Silêncio nas montanhas
2 Capítulo 1: O Que Será de Nós
Já imaginava que teria problemas para dormir naquela casa silenciosa, mas nada havia me preparado para a primeira noite naquele quarto. Fiquei presa em um pesadelo repetitivo sobre o acidente, um looping do qual não conseguia escapar. Eu sabia que era um sonho, mas nada me fazia acordar. Queria gritar, mas não conseguia. Queria abrir os olhos, mas meu corpo não respondia. Não sei quantas horas fiquei presa nesse ciclo, mas quando finalmente consegui despertar, o sol já estava surgindo. No primeiro momento, pensei que ainda era cedo, mas logo lembrei que, em Vermont, esse era o máximo de sol que eu teria.
Enquanto descia as escadas, ouvi minha avó conversando com alguém:
— ... não acha que seria melhor procurar um terapeuta? — disse uma voz masculina, baixa, quase um sussurro, vinda da cozinha.
— Ela chegou ontem. Deixe a menina se acostumar com a casa e depois converso com ela sobre isso. Ainda nem acordou, mas não acho que tenha dormido bem. Fui ao quarto dela algumas vezes e a ouvi sussurrando algo que não consegui entender. — O suspiro que veio a seguir parecia de preocupação genuína.
— Ela já sabe que talvez não tenha sido um acidente? — perguntou a voz masculina, agora num tom mais alto.
Como assim, não foi um acidente? Então a história que me contaram no hospital era mentira? Por que esconderam isso de mim?
— Não contei nada porque ainda não chegaram a nenhuma conclusão. Quando tudo for esclarecido, conto para ela. Essas especulações não vão fazer bem algum para ela. E pare de falar sobre isso. Daqui a pouco ela vai acordar, e não quero que fique mais perdida do que já está. Três semanas no hospital custaram muito para ela. — "Mas quem era aquele homem?" — Não te chamei aqui para falar sobre isso. Preciso que faça uma manutenção no celeiro. A porta começou a emperrar novamente.
— Sinto muito pela intromissão. Farei os consertos necessários. — A porta da cozinha se fechou rapidamente, e ouvi minha avó acendendo o fogão.
Continuei descendo as escadas vagarosamente, tentando não demonstrar que havia escutado algo. Enquanto isso, minha mente fervilhava com as palavras que ouvi. Meu pai sempre dizia que uma hipótese precisa de bases sólidas para ser levantada. Mas o que fez com que suspeitassem que não foi um acidente? Tentei inúmeras vezes me lembrar de algo, mas o resultado era sempre o mesmo: um grande vazio. Nada parecia indicar que havia algo a mais.
Terminei de descer as escadas e fui até a cozinha.
— Conseguiu dormir? — perguntou minha avó.
Eu não sabia o que responder. Dizia a verdade, que fiquei presa em um pesadelo cíclico? Ou fingia que simplesmente apaguei? Eu já estava cansada de afundar minha avó junto comigo. Ela até tentou morar na Flórida para ver se isso me ajudaria, mas o calor era insuportável para ela. Minha mãe certamente saberia o que responder nessa situação, mas fiz o melhor que pude:
— Apaguei assim que me deitei. Só acordei agora.
Meu pai era terapeuta, e eu sempre gostei de assistir às palestras dele quando tive idade para isso. Me lembro claramente de uma frase que ele sempre repetia: "O depressivo é capaz de enganar o mundo, fingir que tudo está bem, que é apenas uma fase. Mas não pensem, nem por um minuto, que ele não sabe que isso é uma mentira. Ele sabe e a repete durante todo o dia. Sabem por que fazem isso? Porque não querem espalhar o sofrimento, a angústia e o vazio que sentem para mais ninguém."
É, pai, você estava certo. Nestes últimos seis meses, vi minha avó envelhecer pelo menos uns dois anos. Ela enterrou a filha, o genro e o neto... e, de brinde, ficou com uma adolescente deprimida e perdida no tempo e no espaço. Sempre ouvia do meu pai que ele estaria ao meu lado em qualquer problema, que eu poderia ser sincera com ele, que ele nunca me negaria ajuda e um afago.
Quem é o mentiroso agora?
— Está com fome, querida? – A pergunta dela me trouxe de volta dos meus pensamentos. Apesar de não estar com fome naquele momento, o cheiro que vinha da cozinha me fez lembrar dos cafés da manhã de domingo que minha mãe preparava: panquecas com calda, ovos mexidos com bacon e suco de laranja.
Primeiro veio a sensação boa de estar em família. Depois, o soco no estômago da realidade. Engoli o choro que quase escapou e fiz o meu melhor:
— Faminta. O cheiro está ótimo.
Sentei-me à mesa, onde um prato já me esperava. Sabe aquela sensação de que as paredes estão se fechando ao seu redor? Pois é. A cozinha, ampla e com uma bancada de mármore branca e comprida, parecia mais apertada do que um elevador.
"Nick, está tudo na sua cabeça. Come esse bendito café e finge o melhor que puder. Não arraste mais ninguém para esse precipício com você. Sua avó não merece isso."
Comecei a mastigar sem nem perceber o que havia na garfada que coloquei na boca. Parecia ter gosto de nada, mas não era culpa dela. Há seis meses, eu não sentia gosto de nada.
O médico disse que melhoraria com o tempo, que era só o trauma. Meu corpo estava bem. O problema era o estresse.
- Está uma delícia, vó. Obrigada!
— Pensei em fazermos algo esta tarde. O que você acha? Queria te mostrar a cidade. – Ela disse com um tom tão esperançoso que recusar parecia impossível.
Fiquei um tempo ponderando enquanto fingia que havia enchido demais a boca de comida. Na verdade, eu só queria evitar responder. O que poderia haver para me mostrar em uma cidade com 3.500 habitantes? Tudo parecia se resumir a um celeiro no centro, usado para eventos, e a um punhado de lojas que provavelmente pertenciam às mesmas famílias desde a fundação da cidade. Nada ali era novo.
Mas eu não podia dizer isso. Então me contentei com:
— Para onde vamos? – Perguntei com a maior cara de pau do universo, porque sabia que só existia aquele lugar e nada mais.
Ainda assim, pareceu suficiente para animá-la.
A reação dela me levou a três hipóteses:
Ela era ingênua o bastante para acreditar que eu realmente queria sair e passear por uma cidade tediosa como aquela.Acabei de descobrir que sou uma excelente mentirosa.Ela sabe que estou mentindo, mas finge acreditar porque, no fundo, acha que isso pode me ajudar – mesmo sabendo que eu não quero ir.De qualquer forma, eu jogaria com as cartas que tinha nas mãos, como meu pai diria. A razão verdadeira não importava. Nada mais importava. Eu só queria que os próximos dois anos passassem rápido para que eu pudesse sair daquele lugar. O problema era que eu não tinha a menor ideia de para onde ir.
Eu não pertencia a lugar algum.
Mas queria recomeçar em um lugar onde ninguém me conhecesse, onde minha vida trágica não fosse um assunto de curiosidade. Porque, com toda certeza, todos ali já sabiam que eu era a menina que perdeu a família em um acidente de carro. Ou talvez nem tivesse sido um acidente.
Em duas semanas, as aulas começariam, e eu tinha plena certeza de que seria o novo animal exótico da escola.
Na Flórida, quando voltei às aulas, todos me olhavam como se eu fosse um pobre coitado. Um animal ferido, abandonado à beira de uma rodovia. Pessoas que nunca haviam falado comigo surgiam do nada para me oferecer condolências. Eu sabia que isso era o padrão, mas será que alguém realmente achava que isso ajudava?
Ser acolhida por um bando de estranhos… não fazia o menor sentido.
Mas eu sempre respondia educadamente. Afinal, eles não tinham culpa pela merda que aconteceu comigo.
Até que um dia, simplesmente, cansei.
Pedi à minha avó para me tirar da escola. Eu não aguentava mais ser o centro das atenções.
Sempre achei que minha melhor qualidade era conversar com todos e ser amiga de ninguém.
"Mas o que ela ganharia com isso?", você pode se perguntar.
Anonimato. Privacidade. O direito de ser eu mesma.
E isso, para mim, não tinha preço. Mas será que eu conseguiria manter isso aqui?
Fale com o autor