Silent Hearts
4 Continue Lutando
Notas iniciais
Já agora, houve uma regra que eu esqueci de adicionar lá no capítulo 2, na carta. Para vos poupar trabalho de ir lá ver que regra foi adicionada, eu digo logo aqui:
"Qualquer suplemento alimentar deve ser mantido dentro da mansão apenas."
Pronto. Assim os hóspedes escusam de pegar a comida toda da mansão e sair acampando pela floresta numa tentativa de escapar XD
Estava escuro. Muito escuro.
Que lugar era aquele?
Mark tentou abrir os olhos, mas uma dor insuportável na nuca o atingiu com este movimento, obrigando-o a fechá-los de novo antes de sequer ver alguma coisa. Mexer-se era difícil. Cada fibra do seu ser gritava, uma dor excruciante o atingindo a cada tentativa de movimento. Como se tivesse estado parado há muito, e agora decidisse começar a mover os músculos já há muito atrofiados.
O que estava acontecendo?
Ouvia sons de máquinas a funcionar, sentia um calor pesado sobre todo o seu corpo. Apercebeu-se que estava transpirando muito. A sua respiração era pesada e difícil de ser efetuada, o que fazia com que o pânico fosse pouco a pouco tomando conta de si. Queria gritar, mas a garganta estava seca, as suas cordas vocais fazendo um nó e impedindo que ele soltasse qualquer som.
Ouviu um barulho distante, um clique metálico de alguém a escrever num teclado. Sentiu, mais tarde, esse alguém se aproximar de si. Uma mão tocou no seu pescoço. Em resposta, um espasmo na zona do toque surgiu. Mark sentia-se doente. Febril. Não conseguia fazer o seu corpo responder aos seus comandos, nem sequer sabia como é que mantinha o coração a bater e os pulmões a funcionar.
“Não resultou.” Disse uma voz de um homem. Quem era aquele? Um turbilhão de perguntas rodopiava na mente de Mark, uma sensação de enjoo e de dormência associada ao mesmo. De alguma forma, conseguiu concluir que estava drogado. “O experimento. Foi um redondo fracasso.”
Se o homem estava a falar para alguém, não obteve resposta, ou Mark simplesmente não a ouviu.
“Temos de prosseguir com o planeado. Ele está consciente. É perigoso deixá-lo ouvir mais alguma coisa.” Continuou a voz masculina. “Temos de evitá-lo.”
Sentiu algo picar o seu braço. Uma seringa. Estavam a drogá-lo ainda mais, com certeza. Mark tentou gritar, tentou se debater. Em resposta, recebeu ainda mais dor. Era o fim.
–x-
Alguém estava a bater à porta.
Mark abriu os olhos lentamente, bocejando e coçando a cabeça. Estivera a dormir, com certeza. Estava transpirado, presumivelmente devido ao pesadelo que tivera – que, na verdade, ainda lhe estava a dar dores de cabeça. Fora só um sonho, contudo. Nada mais. Mark deu-se grato por ter acordado.
– EY! CARA, ACORDA! – A voz de Joker fez-se ouvir por detrás da porta. – ESTAMOS ESPERANDO, MAS QUE MERDA. VOCÊ ESTÁ AÍ?
Mark levantou-se, irritado.
– CALMA, CALMA! DEIXE-ME SÓ ME VEST…
– VEM DE PIJAMA! – Joker parecia bastante impaciente naquele dia. Mark perguntou-se o que é que ele queria assim de tão urgente.
Um pensamento negativo surgiu na mente de Mark. Será que…? Não, não podia ser. Com certeza que era outra coisa. Antes que o adolescente a derrubasse, Mark abriu a porta. O outro entrou no quarto a toda a velocidade, torcendo o nariz, os olhos cor-de-avelã brilhando com irritação. Parou a meio do cômodo, virando-se depois para inspecionar a aparência do mais velho.
– …Você está pensando em ir para lá de cueca? – Resmungou.
– Como eu disse, eu preciso de me vestir. Sabe, eu estava dormindo.
– Quem é que dorme de cueca com este fr… – Ele levantou os braços, como que admitindo derrota. – Não quero saber! Vamos, vai te vestir!
Sem grandes delongas, Mark envergou um par de calças de ganga e uma t-shirt vermelha. Calçando uns sapatos rapidamente, seguiu atrás de Joker, que não parecia estar com vontade nenhuma de esperar nem mais um segundo. Saindo para o corredor, a primeira coisa que notou foi uma janela partida.
– Joker, o que é que… – Começou, mas logo se apercebeu que não obteria resposta. O adolescente já descia pelas escadas, sem sequer olhar para trás para garantir que estava sendo seguido ou para inspecionar a janela partida. Mark começou a temer o pior. Correndo atrás do outro, foi guiado até ao jardim. Dando uma volta rápida à mansão, ele viu-a.
Seis dos hóspedes já estavam lá. Com a chegada dos outros dois, faziam oito.
E depois, havia o corpo deitado no chão.
Sentiu o estômago dar uma reviravolta com o que via. O corpo sem vida de Combatente repousava no chão, os braços torcidos em ângulos inaturais. Os seus cabelos grisalhos estavam manchados com o sangue, já ressequido, que saíra do seu crânio aquando da queda. Cacos de vidros estavam espalhados à volta da senhora. A mera visão deixava Mark com vontade de gritar, de fugir dali e nunca mais voltar. Mas tal era impossível.
Não era como se ele fosse o único. Ao lado dele, pálida como o cal, estava a figura de Bela, que perdera metade da sua comum beleza com uma expressão de choque. Não, não era choque. Ela não ostentava expressão alguma, como uma boneca de porcelana. Não havia nada da sua face que indicasse emoção. Estava completamente paralisada.
Ao lado de Bela, encontrava-se Voz. Provavelmente o mais calmo deles todos, limitava-se a comprimir os lábios com força e a enrugar a testa numa expressão de pesar. Ira ostentava um olhar de raiva, não o desviando do corpo que via à sua frente. Era percetível, pela sua face, que ela perdera total fé na humanidade com o que via.
Mãe e Frágil choravam ambas, embora Mãe fosse mais ruidosa que a criança. Enquanto a mulher tremia como varas verdes, as duas mãos pressionando a zona da boca com força, a mais nova estava caída no chão abraçada ao seu coelhinho, soluçando silenciosamente. Mark não deixou de sentir pena da segunda, era óbvio que ela não suportava nenhuma daquelas situações.
Joker deixara-se ficar ao lado de Mark após a sua chegada. Tal como Ira, apresentava uma expressão enraivecida, cerrando os punhos e murmurando entre dentes frases incompreensíveis.
Por fim, ajoelhado ao lado de Combatente, estava o seu marido, Desistente.
O homem estava completamente arrasado. Os olhos mantinham-se muito abertos, como os de alguém que vê um filme de terror. Deles, tímidas lágrimas finas saíam, caindo pelo seu rosto até atingirem o de Combatente. O seu lábio inferior, tal como as mãos que seguravam a da idosa, tremia desesperadamente. O velho inspirava e expirava com força, parecendo até estar tendo um súbito ataque de asma.
– A-Acorda… – Gemeu – P-Por favor…
Ele abanou um pouco o corpo da mulher, que nem uma criança que não acredita no que vê.
– E-Ey, amor? – Chamou – Vamos àquele jardim juntos! Como prometido. Nós prometemos, não é verdade? Então, por favor…
Mordeu o lábio inferior, baixando a cabeça sem reação.
– P-Por favor… Eu… E-Eu nunca tive tempo de pedir desculpa… Por aquilo de ontem…
A voz de Desistente perdera forças. Enquanto o homem chorava pela sua perda, Mark compreendeu. Por trás daquelas palavras pesarosas do dia anterior, por detrás do desespero do velho perante a situação em que estavam…
Ainda havia uma esperança no coração dele. Por muito ténue que fosse essa crença, Desistente ainda confiava nas palavras da sua mulher. Combatente era a sua esperança. Uma mulher que, mesmo quando todos perdiam a vontade de lutar, ela continuaria. Ela não desistiria.
E o assassino destruíra essa esperança. Quebrou-a, esmagou-a e jogou os seus pedacinhos no lixo. Ele matara Combatente.
Desistente soltou um grito, ao qual não ouve resposta.
“Eu amo-te!”
–x-
O dia passava lentamente. Um a um, os hóspedes foram abandonando o lugar onde estava o corpo, embora Desistente não a abandonasse. Frágil e Mãe trancaram-se nos seus respetivos quartos. Sorriso, que já tinha abandonado a cena do crime quando Mark chegara, também assim o fizera. Ira mantivera-se no jardim, embora no extremo oposto do lugar onde Combatente fora encontrada. Voz preparava o almoço na cozinha, sozinho. Sombra não aparecera o dia todo – segundo Joker, ele nem sequer estava no quarto no início da manhã, quando ele fora chamar toda a gente. Bela ficara no quarto de música e, finalmente, Joker estava na sala de jantar – que não era mais que a sala dos quadros.
Mark estivera rondando pela mansão, sem muito que fazer, procurando algum modo de escapar daquele lugar. Não conseguiu encontrar nada, mas descobriu dois quartos no segundo andar dos quais desconhecia a sua existência: O escritório e a sala de jogos. A razão para não saber deles era simples: Nunca ninguém o avisara em relação a estes, pois estavam trancados “para remodelação”.
Quando entrou na sala de jantar, como já esperava, encontrou Joker. O moço entretinha-se a rodar um copo vazio de champagne entre os dedos, o olhar completamente ausente. Manteve-se no silêncio por algum tempo, e quando Mark se sentou à sua frente, ele acenou.
– Yo. – Cumprimentou, forçando um sorriso jovial. Mark podia sentir o energético jovem que vira nos dias anteriores a degradar-se um pouco. Sem grandes surpresas, contudo. Todos deviam estar assim.
– Joker. – Disse em resposta. O ambiente estava um pouco constrangedor, mas o homem continuou a insistir na conversa, querendo não só socializar mas também animar o outro – Hmm… Como vai?
– Como eu vou? – Começou Joker – Excelente, mesmo. Perfeito, até. Alguém morreu, estou dando PULOS DE EUFORIA!
Lá se fora a ideia de animar o mais novo. O rapaz jogou o copo no chão, com raiva. Os cacos voaram pelo chão, mas nenhum dos presentes fez algo para limpar. Em vez disso, Mark levou os olhos ao quadro de Combatente.
Antes da morte da mulher, o quadro era senhora idosa correndo numa espécie de jardim vivo e belo. Na altura, ela até parecia mais nova do que era. Agora, o quadro estava a preto e branco, tal como o do anfitrião. Além disso, estava virado ao contrário, e cacos de vidro – que Mark supôs que simbolizassem a janela de onde todos presumiram que ela caíra – estavam espetados à volta da figura, mas sem tocar nela.
Voltou os olhos para Joker quando se apercebeu que este queria falar com ele.
– …Desculpe. – Murmurou o mais novo – Eu… Eu realmente não sei o que fazer… Ela morreu!
Ele bateu no tampo da mesa com força, irritado. Depois bateu mais uma vez, e outra, e outra. Levou a mão à cabeça, tapando a cara.
– Me diga, Fera. O que é que eu faço!? – Gemeu – Eu não quero que mais ninguém morra! Eu não quero morrer, eu… Eu estou em pânico…
Começou a chorar, completamente perdido nos seus pensamentos. Em resultado, Mark deu um berro.
– JOKER! ACORDA MULEQUE! – Dera resultado. O jovem voltara a virar os olhos para o mais velho.
– Mas…
– Você realmente acha que ficar assim vai ajudar em alguma coisa? – Começou Mark. Sentia-se irritado com o outro, frustrado. – Isso nem parece uma atitude de alguém inteligente!
– Eu…
– Não, nós temos de lutar, ouviu bem? Lutar. A ideia de quem fez isso tudo… É deixar-nos assim, com certeza! Não podemos nos deixar abater!
– …
– Combatente foi embora. Quer deixar a sua morte em vão? Quer morrer que nem ela?
– NÃO!
– ENTÃO LUTE!
Mark até continuaria com o seu discurso motivacional, mas foi interrompido por uma tosse seca. Quando os dois olharam para a sua fonte, encontraram…
A mulher loira que os acompanhara no primeiro dia.
– VOCÊ! – Joker levantou-se, se preparando para o que quer que viesse. Por precaução, Mark imitou-o. – Você é aquela vagabunda! A que sumiu ontem, nós te procurámos só que tinha desaparecido sem deixar rasto! VOCÊ É A CULPADA QUE COMEÇOU TODA ESSA MERDA, NÃO É?
Em resposta, ela riu. Um riso falso, forçado, mas era riso. Se Mark conseguisse ver os olhos dela por baixo daquele chapéu, tinha a certeza que eles estariam brilhando de entusiasmo.
– Oh, eu só vim aqui esclarecer uma coisa. – Respondeu a loira, pegando nas pontas do seu vestido e fazendo uma vénia delicada. – Não vim interrompe-los no vosso jogo, do qual eu, com certeza, não estou participando.
Esperou uma resposta, mas nenhum dos homens disse alguma coisa.
– Eu só queria deixar claro o objetivo do nosso “jogo”.
– Que seria…? – Perguntou o mais velho, a irritação misturada com o medo lhe tirando um pouco da força das palavras. Por alguma razão, ele receava aquela mulher, e muito.
– Vingança. – O sorriso dela tomou um tom psicótico. – Isso é tudo o que nos interessa. Vingança.
– Vingança pelo quê? NÓS NEM SABEMOS QUEM VOCÊ É!
Outro riso fez-se ouvir, tão falso e descontextualizado como o primeiro.
– Oh, vocês vão compreender mais tarde. Ou não, se morrerem antes disso. – Ela virou a cara para o quadro de Combatente – Me pergunto quem será o próximo… Ah, sim, uma coisa mais. Por favor, contem aos outros hóspedes.
Mais uma vez, ela esperou que eles dissessem alguma coisa, mas tal não aconteceu.
– Sabem aquele televisor que está no vosso quarto? Então, toda a gente tem um. Lá podem ter acesso a vários canais, entre eles… Um canal de investigação feito pela própria casa! Não é fofo? Nós somos fofos.
– Continue logo e pare de se autovalorizar, ninguém aqui tem paciência para isso – Resmungou Mark, ainda irritado. A mulher riu em resposta.
– No canal de investigação terão algumas informações relativas ao assassinato. Não é nada de especial, apenas uma ajudinha na vossa eventual investigação para descobrir o assassino… E matá-lo, é claro.
– Nós NÃO vamos matar ninguém, sua louca! – Começou Joker. Contudo, foi ignorado, pelo que a loira saiu pela porta atrás de si. Mark correu atrás dela, mas quando passou pela porta…
Nada. A loira tinha sumido.
Notas finais
"Não lerás um capítulo sem postar review."
Obedeçam esse mandamento! Posso não ser movida a reviews, mas é sempre legal tê-las, não é?
(Já agora, obrigado a Ruth e a Pequena Sonhadora por favoritarem! Significa muito o//)
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