Silício
5 Tango's bar
Notas iniciais
Cassieopea
Friday
05h05 pm meu telefone nem se quer vibrou. Depois do meu último encontro com o Doutor, ele não me ligou com nenhuma pista, aliás, todas aquelas fotos dentro da pasta não foi tocada. Toda vez que bato o olho naquela pasta, tudo em mim estremece e minha curiosidade só aumenta. Estamos tratando de um caso especial, estamos lidando com um psicopata. Não temos dimensão dos seus limites, muito menos dos seus fetiches trajantes.
Jeena senta ao meu lado, passa os braços longos e bronzeado por sob meus ombros como se nos conhecêssemos de outra vida. Mas ela sempre foi assim, amigável com todos, sociável e baladeira. Conhece os melhores barzinhos da cidade e já trabalhou um bom tempo como bartender, sabe fazer os drinks mais exóticos que se possa imaginar. Ainda me lembro da última vez em que ela me arrastou para uma "have particular", que estava mais para uma balada GLS na qual a ex dela era a Dj. Foi desastroso. Ela me fez provar todos os drinks que o barman oferecia, tocava Where do is the love? No fundo temático. Foi a primeira vez em que frequentei um bate-estaca. Confesso que adorei, mas a ressaca do dia seguinte só me fazia lembrar das luzes florescentes e as batidas da música sem letra que ficaram latejando na minha cabeça.
— Bom dia Prescott... — me dirije a palavra com um tom sarcástico e malicioso.
— Você está em cima de mim, poderia respeitar meu espaço pessoal. — respondo cortando toda e qualquer expectativa.
— Teu mal humor não atinge o meu, sabe por que?
— Por que?
— Porque iremos numa Happy hour hoje.
— Mais uma de suas sociais? Adoraria ir mais estou ocupada.
Não queria ir, não fazia parte daquilo, não no momento. Não tinha cabeça para dançar.
— Você ta sempre enterrada nessa editora. Você ta criando raízes, ta se tornando uma árvore no meio do escritório. Você vem comigo e vamo se divertir.
— Alias não será nada de luzes florescentes e música eletrônica. Vamos num barzinho no centro da cidade, em frente ao florestado.
No primeiro momento já imaginei que Jeena iria me forçar a ir, mas me vi obrigada a ir, exatamente o local da tragédia. Vantagem para a investigação.
— ok.
— Ok? Eu vou concordar né, não é sempre que aceita tão fácil.
— posso continuar a escrever agora? — respondo tirando de mim o peso dos seus braços finos.
— Disponha. 06h00 depois do expediente. — finaliza dando uma risada irônica, levantando-se em direção à mesa dela.
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Mercúrio
05h05 pm Acabo de sair do banho com vapor de limpeza, adoro isso. Procuro no fundo do meu closet, nas peças de roupa que não uso com frequência, achei. O vestido vermelho que comprei uns anos atrás quando voltava da viagem em Amsterdam. Não fico provando diversas peças de roupas na frente do espelho como uma neurótica que precisa da aprovação de alguém. Sou objetiva e vou direto na peça escolhida, e dessa vez, é o vestido vermelho de Amsterdam. Ele é inteiro de veludo, vinho acobredado e fosco. Sem mangas e três palmos acima do joelho. Sim, ele é curto. Um "sexy sem ser vulgar". Ele é cavado nas costas. Uma abertura extensiva que vai até o cox, deixando à mostra minha tatuagem, que intercala entre as covinhas bem marcadas e as curvas da minha cintura. Por fim, na barra contém uma etiqueta dourada que diz "Giorgio Armani". Sim, costura francesa.
Geralmente uso um scarpin esmaltado para ressaltar o vermelho, mas agora vou usar um peep toe nude clássico. Vai sobrepor e compôr as cores das minhas unhas. Meu closet é uma composição de Cap toes e Peep toes infindáveis. Todos de cores neutras, tanto clássicas quanto contemporânea.
Em seguida, vou até a penteadeira, solto as madeixas e apenas as deixo retas e lisas. Amo meu cabelo castanho e curto. Tenho um certo fetiche por cabelos curtos.
Por fim, passo meu perfume que uso há uns seis anos consecutivos. Chanel n° 2.
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Cassieopea
06h00 pm Jeena dirige que nem uma louca. Piloto de fuga.
— achei que fôssemos só nós duas Jeena.
— de mulheres sim. E mais, é só algumas pessoas do escritório, se tentasse conversar com outras pessoas além de Carl, saberia que são legais.
Dou uma leve franzida na testa, com os olhos semicerrados encarando Jeena fazendo seu discurso demagógico.
— Chegamos.
Olho pela janela do carro, a Central está mais movimentada do que a época de compras pro natal. Filas e mais filas de carros buzinando nos meus ouvidos, e muitas luzes quentes, outdoors de propagandas até na testa de Jeena.
— pra uma cidade pequena ta bem monopolizada.
— É St Louis Cass, não o celeiro de uma fazenda.
— verdade, para uma cidade latino-americana tabom. Vocês adoram movimento.
Jeena riu. Faz só seis meses que me mudei pra cá. Fui transferida de editora novaiorquina para um jornal local jeitosinho.
— vem, vamos...
Meus olhos imediatamente bate em um prédio bem a minha frente. É infindável. Olho um pouco mais pra cima "Tango's bar".
— me trouxe pra dançar tango J? Isso é uma espcie de outback mexicano?
— quase isso. Vai gostar, prometo. — responde animada abrindo a porta e me empurrando para fora.
Entramos e logo dei de cara com as portas dos banheiros. Péssimo local para se pôr os banheiros. Confesso que a decoração é linda e bem pensada, compensou os banheiros. No lado norte do bar fica o balcão de bebidas, pega uma parede inteira e os drinks são divididos entre o bartender e a tequileira. Logo no meio tem um palco não muito grande de bordas redondas feito de gesso. Tem uma dançarina linda sapateando e mostrando todo seu talento na dança. Ela está com uma roupa caracterizada do México e os cabelos uma mistura de gel e suor. Em volta estão as mesas, com pessoas bebendo, rindo e se divertindo mas os olhares é de puro cansaço por conta do trabalho. No lado oposto do balcão, tem outro palco enorme que pega um terço da parede. Tem uma moça sentada no banquinho proporcionado e um violão, tocando um jazz com country. Se ficar de lado consegue ver uma banda de jazz e uma mulher no estilo latino esperando no backstage. Sua ansiedade transluz no rosto. E por fim tem espaço para dançar tanto no segundo andar, sim, tem segundo andar que é ainda mais bonito , pois tem uma vidraça por cima do letreiro gigante escrito Tango's bar. Um lugar aconchegante e quente. Dá pra sentir a vibração da dança local e da pimenta nas bandejas dos garçons.
— meninas? Vem, sentem aqui! — Grita o spencer do outro lado do mundo.
Pra que escolher uma mesa tão longe? Então Spencer e Nickols invadem meu campo de visão. Já dirigi a palavra algumas vezes a eles, são legais.
Me sento de costas para aonde ta a dançarina e logo o garçom chega por trás.
— Boa noite senhores. Gostaria de algo?
Me viro para responder mas logo meus lábios travam. Não sei o que responder, não conheço comida mexicana. Jeena responde por mim já que ela percebe o desespero estampado no meu rosto.
— Eu e a Prescott queremos burritos apimentados e vinho quente. Meninos?
— banana flambada e duas cervejas cerradas.
— sério? Quem come sobremesa com cerveja Spencer!? — berra J.
— eu. Eu como. — Nickols riu.
— ótimo. Já trago. — falou o garçom levando de volta o cardápio.
— primeira vez que come comida mexicana? — me perguntou Nickols.
— Não, já tinha comido burritos em Nova York. Mas não apimentados.
Nickols não parecia ter a idade que tem, parecia um adolescente de dezesseis anos britânico que era o sonho das garotas. Loiro com cabelo repicado e 1,65 de altura. Me lembrava Niall Horan.
— Você é britânico?
— sim, inclusive adoro sherlock holmes.
Eu dei risada. Por mais idiota que foi a piada eu gostei, porque gostava de ler Holmes.
Spencer e Jeena me olharam dar uma risada frouxa pela primeira vez e então nos olharam com um olhar malicioso, como se quisessem que a conversa continuasse.
— novaiorquinas são dinâmicas e práticas, por isso prefiro trabalhar com você. — continuou nickols.
Ele trabalhava comigo mas nunca o notava por conta da minha agitação. Eu nunca ficava o tempo todo no escritório. Levantava, saía, investigava, voltava, tomava café e fixava na tela do computador. Ele apenas levantava pra pegar café pra mim e Jeena e sentava novamente. Ele cuidava inteiramente dos relatórios e agendas.
— Você também não é ruim no que faz.
A conversa foi encerrada por conta dos petiscos terem chegado.
Meia hora depois, estávamos conversando e rindo sobre coisas aleatórias. Me sentia a vontade, minha jaqueta de couro estava sobre a cadeira e minha bolsa carteiro pendurada ao lado. O dono do bar então tomou a voz no microfone:
— Peço atenção a todos. A música ao vivo foi encerrada, caso queiram pedir uma música na vitrola eletrônica se direcione até a caixa.
Vitrola eletrônica? Era como se tivessem trazido os anos cinquenta de volta para o futuro. Ele encerrou e então começou a tocar no salão You know I'm no good. Meus ouvidos se contorceram de felicidade. Eu amava Amy WineHouse, simplesmente a amava. Imediatamente Jeena se animou puxando Spencer pelo braço.
— vem, vamos dançar!
Spencer excêntrico como era, adorou. Eu estava rindo por dentro e fazendo charminho por fora. Daonde Jeena estava deu uma piscadela pra mim e olhou para Nickols. Capturei a intenção logo e então balancei a cabeça que não e me virei para a mesa. Do meio das pessoas dançando surgiu uma moça, que também parecia adolescente e chamou Nickols para dançar, não me importei, não queria dançar. Todos estavam se divertindo, dançando com o ritmo quente. O vapor mexicano subia pelas paredes e saia pelas pequenas brechinhas das janelas. Queria ver o florestado e do andar de baixo não tinha como. Subi as escadas, atravessei as pessoas dançando no meio e me sentei na mesa encostada na vidraça enorme. Meus olhos intercalavam entre o bailar latino e o florestado do outro lado da rua. Parecia tão sereno e quieto. Não conseguia imaginar os gritos da Blair. Nem as árvores balançavam. Tudo ficava imóvel, como se estivesse dormindo.
Me lembrei que havia esquecido minha jaqueta na cadeira de baixo. Então desci até lá, peguei meus pertences e me virei para o meio do salão. Meus olhos passaram rapidamente pelo balcão de drinks e no último banquinho do balcão estava sentada uma mulher, era a chefe da lauz. Era Mercúrio.
Mercúrio e Cassie
Naquele instante meu corpo congelou por fora, por dentro tudo começou a esquentar e meu coração acelerou as batidas, parecia que ia pular pra fora. Ela não estava de costas. Estava me encarando há um bom tempo, como se estivesse checando a minha alma. Isso me incomodou e então ela sorriu pra mim. Um sorriso sexy e nem um pouco inocente. Ela estava deslumbrante. Ela esbanjava elegância, adorava mostrar que tinha poder. Sinceramente eu gostava disso. Ela não me chamou nem acenou. Ela se levantou e caminhou na minha direção. Eu simplesmente queria explodir, e eu estava explodindo, estava explodindo órgão por órgão. Cada passo dela o chão estremecia e minha visão ficava embaçada. Ela parou na minha frente, esticou a mão e alcançou a minha, segurou fortemente e disse
— Oi, se recorda de mim?
Queria poder escutar essa frase pra sempre, igual um áudio do wattsapp. Eu tremi na base.
— Sim. Dr. Mercúrio, chefe da lauz.
— pode me chamar de M.
— Quer comer amendoim?
— Ahn?
Ela riu.
— Tomar um drink. Você quer?
Eu queria, mas sempre tem um charminho.
— pode ser.
Ela se vira e quando vejo as costas dela está nua. Tem uma tatuagem, mas não consigo ver o que está escrito. Caminha de volta pro open bar ainda segurando minhas mãos, se senta escostando na parede e faz o mesmo comigo. Ela pega meus pertences com tal intromissão e tira a jaqueta das minhas mãos com tal audácia. Eu ainda estou tremendo na base, mas intacta.
— suas mãos estão geladas.
— É a temperatura amhiente delas, estão sempre geladas.
De fato estão sempre frias.
~M
— Que coincidência, nos encontramos novamente.
Ela fica ainda mais linda quando troca de roupa.
— sim, talvez não mais coincidência.
Ela sorriu feito criança.
— Então, o que faz por aqui, gosta de tango?
— Jeena me trouxe aqui. Nunca dancei.
— Jeena é sua namorada?
— Não, uma amiga do trabalho.
— Porque Mercúrio? — Ela continuou.
— meu pai, ele escolheu o nome. Ele era professor de física e a paixão dele sempre foi os planetas. Em especial Mercúrio. Ele falou que nasci com o rosto de Mercúrio e que por isso era linda.
Ela mais uma vez deu risada.
— E como é parecer com Mercúrio?
— Tenso. Um dos planetas regentes da inteligência. Não sou nada dotada. Mas gosto das estrelas, por isso gosto de você.
Ela parou e me observou, só queria beijá-la enquanto franzia a testa.
— seu nome. — pronunciei.
— Cassie.
— Cassieopea. Conjunto de estrelas. Uma constelação. — respondi a ela.
Então me aproximei do rosto dela e consegui sentir sua respiração forte. Eu via a estrelas nos seus olhos. A constelação estava me rodeando, literalmente. Sentia como se estivesse segurando o universo nas mãos. Nesse momento a música na minha mente, entordeceu.
— Eu te observo, mesmo estando longe espalhada. Gosto de observar as estrelas.
Ela colocou uma das mãos nas minhas costas e senti aquele gelo. Mas meu corpo aqueceu tão rápido que poderia ascender uma fogueira.
— Boa noite senhoras, o que vão querer pra essa noite?
O barman não ajudou muito cortando o momento. Mas dancei conforme a música.
— Uma margarita. Cass?
— G...gim tônica. — Ela respondeu tirando as mãos das minhas costas.
As bebidas chegaram, desviei meu olhar para a vitrola e ainda estava tocando You know I'm good.
— Quer dançar? — perguntei.
— Eu..eu prefiro conversar. — ela respondeu olhando para a bebida.
— vamos dançar tango! Se morrer agora não teria mais o prazer de dançar com você. — me levantei e puxei ela pelo braço.
Me envolvi no meio das pessoas, minha mão se cruzou na dela, e a outra se direcionou nas costas dela. Imediatamente ela pôs as mãos frias entre a minha cintura e cox. Apertava fortemente.
De início estava conduzindo ela, mas o jogo da conquista virou quando Cass me puxou para perto dela, levando a mão nas minhas costas e seus lábios encostaram na minha orelha. Seu coturno preto avançou para perto do meu peep toe e quando me dei conta estávamos dançando tango. Ela soltou uma risada que me deixou mais a vontade e me permitir ser levada por ela.
— meet you downstairs in the bar heard, your rolled up sleeves in your skull t-shirt... — ela cantava com a música no meu ouvido.
Eu acompanhei, simplesmente acompanhei e se tornou a nossa música.
— You say "why did you do it with him today?" — continuei enquanto bailava.
E quando me dei conta estávamos cantando as estrofes juntas.
— 'cause you're my fella, my guy hand me your stella an fly...
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