Silêncio
1 Silêncio
Mathew estava cansado depois de mais um dia inteiro de trabalho na siderúrgica. Sentia uma forte dor de cabeça, que ele esperava que melhorasse depois de uma boa noite de sono. Antes de dormir foi até a cozinha pegar um copo de agua, estava acostumado a fazer isso no escuro, não via necessidade de gastar energia apenas para abrir a geladeira e pegar a garrafa, tinha um copo em seu quarto. Estava no mesmo lugar que deixara na ultima noite, ele também não se importava muito com higiene, se estava limpo ou sujo não fazia diferença.
Abriu a porta da geladeira devagar pra não fazer barulho, um hábito que adquirira quando se mudou pra esta casa, de tentar ser o mais silencioso possível, mesmo morando sozinho. As várias latas de cerveja tremeram e pra não perder o hábito acabou pegando uma, afinal ele merecia já que tinha dado duro no serviço o dia inteiro, não bebia normalmente à noite, mas desta vez abriu uma exceção.
Leves batidas fizeram-no ter um sobressalto e olhar assustado em direção a porta, mas pensou ser apenas paranoia resultante dos livros de horror que lera nos últimos dias. As historias daqueles livros não o deixavam com medo, mas faziam com que pensasse no pior que poderia acontecer em qualquer situação, mesmo que cotidiana.
Algumas vezes Mathew até sentia vontade de ter alguma experiência sobrenatural, mesmo sabendo que não era grande a taxa de sobrevivência depois desses fenômenos. Depois de passar por uma dessas situações poderia até escrever sobre isso, em forma de ficção, pois sabia por experiência própria que a maioria das pessoas não acreditavam na veracidade desse tipo de obra.
Levou a lata de cerveja e a garrafa de agua para seu quarto e ligou a televisão. Um filme de terror chamou sua atenção, falava de um homem que havia matado toda sua família enquanto estava possuído por um demônio, depois, através de um ritual, ia até o inferno buscar vingança. Depois de acabar a primeira lata decidiu buscar outra, pois além de não sentir nenhum efeito ainda queria ver o resto do filme.
Mais uma vez, no escuro, abriu silenciosamente a geladeira e pegou uma lata. Ouviu alguma coisa derrubar o cesto de lixo lá fora, já era tarde e, portanto, resolver deixar pra lá e cuidar disso só no outro dia, os gatos da vizinhança faziam isso com frequência, deveria ser esta, apenas mais uma das outras tantas vezes em isso ocorrera.
Mas apesar de acreditar que eram apenas gatos, não conseguiu deixar de pensar que havia alguma coisa errada. Como pra todos os problemas na vida de Mathew, a solução para a desconfiança era mais cerveja e com isso foi novamente á geladeira e pegou outra lata.
Depois de virar a terceira latinha Mathew já não conseguia manter seus olhos abertos. Sonhou que estava em uma mansão que o pertencia e que quando saiu para caminhar pelo jardim encontrava pelo caminho vários fantasmas jogando golfe. Esse era um desses sonhos que só fazem sentido enquanto se está sonhando.
O barulho do copo em que bebera a cerveja se quebrando após cair da mesa de cabeceira quase o fez cair da cama de susto. Mathew lamentou por isso, por ser um dos copos que já estavam ali quando se mudou, pareciam ser bem caros e ele pretendia vende-los na próxima semana. A dor de cabeça piorara muito, talvez por causa da bebida. Ele se levantou e decidiu ir até uma farmácia vinte e quatro horas para comprar algum remédio que pudesse melhorar sua dor.
Foi andando porque não acreditava ser capaz de dirigir naquelas condições. A farmácia não era longe de sua casa e por isso não teve problemas em chegar lá, porem, na volta, começou a notar algo se movimentando pela sua visão periférica, como se estivesse seguindo-o.
Apressou o passo por não saber o que era talvez fosse um ladrão ou assassino tentando pega-lo com a guarda baixa. Sua volta pra casa foi bem mais rápida do que a ida e, com o medo de estar sendo seguido, não prestou atenção aos detalhes incomuns que cercavam sua casa, coisas que não estavam mais como ele as havia deixado quando saiu.
Os sacos de lixo que ele deixara na frente de sua casa estavam rasgados, a janela lateral do seu quarto, que dava para um terreno baldio, estava quebrada e alguns barulhos, não muito autos porem audíveis de onde Mathew estava, vinham de dentro da casa, se tivesse percebido todos esses por menores talvez ele não tivesse entrado em casa, acendido as luzes e derrubado um vaso e uma garrafa de vinho até chegar em seu quarto, não teria ligado a televisão no volume oitenta e não se esqueceria do porque de tentar não fazer barulho enquanto estava naquela casa.
Se não fosse a dor de cabeça que sentia desde cedo, teria se lembrado de beber sua cerveja no terreno baldio, mas de nada adiantava se lembrar disso agora que sentia uma respiração pesada no seu ombro e garras fortes apertarem seu braço. Ele percebeu em um dos seus últimos instantes de vida, quase que ironicamente, que esta era a primeira vez que ficava bêbado em casa, e também a primeira vez que quebrou um dos copos de cerâmica da antiga dona da casa.
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