Silício

4 Who are you when no one is looking?


Cassieopea

12:00 pm — horário de almoço!
Um grito entordecente me traz de volta a dimensão.
— vamos cassie, conheço um restaurante vegano aqui por perto.
— Não...Não. Obrigada mas tenho muito trabalho a fazer, mais tarde como algo.
Viro-me para a tela do computador e consigo ver apenas o reflexo de Jeena pela vidraça.

Evito contato humano o máximo que posso. Minhas forças estão sempre faltando. Meu corpo anêmico perto deles e minha mente, ela se esvazia completamente.
Estou sozinha na File, todos sairão. Agora posso me focar no que realmente importa.

Saint Louis é mais uma vez contemplado com um assassinato à sangue frio. Mulheres, mais uma mulher é estuprada brutalmente e deixada ao réu, em frente a biblioteca central, nos florestados da cidade.
A vítima Blair Oxford , de origem latino-americano, que, por sua vez, foi surpreendida com um golpe na mandíbula. Isso ocorreu às 00:35 da noite de hoje.

Leio atentamente o noticiário. É como, se ao ler, um rápido lampejo de luz atravessa meus olhos. Um rápido lampejo em meio a escuridão que está minha mente. Engulo à seco aquilo que minha mente acabou de absorver dos papéis. É como se meu corpo precisasse entender o porque de tais assassinato um atrás do outro. Sinto-me à deriva. Não é um simples caso de abuso sexual, não é só mais uma matéria para minha coluna, muito menos um caso de se comparar. Toda força negativa está me puxando para que eu leia mais. Mas ao mesmo instante, um lado dos meus pensamentos toca uma sinfonia, como se fosse sinos batendo um no outro. Não brutalmnte, nem desesperadamente. Um no outro, como se precisassem se unir. Então o som das campainhas ficam suaves, aveludadas e serena. E só consigo ouvir no seguinte tom "Laura"..."Laura, onde está o relatório! ?".
Sim, estou enlouquecendo.
No momento que me virei para ver a dona da voz que expressava seriedade, foi quebrado, interrompido toda seriedade, toda sensatez que foi posta nas palavras. O lampejo de luz em meio a escuridão surgiu daquele momento. Minhas oernas enfraqueceram. Meus lábios só queriam tremer, mas segurei-os com força. Minhas mãos, elas soaram frio. Como uma vítima em frente há um carro na estrada eu fiquei, e ela. Ela passou por cima de mim, feroz, como se fizesse isso inocentemente, sem que soubesse que estivesse fazendo.
Minha mente agora está dividida em diversas partes, e todos eles têm a voz dela.
Um turbilhão de pensamentos invadiram minha mente. Era um rosto diferente do que jamais vi. Era como se todos tecidos e músculos por volta dela, estava flutuando e espalhando por toda atmosfera o perfume que carregava. Eu respirei aquela fragrância. Era forte, cheio de atitude, assim como ela era. Aquele oxigênio perfumado passou por todos meus órgãos, despertando uma espécie de cura para todo e qualquer doença. As mãos dela, como previsto, macias. Ela era mesmo uma autoridade, na qual eu queria receber ordens. Estou enlouquecendo? Talvez, quem sabe. Só tinha a certeza de que eu fui atingida brutalmente por um alguém. Um alguém. A chefe da Laura.

Minha mente volta totalmente ao noticiário. Preciso ir.

01h36 pm agarro minha moto, dou partida, atravesso a cidade e chego no local do assassinato. Pobre moça, despida e desprovida de vida. O que fizeram com ela? Toda ensanguentada, porém o sangue já está seco, estorricado em seu corpo albino. Porém não tem aparência de golpes fortes em suas partes íntimas. Pelo contrário, as marcas são exteriores, e rodeiam toda sua vagina, mas ela está ali, estática. Ematomas, arranhões e mordidas por sob sua carcaça. Maneira fútil de dizer, mas é a verdade. Nem toda verdade é flores.
Sua cabeça está organizada sob um degrau de pedra, e tem ao lado uma figura de uma pintura. É Monet. Aquela sensação se alastra. Porque estou com medo? Meu corpo dói.
— Levaremos o corpo para diagnosticá-lo. Afastem-se, pois, os paramédicos está à caminho. — pronuncia um dos médicos que fazem parte da investigação.
— Posso acompanhá-lo? Sou do jornal local newspaper File e to cuidando do caso. — dirijo a palavra pro senhor.
— Não vamos autorizar presença da imprensa no processo de diagnóstico. Por favor não insista.
— O corpo será exposto para investigação logo. — termina o senhor.

02h17 pm — moça? Por favor, será que já posso entrar? Estou aqui à horas.
— acompanhe-me Srta...
— Prescott, Cassieopea Prescott.
— Ótimo. Farei uma ficha de protocolo, vou levar ao Dr. e então vai poder entrar.
— obrigada.
Depois de vinte minutos, a enfermeira volta com a prancheta e uns papéis e uma caneta. Assino a ficha de protocolo e me direciono a sala de diagnóstico e autópsia sem pestanejar.

— Oi Doutor, se lembra de mim? A jornalista que está tratando do caso.
— sim. Esse corpo não há vestígios de sêmen ou dados masculinos. Mas de fato, foi um estupro. — adianta o Dr. sem delongas.
— Esta me dizendo que o assassino...
— Sim, é possível que o estuprador seja uma mulher. Tudo indica isso.
Fiquei alarmada, mas não, surpresa.
— Esse é só mais um dos casos da coleção de estupros que estamos lidando na cidade. É só mais uma prova de que o assassino é uma figura feminina e que, a tal assassina, é psicopata. Mata a sangue frio e sem dó.
— Com cada vítima é praticado um ritual diferente, pode ser que participe de algum grupo satânico.
— Ou por mero prazer. — interrompo. — afinal, psicopatas agem friamente por mero prazer.
— A assassina deixa sempre em todos, uma pintura e o corpo imitando. Talvez seja uma característica sua.
— E o cérebro, foi afetado por alguma droga ou controle adverso?
— Sim. Encontramos marcas de agulha. A moça foi atingida por fortes doses de morfina, fazendo com que cesse toda e qualquer força física. Atingiu também um lado do cérebro, produzindo enzimas e acelerando seu coma.
— Srta. Prescott, temos nos nossos arquivos outros assassinatos cometidos pelo mesmo. — procede o médico abrindo uma gaveta gigante ao lado de sua mesa, tirando de dentro, pastas e pastas infindáveis de papéis. Direciona até mim uma pasta surrada e bege com centenas de fotos, etiquetada como "Tipo B", ou seja, casos graves e incompletos.
Ele entrega nas minhas mãos com a intenção de que eu apalpe.
— Sobraram somente essas pistas dos casos anteriores. Os corpos foram deteriorados e pistas sólidas, arquivadas no Hospital Central.
— Doutor, aqui está meu número. Me liga sempre que tiver noticias. — entrego um papel, após pegar a pasta das suas mãos. Paro em frente ao corpo, recolho o máximo de pistas que posso, sem perceber, o braço direito desliza para fora da maca, e cai sobre meus pés um pouco de grama do florestado. Me dói imaginar essa pobre menina que foi vítima de um prazer psicótico, oco. Prossigo até a porta e cai sobre meus ossos uma força pesada, inconstante. E repito comigo mesma, "Vou conseguir" e isso me dá forças. Era o que eu precisava.

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Mercúrio

Momento em que Cassie está no consultório

A mulher alta, de porte magro se virou para me cumprimentar. Achei que não faria isso, transpareceu uma arrogância farta.
— Prazer, Cassie.
Ela é um anjo. Mas não um anjo de céu. Um anjo das trevas. Que trouxe consigo uma ruína, uma tragédia. Beleza madura e cansada mas os olhos transparecem uma criança indefesa pedindo amor, ela é linda.
— Prazer, Dra. Mercúrio. Caso precise de atendimento, estarei aqui, vou adorar atendê-la. — respondo a desconhecida num tom malicioso, insinuante e solidário. Ao mesmo tempo, ela me encara como se não precisasse de elogios alheios, nem cobiças. O olhar dela é penetrante e está penetrando minha alma, corroendo tudo por dentro. Ela está me fodendo por inteira, mas não me intimida, me faz querer ser fodida e querer acariciar órgão por órgão, músculo por músculo.

Então ela sai imediatamente para a portaria como se estivesse correndo contra o tempo e lauz, fica andando de um lado para outro, como se o mundo estivesse caindo em suas costas. Ela está sempre perdida nos teus devaneios de perfeccionismo que não consegue enchergar a ligação forte que acabou de ocorrer. Uma força maior, esse encontro. Nada disso foi coincidência, nem planejado. Foi previsto, interligado. Eu? Eu a quero. Como um cão quer encontrar e roer o osso. E eu, eu a encontrei, o destino trouxe até mim. E eu, eu preciso roer a sua pele, e tornar a sua, em minha. Minha mente precisa dormir.

05h07 am Abro os olhos e só consigo enchergar uma luz forte no meu rosto. São as janelas, esqueci abertas e a luz do sol está incandescendo meu rosto. Olho para a parede à minha frente. Cinza, exatamente como eu gosto. Grande e vazia. O reflexo do sol pela janela transforma o cinza em roxo, mas continua belo.

Arrumo meus cabelos e olho para o espelho, que está no teto. Ainda me lembro do sacrifício que foi colocar esse espelho aí. Gosto de me ver de manhã, gosto de me ver sempre. Me lavanto da cama e rapidamente meus pés entram em atrito com o frio do carpete e o quente dos meus pés. Preciso tomar um banho, o cheiro do trabalho esta impregnado nas minhas roupas e isso está me consumindo. Me apreço pra chegar no banheiro, as roupas caem sobre meus músculos quando puxo as alças. Por conta do meu corpo magro e estático. Preciso de um banho. Entro na banheira e então, todo o peso da ruína cai sobre mim.

É como se precisasse de uma direção, de algo que preenchesse a porra do vazio que tem dentro de uma cratera subterrânea em mim. E a direção esta longe, porque ela me distancia. É ela, é Cassie. Eu a amo. Não preciso tocá-la ou beijá-la pra saber disso. Eu a amo e ela é a minha ruína. Todo lixo catalisado dentro de mim só vai aumentar, porque eu a amo.

Notas finais
???