- O que Alanis estava fazendo em um motel?O que eram aqueles besouros e porque a devoraram?Mas que cidade é essa?Onde está Anitta? – todas essas dúvidas surgiam na minha mente,quanto mais eu pensava mais eu torcia o lençol da cama.

A luz entrou pela janela,mas as cinzas continuavam impedindo sua total propagação.Eu estava em cima de uma maca de hospital,ao meu lado estava uma escrivaninha onde jazia uma flor morta e haviam alguns papéis encima.

Me levantei,ainda um pouco tonto e notei que havia algo em minha mão...um revólver com cinco balas,pelo menos havia uma arma...já que meu pé-de-cabra havia desaparecido.

Olhei através da janela.Pude ver que havia alguém em frente ao hospital.Tentei abri-la,porém estava trancada.Peguei o revólver e dei fortes pancadas no vidro que acabou quebrando.

-Ei!Você!! – gritei colocando a cabeça para o lado de fora, — Por favor,me ajude!Não sou uma daquelas coisas...Pode abrir a porta da frente do hospital?

O homem me fitou e por fim respondeu.

-Vou dar um jeito...desça e espere... – e correu em direção a porta principal do hospital.

Imediatamente entrei no elevador e voltei para o primeiro andar.Antes de seguir em frente fui a “Sala de Exames” para ver se encontrava as duas pastas de Anitta e Alanis...

Não estavam lá,alguém provavelmente as havia pegado,mas havia outra...

- Ivan R. Morrisey? – sim,era meu nome,quando a peguei vi que estava vazia. – Eu não morri...ainda...

Escutei alguns passos e imediatamente sai da sala.

-Parece que alguém colocou uma tábua na porta,por isso não conseguia sair... – o homem segurava a tábua. – Me chamo Jim...

Era um pouco mais baixo que eu,talvez um metro e setenta e cinco.Era loiro e seu cabelo ia até o queixo,seus olhos eram verdes e grandes.Tive impressão que vi esse cara em algum lugar,mas não disse isso a ele.

-Richard – era “meio mentira”,não queria dar meu nome logo de cara a ele.Richard é meu nome do meio,era nome do meu avô materno,minha mãe insistiu para meu pai que o colocasse no meu nome. – Obrigado,não sei quem fez essa brincadeira idiota...

-Essa cidade está abandonada...como veio parar aqui? – perguntou examinando o hospital.

Pensei em inventar outra mentira,mas Anitta estava desaparecida,ele podia me ajudar ou quem sabe até me falar onde ela estava...

-Estava viajando para Brahms com minha filha,Anitta,sofremos um acidente e ela desapareceu...imaginei que viesse pedir ajuda nessa cidade,mas está abandonada.

-Silent Hill é uma cidade-fantasma...dizem que há coisas sobrenaturais por aqui,que algumas pessoas vem visita-la e não voltam... – disse pensativo,ainda entretido com o hospital abandonado –Sou jornalista...precisava de uma matéria nova...e resolvi falar sobre cidades-fantasmas,isso meu trouxe até aqui...essa cidade é tão maldita que nem celular tem sinal...oh,me desculpe pela distração... – disse voltando a prestar atenção em mim – Sua filha Anitta está aqui?

-Ela sumiu... – respondi com um longo suspiro – Ela tem nove anos,baixa,o cabelo é escuro,está vestindo um macacão jeans com uma blusa rosa por baixo – dei outro longo suspiro.Queria falar sobre minha esposa,mas o cara podia pensar que era maluco – Você...os encontrou?

-Quem?

-Os monstros... – respondi tão baixo,que cheguei a pensar que não estivesse escutado.

Jim me olhou com uma cara estranha,como seu fosse um ser extraterrestre ou um louco.

-Olha,deve estar cansado,no meu carro tem café...não está muito longe...me acompanhe. – fez um gesto para eu segui-lo.

Percebi que Jim mancava no lado direito.Achei melhor não perguntar,mas eu devo ter lhe lançado um olhar tão filho-da-puta que ele reparou.

-Foi um acidente que sofri há algum tempo,o ortopedista disse que com uma cirurgia resolve...mas não tenho tempo para ficar em cima de uma cama com a perna engessada...talvez daqui a alguns anos faça... – respondeu sério.

-Acidentes marcam a gente... –Eu sempre falo demais,deveria ter ficado quieto.

Jim não fez mais comentários.

Eu estava distraído olhando as lojas abandonadas,um passo meu era dois de Jim.Vi que o homem parou.

-Onde está seu carro? – perguntei quase bocejando.

Jim não me respondeu.Olhei para o mesmo local onde ele estava olhando e havia um gigantesco abismo nos separando do resto da estrada.

-Está...lá.–disse ele sem graça apontando para a neblina.

Era tudo que eu precisava:um acidente,minha filha desaparecida,um jornalista lunático que veio a esse inferno para se divertir e um enorme abismo nos separando do resto do mundo.