Significado do Natal
1 Capítulo Único
Notas iniciais
O final do ano chegava, assim como suas festas e a correria ao redor delas. O que muitos não param para pensar sobre, qual é o significado do natal? Para aqueles que professam a fé cristã, o dia simboliza o nascimento de Jesus Cristo na Terra. Para outros, uma mera data comercial para reunir a família e distribuir presentes. No Japão, a data possuía mais o segundo significado. Poucos eram de fato cristãos e assim como o Halloween foi uma festa importada dos estrangeiros e ganhou um significado próprio em terras nipônicas, com o natal não foi muito diferente.
A data costuma ser como um segundo dia dos namorados, terceiro se formos contar com o white day. Uma corrida desenfreada na busca pelo presente ideal para a pessoa amada. Apesar de namorarem há bastante tempo, Ikki e Shaka mantêm uma certa tradição natalina, mesmo havendo um choque cultural por parte do indiano. Não que em seu país natal a data não existisse, pois têm cristãos na Índia. Essa mesma época é comemorada uma outra data com costumes próximos para famílias hindus, o Diwali, que é conhecido como “festival das luzes”,as casas e as cidades costumam ser enfeitadas com aqueles “pisca-pisca” de natal, o dia é em homenagem a batalha que deu vitória a Krishna sobre o demônio Narakasura.
Como budista, Shaka não poderia deixar misturar suas tradições com as de outras religiões, mas algumas concessões poderiam ser feitas. Seu dia de trabalho terminou um pouco mais cedo na ONG e ele era uma das pessoas que se voluntariaram a voltar a trabalhar naquela noite para promover um grande jantar para pessoas em situação de rua. Ikki achou a atitude de seu namorado nobre. Eles já participaram juntos de algumas ações como essa, principalmente nas estações mais frias e não seria dessa vez que o leonino abandonaria seu amado. Apenas teria que resolver uma questão logística muito fofa chamada Shun, seu irmãozinho caçula.
— Meu querido, eu já disse que se não conseguir encontrar uma babá para seu irmão, pode ficar com ele. Também acho que será difícil ele querer passar essa data longe de você — secava seus longos cabelos com a toalha de banho — Ele é muito pequeno para entender esse tipo de coisa.
— Realmente está difícil conseguir uma babá. A maioria estará passando a data com os namorados e com a minha avó não dá para deixar. Vamos almoçar lá amanhã para compensar — estava estirado no sofá — Vamos juntos buscá-lo e quem sabe ele não queira nos ajudar?
— Está bem — pegava o secador de cabelos — Me dê mais uns dez minutinhos que irei com você.
…
Uma palavra que definia bem o pequeno Shun na saída da creche era radiante. O menino de cinco anos estava muito feliz de ver seu irmão e seu cunhado vindo buscá-lo. A criança parecia ter seus próprios planos sobre o natal, pois começou a encher os dois adultos de perguntas.
— Nós vamos passar o natal juntos, nii-chan? — o pequeno estendeu seus bracinhos para o irmão pedindo colo — Vamos fazer aquelas coisas iguais do especial de natal do Frozen?
— Eu realmente não lembro desse especial de natal, mas podemos ficar juntos se quiser.
— Realizando um trabalho muito especial — completou Shaka em tom animado — Lembra daquela vez que você e seu irmão apareceram lá na ONG no dia que distribuímos sopa?
— Mais ou menos, Shaka-chan. Eu acho que dormi logo depois de tomar a sopa — fez uma careta fofa — A gente vai pra lá?
— Nós vamos ajudar a tornar o natal de algumas pessoas menos difícil — falou o irmão mais velho — Dar uma boa refeição e roupas quentes.
— Isso é algo a se fazer sempre que puder, Shun — falava o budista — Praticar a caridade, ser bom e afetuoso é algo a se fazer o ano todo, não apenas no natal — ajeitou o gorrinho do cunhadinho que quase caiu da cabeça dele — Você é um bom menino. Lembra quando você começou a separar algumas roupas que não usava mais para doar para outras crianças no seu aniversário.
— Lembro sim! Meu nii-san me mostrou algumas fotos das crianças que receberam as minhas roupas que ficaram pequenas em mim. Elas estavam felizes — respondeu sorrindo — Isso que é ser cari-cari…
— Caridoso, maninho — já estavam perto de casa — Então, quer fazer outras pessoas felizes hoje?
— Quero!!!
— Ok! Primeiro vamos trocar essas roupas e guardar a sua mochila da escola.
— Melhor fazer ele comer um lanchinho também, pois vai demorar até o jantar ser servido — disse o loiro — Ah! Há uma área de recreação onde as crianças vão brincar. O Shun pode ficar lá um pouco caso fique cansado de ficar entre os adultos.
— Eu quero ajudar vocês! — fez um biquinho — Eu vejo os adultos sorrirem pouco, acho que eles precisam lembrar de como se brinca — sua argumentação era muito séria e os jovens tentavam não rir das palavras da criança.
Depois dessa conversa, o trio chegou em casa e Ikki estava garantindo que seu pequeno irmãozinho ficasse muito bem agasalhado para não pegar um resfriado. Eles fizeram um lanche rápido, mas Shun fez com que eles se atrasassem um pouco mais por uma boa causa. Ele pediu uma caixa para o irmão e pediu para eles esperarem uns cinco minutinhos, que duraram pelo menos quinze, pois a criança não entendia muito bem como o tempo funcionava.
— Acho que eu vou ver como ele está. Os cinco minutinhos dele estão durando bastante — disse o leonino impaciente — Ainda fechou a porta para fazer mistério — riu — Às vezes eu não aguento com as peripécias do meu irmão.
— Está se preocupando demais, Ikki. Seu irmão é uma das crianças mais tranquilas que eu conheço — comentava em tom risonho — Lembra do Halloween do ano passado? Aquela turminha do barulho estava me deixando doido e os adultos só pioraram a situação.
— Ainda bem que esse ano foi mais tranquilo nessa parte, mas foi triste vê-lo caidinho, doente.
— Foi uma gripe que ele contraiu na escola, mas na semana do Halloween ele havia melhorado e ficamos em casa assistindo tantos filmes infantis que até hoje eu me pego cantarolando algumas das músicas — falava o indiano — Ele está abrindo a porta.
— Nii-chan! Me ajuda aqui! — caiu de bumbum no chão — Opa!
— O que eu já falei sobre carregar coisas pesadas demais para você? — Bronqueou o mais velho.
— Gomenasai!
— Não me olhe assim, Shun — ele já estava derretido pela fofura — Ah! Eu não consigo brigar contigo!
— E o que tem de tão pesado nessa caixa — o cunhado se aproximou para ajudar — Brinquedos? — disse após dar uma espiada.
— Já tem tempo que eu não brinco com alguns dos meus brinquedos — levantou do chão dando leves tapinhas ajeitando suas roupinhas — Eu quero dar para outras crianças brincarem.
— Sua doação será muito bem vinda, pitico! — disse o loiro.
— Vem cá me dar um abraço, maninho! — abaixou-se o mais velho — Você é um amorzinho! Seu gesto é muito bonito, sabia? — abraçou-o mais um pouco — Agora precisamos ir ou nos atrasaremos mais para ajudar.
— Eu carrego a caixa — abriu a porta — Meu amor vai carregar esse embrulhinho fofo — riu — Até entendo que o Shun tenha caído. Não foi só o peso da caixa, essas roupas não estão ajudando a se movimentar direito.
— Quando chegarmos lá eu tiro esse casaco maior, já que estaremos protegidos do frio, mas durante o caminho ele irá assim — pegou-o no colo.
…
Os três não demoraram muito para chegar até a sede da ONG. Guardaram seus casacos no armário de Shaka e os adultos colocaram aventais e toucas para manejarem a comida sem preocupações. Inicialmente, Shun ficou brincando com as outras crianças em um espaço próprio para elas. Apenas quando o jantar foi servido que o pequeno se juntou aos adultos e ajudou a servir os pratinhos de sobremesa.
— Ah! É ótimo quando as coisas terminam bem — disse o indiano com um sorriso satisfeito — Sei que não era a forma que planejava passar esse dia, mas agradeço aos dois por terem vindo.
— É bom fazer coisas diferentes. Veja como essas pessoas estão agora! — via-os confraternizando com uma expressão mais suave — Nós estamos fazendo pouco, mas não alimentamos apenas os estômagos deles, alimentamos suas almas com esperanças de dias melhores.
— Tem razão, mas nós ainda podemos comemorar o natal — disse tocando sua mão na dele suavemente — Amanhã será dia 25. Podemos ter um encontro como a maioria dos casais costumam fazer por aqui.
— Seria uma ótima ideia, mas preciso resolver uma coisa.
— Nii-chan! Shaka-chan! — Shun corria na direção deles — Aquela senhora está chamando a gente! Disse que precisa da nossa ajuda para uma coisa muito especial!
— E o que seria essa “coisa especial”? — o irmão mais velho o pegou nos braços.
— Shhh! — levou o dedinho até a boca — É segredo!
— Então vamos lá para descobrir — disse o loiro — Fumiko-san! — cumprimentou a senhora.
— Shaka-san. Ikki-san. Obrigada por terem vindo tão rápido! Você fez um ótimo trabalho, Shun-kun! — sorriu para a criança — Eu tenho um pedido para fazer a vocês.
— E o que seria, senhora Fumiko? — perguntou o japonês mais velho.
— O senhor Satoru passou mal e a pequena equipe dele não pode vir fazer o número do Papai Noel para as crianças esse ano. Poderiam vestir as fantasias e substituí-los só por essa noite?
— Por mim tudo bem. Shaka?
— Eu não posso me vestir de Papai Noel, Ikki.
— Há outras fantasias que estão separadas dentro daquela salinha ali — apontou a idosa percebendo o climão — Os presentes estão juntos.
— Vamos lá, Shaka-chan! Também quero participar! Será que tem algo do meu tamanho?
— Acredito que tenha sim, pequeno! — bagunçou levemente os cabelos do menino — Nos vemos em quinze minutos.
O trio entrou na sala e viram várias fantasias nos cabides penduradas nas araras. Shun já saiu correndo estendendo os bracinhos para pegar sua fantasia de duende. O pequeno estava muito orgulhoso em ser ajudante do Papai Noel, mesmo que de brincadeirinha, mas sabia que estava deixando as pessoas felizes.
— Espera um pouco, Shun — pegou a roupinha do cabide — Vou te ajudar a se vestir.
— As opções são difíceis — resmungou Shaka — Não vou enfiar uma roupa vermelha.
— A de gno-gno… a de ajudante é pequenininha para você, Shaka-chan — disse o cunhadinho enquanto Ikki trocava suas roupinhas — Eu gosto dessa porque é verde.
— A gente sabe o quanto você ama verde — riu o irmão mais velho — Eu serei o Papai Noel substituto essa noite. Uma pena que não queira vestir vermelho hoje, amor — apontou discretamente para a roupa de noelete.
— Nem comece, Ikki! — disse irritado.
— Ah! Tem aquela lá! — apontou o mais novo — As renas que ajudam o Papai Noel de verdade a voar com o trenó para dar os presentes das crianças do mundo inteiro! — estava nitidamente empolgado — Acho que você vai ficar legal, Shaka-chan!
— Eu serei uma rena?
— A melhor rena de todas! — disse o namorado com um sorriso zombeteiro — Não acha, maninho?
— Uma rena bem fofinha! Olha o arquinho! Me empresta depois?
— Se a senhora Fumiko deixar, eu empresto se tiver cuidado, está bem? — o indiano se deu por vencido e vestiu a fantasia de rena.
…
Poucas horas depois, a rena, o duende e o Papai Noel devolveram suas fantasias às araras de roupa. O trio substituto foi um sucesso, tanto os adultos quanto as crianças gostaram da atuação improvisada. O menino caía de sono e estava sendo ninado nos braços de Shaka, enquanto o irmão pegava o restante das coisas no armário.
— Apesar de hoje ter sido diferente do que eu esperava, eu gostei bastante — comentava o japonês — Aposto que ele vai querer repetir a dose no próximo ano — apontou para o embrulhinho nos braços do loiro.
— Dá para ver que ele se divertiu bastante, mesmo estando exausto. Veja, acho que ele até começou a sonhar, pois está sorrindo — disse o indiano com um sorriso bobo — Vamos para sua casa?
— Sim. Assim deixamos o Shun descansar no quarto dele e você dorme junto comigo — andavam já pelas ruas — Amanhã a gente acorda mais tarde e chegamos um pouco mais cedo na minha avó, assim eu garanto uma ajuda para ela não fazer o almoço inteiro sozinha.
— Estava pensando em fazer algo especial para nós dois amanhã após esse almoço. Tirar o resto do dia para nós dois. Um encontro de namorados, pesquisei o quanto isso é popular por aqui nessa data e até que não foi um choque cultural grande.
— É tipo outro dia dos namorados que nós temos no ano. Espere um pouco — sentiu seu celular vibrar — É uma mensagem do Shion.
— O que seu chefe quer uma hora dessas? — perguntou curioso — Algum problema no trabalho?
— Na verdade é um convite para o Shun. O Mu realmente gostou muito dele! — lia o restante da mensagem — Ele disse que o filho dele está reunindo os amiguinhos para passarem a tarde e dormirem na casa deles, já que eles vão viajar dentro de poucos dias.
— Vai aceitar? Essa é uma ótima oportunidade.
— Vou sim. Aviso meu maninho quando ele acordar, aposto que ele vai adorar a ideia. Já nós teremos nosso momento — digitava feliz no celular a resposta ao seu chefe — Shaka…
— Diga.
— Não quer alugar umas fantasias temáticas para amanhã? Você ficou ótimo de rena.
— De jeito nenhum! — se controlou para falar baixo por causa do pequeno que estava dormindo em seus braços — A única pessoa no mundo que conseguiu me convencer de usar fantasias é meu cunhadinho, a criança mais doce que eu conheço. Já se você quiser usar sozinho, eu não farei desfeita — comentou risonho — Feliz natal, Ikki!
— Feliz feriado, Shaka! — eles se abraçaram com cuidado antes de entrarem no metrô e seguirem com seus planos.
Feliz Natal!
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