Notas iniciais
Olá pessoal, uma excelente semana a todos! Estou trazendo mais um capítulo. Espero que vocês gostem do conteúdo que vou compartilhar hoje. Acho que nesse capítulo vocês também conseguem ver um pouco mais do OOC Harry, a personalidade dele, de como diverge do Harry canone e, bem, os caminhos românticos que a história vão seguir, além de toda a trama que a envolve.

Era o primeiro dia de aula, Harry já tinha pontos negativos para a Grifinória, uma detenção com Snape e um encontro com Dumbledore na sexta-feira. Não fazia ideia de como iria se organizar, já que o diretor queria encontrá-lo no mesmo horário que Snape ia aplicar sua detenção.

Além disso, precisava encontrar uma brecha para fazer a seleção para o time de quadribol. Precisaria escalar um time quase que inteiro, muito embora tivesse um ou outro nome que Harry já conhecia o desempenho, o que acalmava seus ânimos e diminuía a pressão. Mas o que mais lhe preocupava era seu melhor amigo, porque embora o quisesse no time, sabia que Ron precisaria controlar os nervos.

Após o intervalo, Hermione seguiu para a aula de Aritmância, enquanto Ron e Harry voltaram para a Torre da Grifinória. Sentaram-se junto a Neville, que já estava rodeado por boa parte do estoque de livros da biblioteca, e tentava nervosamente dar conta do dever complexíssimo que Snape tinha passado logo na primeira aula.

— Quando eu achei que me livraria do morcego velho... — disse Neville com profundo desânimo.

— Nem me fale. — Harry concordou secamente. — Você vai continuar a fazer Poções? Slughorn não me parece nada mal.

— Eu poderia se quisesse. — Neville encolheu os ombros. — Mas eu não tenho ambição para o curso.

— Você odiava o Snape, você não odiava Poções. — Harry disse tentando aconselhar o amigo mais antigo. — Você continuará tendo aulas com o cretino de qualquer forma. Talvez você devesse descer para as Masmorras conosco.

Neville parecia muito incerto, então decidiu não insistir. Sabia que a velha matriarca dos Longbotton já colocava pressão suficiente sobre o próprio neto.

Aquilo era algo, além das festas de aniversário, que Harry e Neville compartilharam a vida toda. Os dois eram filhos de homens que fizeram grandes coisas, então, logicamente, esperava-se que os dois honrassem a figura de seus progenitores – mas claro, Lily jamais iria expor Harry às cobranças e humilhações que Augusta Longbottom submetia o próprio neto.

No caminho para o almoço, Harry e Julian se encontraram no corredor. Julian contava animadamente que Snape havia ensinado sobre maldições imperdoáveis. Com o braço jogado sobre os ombros estreitos do irmão, Harry se esforçava para não revirar os olhos pela maneira que o caçula falava de Snape.

Julian falava de Snape da mesma forma que falava de Harry, Remus e Sirius: como um herói.

Harry cresceu escutando histórias dos Marotos, sobre seus feitos e sobre as pegadinhas que eles pregavam em Snape. Ele havia até tido a oportunidade de dar uma bisbilhotada nas memórias do morcegão, mas enquanto Harry parecia confuso com o que tinha assistido, Julian ficou claramente revoltado.

—... e foi incrível, Harry! Os efeitos que a maldição Cruciatus pode causar, ele explicou exatamente quais as propriedades do feitiço que fazem os ossos das pessoas doerem. Ele também explicou a parte da neurologia, como de fato acontece a maldição Imperius numa pessoa. Snape disse que pouquíssimos conseguem resistir a maldição, é necessário um absurdo controle mental e autoconhecimento. Lembrei-me de você! Você resistiu a maldição Imperius! Pensando aqui Harry, caramba, você resistiu as três maldições!

Estava começando a pensar que Julian nunca calaria a boca, ou que eles jamais chegariam no Salão Principal, quando uma coisa que seu irmão disse o chamou absurda atenção.

—... enquanto Severus falava, ele me lembrava muito de você, sabia?

— Quê? — perguntou alto, recebendo um olhar repreensivo de Julian que detestava ser o centro das atenções.

Hermione havia dito a mesma coisa mais cedo. Exatamente a mesma coisa quando Harry reclamava da aula.

— Sim. — Julian disse solenemente. — Eu me lembrava o tempo inteiro dos nossos encontros da AD. Ele disse que a diferença entre um bom e um mau duelista, é meramente a reação do indivíduo perante a situação de risco. Por exemplo, muitos acabam mortos porque se apavoram e esquecem a varinha, já pensou nisso?

Harry sabia que não podia ficar com raiva de Julian, porque ele era inocente, uma vítima de toda porcaria que seu nascimento significava e por causa de Voldemort. Ele não entenderia o que Snape quis dizer com aquela última frase, mas Harry sabia que o professor, entrelinhas, tentava dizer que James Potter foi fraco e havia falhado em proteger sua família.

— Escute, Julz. — disse respirando fundo, fazendo o possível para manter a calma e não assustar o irmão. — Não escute tudo que o Snape diz, tudo bem? Nós já conversamos sobre isso, nem sempre ele foi um cara legal.

— Ele é muito bom para mim. — Julian argumentou.

— Eu sei. — interrompeu-o, esperando que seu tom amigável evitasse uma discussão com o mais jovem, porém sabia que era bastante improvável. — Mas... tenha cuidado, está bem? Se ele um dia tentar alguma coisa...

— O que ele poderia fazer? — Julian cortou o irmão violentamente. — Machucar-me? Você realmente acha que Severus faria algo assim? Por favor. Sabe, eu amo o Sirius, mas ele te deixou completamente paranoico com Snape.

— Não é paranoia, Julz. Eu só estou pedindo para ser cuidadoso. — Harry suplicou. — Eu sei que você passa tempo com ele fora das classes... sei que ele te ensina coisas... diferentes.

A cor fugiu do rosto de Julian. Ele começou a gaguejar e Harry olhou para o irmão, esperando que ele se atrevesse a contrariar sua fala.

Harry já tinha visto o nome do irmão caçula, inúmeras vezes, no Mapa em horário proibido nas masmorras. Ele sempre estava acompanhado do nome de Severus Snape e os dois interagiam por horas, andando pelo cômodo e as vezes próximo ao outro.

O estômago de Harry embrulhava só de pensar no irmão, sozinho e indefeso. Se um dia Snape o machucasse, Harry não responderia por si mesmo, mas a vez que decidiu checar os dois sob sua capa da invisibilidade, só pôde escutar a gargalhada gostosa de Julz e ver o irmãozinho comemorando alguma coisa, provavelmente o sucesso em algum experimento.

— E você acha que eu seria tapado suficiente para me deixar impressionar por coisas erradas? — perguntou abrupto, seu rosto pálido ganhando uma tonalidade avermelhada.

Na infância, Harry e Julian não costumavam brigar. Não era do feitio deles e ponto final, mas enquanto se tornavam adultos e cada um deles se tornava indivíduos autoconsciente e líderes naturais, então as vezes acabavam trocando farpas entre si.

Julian era muito mais tranquilo. Harry sabia que requeria muito para tirar o irmão caçula do sério, mas falar de seu professor predileto ou tratá-lo como criança era uma das coisas que o irritava.

— Só estou dizendo que você é inocente. É tudo. — Harry disse em forma de esclarecimento, ansioso para encerrar a discussão e almoçar com tranquilidade.

O menino de cabelos acaju estava longe de satisfeito com as palavras do irmão. Seu maxilar estava rígido e suas mãos haviam se transformado em punhos. Ele se afastou de Harry antes que o mais velho tivesse a oportunidade de detê-lo ou mesmo tentar se desculpar.

Ser o irmão caçula não é fácil. Ser o irmão de alguém não é fácil.

Ser o irmão caçula de alguém como Harry James Potter era uma tarefa quase impossível. Não porque as pessoas esperavam que Julian fosse tão incrível e talentoso quanto seu irmão, não, não era isso.

É porque embora ele fosse tão talentoso quanto Harry, ninguém enxergaria embaixo da camisa para dentro das calças, a gravata bem-feita e os cabelos arrumados.

Harry era o soldado. Julian o intelectual.

Eles não podiam ser mais do que as pessoas acreditavam que fossem. O fato de Harry também acreditar nisso era o que mais o irritava.

Como ele poderia alegar aquilo? Dizer que Snape era metido com as artes das trevas até a fuça era uma coisa, mas dizer que Julian poderia estar sendo usado pelo seu professor predileto?

Julian era seu discípulo, não seu pau mandado.

Lançando um último olhar ressentido ao irmão, o mais novo encheu o prato com coxas de galinha.

A uma distância razoável, Harry tentava comer sem pensar na discussão com Julz e o sentimento de culpa dentro do peito. Ele odiava brigar com o irmão.

Às vezes sentia que deveria afastar Julian e Ranhoso do outro definitivamente; não achava saudável e nem se sentia confortável com a proximidade dos outros. Já havia ponderado em contar a Julian sobre o que realmente havia acontecido – que o professor favorito dele havia, pessoalmente, se certificado que Voldemort soubesse sobre a profecia que falava de Harry.

Conhecendo o irmão, pensou desgostoso, Julian compraria a ideia de que Snape havia se arrependido de verdade. Até mesmo Dumbledore acreditava em sua redenção. Não que a palavra do diretor não tivesse valor para Harry, mas ele não as tomava como verdade absoluta. Sirius tinha dito o porquê do remorso do professor.

Seu estômago se revirou e ele olhou nervosamente para onde Julian estava. Seus cabelos cor acaju eram sempre impecavelmente arrumados, diferentes dos de Harry, assim como suas vestes também eram sempre muito arrumadas – outra vez, diferentes das de Harry.

Ele era absurdamente parecido com a mãe deles. Até mesmo seus traços eram mais gentis, enquanto os de Harry eram mais marcantes. O rosto de Julz era redondo e gentil, o de Harry era quadrado e duro.

Julian sempre sorria para as pessoas, enquanto Harry evitava encará-los nos olhos.

Temia que Snape visse no irmão uma forma de se reaproximar de Lily – ou substituí-la. Não queria que Julian se machucasse, não queria mesmo. Às vezes, quando Harry ficava sem sono, ele passava horas na cama pensando na vida.

Já havia cogitado desaparecer com sua família e dizer ‘que se dane’. Havia sido humilhado, chamado de mentiroso, assassino e, dentre tantas outras coisas, que se parasse para pensar ninguém em sã consciência continuaria ali.

Porém toda vez, toda maldita vez, que Harry pensava em pegar sua família e desaparecer, a frase de Godric Gryffindor gravada na lápide de seu pai vinha a sua cabeça: a coragem não é ausência de medo, mas o triunfo apesar do medo.

Harry nunca se permitiu viver como um covarde. Sempre disse a si mesmo que custasse o que fosse, ele não teria menos dignidade que o pai havia demonstrado ao caminhar na direção da morte para proteger a própria família. Com ele, não seria diferente também.

—x-

O professor Slughorn parecia um leão marinho, foi a conclusão que Daphne teve quando ela chegou nas masmorras e viu o mestre de poções pela primeira vez.

— Ohô! — ele disse com absoluto entusiasmo. — O que temos aqui, o que temos aqui hein? Qual seu nome mocinha? Percebo que é da minha casa.

Ignorando a vontade de corrigi-lo e lembra-lo que Severus Snape era o atual diretor da Sonserina, ela respondeu.

— Daphne Greengrass, senhor. — respondeu educadamente.

— Você não seria relacionada a Devon Greengrass, seria? — quis saber o professor, ele juntou as mãos e as apoiou sobre a enorme barriga.

Daphne precisou prender o riso. Ao seu lado, Theodore falhava miseravelmente e ela quase teve que chutá-lo.

— Sim, senhor. Esse seria meu pai. — respondeu educada.

— Eu ensinei ao seu pai, ensinei sim. — disse o homem com um olhar perdido ao nada e revirando as próprias melhoras. — Devon nunca foi brilhante em poções, mas eu ouvi que ele se tornou um diplomata formidável. Eu o apresentei ao Ministro da Magia na época e ele acabou fazendo um estágio dentro do gabinete.

— Oh sim, papai sempre conta histórias memoráveis de seu estágio. Nesse verão eu tive a oportunidade de fazer estágio nas Relações Internacionais do Ministério da Magia Francês.

— Sua família vive em Paris, correto?

— Sim, senhor.

— Cidade formidável. Bem, diga ao seu pai que adoraria aparecer para uma xícara de chá e um croissant.

— Ficaríamos felizes em recebê-lo, senhor.

Daphne encontrou um lugar nas carteiras a frente. Ela identificou Blaise, Theodore, Draco e outros membros da sua casa, mas optou por se sentar sozinha porque acreditava que trabalhava melhor dessa maneira.

O professor Slughorn começou sua aula e, silenciosamente, Daphne fazia anotações e tentava não se distrair com Theodore murmurando seu nome a cada cinco minutos. As vezes ela queria que Theo entendesse que porque eles eram amigos, não necessariamente significava que eles tinham que fazer todas as aulas juntos.

Quando finalmente Slughorn ia chegar a parte interessante e começar a falar das poções que estavam dispostas sobre o balcão, a porta se abriu num grande escancaro. Claro que Daphne, assim como todos os alunos, viraram-se para deparar com Harry Potter, Ron Weasley e Neville Longbotton chegando.

— Harry, meu rapaz! Eu achei que você não viria mais.

— Desculpe, professor, mas consegui mais dois alunos para sua classe.

— Sim, sim. Quanto mais melhor. — empolgadamente, Slughorn respondeu.

Daphne revirou os olhos.

Ter a classe interrompida por causa da mesquinharia e prepotência de um garoto que se achava bom demais para estar ali, era o cúmulo do absurdo.

Potter não tinha se dado sequer o trabalho de fazer o nó de sua gravata ou tirar aquela barba terrível do rosto.

Longbotton e Weasley lutaram para conseguir o assento ao lado de Hermione Granger, porque o outro livre era do lado de Seamus Finnigan e ele tinha uma predisposição incrível a explosões.

O único lugar vazio era ao lado de Daphne, no outro extremo da sala que era ocupada quase que totalmente por sonserinos.

— Sem ofensas, Finnigan. — Potter disse e começou a ir para o lugar ao lado de Daphne.

Algumas pessoas murmuraram, outros entenderam como uma provocação, mas Harry simplesmente se sentou com um exemplar mal acabado de poções do sexto ano, que ele havia pegado no armário do Slughorn, e sequer a dirigiu a palavra.

— Bem, bem, já que estão todos acomodados, eu vou dar continuidade a aula.

Logo Slughorn apresentou todas as poções que estavam ali. Daphne já se familiarizava com todas elas, claro, mas foi a Felix Felicis que verdadeiramente instigou sua atenção, bem como a dos demais sonserinos presentes.

Os olhos de Daphne brilharam só de imaginar o que poderia fazer com a Felix Felicis. Ela havia sido aprendiz de Snape nos últimos dois anos! Não era possível que não tivesse aprendido nada com o diretor de sua casa.

—... aquele que conseguir fazer a poção do morto-vivo, e vocês encontrarão as instruções no livro de vocês, ganharão um frasco dessa poção dificílima de se fazer. É esse o desafio que proponho a vocês hoje, sexto ano! Então, o que estão esperando? Ao trabalho.

—x-

Coisas estranhas aconteceram naquela aula de poções, pensou Harry Potter consigo mesmo. A mais estranha era que Harry tinha encontrado um velho exemplar de poções dentro do armário de Slughorn e descoberto uma nova forma de fazer uma poção de um jeito mais eficaz e fácil que os livros didáticos realmente ensinavam.

Harry não fazia ideia de quem era o Príncipe Mestiço, mas sentia que poderia apertar sua mão e agradecer pelo bom serviço prestado a sociedade.

A segunda coisa mais estranha, é que Harry foi parado no meio do corredor, a caminho de sua segunda aula do dia, pela última pessoa que podia imaginar.

— Como você fez aquilo? — exigiu a garota.

Ultimamente parecia que seu caminho e o de Daphne Greengrass era inevitável. Ajeitando a mochila nas costas, Harry respondeu com o máximo de cinismo que tinha:

— Eu não faço ideia do que você está falando. — respondeu, muito embora não tivesse se contido e começado a brincar com o frasco de Felix Felicis que havia ganhado de Slughorn.

— Você trapaceou. — acusou a sonserina, os olhos azuis pegavam fogo e a faceta gelada dela parecia estar derretendo.

Princesa de Gelo, Hermione havia o dito.

— Você acha? — Harry retrucou.

— Eu tenho certeza. — declarou veemente a garota.

— Então prove.

Dito aquilo, Harry seguiu seu caminho com um leve sorriso no rosto e extremamente consciente de que ele estava caminhando por um trajeto perigoso ao provocar a princesa das serpentes.

Olhando sobre o ombro, ele viu o resquício dos cabelos dourados de Daphne desaparecer pela multidão.

Notas finais
O que acharam? Ótimo domingo a todos.