Silêncio nas montanhas
12 Capítulo 11: Uma janela para o passado
— Vejo que não serei a única zumbi em sala — disse enquanto assustava Peter, que estava me esperando na entrada, mas acabou cochilando encostado na parede.
— Eu? Imagina, dormi muito bem. Nem fiquei pensando sobre aquela merda da pesquisa que fizemos ontem — ele bufou, claramente de mau humor.
Tirei da bolsa o croissant e o waffle que minha avó tinha feito para ele.
— Minha avó mandou para você.
— Nossa, o cheiro disso está maravilhoso. Vou comer um agora, estou faminto. O que me aconselha?
— Para seu mau humor? O croissant, tem chocolate na massa.
— Quem disse que estou de mau humor? — retrucou, mordendo um pedaço do lanche. — Nossa, isso está muito bom, sério.
— Eu sei, comi no café da manhã. Melhor de humor?
— Depois de comer isso, meu time pode perder as finais e meu livro favorito pode ser jogado numa poça d’água imunda que eu provavelmente não iria me importar.
— Homens... — ri enquanto entrava na escola.
Ele continuava a me encarar.
— Vamos, criatura, ou chegaremos atrasados para a aula. O sinal já vai tocar.
Nesse momento, o sinal tocou.
— Como faz isso? Uma vez eu entendo você acertar na cagada, mas duas vezes?
— Sou boa com noção de tempo. Gosto de contar o tempo... me deixa menos ansiosa. Até mais tarde, na nossa Janela.
Apesar do cansaço, não estava me sentindo letárgica. Na verdade, estava eufórica e um pouco indecisa se continuar com a investigação era mesmo uma boa ideia. E depois que descobríssemos toda a verdade, o que faríamos? Levaríamos à polícia corrupta ou a algum jornalista que acabaria morto assim como Joseph? Algo me dizia que ainda iríamos descobrir muito mais do que imaginávamos no começo.
— Seja sincera com você mesma, Nick — ouvi a voz da minha mãe na minha cabeça.
Para ser franca, havia duas motivações para isso: a morte da minha família e a companhia do Peter. A segunda parte me preocupava mais, porque eu tinha o apoio da minha avó nessa maluquice, mas a família dele não parecia querer uma vida para ele. O que você está pretendendo, passando tanto tempo assim com ele? Pense, Nicole, não jogue mais um problema para o coitado resolver. A vida dele já é um caos.
Comecei a guardar meu material na mochila porque sabia que faltavam menos de dois minutos para o fim da aula. Eu conto o tempo desde criança. No começo, era algo óbvio. Agora, parece que meu cérebro já faz isso sem que eu perceba... Ele continua a contagem quando preciso focar em algo.
Olhei para "Medusa", e ela com certeza já iria me perguntar por que estava guardando o material quando o sinal tocou. Na saída da sala, só olhei para ela com um leve sorriso. Acho que vou ter que decorar a porra do livro de biologia se quiser passar, mas já não me importava tanto com isso.
Fui direto para nossa Janela.
Ainda estava tudo calmo. Aqueles dois minutos que sempre roubava no final das aulas faziam muita diferença.
— Incrível como faz isso. Me conta seu segredo para conseguir chegar aqui tão antes de mim? — disse Peter, esbaforido. Provavelmente andou bem rápido para chegar.
— Eu começo a arrumar meu material entre três a dois minutos antes do alarme.
— Não estou vendo nenhum relógio no seu braço. Tem um no bolso por acaso?
— Não, eu sempre sei que horas são. Eu conto o tempo. Já te falei isso. Faço isso desde criança... Primeiro, comecei a contar os passos da minha casa até os lugares que eu ia, mas, conforme cresci, os números ficavam diferentes. Então resolvi contar o tempo. Depois que entrei no grupo de corrida da escola, isso ficou mais arraigado em mim. Minha mãe costumava falar que eu era um relógio suíço.
— Ansiedade nos dá superpoderes — ele disse, parecendo entender de verdade minha necessidade por controle.
— Qual o seu?
— Saber exatamente qual é o humor do meu pai pelo barulho dos passos dele pela casa. Saber qual visita está em casa pelo som dos sapatos da minha mãe no primeiro piso.
— Seus pais recebem muitas visitas em casa?
— Só meus avós maternos e os idiotas dos Thompson. Sei quando são meus avós porque minha mãe fica andando pela casa no primeiro piso com a minha avó. Quando são os Thompson, ela se retira e vai para o quarto dela. Às vezes passa no meu quarto quando é muito tarde e fala para eu fingir que estou dormindo.
Ele parou um pouco pensativo, como se ponderasse se deveria continuar. Então, soltou um suspiro e disse:
— Minha mãe conhecia tanto sua mãe quanto seu pai. Aparentemente, eles a visitavam sempre que vinham ver sua avó. Ela considerava seu pai um amigo. Descobri isso pela teoria dos semelhantes. Acho que ele deveria falar isso para todos, não é?
Fiz que sim com a cabeça enquanto mordia meu lanche.
— Ela me disse que avisou sua mãe para não vir dessa vez, que ela corria perigo.
Senti meu estômago revirar. Parei de mastigar.
— Perigo de quê? — perguntei no automático, com a boca ainda cheia de comida.
— Foi só até aí que nossa conversa chegou. Ela não quis me falar mais nada.
Engoli seco, uma sensação incômoda crescendo em mim. Minha mãe sabia que estava em perigo?
— Como foi com seu pai? — perguntei, tentando afastar o peso daquela revelação.
— Ontem? Foi uma merda — ele suspirou. — Meu pai só aceita que eu interaja com alguém se a pessoa for rica, tiver boas conexões sociais e/ou poder. E, na visão dele, você e sua avó não têm nada a oferecer.
— O jeito simples de viver da minha avó esconde o fato de ela ter vindo de uma família rica, fora do estado. E meu avô deixou um bom seguro de vida para ela. Ela costuma usar esse dinheiro para ajudar quem precisa pagar uma conta alta no hospital ou algo do tipo. Sempre achou o sistema de saúde do país uma merda.
— Você está brincando?
— Não. Por que você acha que todo mundo gosta dela na cidade? Já viu o tamanho da nossa propriedade? Quando for lá em casa, vai entender. Não é um palacete cafona, mas é uma propriedade bem grande.
— Sua família toda é de esquerda, então?
— É pré-requisito para entrar na família ter consciência social — rimos juntos.
— Agora faz sentido você ter um olhar tão crítico.
— Você também tem, mas um pouco mais "conservador" — fiz careta de nojo.
— Acho que seus antepassados estão se revirando no túmulo...
— Que nada, meu pai deve estar lá: "Vai, Nick, converte mais um..." — brinquei.
Rimos alto na cafeteria.
— Você já olhou quantas caixas tem no sótão? — ele perguntou, quebrando a nossa risada.
— Olhei ontem com a minha avó e acho que o melhor jeito é levarmos tudo para o galpão, assim teremos mais espaço.
— Parece um ótimo lugar, então.
— Sim, mas minha avó impôs uma condição...
— Qual?
— Ela vai trabalhar junto com a gente.
— Por mim, sem problemas. Ela já morava na cidade na época. Pode ter informações úteis.
— E, dependendo do que descobrirmos, ela precisa saber “quando vamos sair daqui”.
O clima ficou pesado de repente.
— Então vocês já têm um plano B?
— Minha avó já tem um plano B, C D e até Z se duvidar. Meu avó foi do exército, sempre ensinou que precisamos de planos alternativos. E minha avó nasceu um pouco antes da segunda guerra mundial, 1933.
— Você está incluso nos planos, se quiser ir, mas ela não vai te contar para onde nem quando. – Ele parecia não entender por que incluir ele no plano.
— Bem segundo a minha avó: “Nick, você não está fazendo essa merda sozinha. Abandoná-lo seria criminoso. Sei que consigo conversar com a Alice, se for o melhor para o Peter”
— Sua avó deve ter sido uma ótima enfermeira antes de se aposentar, a cidade deve sentir falta dela.
— Ela ainda é, qualquer um que aparecer precisando de ajuda, ela vai ajudar. Exceto pelos Thompsons – nós dois rimos alto mais uma vez.
— Ela me disse ontem que fez o parto do Bem Foster e que ficou devastada que nunca encontraram ele. Acho que isso também é bem pessoal para ela.
— Nessas condições, seria para qualquer um.
— O sinal já vai tocar, nos vemos amanhã lá em casa então? – perguntei juntando minha bandeja enquanto ele olhava sem acreditar – Está duvidando de mim?
O sinal tocou
— Não, só impressionado mesmo. Sim, nos vemos amanhã.
— Ah, leva seu material de debate – ele me olhou um pouco confuso – Como vamos estudar para debate?? – Ri enquanto colocava a bandeja no local de recolhimento, virei para dar um leve aceno com as mão e fui embora.
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