e constato que ele também não conseguiu muita coisa. Sinto cheiro de sangue e por um momento penso que a realidade da cidade havia mudado, mas então percebo que minha camisa ainda é a mesma, encharcada de sangue.

–Essa porcaria não abre...

–Vamos ver!

Vou até a cadeira onde tinha deixado o cano de metal e sinto seu peso em minhas mãos. Seguro firmemente e vou em direção à porta.

–Sai da frente, vou derrubar essa porcaria agora.

Começo a dar investidas contra a porta, mas depois de umas três ou quatro percebo que é em vão. A porta é mais resistente do que parece e pouco cede com os golpes que acerto.

–Me deixa tentar! Você é bem magrinho né? – Ele ri.

–Aah Don... Deixa de ser idiota.

Don faz pose e ergue o cano em suas mãos. Depois de três a quatro golpes na porta, percebe também que ela não vai ceder. Jogando o cano de ferro no chão fazendo um enorme barulho que ecoa pelo corredor. Ele se afasta da porta e corre em direção a ela, se jogando com seu ombro direito na porta. O impacto é tão forte que ele cai no chão, mas a porta pouco se move.

–Merda! – Ele grita enquanto levanta com a mão no ombro.

–É impossível! Essa droga de cidade tem seus próprios meios de retardar e colocar as coisas no seu devido tempo. É uma droga, eu sei.

–Mais lorotas do Chang?

–Infelizmente... Elas fazem sentido. — Respiro fundo. – É uma droga.

–Okay... Já que essa Silent Hill não nos deixa prosseguir... O que faremos?

Tento pensar em alguma coisa. Começo a lembrar de quando estive aqui da primeira vez, antes de usar o Selo de Metatron para sair. Em algumas salas, tive que ir de um lugar para outro procurando chaves. Talvez seja isso que devamos fazer agora: procurar a chave daquela sala. Mas por onde procurar?

–Talvez... Tenhamos deixado algo passar despercebido. Tem aquela sala de exames que não verificamos.

–É mesmo Matthew... Talvez tenha alguma chave ou alguma coisa... Mas e se ela estiver trancada como essas daqui?

–É melhor do que ficarmos aqui parados como dois idiotas. Vamos!

Começamos a voltar pelo corredor e é então que vejo à direita, escondida pelo escuro, uma porta. Imediatamente ao lado da porta dupla que leva até a ala anterior do hospital. Deixamos ela passar despercebida.

–Don! Uma porta!

Aproximamo-nos mais. A madeira está desgastada e na frente tem uma plaquinha de metal. A pouca luz consigo enxergar com muito esforço: “sala de medicamentos”. Giro a maçaneta na esperança de estar aberta e surpreendentemente, ela gira noventa graus e a porta gira para dentro revelando uma sala completamente escura. Tateio pela parede em busca de algum interruptor e finalmente alcanço um, apertando-o. Uma luz se acende fracamente no meio do teto da sala, dando um ar um tanto místico para o lugar. A luz ilumina duas grandes estantes de madeira, uma em cada lado da sala, repleta de compartimentos, alguns com estoque de remédios. Há também uma escrivaninha junto com uma cadeira quebrada ao lado de um quadro de informações jogado ao lado esquerdo. Mais à frente há outra porta. Don vai até ela, mas não abre.

–Estou começando a odiar essas portas infernais que nunca abrem! Mas que droga Matt!

Sento na cadeira quebrada tentando me equilibrar e de repente começo a ouvir vozes que parecem vir do andar de cima, o que me faz olhar e perceber, um pequeno e singular, mas existente buraco. Primeiro, as vozes começaram abafadas, mas agora estão ficando mais nítidas. Coloco o dedo indicador na boca para sinalizar a Don que não faça barulho. As vozes se intensificaram e então as reconheci: Chang e Carl. Ambos parecem ter vindo para o hospital, então provavelmente Anette está aqui.

–Carl... Carl... Isso está demorando demais! Não acha que a essa altura, deus não já deveria ter nascido e tudo se concretizado?

Ouço passos caminhando por sobre o teto.

–Bem, meu caro Chang... Lembra que não sei de tudo e que muita coisa que diz respeito a isso eu não tenho muito conhecimento, pois se perdeu com Claudia... Mas posso assegurar que, se ela ainda vive depois de todos aqueles ferimentos, bem... Isso quer dizer que a própria Anette tem as mesmas características de Alessa, e que deus está vivo dentro dela, pois a mantém viva. Lembre-se também que Anette não sofreu o suficiente em vida, e está sofrendo agora... Não é muito para que deus cresça, então talvez daqui a algum tempo... Tenhamos paciência! Tudo a seu devido tempo! A própria Alessa demorou anos até que conseguisse gerar o deus, e mesmo assim o tempo foi ainda mais adiantado até agora.

–Certo, Carl. Mas algo me preocupa: Matthew!

–Sim, sim... Ele é uma coisa que devemos nos preocupar. Aquele traíra do Don, ele deve ter levado o Selo de Metatron pra ele! Se ele terminar o que Alessa começou anos atrás, ele pode retardar ou pior... O pior erro que os imortais já fizeram, foi armazenar o poder dele naquele objeto! Certo que somente o protetor pode utilizá-lo, mas... Foi uma droga! Isso pode acabar com todos os planos. Aquela porcaria foi feita com um bom propósito, de proteger a Mãe Sagrada, mas pode se voltar contra ela. Se Matthew souber...

–Embora ele esteja passando pela cidade revivendo seu passado sombrio e obscuro – Chang começa a rir e tento me calar para não avisar que estamos aqui. – É bem possível que ainda possa fazer alguma coisa que impeça o nascimento dela, se é que as trevas não o engoliu.

–Matthew atravessando seu passado obscuro na cidade? Sério? – Carl também começa a rir. – Tá de brincadeira?

–Não... – Começou sufocando uma risada. – Quando estive com ele e o levei até o Amusement Park, ele parecia mais que perturbado. Acertou meu nariz enquanto parecia perdido em um pesadelo sem fim.

–Sério? – Carl ri mais ainda. – Então ele não é um problema. Nem deve saber ainda que Anette está aqui no hospital e pouco deve saber sobre Alessa. Eu sei que falei demais ao avisá-lo sobre ser o protetor sagrado, mas ele nem deve saber o que isso significa exatamente. – Ele volta a rir. – Vivendo no seu passado obscuro!

–Você que pensa seu idiota! Vou achar você e esse seu aprendiz de meia tigela e vou acabar com os dois!

Sem perceber, acabo deixando minha irritação ir além do controle e grito em voz alta. Depois do meu grito, sinto um forte remorso pelo que acabei de falar, pois dei claramente a minha posição. Tudo fica em silêncio por alguns minutos e então ouço passos apressados no andar de cima até que tudo fica em silêncio novamente.

–Valeu irritadinho por dar ao inimigo o que ele quer!

–Desculpa... Me irritei!

–E colocou tudo a perder. Vamos sair daqui!

–Não saio desse hospital sem antes achar Anette!

De repente, sinto um vigor muito forte e uma determinação que quase me tira o fôlego. Sei que eles estão vindo atrás de mim, sei que talvez estejam armados ou alguma coisa que possa nos deter. Se eles acham que vão me impedir tão facilmente, então vão ver que não é bem assim. Puxo o Selo de Metatron do bolso e seguro firmemente em minha mão direita.

–O que vai fazer? – Don olha pra mim amedrontado.

–Eu vou igualar as coisas por aqui!

Fecho os olhos e imagino o lugar tomado pelas trevas completamente deteriorado. O objeto começa a vibrar nas minhas mãos e a brilhar com uma forte intensidade. Quando abro, as paredes começa a cair, sendo substituídas por malha de metal retorcido e enferrujado. O chão parece sucumbir sobre as trevas, dando lugar a grades de metal enferrujado vermelhas como se estivessem recém-saídas do fogo. Arames farpados parecem emergir do fundo, bloqueando uma das portas e abrindo outra, e o cheiro de podre e enxofre sobe a nossos narizes. Por fim, a luz do teto agora encharcado de sangue se apaga, escurecendo completamente a sala, iluminada apenas pelo objeto que estranhamente continua brilhando. Após isso, começo a ouvir gritos ao longe, como se houvessem pessoas sofrendo, criaturas comendo coisas e pessoas sendo abertas. Agora estava diante do que o Alchemilla era de verdade. Don se aproxima de mim ao ouvir os gritos, mas de alguma forma... Isso não me impressiona mais.

–Vamos achar Anette e acabar com isso!

Notas finais
Trecho correspondente à história de Carl. -Olá meu querido Thomas. Ele tentou sorrir, mas não conseguiu. Pouco sabia quem era aquela mulher, e sempre ouvia que nunca deveria falar com pessoas daquele tipo. Mas já tinha dez anos e se julgava autossuficiente para falar com quem bem quisesse e entendesse. E isso também dizia respeito a mulheres estranhas do cabelo branco, tal como Claudia. Ele não gostava e nem desgostava dela, mas ela lhe trazia comida. Comida essa que era melhor do que a que davam na Casa do Desejo, o orfanato ao qual ele era abrigado. Claudia sempre o visitava, e sempre lhe falava sobre coisas grandes as quais ele poderia fazer e de como ele poderia ajudar o mundo um dia, mas nunca falava como. -E então? Já leu o livro que te pedi semana passada? -Sim, dona Cláudia – ele responde secamente. -Tem alguma dúvida? Porque era um livro pequeno, mas pode ser que não tenha entendido algo. -Eerr... Sim... Na verdade, Carl tinha uma dúvida desde muito tempo. Ele nunca entendeu sobre a existência desse deus que tanto era falado no orfanato e presente nos livros de Claudia. Tudo parecia mais complexo para ele, já que tinha apenas dez anos. -O quê, meu querido Thomas? -Err... Nada não, dona Claudia. -Tanto melhor. Venha, vamos lá fora e te dou o que trouxe pra você. Foi então que Carl se sentiu feliz pela primeira vez no dia. Provavelmente, era o pedaço de bolo que Claudia sempre lhe trazia.