Cheguei à escola junto com Mandie tagarelando qualquer coisa sobre os meninos no meu ouvido, porém eu nem escutava nada, estava perdida em pensamentos tentando lembrar-me de alguma coisa para a prova que teríamos a seguir. Caminhamos recebendo “oi” e “olá” de varias pessoas. Eu já estou no terceiro ano e ainda não me acostumei a acordar cedo todos os dias, me arrumar e ir para a escola que ficava apenas a dois quarteirões da casa em que meus pais adotivos haviam comprado para morarmos.


Meus pais haviam falecido em um acidente de carro quando eu tinha apenas 10 anos de idade, então me mandaram para a adoção, porque nenhum parente meu se importa com a família o suficiente para tomar conta de mim e meus avós disseram que era impossível para eles, mesmo que eles quisessem essa eu não entendi. Porém eu tinha ignorado na época, e agora eu moro com duas pessoas adoráveis. John, que é policial, e fica fora de casa quase o dia todo, e quando eu era mais nova, ele me contava tudo que havia feito em seu dia de trabalho, Lucy era pintora, ela fazia todo o tipo de quadros e às vezes pedia para eu posar para ela, de pijama segurando um coelhinho rosa, eu achava engraçado, mas ela adorava me fazer parecer com uma criança. Apesar de eu estar com 17 anos e não ser mais nenhuma criança. Eles são extremamente adoráveis e eu amo eles. Mandie sentou-se do meu lado quando chegamos à sala de aula e finalmente parou de tagarelar para perguntar o que eu tinha.

– Vamos desembuche você está quieta demais! Você nunca foi de falar muito, mas pelo menos dava um palpite ou outro. – Era de se esperar que a pessoa que melhor me conhece notasse que eu andava distante, mas eu também não sabia por que me sentia tão insegura, era apenas uma viagem, uma simples viagem!

– Vou ter que viajar no fim de semana. – Disse soltando o ar.

– Ora! Isso é maravilhoso não acha? – Ela riu. – Aonde você vai? Fazer compras em alguma cidade grande? Vamos diga-me estou curiosa! – Suspirei e virei o rosto para ela.

– Silent Hill, visitar meus avós. – Soltei e ela me encarou atordoada entendendo perfeitamente meu comportamento. Não que eu não gostasse dos meus avós, eu adorava eles, mas, tinha algo naquela cidade que me dava arrepios, eu tinha alguns pesadelos com aquele lugar. Alguns não, eu tinha apenas um pesadelo com aquele lugar e era assustador o suficiente para eu não querer dormir a noite. – Entendeu? – Sorri sínica. Havia se passado seis anos desde que eu visitei meus avós pela última vez, a idéia de voltar lá me aterrorizava.

– Entendi! Vamos prestar atenção, nada de avós, só biologia agora! – Disse tentando esconder a agonia na voz. – Você vai ver, não vai ser tão ruim. – Soltou tentando me acalmar. É não iria ser tão ruim, só é uma cidade onde todo mundo odeia ir, que passa o dia todo coberta por uma neblina e tem um grande histórico de mortes misteriosas... Ia ser ótimo!


Voltei para casa naquele dia atordoada com o que viria a seguir, não queria, mas fui obrigada, meus pais adotivos me mandaram para visitar minhas avós na cidade de Silent Hill. Era ridículo isso, esses velhos nunca falaram direito comigo, a única coisa que eles fazem é mandar 500 reais todos os anos em meu aniversário com o mesmo bilhete “vovô e vovó te amam, feliz aniversário” e provavelmente era uma cópia da primeira em todas as outras vezes, porque era a mesma coisa escrita na letra rústica de meu avô, todos os anos, sem nem uma mínima diferença. Não! Havia uma diferença, a cada ano o papel parecia mais sujo e velho. Já ouvi muitas lendas dessa cidade e certamente não é um lugar que eu iria gostar de passar as férias de inverno, por causa do cego. Não sei nada sobre ele, mas sei que todos que já o viram não sobreviveram, ou pelo menos foi o que contaram nas histórias. Mas se ninguém sobreviveu quem contou as histórias? Realmente a cidade era assustadora, eu não queria ter que ir para lá. Porém, Lucy e John pensam que vai me fazer bem passar uma temporada com dois velhos que não ligam para se eu existo ou não. Tudo bem estou mentido, meus avós se importam comigo sim, apenas... Não parece.


Arrumei a mochila e coloquei ali o básico, eu não ia ficar mais de quatro dias. Normalmente o fim de semana só tem dois dias, mas graças a um feriado ele foi prolongado e a minha estadia em Silent Hill também. Depois de fechar o zíper da mala sentei-me na cama com ela aos meus pés, fiquei olhando para a janela esperando que alguma luz aparecesse ou um sinal de Deus dizendo que eu não poderia ir. Obviamente nada disso aconteceu.


Puxei a mochila pelas escadas até chegar à sala, Lucy se levantou e me levou até a porta. Não morávamos no centro da cidade, mas sempre tinha muito movimento por ali, John havia saído para trabalhar, por isso mandou seu “tchau e uma boa viagem” por Lucy.

– Tudo bem, está pronta para ir? – Lucy sorriu para mim.

– Ah, claro! – Disse nada confiante.

– O taxi já está ali na frente querida, vamos. – Ela me ajudou com a mala até a varanda da casa.

– Tudo bem Lucy, até terça-feira. – Tentei dar meu melhor sorriso e virei as costas para ela indo em direção ao taxi.


Como eu já disse, graças aos boatos Sllent Hill é quase inabitada, as únicas pessoas que moram lá, são as pessoas que nasceram lá, menos eu. Nasci lá, mas como fui para um orfanato e lá não tinha esse tipo de coisa tive que sair da cidade. Não existe nenhum ônibus que vá para Silent Hill, então ou você vai de carro, a pé ou simplesmente não vai, que normalmente é a melhor das opções, mas nesse caso, essa opção estava vetada e como John estava com o carro eu teria de ir de taxi. Não iria dar muito mais que 100 reais.


Entrei no taxi e pedi para me levar até a cidade, o motorista me encarou atordoado, mas ele viu que eu não estava brincando.

– Você tem certeza mesmo? – Perguntou querendo que eu mudasse de idéia.

– Tenho, vamos logo.- Então me levou até lá, a viagem durou cerca de uma hora, e em todo o caminho eu apenas via a mesma paisagem, campos e casinhas de madeira, a única diferença, é que a neblina aumentava e o clima ia ficando mais gélido com a aproximação do carro da cidade, quando passamos por uma ponte, eu olhei para a janela tentando enxergar o rio, porém o que eu vi foram lobos pretos me encarando com raiva, e isso me deixou com medo o suficiente para eu não voltar a olhar pela janela e me concentrar no “jogo da cobrinha” que tinha no meu celular velho. A cidade é meio deserta, jamais se vê pessoas nas ruas. Enfim, o taxista deixou-me no portão da cidade, dizendo que dali não passava e ele parecia totalmente assustado, mas eu tive pena dele, ele era apenas um velinho barbudo com olheiras gigantescas que fedia a cigarro, ele vivia na cidade e não estava acostumado com lendas locais, então ignorei aquilo e passei meu casaco marrom lama com um capus pelos braços e o fechei, coloquei a mochila nas costas eu pulei do taxi, largando duas notas de 50 reais, pois a corrida tinha dado mais ou menos noventa e mais alguns trocados, quando olhei para trás o que vi foi apenas um taxi velho arrancando com toda a força assim que eu fechei a porta amarelada e desbotada do tempo ruim. Estava extremamente frio, mas o mais estranho era a cidadezinha deserta a minha frente. Todas as casas com as janelas abertas, as portas fechadas, aquela névoa que impedia as pessoas de enxergarem um palmo a sua frente. Ou a pessoa que no caso, só eu estava ali. Pelo menos assim pensava eu.


Caminhei até o meio da rua, sem ver quase nada. Ouvia passos, mas também, ninguém estava ali. Dobrei na quadra que me lembrava, onde ficava a casa de minha avó. Avistei-a rapidamente. Também percebi que ela não mudará nesses últimos seis anos. A mesma casinha branca, com rosas brancas e um cheiro forte o qual eu nunca consegui destinguir. Parei a frente da pequena porta preta, e toquei-a com o punho fechado três vezes. Vovô me ensinará que devemos fazer isso quando é uma pessoa da família que chega. Para eles saberem que não é um ladrão tentando levar o tesouro que ele havia escondido há muito tempo no porão. Historinha para crianças. Mas eles nunca abriam a porta quando eu batia só uma vez ou duas antigamente, então agora resolvi fazer o que ele havia me dito.


Uma velinha que aparentava uns 65 anos de idade ficou tão feliz a me ver. Pelo menos foi o que me pareceu. Ela abriu o mais lindo sorriso que pode. E cá para nós, uma pessoa com 65 anos de idade, um lindo sorriso? Raro. Mas para ela pelo menos, deveria ser explendido! Ela me puxou pelo braço sem se importar em dizer uma palavra e me deu um forte abraço. E bem, ela era bem forte. De trás dela surgiu um senhor, deveras, meu avô claro, que abriu o mesmo lindo sorriso a me ver na porta da casa dele depois de longos seis anos. Depois que meus pais morreram, eu não tiverá mais coragem de visitá-los, mas agora me pareceu uma grande bobagem minha.

– Minha querida! Como você está grande! Ó que bela! – Anunciou vovó no seu mais alto tom. Vovô ria ao seu lado.

– Linda minha Mary Anne! Linda é pouca! Veja como ela está FELIZ!- Ele deu grande ênfase no feliz. Mas ignorei e fui entrando sem nenhuma cerimonia, na casa que nada mudará depois de longos seis anos. Não parecia que algo havia acontecido com aquela cidade, nada fora do normal, era apenas uma cidade onde poucas pessoas moravam e assim inventaram as lendas, bobagem só podia, pensei.


A mesma mesinha ao lado da porta, as mesmas mesinhas em frente a pequena lareira, os quadros antigos pendurados na parede que emolduravam fotos de ante-passados da nossa família, um grande quadro dos Beatles a banda preferida do meu avô, haviam livros em uma estante de madeira cor de chumbo no canto esquerdo da sala, e uma portinha aonde havia uma placa escrito “banheiro” pendurada,as escadas rústicas que sempre rangiam quando subíamos para o segundo andar, o mesmo quartinho debaixo da escada em qual meus avós me obrigavam a dormir, por quê eles diziam que era muito perigoso eu dormir em quartos com mais de uma entrada, e veja bem. Eu usava uma vela naquele quarto em vez de lampada, porque não tinha entrada para fios, a portinha era totalemente sem UMA entrada. Nem aquelas mini janelhinhas que portas de baixo das escadas normalmente têm, ela tinha, as paredes eram forradas com um papel azul com nuvenzinhas brancas desde que eu era pequena, ali tinha também duas bonecas minhas, que eu achei que havia perdido, elas estavam aqui o tempo todo, droga eu deveria ter vindo aqui antes, e eu sei parece bem estranho eu ter que dormir ali eu também acho estranho, porém eles dizem que é para o meu bem. As paredes da casa em um azul fraquinho lembravam o campo, e a vida, que era algo que aqui não existia, pois era muito raro ver pessoas fora de casa aqui. Joguei a mochila em cima da cama enquanto ouvia vovó dizer que iria preparar um chá para mim por causa da diferença de clima, apesar de em casa estar no inverno também, a mínima era sempre de 10 graus, e aqui fazia 5 graus lá fora. Se isso é possível? Aqui é. Sentei-me na cama, pensando na ultima vez que eu havia estado aqui, e não conseguia me lembrar, por algum motivo, parecia que algo muito ruim ocorrerá e eu esqueci, ou me fizeram esquecer, provavelmente não deve ter sido nada, porém alguns anos longe deixam algumas falhas na memória.


Eu consegui ouvir um uivo que correu pelas ruas da cidadezinha, um uivo choroso e magoado, parecia ferido ou triste, como se tivesse perdido algo muito precioso, um uivo de lamentação. Estremeci com uma memória que me veio à mente. Não era uma das melhores, mas era uma das poucas que eu tinha deste lugar.


Tirei os tênis e coloquei uma calça de moletom, colocando logo em seguida um blusão de lã e um grosso casaco por cima, saindo do meu pequeno quartinho indo em direção a sala onde vovô lia um jornal velho. Eu sorri ao ver que ele ainda gostava de guardar coisas antigas, esperando que estivesse cheio de coisas minhas aqui. Mas não parei para falar com ele, fui direto para a porta da casa, abrindo-a e um vento gelado bateu no meu rosto e fez meus cabelos voarem para trás. Eu podia ver silhuetas de pessoas, mas então quando eu as tentava enxergar melhor, elas não pareciam estar ali, mas eu sabia que estavam pessoas não tinham o poder de desaparecer assim, no ar, pelo menos não nesse mundo. Sorri com o pensamento bobo e coloquei um pé para fora, sentindo o chão gelado em baixo da pantufa de pelos de ovelha.


Fui puxada para dentro novamente e a porta se bateu a minha frente, a milímetros do meu rosto, assustei-me e virei para ver quem havia feito isso. Vovô estava ali parado, segurando a manga do meu casaco com o rosto retorcido em uma careta, que se eu não estivesse com medo, eu teria achado bem engraçada.

– Esta muito frio, você não deve ir lá fora a noite. – Por algum motivo, estar muito frio não parecia nenhum pouco com uma desculpa para eu não sair na rua de noite, porém não me importei, eu sabia como eles se preocupavam e me tratavam com uma criança. Sorri e assenti com a cabeça, puxando a manga do casaco e me dirigindo para a cozinha onde vovó estava com meu chá pronto.

– Chá de que? – Perguntei bebendo um pouco da caneca rosa com azul.

– Maça com hortelã, o seu preferido. Pelo menos era quando pequena, você mudou tanto minha linda. – Eu sorri para ela, eu amava minha avó, eu nunca havia entendido o real motivo por eles não quererem deixar essa casa e ir morar comigo, mas eles eram tão hospitaleiros e pareciam se preocupar comigo e por essas e outras eu não me importei mais. – Depois podemos olham um filme! A tecnologia chegou nesta casa sabia? Temos um aparelho de DVD na sala de TV. – Sorri com os olhos brilhando, não acreditava que poderia assistir a um filme aqui, eu teria algo para fazer! Ótimo!

– Ah! Que bom! Vamos ver um filme então, onde é a locadora? Eu vou ir buscar um filme! – Sorri vendo-a ficar mais feliz do que parecia, rindo e indo para sala. Terminei meu chá e a acompanhei. Vendo-a abrir um armário onde tinha contido vários filmes, alguns eram de romance, outros eram de ação e comédia, mas nenhum de terror, graças a Deus, suspirei com alivio, eu odiava terror. – Vocês guardam tudo aqui, nossa, deve ter mais de cinqüenta filmes! – Ri junto com vovó.

– Vamos querida, escolha um, você irá assisti-lo conosco e depois irá dormir tudo bem? Já está ficando tarde! – Vovô disse olhando com um olhar esquisito para vovó, que soltou o ar pesadamente e assentiu sorrindo para mim, havia algo ali, uma conexão entre os dois que eu estava perdendo, tinha algo nas entrelinhas que eu não estava conseguindo ver e isso me deixava completamente angustiada. Ela balançou a cabeça levemente e se virou de volta para mim, apontando o DVD escondido em baixo de um paninho logo abaixo da televisão.

– E ai, qual filme você quer? – Vovô disse chegando perto da estante.

– Qualquer um que não seja terror! – Disse rindo e ele riu também concordando com a cabeça que terror não era um bom tipo de filme para olharmos.

Ele colocou qualquer coisa que parecia uma comédia romântica e enquanto vovó tinha ido deitar-se ele ficou ali assistindo comigo e fazendo um comentário bobo toda vez que eu ria muito de alguma cena nem um pouco engraçada, dizendo que eu era exagerada e precisava praticar melhor minha risada, pois ela não era nem um pouco boa. Eu bufei e achei mais engraçado ainda o que ele disse do que o filme.

Quando acabou o filme, ele depositou um beijo no alto da minha cabeça e disse-me para ir dormir, pois amanhã ele ia me levar para sair, nós iríamos para a cidade vizinha, comprar algumas roupas de frio, porque eu não estava bem acostumada e ia acabar ficando doente. Sorri para ele, e fui para o mini quartinho, atirando-me na cama e cobrindo-me com o edredom que vovó havia deixado ali. No outro dia eu iria ter uma conversa com meus avós sobre me deixar dormir no quarto de hóspedes no segundo andar, eu mal conseguia respirar aqui dentro.


Fiquei perdida em pensamentos por um longo tempo.

Eu caminhava para a grande clareira que havia no parque, a neblina não era tão alta e o sol estava forte, e certamente não estava tão frio, a grama verde ainda estava gélida e com gotas de água por causa da neblina, havia uma grande árvore antiga no meio da clareira com uma grande marca no meio, e uma corrente em volta da mesma, eu não fazia a menor idéia do porque daquilo, meus dedos pisaram em algo molengo me fazendo ver que eu estava de pés descalços, eu havia pisado na lama, ótimo, continuei caminhando notando que não estava sozinha, Mandie, Danny e Thomas estavam ao meu lado, meus melhores amigos, sorri para eles e caminhei até a árvore, fitando-a. Virei para chamá-los e notei algo a mais, no meio da névoa, havia algo com forma de lobo, as grandes orelhas apontadas para frente e os dentes a mostra, rosnando ferozmente, havia cicatrizes em suas patas e uma perto dos olhos, então com um baque, todos os meus amigos estavam caídos no chão. Corri até Mandie gritando, sacudi-a varias vezes e nada de acordar... Ela estava morta, então deduzi que os outros também estariam. Fiquei de pé encarando o vulto que se postava a minha frente na forma de um lobo branco, a névoa ia se dissipando deixando a mostra o rosto dele, era um lobo realmente, todo branco, com o nariz preto, e os olhos, os olhos frios que arrepiavam até o ultimo fio de cabelo da minha cabeça, que parecia congelar o sangue do meu corpo, aqueles olhos de ódio me encaravam, aqueles olhos na cor cinza, então eu percebi, que eu não estava com medo dele, eu nunca havia tido medo dele em si, mas sim do que acontecia com as pessoas e animais que se aproximavam dele, isso me aterrorizava. O vento bateu forte e por um momento eu fechei os olhos, quando voltei a abri-los o lobo estava em cima de mim, com as presas de fora então eu empurrei- antes que me mordesse e comecei a correr, porém ele era muito mais rápido e pulou em cima de mim novamente, me encarando com aqueles olhos frios, eu senti meu corpo inteiro gelado, e havia dificuldade para respirar, ele mostrou os dentes mais uma vez me fazendo estremecer, então...


Eu pulei da cama suando frio, tremia dos pés a cabeça, eu olhei para os lados procurando alguma coisa de ruim, mas não havia nada, apenas as paredes de céu do meu pequeno cubículo, eu mal podia respirar e meu coração estava completamente descompassado, por um momento eu realmente tinha pensado que tudo aquilo era real, mas não era, era apenas meu pesadelo, de novo. A primeira vez que eu tive esse pesadelo foi aos seis anos, quando eu visitei meus avós, e a vizinha chamada Loundress me contou uma história ridícula sobre um lobo que atacava pessoas, mas elas não morriam por coisas normais, elas não ficavam com ferimento nenhum, nem algum tipo de traumatismo, elas simplesmente, morriam. Não era uma historia legal para se contar a uma garotinha ingênua de seis anos, vovô havia brigado muito com aquela mulher depois que ela havia me contado a história, porém eu só fiquei intrigada, lembro de ter falado a ela um dia, que havia visto o tal lobo, ele era um garoto que podia se transformar, e eu tinha o visto correr para a escuridão, e desaparecer, vovô ria de mim toda vez que eu lhe falava algo sobre o lobo vir me visitar e gostar de mim, até um dia que ele se irritou por eu falar tanto sobre ele, que vovô disse que aquele lobo era assassino e só queria saber de matar e arrancar pedaços das pessoas, a partir daí, eu nunca mais dormi direito. Claro que isso foi antes de eu ser adotada e passar tanto tempo longe deles. Aos 14 anos eu tinha parado de ter esse sonho, mas agora de volta a está cidade que tanto me assombra com suas lendas bizarras, eu percebo que eu apenas tinha me esquecido, mas que ele nunca iria sumir completamente.


Caminhei até a portinha e abri olhando para a sala, com medo, apesar de saber que aquilo havia sido apenas mais um sonho ruim, eu odiava andar sozinha durante a noite não importava aonde fosse, e ainda por cima, está casa dava arrepios. Parei na porta do banheiro, lendo e relendo varias vezes a plaquinha pregada na mesma, coloquei a mão na maçaneta comprida e escura, empurrando-a levemente para baixo, empurrando a porta do banheiro para frente, abrindo-a por completo, ao olhar lá para dentro, percebi que não enxergaria nada se não ligasse a luz por isso procurei desesperadamente pelo interruptor a fim de me livrar das trevas que tomavam conta do lugar. Nunca gostei do escuro, de filmes de terror, de ficar sozinha e de qualquer coisa relacionada com escuridão, a luz ofuscante apareceu como um flash assim que eu apertei o interruptor ao lado da pia do banheiro, deixando a peça mais clara. Abaixei a tampa do vaso sanitário e sentei ali mesmo, observando a escuridão que vinha da porta, sem poder me alcançar por eu estar na luz, o relógio do outro lado da sala, iluminado pela fraca luz da rua marcava 3h43 minutos. Eu ainda tinha mais uma boa hora e meia até o sol nascer, mas não queria voltar para o quarto, e também não queria ficar perambulando pela casa de camisola. Continuei a olhar ao meu redor, percebendo como a minha avó continuava a gostar de cortinas de banheiro fofinhas, por exemplo, a que tinha hoje, era de oncinha, mas não em uma cor marrom e preta, mas sim em um azul e um roxo turquesa brilhante, sorri pensando o quanto ela e meu avô deveriam ter brigado para ela conseguir convencê-lo de colocar isso aqui. Havia três xampus empoleirados em uma pequena prateleira dentro do box, e um sabonete rosa ao lado deles em uma pequena saboneteira em cima da mesma prateleira. O espelho do banheiro, no canto esquerdo tinha tons de rosa em degrade, detalhes que eu não sei por que existiam ali.

E então aquele uivo choroso irrompeu a noite de novo, me causando arrepios e me fazendo pular. Sem pensar em nada e nem no meu medo, corri para a porta da frente, girando a chave três vezes até conseguir abri-la, sai na rua e a neblina tomou conta de mim. Eu nada, não enxergava quase e caminhava com muito cuidado olhando para os lados, chutei algumas pedrinhas e senti meu pé ser cortado.

– Outch! – Levantei a sola do pé para poder ver melhor o corte, mas obviamente sem sucesso, pois era impossível enxergar algo bem naquela neblina e escuridão, a única coisa que iluminava era a lua e uma fraca luz de um poste no final da rua. Continuei caminhando até conseguir chegar ao poste de luz, sentei-me a beira do mesmo, analisando meu pé. O corte não era profundo, mas se eu não o limpasse provavelmente ficaria bem feio. Olhei ao redor, pensando em quanto tempo demoraria a o sol nascer, e eu poderia voltar para a casinha tranquilamente, deveriam ser umas 5 da madrugada já. A hora iria demorar a passar, juntei algumas pedras do chão, e comecei a atirar na parede que havia do outro lado da rua. Foi quando percebi que aquele era o bar do Jack, amigo do vovô. Levantei e corri para a porta do bar. Batendo nela freneticamente e gritando para que Jack abrisse a mesma, para eu poder sair desse frio.

Devo ter ficado uma meia hora batendo ali, até cansar e ninguém atender a porta. Sentei ao lado da mesma, olhando para a lâmpada que agora piscava no poste, talvez, tivesse sido melhor, se eu não tivesse gritado e feito escândalo, por que ali, abaixo do poste, se encontrava o lobo branco dos meus pesadelos. Ele me encarava, mas não parecia estar com raiva, mas sim... Triste? Ele me encarava com aqueles olhos acinzentados, quentes e tristes, por um momento eu quis ir lá e abraçá-lo com toda a força que eu tinha. Então ele mostrou os dentes e focou em um ponto atrás de mim.


A porta atrás de mim abriu e eu quase cai, olhei para cima e ali estava Jack, olhando de mim para o lobo e de volta para mim, atordoado. Ele segurava uma grande arma de dois canos e a apontava para o lobo do outro lado da rua, seus dedos enrugados tremiam enquanto ele usava a força para apertar o gatilho. Um tiro explodiu em meus ouvidos e apesar de estar assustada, fiz algo que nem em um milhão de anos eu acreditaria que faria. Eu não corri, não fugi, não entrei em casa ou fiquei encolhida no chão tremendo, muito pelo contrário. Ao mesmo tempo em que o som de tiro era pronunciado, eu pulei e empurrei o braço do velho Jack para cima, tirando-o da mira do lobo branco. Ele me olhava como se não acreditasse no que eu havia feito, porém nem eu acreditava. O lobo grunhiu e correu para a floresta atrás dele.

A senhora Phillips, Raphaela, esposa de Jack se postou ao nosso lado, um pouco assustada, mas não pelo lobo, mas sim por eu estar ali ao lado de seu velho marido, segurando-o pelo braço com os olhos arregalados.

- Vamos entrem, está frio e ainda permanece escuro. – Ela disse finalmente saindo do choque e puxando-me para dentro da casa. Jack colocou a arma ao lado da porta, e a senhoria Phillips falou novamente, apressada. – Vamos entre pequena!


Entrei hesitando, fechei a porta atrás de mim e ficamos nos encarando por longos cinco minutos, até o senhor Jack decidir ir sentar-se no sofá vermelho da grande sala de estar. Havia muitas almofadas e uma grande lareira em frente, com um quadro pendurado, sua moldura era dourada e a imagem me lembrava o campo. Era um quadro lindo, com árvores, o sol se pondo ao fundo e um lobo. Um lobo branco.

- Você é filha dos Hook?! – Disse a senhora Phillips.

- Não, eu sou neta deles, Alice Hook. Minha mãe é filha deles, apesar de ela ter falecido há oito anos. – Já havia me acostumado com esse fato. A velha me olhou de cima abaixo tendo assimilado a informação e também, eu era nova de mais para ser filha deles. O Senhor Jack acendeu a lareira, deixando a sala com um tom avermelhado e mais quente, a neblina ficava mais densa a cada minuto antes do sol nascer.

- Tudo bem, mas minha querida, o que você fazia a essa hora na rua? É muito perigoso! – A velha disse indo sentar-se no sofá. – Os lobos adoram caçar a essa hora e quando pegam alguém, somem e não voltam até a outra noite. – Assentiu para si mesma. – Horrível simplesmente horrível.

- Espere um momento! – Jack exclamou – Lobos não! Aquelas bestas são monstros que só querem matar, é sério! Eles sugam a alma das pessoas e a levam para alguma outra coisa dentro da floresta! Eles protegem algo naquela floresta! Estou dizendo, não são lobos normais! – Continuou exaltado.

- Querido, vá se deitar, você vai ter um ataque dessa maneira, vá logo. – A Sra. Phillips cortou-lhe o barato rapidamente.

- Não sou louco! Acredite! – Bufou e começou a se levantar indo em direção a escada de madeira rústica que se encontrava no canto da sala de estar.

- Desculpe Alice, ele está velho e caduco, adora lendas! Mas não se preocupe. – Ela ponderou o pensamento por um estante – Você pode usar o quarto que era de nosso filho, Thomas, e poderá ir para casa ao amanhecer, mas agora está frio e é perigoso. – Sorriu e se levantou. – Vou fazer um chá. Espere aqui. – Saiu em direção à grande cozinha da casa.

A casa antiga era tão grande por dentro, do que parecia por fora. Suas paredes, em um tom vivo de amarelo, em contraste com a luz branca, diferente da casa dos meus avós essa aqui mudou muito, antigamente as paredes eram em um tom mais esverdeado e dava um ar de podre a casa, agora são bem vivas e combinam com a mobilha rústica. Uma típica casa de pessoas ricas do interior. Os sofás em tons de bege, com almofadas alaranjadas e esverdeadas espalhadas sobre toda sua extensão o deixavam convidativo e confortável para deitar e dormir, coisa que eu queria fazer, mas não podia. Tinha de ficar acordada, se não está noite iria parecer apenas um sonho, e eu estava curiosa de mais para deixar parecer apenas um sonho.


Revistando a sala, encontrei um álbum de fotografias, antigas e com um pequeno urso na capa. Um álbum de bebê. A primeira foto do álbum era ela com duas crianças, uma no colo, morena e com a pele escura, parecida com a dela e a outra pálida de tão branca, com os cabelos igualmente brancos e as iris dos olhos acinzentadas, ele me lembrou o lobo.


A senhora Phillips voltou da cozinha trazendo uma xícara rosada, com um liquido tão quente que saia fumaça, meu chá. Ela colocou a pequena xícara sobre o pirex em cima da mesinha de centro e me encarou, olhando para o álbum de fotografias em meu colo e de volta para meu rosto. Acho que ela ainda esperava que eu entrasse em choque depois do que aconteceu, mas para sua infelicidade isso não iria acontecer, acho que eu já estava acostumada por causa de meus pesadelos, que eu nem temia o lobo branco tanto assim.

- Aqui o chá. – Ela sugeriu que eu tomasse.

- Sra. Phillips, essas duas crianças, não são nem um pouco parecidas. – Tentei começar o assunto, para poder matar minha curiosidade.

- Sim, este é meu filho. – Ela apontou para o menino em seu colo. – E este era o filho da minha senhora, a mulher que fora dona da casa ao lado do lago. Ela me deixou a criança para cuidar. – disse.

- Que mãe horrível! – Exclamei, como uma mãe poderia deixar o filho assim?

- Não! Ela não o deixou porque quis, ela morreu no nascimento da criança, todos que estavam no quarto morreram. – Ela estremeceu com a lembrança.

- Como assim? – perguntei ainda mais curiosa.

- Tome o chá, que lhe contarei a historia, por trás desta criança e do terror sob os lobos deste lugar. Só não vá ter pesadelos. – Pegou de meu colo o álbum e folheou mais algumas páginas, parando em uma aonde se encontrava uma mulher linda, magra com os cabelos longos e loiros e os olhos azuis que pareciam que me enxergavam a alma.

- Não se preocupe, eu só tenho um sonho há muito tempo, ele não irá mudar. – Disse por fim, querendo que ela começasse logo a contar a maldita história.

- Muito bem... Ah quase 18 anos atrás, a minha senhora, numa noite fria e chuvosa, estava prestes a dar a luz à primeira criança que iria nascer em muito tempo... – Ela começou a contar a história.


“–Tragam mais panos e um balde com água morna! Rápido! – Gritou o médico da família conhecido como George. — Precisamos que você empurre Lunna, se não ele não irá conseguir sobreviver! — Continuava a gritar, porém dessa vez olhando para a mulher em cima da cama que se contorcia de dor.

A cama já estava ensangüentada e nada da criança nascer, o pai já havia perdido a esperança, era mais uma que não iria sobreviver de maneira nenhuma. As crianças dessa cidade nunca nasciam, todas morriam quando completavam os 9 meses de gestação, porém a de Lunna estava agüentando. A lua cheia brilhou na janela e iluminou a cama, as servas de Lunna entraram no quarto correndo carregando um balde d’água quente enquanto o marido de Lunna saia pela porta aflito, com medo de perder sua esposa junto com seu primeiro filho.”

- Você estava lá? – Interrompi sua narrativa, ela me olhou com ar de desaprovação.

- Sim eu estava. – Disse por fim suspirando.

“Eu estava encostada na porta do quarto, esperando para que pedissem minha ajuda também, mas quando a lua se colocou bem no centro do céu e iluminou minha senhora novamente pode-se ouvir o suspiro de alívio dela e os gritos de dor cessaram, seu rosto parecia tranqüilo e em paz. Pude ver o médico pegar a criança e levá-la até a bacia, limpou-a bem e trouxe de volta para a mãe que estava sendo ajudada pelas minhas irmãs a se limpar.

— O nome dele vai ser Gray, assim como a cor de seus olhos. – Ela sorria para a criança ao seu lado. Eu não havia sido a única que tinha notado que a criança não havia chorado em seu nascimento, todas as crianças choram, esse era o certo. O menino respirava bem, estava rosado apesar de ser bem branco com praticamente nenhum fio de cabelo. O médico estava estranhando o porquê do garoto não chorar então lhe deu alguns tapinhas e quando seu choro foi escutado pela primeira vez meu senhor fechou a porta na minha frente. Um vento havia percorrido a casa toda e um choro triste e melancólico se instalava no quarto a minha frente, eu esperei, tremendo de medo esperei que o choro cessasse, mas ele durou longos minutos, até terminar em soluços e por fim um silêncio. Antes que eu pudesse abrir a porta um uivo cortou o silêncio me fazendo ter arrepios.

Criei coragem e chamei pelo médico e pelo meu senhor, mas nenhum deles me respondeu, então empurrei a porta para trás e consegui ver o quarto, todos estavam caídos no chão, brancos e com seus olhos cinza, a criança dormia ao lado da mãe que permanecia sem se mexer.

— Senhora! Senhora Lunna! – Chamei seu nome algumas vezes e então notei, que todos no quarto estavam mortos, o único vivo era o bebê. Assim nasceu a lenda do cego, depois desse dia, antes de qualquer pessoa morrer seus olhos ficavam cinza, como se estivessem cegas.”

Ela parou. Havia lágrimas escorrendo pelo seu rosto e suas mãos tremiam, percebi pela primeira vez quão assustada ela estava ao contar a história para mim, não falei nada, apenas fiquei ali a encarando esperando por alguma continuidade ou que ela se levantasse e se retirasse da sala, mas nada fez, apenas ficou em silêncio esperando as lágrimas pararem de sair.

- A história daquela noite foi contada nesta vila durante os 18 anos que se passaram, assombrando todos os moradores e desde então, nenhuma criança mais nasceu aqui. – Ela disse pegando uma foto do final do álbum.

- O que aconteceu com o bebê? – Olhei a foto nas mãos dela, uma criança estava sentada no chão, ao lado de um cachorro branco.

- Viveu comigo e com meu filho até completar sete anos, um dia desapareceu, procuramos por toda a cidade, mas ele nunca mais voltou, junto com ele o lobo que permanecia a espreita da casa sumiu também, por muitos anos pensei que o lobo havia levado a criança, mas agora já não tenho tanta certeza disso.

Continuei analisando a foto, o garoto era realmente muito diferente de qualquer outra criança que eu já havia visto e aqui e aquilo ao seu lado era um lobo, e não um cachorro qualquer, como uma criança ficava ao lado de um lobo sem temê-lo? Eu sabia também que Gray não havia sido a última criança a nascer nessa cidade, eu nasci aqui, há quase dezoito anos atrás também. Não na mesma noite, quando nasci não havia lua no céu pelo que minha avó me contou, a noite estava tão escura que ninguém se arriscava a sair na rua, foi difícil fazer o médico ir até em casa para ajudar minha mãe.

- E seu filho? Não nasceu aqui?

- Não, nós saímos desta cidade quando completei oito meses de gravidez, dei a luz em uma cidade a mais de 10 horas daqui, queria fugir, queria que meu filho sobrevivesse. – Ela pareceu chorosa novamente. – Porém quando o filho de minha senhora desapareceu, meu filho não se acalmou e saiu atrás do pai em um dia de busca, ele também não voltou mais. – Ela guardou a foto e o álbum dentro da gaveta, levantou-se e caminhou até a beira da escada. – Parece que a maldição predomina apenas os que vivem dentro desta cidade.- Você nasceu aqui? – Perguntou-me após um bom tempo de silêncio.

- Sim... Há quase dezoito anos atrás. – Sra. Phillips me encarou com os olhos arregalados, sua expressão indicava que ela tentava achar uma resposta para isso, porém nada fazia sentido, porque apenas eu e Gray, porque nenhuma outra criança? Também fiquei me perguntando sobre isso e também porque o lobo não me atacou hoje à noite, porque eu tenho esse pesadelo sempre que penso neste lugar, nada fazia sentido, mas eu ia ter que descobrir alguma coisa, não poderia ficar assim. Ela tirou de dentro do armário de baixo da escada um cobertor grosso e um travesseiro, os largou no sofá ao meu lado e sorriu para mim.

- Já está tarde, pela manhã você deve voltar para casa, você pode dormir no sofá, não se preocupe nada irá entrar nessa casa durante a noite. – Ela ligou a luz da escada e subiu para o andar de cima, fiquei esperando, não estava com sono, estava curiosa demais para ter sono, queria saber o que estava se passando nessa cidade, queria saber do lobo... Queria ver o lobo novamente...

Coloquei o travesseiro calçado no braço do sofá e deitei a cabeça sobre ele, estendi o cobertor ao logo do meu corpo e fiquei olhando para a lareira apagada a minha frente, fiquei pensando em como descobrir mais sobre essa história até adormecer.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.