Silêncio

9 Capítulo 8 - Explosões


O piso de madeira da cozinha rangia ao ser pisado, toda a casa estava coberta por uma grossa camada de poeira e as paredes estavam cheias de infiltrações e mofo, mas, fora isso, estava tudo igual ao que era antes, mas é claro, aquela era sua casa.

Ainda não subiu na parte de cima da casa, tem medo do que pode encontrar, aliás, por conta das boas lembranças que teve ao chegar a casa, quase esqueceu que está em perigo e tem um assassino ali, naquele mesmo lugar, então ela volta a posicionar a arma em punho e continua andando pela casa, agora é hora de subir.

Lentamente, Francine sobe as escadas, seu coração funciona em batidas cada vez mais fortes, ela está com um pouco de medo, errado, está com muito medo. No primeiro andar, ela caminha pelo corredor, os flashbacks se tornam mais fortes agora, a porta do banheiro está ali na sua frente, foi onde encontrou seu primo morto, mas ela precisa ser forte, pois é isso que o assassino quer, atacar seu ponto fraco e vencer essa batalha. Ao passar pelo seu quarto, sente calafrios ao lembrar da pior cena que poderia ter visto na sua vida. Foi ali. Foi ali que ela viu sua mãe ser assassinada. Em um instante, um turbilhão de emoções e pensamentos invadiu a mente dela. A cena de sua mãe implorando por perdão aquele homem desconhecido. Jensen dizendo irmãzinha em um tom irônico. Aquele homem era seu pai, seu próprio pai assassinou toda a família dela. Por quê? Ela pensou, mas na verdade, sabia o motivo, Jensen havia explicado detalhadamente há oito anos. Meu pai matou a mãe dele. Francine já estava chorando, precisava ser forte mas as lembranças sempre a atingiam com tanta força, que era impossível não desabar em lágrimas.

Ela se assusta com uma vibração vindo do seu bolso. Celular. Mas não dura muito tempo e acaba parando. Quando ela olha o visor, percebe o nome na parte inferior do aparelho. Você tem uma nova mensagem. Ela abre, esperando não ser um nome de algum de seus amigos, e não é. É uma mensagem de apenas três palavras, mas veio do mesmo número desconhecido.

Um pouco tarde...

Francine olha no relógio, realmente era tarde, havia chegado quase vinte minutos depois do combinado.

- Que droga! – Ela diz, guardando o celular no bolso.

Às pressas, ela sai da casa. Será que Freddie está bem? Ela só consegue pensar nisso, em seu tio, ela precisava salvá-lo. Quando chega ao carro, ela é interrompida por uma velhinha do outro lado da rua.

- Você vai comprar? – A doce senhora pergunta, enquanto joga água em cima de algumas plantas no humilde jardim na frente de casa.

- Não – Francine força um sorriso e abre a porta do carro.

- É porque essa casa está bem visitada hoje – Ela sorri e Francine imediatamente desiste de entrar no carro.

- Como disse?

- É que há uma hora e meia mais ou menos, um carro preto entrou ai do lado da casa e depois um homem veio olhar a casa.

Francine atravessa a rua e vai falar mais de perto com a mulher.

- Você viu o homem?

- Ah, sim era alto e bonito, estava usando um terno preto, parecia empresário.

- E onde ele parou o carro?

- Ah, ele entrou ai do lado da casa, perto desses arbustos e desapareceu com o carro, depois voltou a pé e entrou na casa.

- Então quer dizer que a Lorna decidiu vender a casa né – A senhora diz.

- Você a conhece?

- Sim, eu moro aqui há vinte anos, eu era amiga da família.

Francine num instante reconhece aquele doce rosto, os olhos azuis cintilantes e o grande sorriso.

- Senhora Campbell? – Francine pergunta, esquecendo os problemas por um instante. Ela adorava aquela mulher.

- Sim sou eu – Ela fica surpresa – Mas como você me conhece?

- Eu sou neta da Lorna – Ela sorri a abaixa a cabeça, pois se aquela ela era a doce mulher que ficava com Francine na infância, sabia o que havia ocorrido.

A mulher fica calada por um tempo, boquiaberta e surpresa.

- Ah meu deus – Ela diz – Você é a Francine.

- Sim – Ela dá um leve sorriso

- Ah, eu me lembro de você querida – Ela dá um sorriso que em seguida desaparece – E me lembro do que aconteceu também.

- Pois é.

- Como vai a Lorna? – Ela pergunta, no mesmo tom sério.

- Ela... Ela faleceu – Francine responde

- Oh meu deus – Ela leva a mão frágil à boca – Eu sinto muitíssimo.

- Obrigada.

Depois de alguns segundos de silêncio, Francine quebra o gelo:

- Preciso ir agora.

- Tá bom, tchau querida – A mulher diz – E meus pêsames pela sua avó.

Francine dá um leve sorriso para ela então sai correndo, parando em frente à casa. Ele entrou no lado, Ela pensa e, olha para os lados, não há ninguém olhando, então saca a arma do bolso e caminha em direção à lateral da casa, ao caminhar um pouco ela chega ao muro que dá no quintal, e percebe algo no meio dos arbustos. Um carro. Um carro preto. É o carro dele. Ela se aproxima e tenta abrir o carro, mas está trancado, então ouve um barulho vindo de dentro da casa então corre até lá. Ele está aqui.

Ao entrar na casa, com a arma em punho, ela vasculha os quartos, os banheiros e não acha ninguém, depois volta e vai ao “quartinho da bagunça”, como ela chamava antes e não há ninguém, depois volta à cozinha e então tem uma ideia. Uma ideia genial.

Cruzando a Avenida Lexington com rapidez, Frank e Layla ficam apreensivos com a ideia de que Francine pode estar cara a cara com o homem que está tentando lhe matar, dentro da casa onde tudo começou.

- Tenho medo de que ele use essa fraqueza contra ela – Layla comenta.

- Com certeza ele vai usar – Frank lamenta – Ou porque ele marcaria um encontro naquele lugar? – Ele olha para Layla e percebe seu rosto sereno, com uma expressão de medo que não dá pra esconder.

Frank passa a mão no rosto dela.

- Vai ficar tudo bem – Ele diz, sorrindo – Eu vou cuidar de você, eu prometo.

Layla sorri. Eu prometo. As palavras de Frank ecoaram pela sua mente e lhe deixaram mais tranquila, ela tinha certeza que sim, tinha certeza de que ele iria protegê-la, como sempre fez, antes de Francine, antes dos assassinatos, antes de tudo.

Francine para no meio da sala. Onde eu ainda não procurei? De costas para a cozinha e de frente para a porta, ela pensa nos lugares da casa que ainda não procurou. No porão! Ela se lembra e então vai até lá, mas ao se virar, se assusta com algo na parede. Imagens. Um vídeo. Uma projeção. Um vídeo do aniversário de sete anos de Francine. Ela olha para trás e não encontra ninguém apenas um projetor holográfico ligado, meio escondido, que ela não havia percebido antes, então volta a assistir o vídeo. Ela se lembra de tudo aquilo, seu pai gravando o vídeo, sua mãe limpando sua boca que ela havia sujado de sorvete de chocolate e as crianças fazendo barulho. Era hora de cantar os parabéns, depois de todos cantarem em uníssono a música, que ela acharia irritante se não fosse um dos dias mais felizes da sua vida, ela faz um pedido, Francine lembra bem daquele pedido, ela pediu que ficasse com seus pais para sempre. Isso não aconteceu. As lágrimas começam a brotar nos seus olhos e escorrer pelo rosto, aquilo era o ponto fraco dela, e infelizmente aquele homem sabia muito bem como usá-lo. No momento em que ela começa a chorar de verdade, seus pais estavam falando para câmera o quanto a amam e que aquele era um dos dias mais felizes das vidas deles. Nós éramos tão felizes. Francine pensa e enxuga as lágrimas que ainda caem dos olhos ardentes, então a projeção na parede do nada se apaga e ela se vira rapidamente com a arma em punho, encontrando logo em seguida, a silhueta alta e forte da figura que usava aquela máscara medonha, batendo palmas, aparentemente, ver Francine sofrer era um espetáculo para ele. O homem segurava em uma das mãos um revolver maior que o de Francine.

- Desgraçado! – Ela diz, apontando a arma.

- Calma querida – A voz do sujeito soa extremamente baixa e forçada.

- Eu vou te matar! – Ela continua a gritar. – Onde está o Freddie?!

- Vamos conversar um pouco – Ele aponta a arma para ela – Abaixe essa arma. Ele está bem, quer dizer, talvez, está do outro lado da cidade, na casa do Jensen. Bem, se a casa ainda não explodiu, ele está bem.

- O que você quer? – Ela pergunta aos berros, abaixando a arma e começando a chorar. – Porque está fazendo isso?!

- Eu só quero conhecer o meu sobrinho, meu cunhado e os seus amigos antes de te mandar pro inferno.

- O que? – Ela pergunta em choque. Meu sobrinho? Meu cunhado?

- Ah, Jensen não te contou? – Ele pergunta, dando baixas risadas – Talvez você e seus amigos não tenham dado tempo antes de atirar.

- Oh meu deus.

- Sim queridinha, Jensen, Você e eu – Ele começa – Uma linda família quase feliz.

- Não pode ser – Francine ainda está choque.

- Pois é – Ele dá outra risada nervosa – Mas vamos começar do inicio não é? Provavelmente Natasha Cloverfield não te contou sobre mim né? Pois é, ela me mantia preso dentro de um quarto na casa dela, tudo por causa de um problema mental que os médicos disseram que eu tinha. Bem, eu ouvi toda a conversa de você e sua amiguinha com ela e percebi que o Jensen estava em perigo, então fugi e matei a desgraçada.

- Meu deus! – Francine tapa a boca com as mãos suadas.

- Pois é, eu a matei logo depois que vocês foram embora. Eu cortei a garganta dela até sentir o osso, e quer saber? Eu gostei, quer dizer, eu amei! – Ele se diverte em risadas nervosas – Mas a policia me pegou e eu fui preso, na verdade quase condenado à morte, mas eu tinha menos que 18 anos, então fiquei preso por oito anos, e então depois que sai, procurei todas as informações sobre você. Casou-se, teve um filho e ainda estava morando em Nova Iorque. Que sorte! E então passei a lhe observar, e quando chegou a hora, eu simplesmente comecei a te lembrar que a sua vida é um inferno e sempre vai ser, aonde quer que você vá, pessoas vão morrer e isso nunca vai acabar.

- Para! Para! Cala a boca!

- E tem mais – Ele continua – Você é igual a mim! Todos nós somos maninha! Ou vai dizer que você não sentiu prazer em ver o Jensen morrendo, Você não sentiu?

- Eu não sou igual a você seu verme! – Ela aponta a arma para ele.

- Pode atirar, mas eu vou te matar de qualquer jeito – Ele aponta a arma para ela – Dê um último adeus, chegou a sua hora.

Ele se prepara para puxar o gatilho, mas Francine o interrompe:

- Vai pro inferno! – Ela desvia a arma dele e passa a apontar para a porta da cozinha atrás dele.

- O que está fazendo? – Ele pergunta e começa a gargalhar.

- Você vai ver – Ela dá um sorriso e começa a dar leves passos até a janela.

E então dispara. Em frações de segundos, a bala percorre toda a sala e ao chegar na cozinha, em pleno ar mesmo, ela pega fogo e se dissipa pela sala inteira em uma explosão alta e violenta. Francine pula pela janela, caindo no lado de fora da propriedade e depois vai correndo até o carro. Ao ver a casa sendo consumida por labaredas gigantes, ela sorri e fala para si mesma:

- Não sentiu o cheiro de gás? Imbecil.

Frank e Layla chegam correndo na casa em chamas e encontram Francine toda suja e machucada saindo de lá.

- Fran! – Layla grita ao sair do carro, Frank vai atrás dela. – O que aconteceu?

- Acabou – Ela sorri – Eu consegui, eu o matei.

- Sério? – Um sorriso invade o rosto de Frank.

- Finalmente – Layla diz.

Os três se abraçam.

- Eu vou até o Bronx – Francine avisa.

- Por quê? – Frank questiona.

- Freddie está lá, e eu sei que está vivo.

- Como assim? O que aconteceu lá dentro? – Layla pergunta.

- É uma longa história.

Francine pega o celular, liga pra policia e dá o endereço da casa, avisando sobre o que aconteceu.

- Tchau – Ela diz para Frank e Layla ao desligar o telefone.

- Nós vamos com você – Frank diz.

- Não precisa.

- É claro que sim, e se houver mais alguém lá, além do seu tio?

- Então tá, encontro vocês lá.

Frank e Layla se dirigem ao carro dele e Francine entra no dela, então eles partem em direção ao Bronx, onde Freddie está. Francine não consegue conter o sorriso por ter acabado com isso. Agora a policia cuida do resto, eu já fiz meu trabalho por aqui.

Após dirigir alguns quilômetros, eles chegam ao antigo bairro e param os carros em frente á antiga casa da avó de Francine. Ao atravessar a rua, eles se encontram na frente da casa onde Freddie provavelmente está.

- E aí? – Frank pergunta, olhando para o lugar velho e abandonado.

- Vamos entrar – Francine diz, sacando o revolver do bolso.

- Você vai nos explicar o que houve lá? – Layla pergunta.

- Eu o matei, simplesmente o matei.

- Você não viu o rosto dele?

- Não, estava com a máscara e eu explodi tudo, não dava pra entrar lá. A policia nos dirá tudo isso depois.

Frank se prepara para quebrar a porta, quando Francine interrompe:

- Espere, vai chamar muita atenção – Ela diz. – Vamos entrar pelos fundos.

- Vamos.

Eles entram no meio dos arbustos da lateral da casa e ao chegar à parte de trás, pulam o muro. Chegando ao quintal da casa, eles entram pela porta de trás, depois que Frank a chuta até ela abrir. A casa está velha e cheia de mofo e ratos.

- Ai que droga! – Layla grita ao se assustar com um deles.

- É só um rato Layla – Frank diz.

- São nojentos.

Eles vasculham o imóvel inteiro, mas nem sinal de Freddie, e quando voltam para a sala, escutam um barulho vindo de um lugar que eles não sabiam reconhecer, um grito abafado de socorro.

- Socorro! – A voz grita desesperadamente. – Francine é você?

- Freddie! – Francine reconhece a voz. – Eu estou aqui! Onde você está?

- Eu não sei, em algum lugar abaixo do solo, mas não consigo ver nada, tem algo tapando a saída.

- Acho que vem da cozinha – Frank diz e eles se dirigem até lá.

- Não tem nada aqui! – Francine reclama.

- Esperem, tem algo sim – Layla diz, se abaixando para tocar algo no chão.

- O que foi? – Frank pergunta.

- Essas marcas de arranhões no chão – Ela aponta para umas marcas no chão, que levam até a geladeira. – Acho que essa geladeira foi arrastada daqui algumas vezes, me ajude a empurrá-la.

Layla e Frank empurram a geladeira, e embaixo dela, um pequeno alçapão de madeira no chão, no lugar onde a geladeira estava em cima. Eles rapidamente abrem e encontram Freddie lá embaixo, preso em uma cadeira, todo sujo e machucado.

- Ah, graças a deus – Ele diz.

- Você está bem? – Francine pergunta, e os três descem naquele cômodo pequeno e sujo e depois desamarram o garoto.

- O que foi isso? – Ela pergunta, tocando os lábios ensanguentados e machucados dele.

- Super cola – Ele responde – É bem desagradável.

- Layla e Frank, que bom que estão bem – Ele diz.

- Que bom que você também está – Frank sorri.

- Venha, vamos te tirar daqui – Layla diz, segurando seu braço.

- Vamos se esconder, ele pode voltar a qualquer momento – Freddie fica preocupado.

- Calma Freddie – Francine dá um grande sorriso – Ele já era.

- Como assim?

- Francine acabou com ele! – Frank diz.

- Oh meu deus, que bom! – Ele a abraça novamente – Então, vamos embora.

- Esperem – Francine diz – O que é isso?

Ela anda até uma mesinha cheia de poeira onde está uma caixa. Ao se aproximar ela percebe, são fitas de vídeo.

- O que? – Layla pergunta.

- São fitas – Francine responde e em seguida abaixa o tom de voz, perguntando para si mesma:

- Mas o que será que tem nelas?

- Vamos logo! – Frank diz.

- Vamos.

Eles vão embora, levando a caixa junto.

Chegando à casa de Francine, os dois descem do carro e entram pela porta da frente, encontrando Todd e Vanessa logo em seguida. A cara de preocupação dele logo se desfaz ao vê-la chegando.

- Amor! – Ele corre para abraçá-la, mesmo estando suja – Você está bem?

- Estou.

- Onde você estava? – Vanessa pergunta, mas ao ver Freddie parado atrás dela, não espera resposta. – Freddie!

- Oi – Ele diz timidamente.

- Onde vocês estavam?

- Eu consegui – Francine diz abraçando-a – Eu o matei!

- Você está falando sério? – Ela fica surpresa.

- Estou – Francine responde – Ele está morto, nós estamos a salvo.

- Oh meu deus, que bom! Mas e você Freddie, pra onde vai agora?

- Bem, eu vou começar o curso de medicina em alguns meses.

- Que bom!

- Ah, quase esqueci – Francine diz, pegando uma chave do bolso – Essa é a chave da casa da vovó, ela deixou pra você – Apesar dessa boa noticia, nenhum dos dois ficam felizes, até porque essa é uma consequência de um terrível fato.

- Eu não quero voltar pra lá – Ele abaixa a cabeça.

- Você precisa – Francine diz – Aliás, você tem um emprego certo?

- Sim.

- Então você vai trabalhar normalmente e morar lá, até o dia de ir pra faculdade.

- Eu não sei se consigo.

- Consegue sim, e tem mais, eu vou lhe visitar sempre.

- Então tá.

Depois de tomar um banho, levar Freddie em casa e demorar mais alguns minutos levantando a autoestima dele, Francine finalmente deita em sua cama, ao lado de Todd.

- Que dia hein – Ele comenta sorrindo.

- Pois é, mas finalmente acabou, tudo isso acabou – Ela fala e pela primeira vez em dias, está feliz, realmente feliz.

- Acho melhor você descansar, boa noite.

- Boa noite.