Silêncio nas montanhas
1 Prólogo: As Vantagens de Ser Invisível
Não é como se eu não gostasse de mudanças, mas quando elas ocorriam de forma não planejada por eventos que saíam completamente do meu controle, era difícil aceitar. Sabe quando tentam resumir toda uma tragédia em aceitação? Pois é, as coisas não funcionam assim. Negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, essas são as fases do luto. Não lembro de ter passado pelas três primeiras, mas definitivamente estou presa na depressão há mais de seis meses. Meu cérebro sempre foi muito lógico para tentar barganhar algo comigo mesma. Sentir raiva não mudaria nada. E negar não era algo lógico a ser feito, não havia nada que eu pudesse ganhar em nenhuma dessas fases.
A morte da minha família não foi causada por ninguém. Nenhum caminhoneiro bêbado atravessou a pista, nenhum animal surgiu do nada na estrada, ninguém estava alcoolizado. Foi apenas azar. Uma mistura que não recomendo a ninguém: dirigir à noite com gelo na pista, enquanto meu pai cantava músicas junto comigo e meu irmão só para irritar minha mãe, que queria parar para dormir em algum lugar. Pronto, essa é minha última lembrança.
A pergunta que fica é: por que eu sobrevivi? Por que não meu irmão? Ele era mais novo, tinha mais vida pela frente e saberia aproveitar muito mais a vida do que eu. Ele era um sol: radiante, animado e extrovertido, exatamente como meu pai. Eu sou a “rabugenta”, a pessoa que pensa demais, que não liga muito para convívio com outras pessoas, a que tinha como melhor amiga uma senhora bibliotecária, Sra. Filomena. Um amor de pessoa, sempre com ótimas sugestões de livros. Não vou dizer que era igual à minha mãe, como seria de praxe. Porque ela também era solar, mas introvertida. Para muitos, parecia distante, mas para a família, ela era tudo.
Depois de acordar no hospital e perceber que havia perdido tudo que estava acostumada, me restou minha avó materna. Não tinha muito contato com ela quando era criança. Minha mãe sempre amou sol, e minha avó vivia em Vermont, completo oposto. Na maior parte do tempo, conversávamos por telefone e a visitamos algumas vezes no Natal. Mas sabe quando você conhece a pessoa e, mesmo assim, ela é uma eterna incógnita? Bem, conhecendo ou não, ela era minha única parente viva. Meu pai ficou órfão cedo e era filho único, assim como minha mãe. Quando acordei e vi minha avó ao lado da minha cama, eu entendi quase tudo. Minha única dúvida era se Ian tinha sobrevivido também. Quando perguntei, não precisei de uma resposta falada. O silêncio me disse tudo que eu precisava.
Minha mudança da Flórida para Vermont foi rápida. Minha avó odiava o calor de lá. Arrumei minhas coisas, peguei alguns itens para me lembrar deles e fui embora com duas malas e quatro caixas. O resto ficaria para quem quisesse comprar a casa. Não tinha ninguém para me despedir na escola. Não fazia parte de grupo algum... não era nem popular, nem renegada. Eu era apenas eu, uma pessoa que falava com todos, mas não fazia questão de pertencer a algum grupo.
Por que deveria me limitar a ser um estereótipo de grupo, se eu poderia ser bem mais sendo apenas eu mesma? Acho que anos de livros de sociologia e o clube de debates me fizeram ter mais consciência do mundo ao meu redor do que a maioria, alienada por músicas e bandas da hora, pela moda do momento... Por que tudo tinha que ser do momento? Por que as coisas simplesmente não são atemporais? Acaba uma estação e, automaticamente, preciso mudar tudo? Em que mundo essas pessoas vivem? Acho que essa pergunta nunca terá resposta.
– Só isso, querida? – perguntou minha avó, vendo a quantidade de roupas que coloquei na mala.
– São todas as roupas que eu tenho. Por que eu precisaria de mais do que isso? Mamãe sempre quis comprar mais roupas, mas eu só não via necessidade. Essas me servem e estão em bom estado.
– Bem, isso facilita bastante as coisas – disse ela, enquanto colocávamos as coisas no táxi. – Tem certeza de que não quer mais nada, meu bem?
– Tenho, sim, vó.
"Já me tiraram o que era mais importante", completei em pensamento.
A viagem levou umas quatro horas de avião. Dormi boa parte do caminho, só acordando quando houve turbulência. Acordei assustada e depois comecei a rir... o que de pior podia me acontecer? Deixar de morrer num acidente de carro para morrer num acidente de avião? Ouvi em algum lugar que a chance de morrer em um acidente de carro é cem mil vezes maior do que em um avião. Seria tragicômico se esse fosse o meu fim. Minha avó pareceu não entender o meu riso, ou achou que eu estava rindo de desespero e tentou me acalmar. Eu só estava usando a lógica e rindo das probabilidades.
Minha avó morava em um sobrado antigo de madeira, todo pintado de branco, com uma chaminé de tijolos vermelhos desbotados e janelas grandes na fachada. Na entrada, havia um pequeno portal que levava a uma varanda ampla e coberta, seguindo toda a largura da casa. No térreo, ficavam as áreas comuns, e no andar superior, os três quartos. O piso de madeira cobria toda a casa, e uma lareira ficava bem no centro da sala.
Nos fundos, havia um celeiro que não era mais utilizado desde que meu avô faleceu, mas minha avó continuava cuidando dele. Acho que fazia isso como uma maneira de mantê-lo por perto.
Esse era meu novo lar. Aconchegante para muitos, mas não para mim. A lareira me lembrava do frio que viria em alguns meses. O celeiro me lembrava que eu não estava mais na Flórida. Tudo me lembrava que ali não era o lar em que cresci. Mas agora era permanente. Era meu lar por pelo menos mais dois anos.
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