Silêncio nas montanhas

6 Capítulo 5: Sombras do Passado


Cheguei em casa da aula ainda pensativa sobre Max e Peter. Coloquei a mochila na bancada da cozinha para separar o que eu precisava fazer para a escola no dia seguinte, enquanto minha avó cozinhava o jantar. Abri o livro de história local, mas minha mente estava longe. As palavras se embaralhavam enquanto eu revivia a conversa com Peter sobre a manipulação da família Thompson ao longo das gerações.

— No que está pensando, querida? Posso quase ver a fumaça saindo da sua cabecinha — disse minha avó, secando uma faca antes de cortar os legumes.

— Você conhece os Thompsons? — perguntei, tentando soar casual.

Ela franziu os lábios, claramente não gostando do rumo da conversa.

— Infelizmente, toda a cidade conhece. Não me diga que está interessada naquele garoto truculento... como é mesmo o nome dele?

— Max — respondi rapidamente. — Mas não se preocupe, ele definitivamente não faz meu tipo.

— O que eles fizeram para serem tão odiados? — perguntei, esperando que ela fosse mais direta do que Peter.

Ela soltou um suspiro cansado.

— Eles sempre estão envolvidos em tudo de ruim que acontece na cidade. E, de alguma forma, nunca são responsabilizados. Assassinatos, desaparecimentos, corrupção... nada nunca gruda neles. E sempre se reelegem. Na verdade, é fácil ganhar quando ninguém tem coragem de concorrer contra você.

— A senhora já ouviu falar do caso do William Barns? Minha professora de debate mencionou isso hoje — perguntei, tentando parecer apenas curiosa.

O rosto dela se fechou.

— Pobre menino. Todos sabiam que ele não tinha cometido aquele massacre. Ele tinha alguns problemas mentais, um atraso, não sei bem..., mas era gentil. Gostava muito da família Foster. Maggie dava aulas de reforço para ele, já que os pais dele não podiam pagar por uma tutora.

— Mas antes de encontrarem ele, havia outro suspeito? — perguntei, sentindo minha curiosidade crescer.

Minha avó hesitou por um instante.

— Um dos meninos Thompson. Maggie chegou a conseguir uma ordem de restrição contra ele por perseguição. Mas, como sempre, não deu em nada. A família apresentou um álibi... disseram que ele estava em uma clínica de reabilitação.

Ela não parecia acreditar nessa versão.

— A senhora não acha que isso é verdade, né? — perguntei, observando sua expressão.

Ela me encarou por um momento antes de soltar a faca e se sentar ao meu lado.

— Tenho quase certeza de que vi o garoto Thompson na floricultura do centro naquele dia. Quando voltei das compras, ele estava lá.

Ela pegou minha mão.

— Fique longe deles. Por favor. E, acima de tudo, não os irrite.

— Essa parte vai ser difícil — murmurei, sem graça.

Contei para ela o que aconteceu no refeitório, e sua expressão ficou ainda mais preocupada.

— Se ele voltar a te procurar, me avise — disse ela com firmeza.

O que ela poderia fazer? Antes que eu pudesse perguntar, ela completou:

— Nós podemos fazer uma longa viagem.

Eu pisquei, confusa.

— O quê?

— Você é tudo o que me restou. Se eu tiver que sair dessa cidade para te proteger, eu saio. Sempre achei interessante a ideia de visitar o Canadá — disse, tentando aliviar a tensão. — Eles parecem um povo acolhedor.

— Vó, acho que você está exagerando...

Ela me interrompeu com uma seriedade que me gelou por dentro.

— Você não faz ideia do que essa família já fez. Assassinatos que logo depois encontram outros culpados, o desaparecimento da mãe do Max... sempre há um bode expiatório. Durante os últimos setenta anos, sempre que há um crime, os Thompson estão envolvidos de alguma forma. Você acha que isso é coincidência?

Um arrepio percorreu minha espinha. Será que meu desentendimento com Max havia sido o suficiente para me pôr em risco?

— Vou evitar falar com ele. Prometo. Já ia fazer isso de qualquer jeito. Ele me parece... instável. Mudou de humor muito rápido quando foi contrariado. Foi como se ele fosse duas pessoas diferentes.

— A mãe dele supostamente também tinha transtornos psicológicos, mas desapareceu alguns anos depois de se casar com o pai dele. A família dele não aceita rejeição de forma tranquila. Por isso, estou te avisando... mantenha distância. — Ela apertou minha mão antes de mudar de assunto. — Conheceu mais alguém além do indigesto do Max?

— Peter Sullivan. Ele faz parte da minha turma de debate.

Ela sorriu ao ouvir o nome.

— Vejo que gosta dos Sullivan... — comentei.

— Não tenho nada contra eles. Eram vizinhos dos Foster quando o assassinato aconteceu. Coitada da Alice, ela era amiga de Maggie e da sua mãe. Ficou devastada com a notícia. O marido dela chegou a pedir um ano sabático na escola, e eles foram embora por um tempo. Quando voltaram, Peter já estava com eles.

Eu franzi a testa.

— Eles adotaram Peter?

— Sim. Sempre quiseram ter filhos, mas Alice sofreu dois abortos pouco antes da tragédia com os Fosters. Quando voltaram à cidade, Peter já fazia parte da família.

Isso me fez parar. Eles queriam tanto um filho que nem ligaram para o fato de Peter já ter seis ou sete anos?

Minha avó continuou:

— Sempre foram discretos. Depois do que aconteceu com os Fosters, ficaram ainda mais reservados. Mas, ao contrário dos Thompsons, nunca ouvi nada de ruim sobre eles.

Isso fazia sentido. Mas, ao mesmo tempo, não fazia. Uma família tão reservada que, por coincidência, levou para casa um menino da mesma idade do bebê desaparecido dos Foster?

Talvez Peter soubesse mais do que deixava transparecer.

— O corpo do menino dos Foster nunca foi encontrado? — perguntei, ainda com algumas lacunas na minha cabeça.

— Encontraram a roupa dele ensanguentada no bosque e toda rasgada, sem sinal dele. Na época, especularam que pudesse ser ataque de animal. Ele foi dado como morto uns quatro meses após as buscas.

Será que um urso conseguiria comer até os ossos de uma criança? Eu sei que, nessa idade, os ossos são mais maleáveis, mas não me parecia certo pensar nessa possibilidade. E como a criança teria saído da casa e ido para a floresta? O assassino teria largado ele lá? Ele teria conseguido fugir? Mas por que fugir para a floresta? Nada fazia sentido.

Com seis anos, mais ou menos, uma criança conseguiria reconhecer o assassino, ou pelo menos alguma marca em particular.

— Você parece igual à sua mãe, fica tentando juntar as peças do quebra-cabeça — disse minha avó, me observando com atenção. — Ela estava decidida a reabrir as investigações quando soube da possível abertura do inquérito pela família do William Barns, que exigia um exame de DNA.

O ar ao meu redor pareceu ficar mais denso. O que ela estava dizendo? Minha mãe queria reabrir o caso? Ela estava investigando os assassinatos?

— Mas... — minha voz saiu quase um sussurro. — Ela era detetive na Flórida, não aqui. Como ela faria isso?

Minha avó apertou os lábios antes de responder.

— Ela marcou uma reunião com o detetive responsável pelo caso, mas eles nunca chegaram a se encontrar... por causa do acidente...

O peso dessas palavras caiu sobre mim de uma vez. O acidente. Não foi só uma tragédia que destruiu minha família, mas talvez um aviso, um recado para que minha mãe parasse de mexer onde não devia. Meu peito apertou, e por um momento me senti tonta.

Minha avó desviou o olhar e voltou para a bancada da cozinha, os dedos apertando a toalha de prato como se precisasse de algo para se agarrar. O silêncio que se seguiu foi sufocante.

— O jantar fica pronto em vinte minutos — ela disse, sem me encarar. — Por que não sobe para tomar um banho? Depois jantamos juntas.

Havia um cansaço na voz dela, algo que me fez perceber que aquela conversa tinha ido longe demais, pelo menos por hoje.