Silêncio nas montanhas

13 Capítulo 12: Jogos Perigosos



Antes de levantar-me da cama, minha avó bateu na porta do meu quarto, eu disse para entrar e logo notei seu rosto um tanto preocupado.

— Max Thompson está na porta de casa, ele quer falar com você – eu levantei no pulo assustada pensando, Mas que porra ele deve querer falar comigo??? – Eu disse que estava dormindo, mas ele me perguntou se podia esperar na calçada até você acordar... Como a calçada é publica, não pude dizer que não.

— Eu vou trocar de roupa e descer para ver o que ele quer.

— Você tem noção do que poderia ser?

— Não, só interagi uma única vez com ele, mas o Peter disse que o pai dele adora puxar o saco dos Thompsons, será que pode ter deduzido algo? O Peter não ficou com nada que pesquisamos na biblioteca, as fotos estão comigo. E não acho que ele entregaria a gente.

— Vamos fazer o seguinte, vá falar com ele na rua, se ele insistir para entrar finjo estar limpando uma das armas do seu avô. Talvez intimide ele. – fiquei encarando ela preocupada – Temos que nos precaver, só tem nós duas em casa: uma adolescente magricela e uma velha. Liguei para Alice e disse que me atrasaria uns 40min mas que não era para o Peter se preocupar. Tente resolver isso de maneira pacífica, mas rápida, ok?

Me arrumei as pressas e desci correndo as escadas, olhei para minha avó que já tinha colocado duas espingardas em cima da mesa, uma estava desmontada, mas a outra não. Respirei fundo.

— Nick, se precisar de algo, diga algo como “O correio ainda não passou”, okay? – acenti com a cabeça enquanto sai de casa.

— Bom dia Max, em que posso te ajudar?

— Bom dia, eu disse para sua avó que não precisava te acordar.

— Bem, já acordei, do que precisa? – vi um lexus estacionado a uma quadra da minha casa, aquele carro não era de ninguém da vizinhança e havia alguém no banco do motorista olhando pelo retrovisor. Tentei manter a calma e sorrir enquanto esperava pela resposta dele.

— Vim pedir desculpas pelo meu comportamento da última vez que nos vimos. – Eu não acreditava em nenhuma palavra que ele dizia, mas ia jogar seu jogo.

— Imagina, eu também não fui muito cordial com você, sabe como é, primeiro dia numa escola nova. Fiquei ansiosa. Era só isso?

— Ah, não, fiquei sabendo que você e o Peter estão estudando juntos e eu queria saber se poderia entrar no grupo, minhas notas estão bem ruins. – PUTA QUE PARIU, O QUE EU FAÇO AGORA?

— Bem, não é grupo de estudo geral, é só para os debates e como você não faz parte do grupo de debates, não vejo muito sentido. Mas se precisar de ajuda com alguma matéria eu posso te ajudar no intervalo. Que tal? – Eu não estava acreditando que teria que renunciar ao meu tempo com o Peter na nossa Janela.

— Que eu tenho uma dúvida de trigonometria e a prova é semana que vem. Ai pensei eu passar aqui e ver se podia quebrar esse galho para mim.

— Ah, desculpa, mas sou péssima em trigonometria.

— Isso eu fiquei sabendo, mas o pai do Peter disse ao meu pai que ele viria aqui hoje, então acho que vou esperar por ele.

Olhei a caixa de correio e percebi que já tinham cartas lá, essa era a minha deixa

— Vó, o correio já passou – Gritei enquanto pegava as cartas

Minha avó saiu com uma escopeta semidesmontada e perguntou como se não estivesse escutado direito

— Que disse meu bem?

— O correio.

Aquilo surtiu o efeito esperado.

— Nossa, sua avó mexe com armas? – ele me perguntou bem trêmulo.

— Oh, não, não é para você. Ela está limpando o arsenal de armas que o meu avó deixou – foquei bem no arsenal.

— Ela sabe limpar? Porque é bem perigoso, se quiser meu pai pode ajudar com isso, ele está no carro.

— Ah não, não precisa se preocupar, ela sabe limpar e atirar como ninguém. Meu avô ensinou tudo para ela. Sabe, ele era militar e sempre foi bem paranoico. – Ele estava tentando esconder o nervosismo.

— De quem são as cartas amor? É algo da família? – hum, entendi essa deixa.

— Seu Irmão, Tio Bartô. – Inventei o nome na hora – Será que ele vai vir nos visitar?

— Espero que sim querida. Traga as cartas quando vier, preciso que me ajude com as outras armas, quero terminar isso tudo pela manhã.

— Claro Vó, já vou entrar.

— Você mexe com armas também?

— Flórida, quem não mexe? Fui a alguns estandes de tiro com a minha mãe. – Nunca tive que mentir tanto quanto naquele dia. Mas aparentemente surgiu o efeito. Ele se despediu e foi em direção ao carro do pai, fiquei acenando e sorrindo até que eles sumissem do próximo quarteirão. Entrei em casa, calmamente, fingindo não estar quase vomitando o meu estômago para fora. Fechei a porta suavemente, não sabia se alguém tinha ficado para nos observar.

Desabei no chão tremendo.

— Calma, meu bem, o pior já passou. – Ela se sentou no chão e me abraçou. – Conseguiu descobrir algo útil?

— Foi o pai do Peter que entregou que a gente ia estudar junto. Ele queria esperar o Peter para ajudá-lo em trigonometria. – Eu comecei a chorar – E agora? O que a gente faz?

Alguém bateu na porta, minha avó engatilhou a arma e perguntou:

— Quem é?

— Sou eu, Peter. Vocês estão bem?

Minha avó abriu a porta para ele entrar e fechou rapidamente

— Como chegou até aqui? Alguém te seguiu?

— Pulei a janela do meu quarto, minha mãe disse que talvez precisassem de ajuda. Eu vim contornando a floresta. Ninguém me viu. Vi o Lexus o pai do Max e esperei até vocês terminarem de conversar.– Ele explicou enquanto se sentava do meu lado.

— Seu pai não vai dar falta de você? – Perguntou minha avó ainda tremendo.

— Não, minha mãe colocou um tranquilizante veterinário no café dele quando a senhora ligou dizendo que ia se atrasar. Ela lembrou que os Thompsons foram lá em casa ontem e juntou uma coisa a outra. – Ele respirou fundo enquanto se levantava para olhar pelo olho de vidro se eles haviam ido embora mesmo. – Ele só deve acordar a noite.

— Vou ligar para ela avisando que chegou bem e agradecê-la pela ajuda.

— O que o Max queria?

— Pedir desculpas pelo nosso primeiro encontro na cafeteria e entrar no “nosso grupo de estudos” que o seu pai falou para ele.

— Acho que a nossa amizade pública não está ajudando muito. Acho que na segunda feira o melhor seria brigarmos feio no refeitório e pararmos de nos encontrar lá na janela. Posso vir a noite nos finais de semana, depois que a peste for dormir. O que acha?

— Não, sem você no recreio vou ter que aturar ele. Estou passando mal só de ter interagido com ele por dez minutos...imagina quarenta minutos...?

— Você tem outra solução? Aparentemente tem alguma coisa a ver conosco juntos que meu pai e o pai do Max não gostaram. Ou a gente pode largar tudo e desistir dessa investigação...- Ele também não parecia nem um pouco feliz com isso.

Minha avó tinha saído do corredor e ido na cozinha e voltou com uma caixa. Sabem atirar?

Nós dois olhamos completamente perdidos para ela.

— Pela expressão nos rostos de vocês deduzo que não. Vou ensinar o suficiente para saberem se defender. São de choque, não vai matar ninguém. E como aqui não é a Flórida, não temos detectores de metais na entrada da escola. Mais tarde ensino o básico para vocês, mas por hora acho melhor tomarem um café para se acalmarem um pouco. Tenho algumas ligações para fazer, enquanto isso, sirvam-se lá na cozinha.

— Vai ligar para quem? – eu ainda estava bem atordoada com tudo e sem entender ou absorver exatamente o que havia acontecido.

— Alguns amigos, nada com o que se preocupar. Peter, leve a Nick até a cozinha e certifique-se que ela ponha algo no estômago, por favor.

— Sim, senhora – ela olhou com uma cara feia para ele – Desculpa, é o hábito. Sim, Joe.

Eu me sentei no balcão da cozinha enquanto Peter me servia com o Croissant que a minha avó havia deixado pronto e suco que pegou na geladeira. Mesmo tensa, percebi que ele parecia se sentir em casa, mas confortável, apesar da situação horrível que passamos. Ele se serviu de suco e Croissant também enquanto sentava-se na minha frente. Quando olhei para o braço dele percebi que estava sujo de sangue.

— O que aconteceu? – Perguntei apontando para o braço

— Ah, isso, foi nada. Me ralei quando sai pela janela.

— Depois que a minha avó terminar as ligações, vou pedir para ela dar uma olhada.

— Não precisa, estou bem.

— Você é médico ou enfermeiro? Então pronto. – Mordi mais um pedaço do Croissant tentando pensar em algo que não envolvesse uma falsa briga na segunda no refeitório. – Sabe quando seu cérebro não consegue pensar em nada...

— ... E fica em looping com as mesmas ideias toscas? Sei. – Ele deu um longo gole no suco e me encarou – Também não me agrada muito não ter o nosso tempo para conversar no intervalo, principalmente por que isso daria motivo para você ter que ficar com aquele idiota na sua mesa da janela. Mas não vejo nenhum outro caminho, meu pai é um filho da puta e sempre vai entregar quando eu for te encontrar...

— O que ele vai fazer quando acordar logo a noite? Ele vai desconfiar da sua mãe?

— Talvez, mas o mais provável é que ele ache que fui eu que droguei ele.

— E se isso acontecer?

— Talvez eu precise passar aqui de madrugada para sua avó me remendar – ele disse rindo, mas nitidamente era de nervoso.

— Denuncia ele.

— Para quem Nicole? O delegado corrupto ou os policiais que estão na folha de pagamento dos Thompsons?

— Está com medo?

— Dele? Não, já sei exatamente o que esperar.

— Nunca pensou em fugir?

— Já, mas isso mataria a minha mãe.

— E fugir com ela?

— Ela nunca abandonaria a cidade, ela cresceu aqui e se sente presa a este lugar para sempre. Acha que eu nunca pedi isso a ela?

A expressão dele era de desalento, cansaço e de quem já não tinha muitas esperanças em ter uma vida muito diferente da que ele havia tido até o momento.

— Você já tentou se matar? – Ele me olhou fundo e riu de novo, mas num tom cansado

— O que me entregou?

— A sua história de vida, o fato de sempre andar com os braços cobertos, mesmo quando está sol e a reluta em deixar alguém ver o seu braço... fora o fato de que as vezes eu sinto que você não tem mais esperança ou expectativa em nada. Já estive assim, mas nunca tentei, cheguei perto, mas lembrei do meu pai me dizendo: “Morrer não resolve nada, você só dificulta ainda mais a vida para quem fica”

Ele levantou as mangas da camisa e deu pra ver vários cortes, o ralado no cotovelo que estava bem feio e umas marcas circulares que pareciam uma queimadura.

— Essas queimaduras são de que?

— Segundo a assistente social, meus pais biológicos gostavam de apagar cigarro em mim quando eu não ficava quieto. – O olhar dele estava totalmente sem rumo, paralisado.

— Melhor cuidar desse ralado para não infeccionar, vou pegar o kit de primeiros socorros. Fiquem sentadinhos aí.

— Acha que ela ouviu? – ele me perguntou

— Tenho certeza, deveria tá ouvindo a um tempo, só deve ter achado melhor nos deixar a sós. Mas provavelmente vai fingir que não ouviu nada e vai começar a falar sobre qualquer outra coisa.

Minha avó voltou alguns minutos depois com o kit de primeiros socorros, ela não perguntou dos cortes nos braços nem das queimaduras, apenas se concentrou em fazer o curativo no cotovelo do Peter.

— Prontinho, não precisa de pontos, mas vai precisar manter a ferida limpa. Eu falo com a sua mãe para ela me encontrar em algum lugar qualquer na cidade e eu faço os curativos de dois em dois dias. O ideal seria diário, mas seria muito difícil convencer seu pai a deixar ela sair todo dia com você e não seria bom se alguém me visse pela escola. E se você for no hospital ou na enfermaria da escola eles vão te fazer perguntas que você com certeza não quer responder e te colocaria numa situação ruim. – Ele apenas acenou com a cabeça concordando.

— Com quem estava no telefone? – perguntei por que não aguentava mais aquele suspense.

— Alguns amigos veteranos do seu avó. Consegui convencer dois deles a vir com as famílias passar um tempo aqui em casa até a poeira baixar. Estaremos com a casa cheia. – Não se preocupe, é para o nosso bem. Seu avó e eles tinham um acordo que caso algum deles morressem antes dos familiares, que os outros cuidariam deles. Não foi difícil convencê-los. Os fuzileiros são leais às promessas que fazem. Só o que tive que oferecer foi noite de karaokê e bingo com “um pouquinho de Whisky”.

— Eles chegam na segunda. Vamos aguentar até lá. – Disse ela com uma voz calma. – Seu vô sempre me preparou para me defender quando ele faltasse. O lema dele era: “Jojo, se alguém entrar na propriedade sem ser convidado, primeiro descarrega a arma, depois pergunta quem é.”

— Agora, se me lembro bem, temos trabalho a fazer, não? – Ela disse enquanto guardava o kit de primeiro socorros e pegava uma das armas de choque e colocava dentro do seu avental.

— Lugar esquisito para se esconder uma arma! – Disse para ela rindo.

— Precisava ver onde seu avó escondia as deles, sai daqui igual ao Rambo com facas e armas até os dentes quando ia se apresentar para missão.