Notas iniciais
Hey. c: Desculpem o atraso. Aqui está outro capítulo fresquinho para vocês! E eu digo: Shit is about to go down...

Quando Mark chegou à cozinha, ainda era cedo. Dormir tornava-se cada vez uma tarefa mais difícil à medida que a casa aparentava crescer – ou era talvez apenas porque os seus habitantes diminuíam praticamente toda a semana?

Ele não era o único que matinava. Voz também já estava ali, inutilmente passando um pano nos utensílios e no balcão já limpos, por ventura só porque ele queria se distrair e não por necessidade. Quando sentiu alguém chegando, virou-se para cumprimentar Mark com um aceno.

– Oi. – Cumprimentou o mais novo de volta, casualmente sentando-se ao balcão. Voz pareceu se aproximar como quem perguntava o que é que o outro queria, mas, num discurso silencioso, Mark deu a entender que não estava com vontade de comer ou beber alguma coisa naquele momento com um mero aceno negativo. – Hey, Voz. Tenho uma coisa a te perguntar.

O homem de meia-idade, que tinha acabado de dar as costas para retornar às suas limpezas, voltou-se novamente na direção de Mark. Ele hesitou por um momento, mas era uma pergunta que insistia em pender na ponta da sua língua. Algo que ele já estava pensando em fazer há algum tempo.

– Você realmente não consegue falar? – Disparou. A resposta não foi satisfatória. O homem de meia-idade, contrariamente às expectativas do jovem adulto, semicerrou os olhos e tossiu secamente com uma expressão irritada. Sem dar mais a entender, virou as costas e pareceu não querer mais ouvir a voz de Mark, ignorando-o descaradamente. Não foi preciso muito mais para que se entendesse que aquele era o tipo de pergunta que não deveria ser respeita e que o homem não poderia responder mesmo que quisesse.

– Ora, ora, Fera, isso é modo de falar com Voz? Ele é uma pessoa tão atenciosa para com todos… Pensar que alguém seria indiscreto ao ponto de fazer uma pergunta dessas só me deixa com menos fé na raça humana. – A voz delicadamente maliciosa de Mirno fez-se soar pela cozinha. Quando Mark desviou o olhar da mesa, ela estava encostada ao lava-louça, ao lado do mordomo. O seu sorriso gigantesco e desagradável estava ali, como sempre, junto do chapéu que lhe cobria os olhos e todo o vestuário que fazia com que a única pele descoberta que ela tinha fosse a parte inferior do rosto e o pescoço.

– Eu só estava curioso, não é nada de demais. Sai daqui, Mirno. – Respondeu asperamente, tentando a todo o custo ignorar a mulher que lhe dava arrepios. Como que ela entrara ali na cozinha sem ele ter sequer notado? Era como se ela se teletransportasse para ali sempre que quisesse, para onde quisesse. Ela riu.

– Como vai o ditado… A curiosidade matou o gato? É isso? – Mais risadinhas acompanhavam cada pausa da loira. Contudo, estas subitamente pararam e ela parou de sorrir. A sua voz saía agora menos delicada, como se ela cuspisse as palavras em vez de proferi-las. – Você não entende, pois não? Que tudo isso envolve coisas bem maiores do que você pensa? Que a sua queridinha “curiosidade” só vai matar mais gente? No final… — Disse algumas coisas demasiado baixo, incompreensíveis para Mark. Quando elevou o tom de voz, já parecia estar mudando de assunto – É, mas você não sabe disso. Você não sabe de nada. De todas as tragédias que ocorrem ao mesmo tempo, nessa exata mansão. De como o diário que você está lendo é uma pista importante para tudo isso, para você salvar a sua própria vida. Contudo, você parece estar parado esperando que alguma coisa aconteça. O que você espera? Que todos morram e você miraculosamente sobreviva? Ou pensa que alguém terá uma súbita epifania e vai tentar salvar os poucos que ainda não morreram? Ou talvez acha que o assassino vai desistir de matar todos vocês, um a um?

A sua risada não era delicada como antes. Não, antes ela dava-se ao trabalho de rir de forma educada, como se quisesse passar o papel de mulher doce e querida para todos. Agora, contudo, ela ria de forma grosseira, como uma louca que acabou de perder a última gota de sanidade.

– Deixe-me que te avise, então! O assassino não vai parar. Você não será salvo. E se o objetivo final não for concluído…

Calou-se, como se subitamente tivesse voltado ao seu aparentemente inocente e falso ser.

– Ups! Falei de mais, não falei? Oh, bom, antes que pergunte, eu não te vou falar de nada sobre o objetivo final.

– Mirno… – Mark estava pasmo, sentindo que tinha acabado de levar um soco em cheio na cara. Parecia que tinha tudo à sua volta a rodar com as informações que lhe foram jogadas, incapaz de assimilá-las na sua totalidade. – Quem… É você? Porque é que você está matando essas pessoas?

– Além de Sorriso, eu não estou matando ninguém, já disse. Eu não participo dessa chacina. Eu sou apenas uma árbitra, incapaz de interferir a não ser que alguma regra não seja cumprida. Está no meu ser, sabe? Assim como você não pode fazer o seu coração parar de bater por mera força de vontade… Eu não posso interferir diretamente no que vocês estão fazendo, mesmo que eu quisesse. E deixe-me salientar, eu não quero. E quanto a quem sou eu… Porque é que você não pergunta isso ao Voz?

Ignorando os chamados de Mark pedindo mais explicações, ela virou as costas e saiu da cozinha. Apesar de já saber que ela teria sumido assim que sumisse do seu campo de visão, Mark tentou segui-la, mas sem surpresas, ela já não estava no corredor. Regressou para a cozinha, apenas para descobrir que Voz também tinha abandonado o cómodo. Ele tinha deixado uma gaveta – a dos talheres – aberta. Quando Mark foi fechá-la, encontrou algo estranho no seu fundo. Uma página?

Era mais uma das páginas do diário de Louis.

–x-

Querida Mãe,

7 anos. 7 anos que eu fiquei com a Emma. E pensar que, no final, ela me traiu desse jeito. Eu pensava que ela era a única que se importava comigo, mas sabe o que aconteceu?

Eu estava indo para o orfanato. Sabe, eu odeio aquele lugar, mas tenho pena das crianças de lá. Elas têm o mesmo sofrimento que eu. Então, levei meus brinquedos antigos para que elas os usassem, para tornar a vida deles um pouco melhor. Mas… Eu realmente não esperava ver a Emma ali. Ela estava com uma criança. Sorrindo e brincando com ela. E ao lado da minha namorada, estava um homem. Eu não sei quem era, mas ele conversava com ela. Pareciam muito amigos. Muito amigos mesmo. Até que a uma certa altura, a criança disse:

“Eu vou agora casar vocês! Hmm… Como se faz isso…? Hmm… Não interessa, podem se beijar!”

Não esperei para ver isso acontecendo. Fiquei revoltado. Saí dali a correr, joguei os brinquedos no chão e nem me importei de entrega-los a alguma freira. As crianças que se fodam. Sinceramente, até as crianças de lá me dão nojo. Conseguindo arrancar de mim a última coisa que eu tinha…

A verdade é que a Emma tem andado meio sumida e não tem me dito o porquê. Muitas vezes, à tarde, ela dizia que tinha de ir a um lugar e não queria que eu fosse com ela. Provavelmente, ia me trair… Com aquele homem. Espero que aquele homem sofra. Muito. Eu quero ver aquele homem sofrendo. Quero descobrir o nome dele. Quero destruí-lo. Emma também. A criança também.

A lista está crescendo, mãe.

Martha. Beatrice. Seth. Emma. O homem com ela. A criança com ela. A família do Seth, que pôs coisas na cabeça dele.

Uma grande lista para eu me vingar. Heheh. Não é divertido, a vingança?

Talvez eu possa usar a ajuda desse grupo no qual entrei. É uma organização de pesquisa internacional. Você provavelmente já ouviu falar dela, mãe. É composta pelas mais brilhantes mentes do mundo, que têm como foco único o ser humano. Como melhorá-lo, como aperfeiçoá-lo. Para maior parte das pessoas, é apenas uma empresa farmacêutica, que investiga as curas para as mais variadas doenças, mas na verdade é muito mais que isso.

Devido às minhas brilhantes notas, eu entrei em um grupo especial. É um dos ramos da organização, que definitivamente não está incluído no que o público vê dela. Investigamos a mente humana. Em breve, começaremos um projeto – o projeto MIND – que tem como objetivo investigar completas novas possibilidades de manipular o cérebro.

Talvez consiga abusar um pouco desse projeto. Para os meus fins.

Com amor, Louis McFlower Nord.

–x-

Onde estaria o culpado escondido? Oh, onde estaria ele?

Caminhava pela mansão, evitando ao máximo encontrar-se com os outros habitantes além daquele que procurava, a suspeita de folha de papel balançando nas suas mãos. Ao contrário de com as outras vezes, as suas sugestões não seriam realizadas. Dessa vez, o alvo era o culpado.

O indivíduo que por aí passeava era o assassino, nem mais, nem menos. Aquele que precisava de desaparecer para que todos os outros habitantes da mansão pudessem concluir os seus “objetivos” sem a ameaça de morrerem a qualquer momento. Até ao momento, ele tinha ingenuamente seguido a lista que estava no papel que Mirno lhe entregara: Nomes, nomes das pessoas que teriam de ser assassinadas na ordem que mais convinha à misteriosa mulher loira. Contudo, nunca lhe fora dada uma regra explícita que o impedisse de se desviar do que nela estava escrito, pelo que acreditava que podia perfeitamente matar alguém que não era suposto morrer – pelo menos não naquela altura. Talvez Mirno fosse arrogante demais para pensar que isso sequer viria à sua mente. Ou talvez ela o estivesse manipulando para que fizesse isso desde o início. Sinceramente, o suposto assassino não se importava.

A noite já caíra e maior parte dos hóspedes fora dormir – um ato inteligente, tendo em conta que a noite era o principal palco para ocorrerem os tão famosos assassinatos. Mas o culpado não se importava com isso. O culpado, que caíra também na armadilha da arrogância, achava-se invencível. E, por essa mesma razão, não se retraía para o seu quarto quando a proteção da luz do dia e da presença dos outros hóspedes desaparecia. É por isso, também, que ele era um alvo bastante fácil de neutralizar.

A aparentemente inocente figura chegara finalmente ao lugar onde mais provavelmente o culpado estaria. Apenas para confirmar, procurara anteriormente por ele em todos os quartos no andar superior e na sala, apenas para se certificar que os dois não se desencontravam. Como esperado, ao encontrar o assassino, o culpado não fez nada além de acenar afirmativamente com a cabeça, num cumprimento amigável. Homem desprezível, ousando sorrir quando essa era a última coisa que deveria estar fazendo.

– Te encontrei. – Murmurou o assassino, não se dando ao trabalho de sorrir ou cumprimentar de volta. O culpado – ao qual todos naquela mansão tratavam por Voz, apesar de não poder falar – não estranhou. Seria mais estranho se o contrário acontecesse. Ele encarou o papel nas mãos do assassino e massajou as têmporas numa expressão cansada. Sentou-se numa cadeira disponível junto ao balcão, esticando a mão como se pedisse para ver o seu conteúdo. O outro não teve problemas em apresentar a lista de pessoas a assassinar ao homem de meia-idade. Como se ele fosse fazer muita coisa com isso, de qualquer forma. Enquanto o seu alvo se ocupava analisando a pequena lista, o assassino foi pegar a chaleira previamente enchida com o chá verde naquela tarde.

– Vou… Vou pegar um pouco para mim. – Murmurou o assassino, já deitando um pouco numa xícara para si, os dedos trémulos (por ventura pelo nervosismo, quem sabe) quase fazendo com que transbordasse o líquido sem querer – Está frio, mas ainda está bom. Também… vai querer?

Não pode deixar de soltar um sorriso estranho, uma mistura de alívio com prazer psicótico, quando viu o outro aceitar a oferta. Em seguida, voltou ao seu ar calmo de antes. Após ter as duas canecas em mão, foi sentar-se também ao balcão ao lado de Voz e entregou-lhe uma delas. Ele suspirou e encarou o assassino com pesar, apontando para o nome.

– …Você realmente quer, er… falar…? …Sobre isso agora? – Perguntou, dando um gole no chá. Apesar de frio, era estranhamente agradável, o sabor mantendo-se quase inalterado. – Sabe, tem outras coisas que eu gostaria de falar primeiro.

Parou para encher os pulmões de ar, como se fosse explodir a qualquer segundo e começar a gritar na cara do homem. No entanto, a sua voz saiu anormalmente serena.

– Como a morte de Sombra. Ou, como o nome dele está nessa lista, Chad Drott. – A sua mão livre cerrou-se num punho, parecendo irritado. – Foi demasiado… Rápido, não acha? Essas mortes estão… Ocorrendo num ritmo desmedido.

Ele acenou afirmativamente encarando a lista novamente e coçando a cabeça.

– Tem alguém que mente nessa mansão… Alguém que é o culpado disso tudo, Voz. – Continuou o assassino, o seu olhar ficando vazio e sem emoção. – Quem é? Quem é o mentiroso, cujas ações são imperdoáveis…? De facto, quem é o verdadeiro… Assassino nessa mansão?

O som de porcelana se partindo fez-se ouvir. O assassino, contudo, não pareceu ter notado, continuando o seu discurso e ignorando o homem que na sua frente começava a, lentamente, ser possesso por diversas convulsões e a espumar da boca.

– Até agora, agi como uma pessoa cobarde. – Disse, passando a ponta do dedo nas bordas da chávena de forma pensativa – Mas não mais. Existe ainda uma pessoa… Uma pessoa que tenho de proteger. Apesar de ter falhado com uma, a outra ainda… pode ser salva.

Pareceu hesitar, mordendo o lábio inferior antes de finalmente se virar para Voz que, naquele momento, estava já caído no chão, o seu olhar confuso encontrando-se com o do assassino.

– O veneno que Mirno me deu é realmente eficaz… – Murmurou, tocando na face do homem de meia-idade com a ponta do pé para encarar o seu rosto de um melhor ângulo – Você já mal respira.

O outro fez um som estranho, um grunhido de raiva que saíra demasiado fraco para se tornar uma frase compreensível. Afinal, tal como suspeitara, Voz não era realmente mudo. Possivelmente não falar fazia parte das suas regras… Ou até mesmo do seu “objetivo”. O motivo para lhe ser dado um objetivo tão estranho, contudo, era desconhecido para qualquer hóspede da mansão, incluindo o assassino..

– Boa noite, Voz.

Saltou do seu banco perto do balcão e virou as costas. Antes de sair, contudo, voltou-se mais uma vez para encarar a sua xícara de chá que ficara metade por beber. Empurrou-a para fora da mesa com as costas da mão e saiu, ignorando os estilhaços que dispararam pelo chão após esta ter-se partido. No dia seguinte, encontrariam o cadáver de Voz, logo dois dias depois à morte de Sombra. Tinha de começar a agir de forma mais discreta, ou as suspeitas começariam a aparecer.

Então, o assassino saiu, perguntando-se quem seria o outro culpado.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Deixem uma review caso tenham lido - isso me alegra muito! :) Até ao próximo!