Silêncio nas montanhas
11 Capítulo 10: Entre quatro paredes
Peter
Cheguei em casa, pronto para a grande discussão que me aguardava. A fachada da casa parecia mais fria do que o normal. Talvez fosse só a minha imaginação, mas as luzes da sala, sempre acesas, pareciam mais fracas. Ou talvez fosse apenas porque eu sabia o que me esperava lá dentro.
Eu poderia só concordar e dizer que errei e pedir desculpas, ficar sem jantar e ir para o meu quarto... mas algo me dizia que dessa vez esse meu método não funcionaria.
-Seu pai está furioso, olha que horas são? – disse minha mãe enquanto me abraçava e me levava para dentro de casa. — Tenta não responder ele, por favor. Ok?
Meu estômago revirou quando ouvi a porta da sala bater atrás de mim. Minha mãe ainda segurava meu braço, como se quisesse me impedir de enfrentar o inevitável. Engoli em seco.
Acenei com a cabeça que sim. Por mim, eu não falaria uma única palavra. Respirei fundo antes de entrar em casa, me preparando para seja lá o que me esperava lá dentro.
— Onde você estava com a cabeça? Faltando aula para dar uns pegas numa garota?! — Não, isso eu não ia aceitar.
— Eu estava na biblioteca. Nick faz parte do grupo de debates e eu fui estudar com ela lá, já que não conhece ninguém. Não fui “dar uns pegas” em ninguém — eu não ia admitir que ele a tratasse assim.
Minha mãe me encarou, e eu sabia que ela estava me repreendendo por ter respondido.
— A Joe falou a Bells, eles só ficaram estudando, amor — minha mãe, como sempre, tentando ser minha advogada. — Que mal teria nisso? A menina não conhece ninguém. É uma atitude muito nobre do Peter em ajudá-la, afinal, ele já foi o recém-chegado uma vez.
— Alice, fique quieta, minha conversa é com ele — ele me olhou com uma cara de ódio ou arrependimento, sei lá... a essa altura, eu já não me importava mais. — Vá para o quarto agora e não quero ouvir um pio. E não me invente de engravidar essa menina.
— Somos só amigos — por que ele sempre deturpava tudo? Tudo era sobre dinheiro, sexo ou influência.
— Você não podia ser amigo do Max ou dos outros Thompsons? Eles têm influência, poder e dinheiro. — Essa garota não vai te levar a lugar algum.
Como alguém assim poderia ser terapeuta ocupacional em um lar de idosos e ajudar as pessoas?
Subi para o meu quarto com um dor de cabeça e logo que abri a porta vi uma notificação no chat, olhei e era a Nick. Respondi de maneira, curta, ela não entenderia como a dinâmica aqui funciona. Será que sentir inveja de como é a relação dela com a avó é errado?
Joe havia me visto poucas vezes na vida, mas de algum jeito parecia que ela já havia me incorporado a família e ainda estava disposta a me encobrir para os meus pais. Talvez ela saiba mais do que nos deixar transparecer.
Minha mãe foi sorrateiramente no meu quarto uma meia hora depois do meu pai ir dormir, bateu de leve na porta e entrou:
— Trouxe um sanduiche para você e um suco – Agradeci, eu realmente estava com muita fome.
— Mãe, posso te perguntar uma coisa?
— Claro, querido – disse enquanto se sentava ao lado da cama e ajeitava meu cabelo
— Antes de se aposentar, a vó da Nick trabalhava com o que?
— Ela era enfermeira do hospital central, por isso conhece todo mundo e todo mundo a adora. Ela ainda faz atendimentos voluntários quando há mutirões de saúde. Ela é uma pessoa incrível, sempre cuidou de todos. Por que a pergunta?
— Nada, só percebi que ela é bem acolhedora e calma. A Nick tem sorte de ter uma avó assim.
— Nick? Até ontem a noite você só a chamava de Nicole, alguma coisa mudou?
— Não sei, eu escutei a Joe chamando-a de Nick, de repente pareceu combinar mais com ela.
— Joe me disse que estava fazendo bem a ela, então, por favor, não a magoe. Ela já passou por muitas coisa. – Fiz que sim com a cabeça, enquanto mastigava o sanduiche.
— Por que voltaram para cá? O papai não parece gostar daqui?
— Porque esse é o meu lar, é a casa da minha família há gerações. – Você não gosta daqui?
— Na verdade, eu acho que a cidade que não gosta de mim..
— Oh, esqueça o idiota do Max Thompson, ele é um perfeito imbecil. É de família, Todos os homens daquela família são loucos e agressivos. Aproveite agora para conhecer melhor a “Nick”
— Não precisa falar o nome dela assim, toda boba...
— Ela me parece que carrega uma bagagem prévia, igual a você. Um amigo meu costumava dizer que os semelhantes se reconhecem...
— Era o pai da Nick? Ele foi seu amigo?
— Como sabe disso?
— Ela me disse que ele sempre falava dessa teoria dos semelhantes se reconhecerem.
— Natan era uma boa pessoa, Nora me apresentou a ele assim que começaram a namorar, num dos verões que vieram visitar a Joe. Um cara com um humor único. Sempre achei ele meio maluquinho, mas só podia ser para se tornar psicólogo. – Ela riu
— Sinto muito por ter perdido os dois.
— É a vida, eu disse para ela não voltar. Mas a Nora odiava deixar “assuntos não terminados” pelo meio do caminho.
— Não entendi – estava realmente confuso. Era a primeira vez que minha mãe falava abertamente dos Holloways
— Nem é para entender. Terminou de comer? Ótimo vou levar o prato e o copo para cozinha. Não perca a hora para a escola amanhã, ok? – Ela me deu um beijo de boa noite e saiu o quarto.
As vezes eu tinha uma sensação que a minha mãe sabia muito mais do que ela expressava, não sei se por medo do meu pai ou medo de me perder. De fato, essa noite seria bem difícil para dormir, era muita coisa para assimilar. A morte do jornalista, a condenação improvável do Barns. Nada naquela história fazia sentido. Será que o menino de fato estaria morto?
Será que foi uma boa ideia mexer com esse vespeiro? Eu odeio os Thompsons e a arrogância desenfreada deles, mas isso valeria o risco? Ou só estou fazendo isso para ficar mais perto da Nick? Um lugar como Maple Hollow nunca daria origem a alguém igual a ela. Sarcástica, inteligente e com um humor duvidoso que agora já sei de quem ela puxou. Será que estou confundindo as coisas? Ela ainda está de luto pela família, sem chance. Não pense nisso. VOCÊS SÃO APENAS AMIGOS E NADA MAIS. Não dificulte mais ainda a vida dela com os seus problemas.
Quando dei por mim o despertador já estava tocando e eu nem havia pregado o olho. Fiquei a noite inteira repassando tudo para ver se conseguia encontrar alguma ligação útil, mas nada.
Corri para não perder o ônibus e me sentei no banco respirando fundo e repetindo meu mantra “Somos apenas amigos”.
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