Silence
1 Silence
Silêncio.
Quando colocava aqueles fones, tudo o que Nice podia escutar eram as batidas do próprio coração.
Sempre que ativava seu Minimum, parecia que todo mundo ao redor dele se afastava, e movia-se tão rápido que uma bala não poderia tocá-lo. Era como ser o maestro de sua própria orquestra, e Nice dançava conforme a música que ditava.
Também era naquele momento que se sentia mais solitário.
(Ninguém podia alcança-lo. Era o melhor aluno da escola, possuía as melhores notas de forma espantosa, e por conta da sua extrema habilidade todos se afastavam. Todos o olhavam debaixo.
Não era isso que Nice queria. Ele desejava um mundo onde as pessoas pudessem se aceitar como eram, fossem elas portadores do Minimum ou não)
Ele gostava da maneira como o vento batia em seu rosto e da forma como os headphones bagunçavam seus cabelos todas as vezes em que os colocava. Gostava especialmente do fato de não precisar ouvir nada, do mundo todo ao seu redor se calar. E se sentia tão poderoso, mesmo que isso, no fim das contas, não significasse nada.
(Ele sempre via como os outros o olhavam de maneira diferente, como se fosse alguma espécie de gênio, mas Nice não se considerava assim. Para ele, os gênios eram aqueles que se esforçavam pelo seu melhor. Pessoas como aquele menino franzino que não possuía seu poder Minimum manifestado, mas que nem por isso desistiam de tentar.
Nice o observava de longe, apreciando sua força de vontade, a forma como nunca desistia, mas não conseguia aceitar a política daquela escola. Por que queriam endeusa-lo só porque conseguia demonstrar sua habilidade melhor do que os outros? Isso não o tornava mais especial do que ninguém...)
Mas ele não se sentia sozinho. Moral não tinha o direito de dizer que ele era solitário, pois não era. Ele era a dupla de Murasaki no Hamatora. Mais do que isso, ele era seu amigo, seu melhor amigo. Ele tinha Hajime, a quem desejava proteger, Koneko que as vezes pegava pesado, mas apenas porque queria o bem deles, o Chefe, sempre ralhando mas cedendo o espaço mesmo quando atrasavam o aluguel da mesa, Ratio, que do seu jeito mal-humorado sempre conseguia ajudar nos casos, Birthday, que com seus sorrisos era capaz de cativar todo o ambiente. E Art...Art que brigava com ele, que sempre se preocupava em protege-lo, mesmo que do seu jeito... agora morto. Inacreditavelmente morto. Como havia sido seu último diálogo? Quando Moral havia começado a agir como ele?
(Quando o conheceu, era um menino esforçado e sorridente. Cheio de vida e de capacidade, orgulhoso por estar naquela escola, cercado de pessoas tão habilidosas e por fazer parte delas. E mesmo quando Nice decidiu deixar a escola, seguido por Murasaki, ele continuou se esforçando e se formou, mesmo sem demonstrar nenhuma aptidão para o Minimum. Era o seu esforço... que o havia colocado ali. E por que ele não podia ser feliz assim?)
Era inaceitável. Inaceitável o que ele queria, o que pensava. Não era solitário. Era verdade que o silêncio o atingia quando usava seu poder, mas nem por isso... nem por isso era sozinho. Seus amigos sempre estavam por perto. Eram uma parte da sua força. Por que ele não podia compreender isso? Por que?
(Por que ele era sozinho? Buscava nele uma forma de se encontrar? Porque eram parecidos... de certa forma, eram parecidos. Por isso Art desejava evitar o seu encontro, mas isso era algo que jamais descobriria agora que ele estava morto. E como devia ter sido sua morte? Ele havia sofrido muito? Teria sentido muita dor? Não sabia... mas esperava que não)
O ódio o consumia, o consumia só de pensar nisso. De pensar em todas as coisas ruins que Moral havia feito por causa de sua realidade distorcida, por ter tecido um mundo ao redor dele que não existia. Nunca havia pedido sua ajuda. E enquanto estava naquele navio ouvindo todas aquelas coisas, o ódio apenas ascendia em seu peio. Como queria mata-lo...
“Eu matei Takahiro.
Art? Sua morte foi tão insignificante, mas eu o matei”
Cada palavra cuspida por ele era uma blasfêmia. Queria rasga-lo ao meio, destruí-lo. Ultrapassá-lo na velocidade do som para que ficasse em pedaços, e então pisaria nesses pedaços até que não sobrasse nada, apenas para ter certeza de que ele jamais se restauraria.
(Ficava imaginando a expressão vazia de Art no momento de sua morte. Ele teria chorado? Nice imaginava que não. Art era forte demais para dar esse gosto ao seu inimigo. E talvez, desde o início, ele soubesse que terminaria assim.
Lembrava então da expressão de terror de Hajime ao ver Takahiro se explodindo. Ela havia se apegado tanto a ele... por que Moral achava-se o Messias? Por que achava que era superior a alguém?
Aquele lixo... ele sim merecia morrer)
Cada soco que ele lhe dava, cada chute, cada ferimento não o frustravam tanto quanto a sensação de impotência. Não se sentia inferior, mas queria poder fazer algo por todos... sentia que devia a eles, mesmo que isso o marcasse para sempre. Aquele Minimum proibido... o teleporte, tão diferente de sua super velocidade e nas mãos de um lunático. Cada segundo era valioso e Nice não podia permitir que seus planos se realizassem. Não daquela forma.
O que ele dizia era inaceitável. Ele não podia ditar quem era forte ou fraco.
(ELE NÃO É DEUS!)
Ele não podia. E cabia a Nice mostrar
(quem era forte)
o que era certo. Devia mostrar, devia mostrar, devia mostrar.
(Mas onde estava sua força? Onde estava? Ficar no chão... parecia melhor...)
Então ele veio. Mesmo enfraquecido, mesmo tendo usado seu Minimum por tanto tempo, ali estava Murasaki para apoiá-lo.
(Não estava sozinho)
- Eu falei... para não fazer nada diferente de você... você não é do tipo... que vinga alguém.
Como um tapa na cara.
- Murasaki...
- Você é mais...
Antes que pudesse lhe dizer, havia desfalecido.
(De repente, todo o som ao redor de Nice desapareceu sem que colocasse os fones)
Estava compondo uma nova música. Para enfrentar Moral, era preciso recompor toda sua orquestra. E, se preciso, faria isso de novo e de novo e de novo até que o derrotasse completamente. Precisava se concentrar, precisava de foco... ao ponto de lançar seu próprio celular na água. E então finalmente... finalmente havia se dado conta.
(Não era um herói)
Seu poder não era para os outros, nem pelo bem dos outros.
(O que ele queria que todos entendessem...)
Seu poder era para ele mesmo. Para que se sentisse bem consigo mesmo.
(E se não tivesse um poder também, tudo bem.... o que importava...)
O que realmente importava era que se sentisse bem consigo mesmo. Nada mais do que isso. Mas não deixaria... não deixaria que Moral agisse como queria...
“Porque eu não gosto de você”
A sua força era simplesmente acreditar que para ele, não existiam limites. Fosse a velocidade do teleporte, ou da luz. Para alcançar seus objetivos – mesmo que não fossem grandiosos – Nice sempre quebraria suas barreiras.
(E naquele momento, pela primeira vez, ouviu sua própria orquestra enquanto a chuva caía ao redor deles. Ouviu sua melodia... e ela era bonita e o forçava ao limite)
Viu Moral cair diante de sua força, sucumbir pela própria ganância. E de repente Art estava ali.
(Vivo)
E Moral morto, invertendo completamente os papéis.
(Art era assim? Um assassino de sangue frio?)
Não podia acreditar quando sentiu o cano frio da arma sobre sua cabeça.
“Desculpe estar atrasado”
O disparo foi seco e teve que desviar-se rapidamente, sentindo a bala atravessar o seu braço. As outras vieram em seguida, sem que tivesse chance de ativar seu Minimum. Ouviu a voz de Murasaki e tudo tornou-se negro.
(E de repente o silêncio havia retornado à sua canção)
X
Ele não estava sozinho.
Não quando todos haviam se esforçado tanto, até feito um funeral para protege-lo enquanto descansava. Não quando a pequena Hajime havia se candidatado para ficar em seu lugar ao lado de Murasaki como detetive da Hamatora.
Ele nunca mais estaria sozinho.
Nunca mais.
Notas finais
Ainda pretendo voltar com fics envolvendo ele e outras pessoas, como casal ou não. Espero que goste do seu presente, Dudinha. Essa é pra você.
Comentem pra eu saber o que estão achando!
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