Notas iniciais
Espero que gostem do captulo!!!
Beijooos,
Ju!

Quando as primeiras sirenes começaram a tocar eu soube que algo estava tremendamente errado. Era um dia de semana. As pessoas iam cedo para casa nos dias de semana, faziam questão de dormir cedo, e até mesmo andar em uma velocidade agradável, para que todos pudessem ter paz. Até mesmo os policiais.

Os primeiros carros de polícia passaram voando por mim, deixando um rastro de folhas para trás, e elas teriam grudado em minha pele se eu não tivesse dado um passo pequeno para trás. Logo atrás vinha a ambulância recém-chegada de uma super lavagem, toda branquinha, sem nenhum traço de poeira. Suas sirenes eram altas, avisando a todos para saírem do caminho.

Os carros pararam cantando pneu no estacionamento da piscina. Alguns adolescentes por ali acabaram se afastando com a súbita entrada e parada brusca da ambulância logo atrás. Eu tinha a sensação de que se o motorista da ambulância não fosse bom, teria batido na traseira do carro de polícia.

Meu corpo ainda estava frio, mesmo que eu estivesse enrolada em uma toalha de banho; e apesar de todo o calor de fazia nesta época do ano, eu sentia como se estivesse congelando em pleno verão. Meus dentes batiam uns nos outros e eu tinha a completa certeza de que minha boca havia passado de uma tonalidade rósea para o mais roxo-azulado que se pode chegar, por conta do frio.

Ally? Ally?

A voz incessante ressoava em minha mente como uma daquelas músicas grudentas que o pessoal das rádios nos faziam ouvir, e depois ter a satisfação de escutar adolescentes cantarolando seus versos ou até mesmo dançarem sob o ritmo de sua batida ritmada e nada combinante com a letra mal formulada.

Eu não conseguia entender o que estava acontecendo. Em um minuto eu estava nadando na piscina local, na raia de sempre, usando meu maiô preto de natação, e no outro me encontrava do lado de dentro do lote da piscina, — mas não mais dentro dela – como se tivesse acabado de acordar de um de meus ataques de sonambulismo, agarrada à uma toalha da gatinha Marie que minha irmã mais nova tinha me emprestado, sentindo um frio que eu jamais havia sentido antes.

De vez em quando Maggie era solidária a ponto de me emprestar uma de suas toalhas favoritas.

Tudo à minha volta parecia levemente enevoado, quase como um sonho.

Minha garganta parecia tremendamente seca, e eu duvidava que água fosse resolver, neste caso.

Já estava de noite. A lua tinha tomado o seu posto, e a floresta atrás da piscina me parecia muito mais assustadora do que antes. Arrepios percorreram meu corpo. Será que eu não tinha percebido o tempo passar? Será que teria ficado tempo demais dentro d’água para me esquecer do mundo fora dela?

Estiquei meus dedos na frente do rosto enquanto tentava achar uma justificativa que pudesse levar-me a explicação de o por quê eu teria ficado tão ausente estas horas.

Se eu tivesse ficado dentro da água por tanto tempo, meus dedos pareceriam maracujás de tão enrugados, mas confusamente os meus pareciam normais demais. Como se eu sequer tivesse entrado na água.

Era possível ouvir meu queixo batendo, mas, ainda assim, nenhum paramédico parou para me socorrer enquanto eu esticava as mãos em um sinal claro de que precisava o mais rápido de ajuda.

Eles estavam ocupados, isso eu conseguia ver perfeitamente, mas não era como se isso fosse uma desculpa esfarrapada para não atender uma adolescente parada praticamente na frente deles, morrendo de frio, precisando de ajuda. Eles não poderiam ignorar uma cidadã de Clearwater, uma cidade famosa por sua segurança e atendimento hospitalar que deveria ser considerada top de linha se não fosse de uma “cidade pequena”.

Afinal, eles tinham que manter as boas aparências, certo?

Um paramédico jovem, na casa dos 30, com aparência cansada de quem tinha acabado de chegar de um plantão de 24 horas, e a barba por fazer, suspirou enquanto mexia rapidamente na bolsa de primeiros socorros, colocando e tirando coisas, e arrumava até mesmo a maca, deixando-a em posição.

- Ei! – gritei o mais alto que pude, mas mesmo assim ele não se virou. – Por favor, moço, me ajude! – implorei.

As lágrimas vieram a meus olhos quando ele nem ao menos fez menção de se virar em minha direção.

- Por favor, por favor! – eu gritei novamente.

Minha garganta arranhava tamanho esforço eu fazia para ser ouvida. Eu tinha certeza de que se continuasse gritando daquela maneira, ficaria sem voz até o final do dia.

A toalha em minha volta pareceu não surtir efeito algum para barrar o frio. Meu maiô de natação não estava molhado. Meus óculos para mergulho estavam pendurados em meu pescoço, meu cabelo caindo em uma linha reta até o final de meu pescoço, meus chinelos cinza ainda em meus pés. E ainda assim ninguém parecia me notar ali.

Um assobio cruzou a noite e fez com que a cabeça do paramédico se virasse em minha direção. Ele olhou para mim e eu quase suspirei de alívio.

Então foi quando percebi.

Ele não olhava para mim.

Ele olhava através de mim.

- Achamos a garota! – uma voz masculina e forte gritou de dentro da floresta detrás da piscina.

Só de pensar nela, meu estômago deu reviravoltas.

O paramédico correu, enquanto suas mãos seguravam firmemente a bolsa de primeiros socorros, diretamente em direção à voz.

E apesar de meus membros dormentes por causa do frio, manejei ordenar minhas pernas a correrem atrás do paramédico o mais rápido possível. Eu tentava a todo custo o alcançar, mas o terreno cheio de folhas e galhos não me ajudava.

Meu ofegar começava a ficar mais alto ainda. Eu corria por minha sobrevivência. Se aquele carinha sem coração não tinha a sensatez de me ajudar, outros o fariam.

E eu tentei o máximo possível manter minha corrida estável para encontrar estes outros.

Minhas pernas gritavam para que eu parasse de correr.

Não! Continue!, minha mente me forçava.

- Não vai precisar disto aí, Caleb. – outro homem vestido de policial disse ao paramédico carregando a maleta.

- Sempre preciso. – ele disse.

- Não com essa, Caleb. Ela acabou de ir desta pra melhor.

Caleb se apressou, correndo o mais rápido possível, praticamente desaparecendo por entre as árvores espessas e escuras. Se não fosse por diversas luzes iluminando algo no chão, ele definitivamente teria sumido.

Um aperto no peito me fez voltar à realidade. Algo dentro de mim fazia questão de me dizer que não seria uma boa coisa voltar para lá.

Era possível ver a figura distinta do paramédico agachado ao lado de uma figura iluminada demais. Meu coração bateu mais rápido no peito.

Olhei de um lado para o outro, tentando evitar a imagem, mas ignorando o sentimento de querer correr e sumir, caminhei até a figura iluminada e minhas pernas cederam ao lado do corpo.

Feridas abertas por todo o peito exposto, o maiô rasgado quase completamente, mostrando os seios e o umbigo. Eu a quis cobrir com as mãos para que aqueles homens não a olhassem daquela maneira. Suas pernas estavam expostas demais, brancas e pálidas além da medida. As lágrimas que banhavam meus olhos não eram nada melhores do que o choro que ecoava em meu peito. O chiado da respiração falhando por conta do ataque que eu estava tendo fazia com que eu parecesse com um cachorro machucado. Sentei-me ao lado do corpo e tentei tocar o braço gélido, me arrependendo logo em seguida, quando não senti absolutamente nada.

- Acorda, por favor, acorda! – gritei em desespero, apertando minhas coxas desnudas.

O paramédico correu até o corpo e apoiou as mãos no peito desnudo, fazendo uma massagem cardíaca. Ele contou até dez, tampou o nariz da menina estirada no chão e encostou sua boca na dela, soprando o ar para dento de seus pulmões.

- Vamos, garota. Não chegou sua hora ainda. – sua voz era baixa, mas eu conseguia ouvir.

Mais algumas vezes ele repetiu o processo. O outro paramédico que tinha acabado de chegar já fazia os curativos nas feridas expostas, tentando estancar um corte fundo na perna branquicela e muito magra, sem músculos algum, trabalhando com rapidez. Eu via sangue em todos os lugares. Os panos que ele colocava para tentar estancar o sangue e limpar o corpo jaziam do lado de sua perna, sujos com o líquido vermelho. Mais e mais.

- Merda. – o paramédico disse.

Eu senti algo explodir em meu peito no mesmo momento que a menina no chão voltou a respirar. Era como um novo coração batendo dentro de mim.

A Ally deitada à minha frente não era eu.

Ela era uma versão cadavérica de mim mesma, repleta de machucados e curativos, em um estado estranho.

E eu ainda não entendia por quê não tinha voltado para meu corpo se minha respiração já estava estabilizada.

Em segundos a maca de dentro da ambulância estava ao lado de meu corpo estirado no chão, frágil demais para que eu conseguisse olhar, e eles me imobilizavam como se eu fosse um boneco de pano.

Era possível ver meu peito subir e descer lentamente. Uma mão entrou na frente de meu rosto impassível e praticamente morto, segurando um tubo.

- Entubando às 20:40. – o paramédico disse, e conectou uma bombinha vermelha para me fazer respirar melhor.

Um homem alto de cabelos escuros estava parado me encarando. Eu tinha certeza disso porque quando me movi alguns metros para o lado, ele seguiu com o olhar. Seus olhos eram frios, distantes e confusos.

Minha cabeça praticamente se torceu quando vi a maca passar por mim.

- Temos 20 minutos para chegar ao hospital geral.

E eu corri para entrar na ambulância atrás de meu corpo, sentando-me em um espaço mínimo, tentando não olhar enquanto eles trabalhavam ainda em meu machucado.

Meus olhos foram atraídos para o lado de fora da ambulância, onde o homem de cabelos escuros ainda me olhava, mais confuso do que nunca.

Notas finais
Continua?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.