Silent Hearts
12 Família
Notas iniciais
À medida que a noite caía, ela sabia. Ela sabia que, certamente, ela não merecia mais estar naquele mundo. Tudo pelos seus desejos egoístas, a sua necessidade de amar… Ela trouxera ruína para toda a sua família.
Que espécie de “Mãe” era ela? Uma que trouxera os próprios filhos para uma chacina, tudo porque ela queria ver, apenas mais uma vez, aquele que ela amava? Definitivamente, ela não podia ser chamada de “Mãe”. Não depois de tudo o que ela fez.
Tudo começara com o seu primeiro filho. Poucos sabiam disso, mas na verdade, ela inicialmente tivera dois filhos. Gémeos. Ambos nasceram, felizes por estarem finalmente nesse mundo, mas ela sabia que, no final, os dois não podiam viver juntos em harmonia. Como se ela tivesse o papel de um deus, ela separou-os antes que os outros sequer soubessem. Antes que ele sequer soubesse. Porque, se alguma vez o homem que ela amava descobrisse, seria o fim de ambos. Ele só queria um filho, e assim o foi. O outro foi parar a um orfanato, abandonado. Recebendo outro nome, nunca na vida sequer descobrindo quais seriam os seus verdadeiros pais.
Apesar de tudo isso, a mulher continuou com a sua vida. Fingindo que nunca nada tinha acontecido, tendo uma vida aparentemente feliz com o seu marido e com o seu filho único. Mas ela não parava com suas atrocidades. Por puro impulso, sem sequer pensar direito, ela e o seu marido decidiram que deviam ter outro filho. Com certeza, tudo tinha corrido bem com o primeiro, porque não mais um? Assim o fez, e dessa vez, uma menina nasceu.
A menina tinha de ser perfeita. A mulher obrigou-a a ter as melhores notas em tudo, impondo-lhe uma vida sem que a criança antes sequer tivesse tempo de pensar por ela mesma. “Tão perfeita quanto a mãe”, diziam as pessoas. Pouco sabiam delas que a mãe da criança não era nem de longe tão bondosa e inocente quanto a filha.
Começou a chorar, encolhendo-se na sua cama. Talvez aquelas lágrimas não fossem só as suas. Talvez tivessem também as lágrimas do filho que manteve consigo, que morreu por ser obrigado a sorrir o dia inteiro. Definitivamente, a mulher de nome Mirno dera aquele objetivo como um chamamento à falsa felicidade daquela família.
Outras lágrimas eram, provavelmente, vindas do outro filho que foi abandonado, morto enquanto estava preso no armazém da cozinha, levado a descumprir as regras da mansão por obra do assassino. Será que o assassino estivera lhe mandando uma sarcástica mensagem de que ela prendera o próprio filho numa realidade que não deveria ser a dele?
E ainda haviam outras lágrimas que deveriam pertencer à sua filha. Criança amaldiçoada com câncer, a mulher nunca fora capaz de lhe contar a verdade. Como poderia ela destruir a vida de uma criança tão inocente e gentil? Por isso, mais uma vez, ela enganou-a. E continuará enganada até ao fim dos seus dias, que muito provavelmente acabarão ainda mais cedo do que deviam naquela mansão. Quão cruel podia aquela mãe ser?
A Mãe nunca fora feliz na sua infância. Desprezada pela irmã, humilhada pelos amigos, não conseguia ter uma vida social decente, e dedicou-se somente aos estudos. Por causa disso, ela conseguiu um emprego decente, mas o seu marido – a primeira pessoa a lhe mostrar o significado de “amor” – só a arranjou pelo dinheiro. Após roubar uma vasta quantia das suas riquezas, ele desapareceu sem deixar rastros. Mesmo que, no final, Mãe tivesse abandonado um dos seus filhos porque ele queria ter apenas um. Mesmo que, no final, Mãe tivesse obrigado a filha a ser perfeita de modo a que ele pudesse ter orgulho dela. Ele a abandonou, e ainda assim ela o amava. Quão estúpida podia ela ser?
Então, certo dia, Mãe recebeu uma carta. Uma carta do marido, lhe dizendo para ir até àquela mansão. Que eles ficariam juntos novamente. E, confiando cegamente no conteúdo da suspeita carta, Mãe levou os próprios filhos para ali. O que ela estava pensando? Quão negligente podia ela ser?
“Você é um monstro”, ouviu uma voz dizer. Sim, aquela voz estava dizendo a verdade. Um monstro autêntico, que destruiu a vida da própria família pelos seus orgulhosos, egoístas motivos.
Era a sua vez de abandonar a vida naquela mansão. Mas, dessa vez, isso não seria obra do tão clamado “assassino”.
–x-
Mark estava estático. Com aquilo, ele finalmente entendia melhor o que Ira lhe dissera naquela manhã. “Louis é perigoso”. Talvez aquele papel pudesse ser apenas os desvaneios loucos do mesmo, só que o sangue seco impregnado neste provava o contrário. Remexeu mais ainda nas roupas de Voz, procurando o resto da página, mas não encontrava nada em lado algum. Deu voltas e voltas ao quarto, explorando cada centímetro do mesmo, à procura de uma resposta. Nada. Absolutamente nada fora do comum. Apenas mais alguns pertences de voz sem qualquer significado.
Desistindo de procurar, saiu do quarto um tanto a medo. O clima na mansão mudara imensamente: Não é como se ele alguma vez tivesse sido agradável, mas agora, com apenas 6 pessoas vivas, parecia que a sua vez estava quase chegando. Arrepiado com estes pensamentos, acabou se abstraindo do que se passava à sua volta e deu de caras com Joker.
– H-Hey! Fera! – Disse ele num tom desajeitado, um sorriso forçado no seu rosto enquanto ele parecia esconder alguma coisa no seu bolso. – Bom te ver, cara… Bom te ver! Desculpa, estou com uma certa pressa…
E correu para o segundo andar sem deixar que Mark sequer respondesse. Contudo, o mais velho não o seguiu ou sequer se importou. Apenas continuou a sua caminhada, na direção do seu quarto…
– O QUE SE PASSA AQUI? PORQUE É QUE ELA FEZ ISSO? – O grito do velho de certa forma despertou-o mais do que as ações estranhas de Joker. Vinha do quarto de Mãe, que estava com a porta entreaberta. Curioso, Mark dirigiu-se silenciosamente lá para dentro. E como ele preferia ter ignorado o grito.
Desistente e Ira estavam parados a meio do quarto, estáticos olhando para o seu centro. A princípio, Mark apenas olhou para o chão, vendo um sapato de salto alto amarelo jogado de forma desajeitada. Procurando pelo seu par, o homem ergueu os olhos. E no meio do quarto, presa a um candeeiro de metal por uma corda de aspeto forte, estava Mãe. Ou o corpo dela.
A mulher pendia, amarrada pelo pescoço, o corpo balançando para a frente e para trás num ritmo repetitivo. O seu rosto, ainda com os olhos abertos, espelhava dor. O pescoço, devido à força exercida pela corda, torcia-se de uma forma nada natural. As suas roupas amarelas e chiques estavam completamente desarrumadas e tortas, como se de uma boneca de trapos se tratasse. Não importa o quanto Mark olhasse, menos ele queria acreditar.
– Idiota! – Gritou Ira, num tom de raiva – Ela se suicidou!? Sério mesmo? Idiota, idiota, IDIOTA!
Não podia ser. Não podia ser. Mãe não podia ter se matado. Mas quanto mais Mark pensava, mais sentido aquilo fazia.
“Acho que o melhor é… Desistir, não é? Afinal, se o Louis está no meio disso… O mais provável é que ninguém saia dessa mansão vivo… Não há motivos para remar contra a maré…”
As últimas palavras que lhe foram contadas pela loira voltaram à sua cabeça. Estaria Mãe já planeando isso desde o início do dia? A partir do momento em que a envolvência de Louis se tornou conhecida? Estava ela tão aterrorizada do que podiam lhe fazer, que acabou tirando a própria vida?
Mark levou a mão à cabeça. Quanto mais pensava, menos compreendia. Porque é que aquilo lhe estava acontecendo? Ele era um completo desconhecido! Nunca ouvira falar de Louis, nunca ouvira falar de nenhuma das pessoas ali na mansão, nada! Ele era, somente, apenas, unicamente, um mero trabalhador honesto de uma empresa de imobiliários… Apenas Mark Rodder. Era isso o que ele era. Então, porque é que ele estava no meio de tudo aquilo? Dores de cabeça fortes o atingiram, e sentiu-se prestes a desmaiar. O que é que estava acontecendo ali? Porquê? Porquê? Porquê? Porquê? Porquê?
Quando sentiu que os sentidos iam abandonar de vez o seu corpo, um grito ainda mais aterrorizante puxou-o de volta para a realidade. Só que, dessa vez, não fora o de Desistente. Tampouco fora Ira.
– MÃÃÃEEEE! – Berrou a criança loira ao entrar no quarto, tão alto quanto podia. – M-MÃÃÃÃÃÃEEEEE!
Frágil correu, ignorando a sua própria respiração extremamente irregular e ofegante. Ela era baixa, por isso quando alcançou a mulher, apenas alcançava a altura dos seus joelhos. Mesmo assim, ela esticou as mãos pequeninas, agarrando-se à saia amarela de Mãe e puxando-a, como se quisesse que ela descesse.
– M-Mãe… Hey, acorde, M-Mãe… – Suplicou a criança, rios de lágrimas brotando dos seus olhos – M-Mãe… Por favor, não vá embora… Eu preciso de você! M-Mãe, porque é que isso te aconteceu? Mãe! O Dave já foi embora, por favor, não me faça te perder também! MÃE! POR FAVOR!
Caiu de joelhos, envolvendo o próprio corpo com os braços. O seu coelho de pelúcia não estava ali, mas sim à entrada, jogado no chão com o choque da garotinha ao ver o corpo de Mãe. De algum jeito, Mark tinha essa sensação que Frágil não se referia ao cognome da mulher quando a chamava. E foi nesse momento que ele notou. Os olhos azuis, os cabelos loiros, as semelhanças no rosto de ambas. E, de forma similar, relembravam também outra pessoa. Sim, Mark tinha a certeza, pelo que vira a sua expressão na hora da sua morte, igual à que Mãe ostentava naquele preciso momento. Frágil, Mãe e Sorriso. Todos eles faziam parte da mesma família. E agora, ali estava Frágil, a última deles, e com certeza a mais nova também. Perdendo um irmão e uma mãe num curto espaço…
– Frágil, querida. – Disse Desistente num tom o mais calmo e simpático possível, pouco característico do velho – Acho melhor sairmos.
– M-Mas a Mãe…
– Não posso ler as suas intenções, mas… Você não acha que seria muito triste se você se lembrasse sempre da Mãe desse jeito? – Explicou o idoso – Tenho a certeza que, com certeza, ela ia querer ser lembrada com um sorriso, enquanto te comprava um sorvete. Ou quando ela te comprou aquele presente que você tanto queria para o seu aniversário! De como ela cuidou de você… Não acha que seria uma forma digna de a lembrar?
Frágil encarou Desistente, os olhos marejados e inchados ostentando uma expressão suplicante. Não se virou para olhar para Mãe mais uma vez.
– S-Sim… Mãe era… Muito simpática… Para mim…
– Era, não era? Aposto que era! – Desistente deu uma pequena gargalhada, pousando a mão sobre a cabeça da mais nova – Eu não posso trazê-la de volta… Mas e que tal se sairmos daqui e você me contar um pouco mais sobre como Mãe era uma mulher fantástica? Hm? O que te parece?
Ela acenou afirmativamente, se levantando sem nunca se voltar para o cadáver atrás de si. Pegou no coelho de pelúcia que caíra à porta e olhou para Desistente. As lágrimas não pararam de cair, mas pelo menos já não estava desesperada como antes.
– Foi um presente. – Explicou Frágil para o idoso – Ele se chama Mr. Whiskers. Ele se chama assim por causa de um desenho que eu gostava muito…
– Ahh, sério mesmo? Eu, por sinal, conheço esse desenho também! Sempre assistia a isso com o meu neto.
E, numa conversa completamente absorta ao que realmente estava acontecendo, eles saíram do quarto. Com certeza, Desistente não conseguia apagar a imagem do cadáver da própria mãe da mente de Frágil. Mas, pelo menos, conseguiria atenuá-la. Era isso, pelo menos, que Mark esperava.
Ira ficou com os braços cruzados, observando a saída deles os dois. Parecia pensativa.
– Eu acho que também deveríamos sair daqui. – Disse Mark para a outra – Mas antes…
Ele pegou numa cadeira e, com gentileza, rodou o braço à volta de Mãe, envolvendo-a. Depois, com uma mão, desatou o nó no seu pescoço. O seu corpo, perdendo o suporte, caiu completamente sobre Mark, que com cuidado carregou-a até à cama e deitou-a.
– Assim está melhor, não está? – Perguntou Mark – Assim, pelo menos… Ela já não tem a sua morte tão desrespeitada…
Ira encarou a cena sem dizer uma palavra. Após alguns momentos, finalmente se pronunciou.
– Você… Acha que foi mesmo ela? – Perguntou – Que foi ela… Que tirou a própria vida?
– Não. – Respondeu Mark, com certezas. – Eu acho que… Não, eu tenho a certeza que ela nunca faria isso. Após ver Frágil, eu percebi. Ela nunca faria tal coisa que fosse traumatizar a filha desse jeito. É impossível, eu não consigo acreditar nisso.
– …
Ira voltou para o seu estado de transe, não dizendo mais nada e perdendo-se novamente nos seus pensamentos. A certa altura, uma solitária lágrima caíra do seu olho. Era a primeira vez que Mark vira Ira num estado desses.
– Vamos, Mark. – Sussurrou ela finalmente – Deixemos… Mãe descansar, por enquanto.
– Sim. Vamos fazer isso.
E assim, ambos abandonaram o quarto.
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