Silent Hearts

2 O começo da loucura


Notas iniciais
Um capítulo um pouco mais chatinho, desculpem. Apresentações são necessárias, além de que algumas condições da mansão não tinham sido explicadas no capítulo anterior. Espero que, mesmo assim, gostem do capítulo.

– Finalmente! Estamos todos aqui, certo? Onze pessoas.

Quem estava a falar era a mulher ruiva que tentara fugir da última vez. Assim como todas as outras pessoas, continuava com a roupa do dia anterior, mas parecia agora mais maltratada e desgastada: O cabelo estava desarrumado, o vestido azul torto e ligeiramente sujo. Pelas dores que Mark tinha no corpo e pelo aspeto dos presentes (ele incluído), inferiu que tinham todos sido arrastados descuidadamente para os respetivos quartos enquanto estavam sedados.

A sala estava diferente. Era a mesma que a do dia anterior, mas dessa vez, as cortinas tinham sido retiradas. Atrás de cada uma, ao contrário do que Mark pensava, não estavam janelas, mas sim quadros. Enormes quadros com a imagem de cada um dos doze presentes, e todos eles com uma expressão sombria. Alguns sorriam, outros mantinham um semblante sério, mas todos tinham um olhar macabro no rosto. Parou por um momento para observar o seu quadro, um homem sorridente segurando uma pistola contra o seu próprio crânio. Sentiu-se um pouco enjoado com o que vira. Mais para a frente, notou que o quadro de “O Anfitrião” estava a preto e branco, com uma adaga – a arma que usara para se suicidar – presa no lugar do “coração” do quadro.

Não teve muito tempo para pensar no que via, porque logo foi interrompido.

– Você também teve de o fazer, não é? – Perguntou a rapariga que aparentava ter mais ou menos a idade de Mark, a mesma que se sentara ao seu lado. Apresentava uma expressão séria, os seus olhos verdes fitaram-no de uma forma concisa e cortante. – De ler o seu “objetivo” e as regras para poder sair do quarto. Toda a gente fez isso.

Ele acenou afirmativamente com a cabeça, engolindo em seco. Ela rolou os olhos, como se esperasse que ele dissesse mais alguma coisa.

– E o seu cognome é…? – Indagou de uma forma lenta, como se chamasse o homem de burro. Ele sentiu-se um pouco irritado com isso. – Você sabe, toda a gente tem um, aparentemente.

A Fera. – Resmungou. Não gostara nem um pouco da alcunha que lhe fora atribuída, e aparentemente, os outros também não. Uma pequena garota, de idade que com certeza não passaria dos dez anos, aproximou-se então dele.

– Fera. – Afirmou, como se tentasse processar a nova informação. A sua voz saía de uma forma fraca, quase como um sussurro. Na verdade, toda ela parecia estar prestes a desabar: a pele pálida; o corpo bastante magro, doentio até; o cabelo loiro seco formando cachos irregulares, os olhos azul-claros de expressão assustadiça. Após uma pequena pausa, ela continuou – Sou “A Frágil”.

– Então, cara. – Um adolescente de expressão risonha acenou para Mark, que retribuiu de uma forma um pouco incomodada – É suposto me chamar de “O Joker”.

Ele era um pouco mais baixo que Mark, tinha cabelos encaracolados curtos e olhos cor-de-avelã com reflexos de caramelo. O corpo era todo moreno e musculado – provavelmente um garoto que era bastante popular com as meninas.

–E eu, jovem – Começou uma senhora idosa, com um sorriso amigável. Dava a sensação de ser daquelas avós simpáticas que preparam bolos deliciosos para os netos sempre que eles chegam a casa. O cabelo grisalho estava amarrado num coque, a cara enrugada tinha uma expressão tranquila, os olhos eram cinzentos. – Devo ser chamada de “A Combatente”.

Aquele, até ao momento, era a alcunha que mais impressionara Mark. Não teve muito tempo para pensar, porque as pessoas continuaram as suas apresentações. Veio a vez da ruiva.

– Sou “A Ira”. – Resmungou, maldisposta – E ah, aquele ali é “A Voz”.

Ela apontou para um homem que usava roupas de mordomo. Ele acenou afirmativamente como que confirmando o que Ira tinha dito.

– Ele não pode falar. – Explicou a mulher – No meu quarto estava uma nota dizendo que ele seria o mordomo da mansão.

Enquanto falava, esticou um papel, que seria a tal nota.

– O meu nome é “A Sombra”. – Disse um garotinho de aparência sombria. Usava roupas aparentemente velhas com um boné que escondia os cabelos negros, e os seus olhos azul-claros mantinham uma feição pesada e negativa. – Prazer em conhecê-lo.

– E eu sou “O Sorriso”! – Passou logo outro garotinho a falar, este já aparentando mais feliz. O cabelo era loiro e os olhos em tons da mesma cor que o anterior. Parecia até entusiasmado com a situação em que estava, o que deixou Mark um pouco perturbado.

As apresentações não tinham acabado, mas fez-se algum silêncio após isso. A rapariga de cabelos negros decidiu quebrá-lo.

– Você deve chamar-me de “A Bela” – Disse isso jogando os cabelos no ar, com um sorriso convencido, parecendo querer provocar Mark. Por sua vez, ele ergueu a sobrancelha, perguntando-se o porquê dela ser tão ridícula. Uma constrangedora troca de olhares entre os dois se estabeleceu, mas uma tosse seca acordou-os de volta para a realidade.

– H-Hm… – Balbuciou uma mulher de cabelos curtos e loira, olhos azuis e de estatura média, parecendo contudo mais alta pelos saltos que calçava. Vestia-se de uma forma muito rica e requintada, usando principalmente os tons de amarelo – Eu s-sou “A Mãe”. P-Prazer em c-conhecê-los…

Não parecia nada confiante no que dizia.

– Oh, o meu marido saiu – Comentou a Combatente, erguendo uma sobrancelha com confusão – Se me permitem, eu irei procurá-lo. O seu cognome é “O Desistente”, já agora.

Aquela última frase saiu estranhamente amarga da parte da simpática senhora de idade, mas ninguém pareceu fazer muito caso, a maior parte apensas acenando afirmativamente e a deixando sair sem mais nenhuma palavra.

Mais silêncio se fez. Ira puxou uma cadeira e sentou-se nesta, cruzando a perna e suspirando, impaciente.

– E então? O que sabemos? Vamos lá, se apressem. Eu não tenho o dia todo.

– B-Bom – Começou Mãe, nervosa – E-Eu e Bela estivemos i-inspecionando o exterior ainda há pouco, c-como você pediu.

– E então? – Indagou a ruiva, lançando um olhar de poucos amigos que fez a Mãe recuar com receio. Nuns passos confiantes que nada tinham a ver com a da anterior, Bela fez um resumo do que descobriram.

Ao contrário do que acreditavam que iria acontecer, a mansão não estava trancada. O jardim era um lugar acessível ao grupo e eles poderiam inclusive abandonar os limites se quisessem, mas como é claro, a única coisa que havia para além dos muros que cingem a habitação era uma densa floresta. Os carros continuavam também todos estacionados no parque, só que, naquele momento, nenhum tinha combustível.

– Em suma – Concluiu Joker – Podemos até sair daqui, mas teríamos de tentar a nossa sorte na floresta, e só poderíamos ir a pé.

– Demorámos muito tempo a chegar aqui de carro – Sussurrou a Frágil – Voltar demoraria mais tempo ainda.

– Mas poderíamos experimentar, não? – Começou Mark, confiante – Se seguirmos o caminho… Demorará algum tempo, mas…

– Impossível. – Concluiu Bela antes que Mark acabasse – O caminho… Eu e Mãe também verificámos isso. Não há qualquer evidência que o caminho alguma vez sequer tivesse existido. E-Eu… Eu não sei o que aconteceu, mas ele simplesmente não estava mais lá.

– Quer dizer que o percurso simplesmente DESAPARECEU? – A voz de Ira parecia irritada, e tal intuição da parte de Mark foi confirmada pelo seu bater enraivecido no tampo da mesa – Isso é IMPOSSÍVEL.

Bela e Mãe pareciam nervosas, mas havia algo na sua forma de agir que dizia a Mark que não mentiam. Foi quando ele notou que Voz segurava um papel nas suas mãos.

– Voz – Chamou o garoto, dirigindo-se ao homem de quase cinquenta anos – O que é isso que tem na mão?

Ele pareceu surpreendido com a intrusão de Mark, que naquele momento tentava pegar o papel sem pedir licença. Contudo, não fez menções de lutar, deixando que Mark lesse o que estava nele escrito. O resto do grupo ficou olhando.

– Então? – Perguntou Sorriso, parecendo ainda bastante divertido com o que se passava – O que está aí escrito?

– Ah. São algumas anotações… Sobre o funcionamento da mansão. – Comentou Mark distraidamente enquanto passava os olhos na pequena lista de condições que a mansão apresentava, decidindo eventualmente lê-la em voz alta.

Olá, Voz.

Como por agora já deve saber, todos vocês estarão presos aqui na mansão, respeitando as regras do jogo que vos foi imposto e lutando pela própria vida – ou a de outras pessoas, em certos casos. Poderão, mesmo assim, fugir, pelo que nada vos impede de tentar sobreviver na floresta. Um aviso é, contudo, deixado para todos os jogadores: os perigos da floresta podem ser piores do que aqueles que encontrarão aqui dentro.



Quanto à mansão em si, existem alguns pormenores que devem ser denotados para quem decidir ficar.

– O período noturno começa às 21:00h e termina às 6:00h.

– É completamente proibido sair para os jardins durante este período. As portas e janelas estarão trancadas por essa altura, e qualquer tentativa de forçar a saída será punida com a morte.

– O armazém de comida estará fora dos limites durante a noite.

Qualquer suplemento alimentar deve ser mantido dentro da mansão apenas.

– Armadilhas fatais estão expostas por toda a mansão. Serão ativadas única e exclusivamente se algum desrespeito às regras ou ao “objetivo” for efetuado.

– A única forma de parar aquele com o papel de “assassino” é matando-o.

Mark apertou o papel em suas mãos, sentindo o desespero tomando conta de si. Quem é que estava por detrás de tudo aquilo? Quais eram as suas intenções? Porquê ele, de todas as pessoas, a ser escolhido para participar daquela loucura?

As suas dúvidas eram partilhadas com os outros presentes.

– P-Porquê… – Começou Frágil, as lágrimas lhe caindo do rosto enquanto ela se agarrava a um coelho de pelúcia que estivera a segurar discretamente no tempo todo – Porquê…!? Eu não quero estar aqui, eu quero ir para casa…

Ela se ajoelhou no chão, soluçando de uma forma desesperada. Eventualmente foi seguida por Mãe e Sombra, que também choravam. Joker enterrou a cara nas mãos. Sorriso manteve a expressão risonha. Mark sentiu-se bastante impotente, incapaz de alterar aquele aparentemente inevitável destino. Ira se levantou, batendo com força no tampão da mesa.

– CHEGA! – Berrou tão alto que todos os presentes pararam para olhar para ela, como se a ruiva tivesse premido o botão de “pausa” – Eu não quero saber quem é a pessoa que fez isso, ou as suas intenções. Eu ME RECUSO a morrer aqui. Vocês deveriam todos pensar da mesma forma! Não quero saber o que é que vão fazer, incompetentes. EU vou arranjar uma forma de sair daqui.

E dito isto, ela virou as costas e abandonou a sala. Após isso, Joker se levantou, massajando as têmporas.

– Cara. Isso é tudo tão… Confuso. – Disse para quem quisesse ouvir, engolindo em seco – Eu preciso de pensar.

Também saiu. Bela inspirou fundo, revelando que ainda estava presente. Quando Mark olhou para ela, notou que a mulher estava mais pálida que cal. Nada fez, contudo, pelo que sabia que ela iria precisar de um tempo sozinha – todos precisavam, na verdade. Bela saiu. Mãe imitou-a, ainda tentando reprimir os soluços enquanto segurava a sua mala da Chanel como se esta fosse um escudo particularmente efetivo. Frágil manteve-se quieta, ainda agarrada ao coelho e sem nada dizer. Voz aparentemente já não estava lá, provavelmente decidira sair há algum tempo quando as coisas ficaram sérias e a discussão já havia terminado.

– Vou jogar na minha Nintendo DS! – Disse Sorriso, dando pulinhos alegres e saindo do quarto. Mark não deixara de sentir pena da criança, acreditando que esta não tinha noção do perigo em que estava. Dali a algum tempo, Sombra também saíra e finalmente Mark abandonou a sala, querendo acima de tudo abandonar aquele ambiente pesado que ficara no lugar.

Quando saiu, encontrou Sombra sentado num canto, como se ele tivesse esperando o homem.

– Senhor Fera? – Perguntou, fitando Mark com seu olhar inocente.

– Uhh, diga, Sombra – Respondeu desajeitadamente, um pouco desconfortável por terem de se dirigir um ao outro usando cognomes.

– O senhor é o assassino?

– Não. Não sou o assassino. Mas aí, não acho que valha a pena perguntar isso às pessoas. Ninguém vai dizer a verdade mesmo. – Tentou ser gentil, mas não pôde deixar de notar que a voz da criança tremia quando ela murmurou um ligeiro “sim”. Ela acenou afirmativamente, baixando o olhar e nada mais disse.

Onze pessoas estavam na casa.

E no meio delas, alguém tinha o objetivo de matar as outras.

Notas finais
Não esqueça de postar review! Até ao próximo!