Sigilo
35 Especial - Gajeel e Rogue
Notas iniciais

Sigilo
Especial
Gajeel e Rogue
— … sessenta e dois, sessenta e três, sessenta e quatro…
Um garoto de aproximadamente doze anos estava sentado em meio a neve, contando de olhos fechados. Seus punhos estavam cerrados e o cenho franzido. Haviam gotículas de suor lhe cobrindo a testa, evidenciando sua árdua tarefa. Ao longe, um senhor de cabelo e barba compridos fitava o garoto de braços cruzados.
Quando a contagem chegou a cem novamente, o garoto deu uma pausa, respirando fundo e abriu os olhos. Fitou as mãos que agora abriam-se devagar, com expectativa. Um pequeno sorriso lhe veio a face, mas logo morreu, quando os finos dedos tornaram-se garras de ferro escuro.
— Quantas centenas contou? — o senhor perguntou, aproximando-se.
O garoto ergueu o olhar, surpreso pela companhia, seus olhos rubros pareciam dois rubis de tão intensa que a cor era, um contraste perfeito com o cabelo negro e rebelde.
— Quatro, senhor Hades – respondeu, respeitoso no tom de voz.
O senhor, Hades Gaebolg, tinha uma aparência simples. O cabelo e a barba eram inteiramente brancos, o rosto tinha um leve bronzeado demonstrando que não era natural do local frio que se encontravam. Vestia calças negras e grossas, um gibão forrado de cor cinza e uma pesada capa escura com a gola revestida por pele de animal.
— Sua resistência está aumentando – contemplou com o único olho que lhe servia, pois a visão direita havia perdido a muito tempo, precisando usar um tapão para esconder a ferida.
— Vou tentar seis centenas, senhor – o garoto falou, animando-se novamente.
— Quem sabe mais tarde, Gajeel. Agora preciso que entre antes que pegue um resfriado. Passou tempo demais aqui neste frio – Hades respondeu, dando a volta sem esperá-lo.
O garoto levantou e correu, levemente torto pelo tempo sentado, atrás do homem. Não queria admitir em voz alta, mas estava ansiando por uma lareira e o calor do fogo. Seu treinamento lhe exigia ficar em situações desconfortáveis para que forçasse sua Magia a se manifestar e assim treinar para escondê-la. Quando chegara a Forte Negro, não conseguia mais do que uma dezena e no momento já avançava centenas.
Forte Negro foi aparecendo aos poucos enquanto os dois subiam o pequeno monte no qual a construção de localizava. Apesar do frio, Gajeel gostava do local. Já viajara para cá quatro vezes em sua curta vida, e sempre se encantara com Ilha Galuna, local que abrigava o Forte. Ele não sabia o que mais tinha lhe fisgado, se eram as histórias sobre os demônios que um dia habitaram ali ou as suas mudanças climáticas perfeitas, mostrando o melhor e pior das quatro estações.
Por se tratar de um Forte, a construção não era um espetáculo visual. Era composto por quatro torres de vigia, interligados por um denso e alto muro protetor, e por dentro havia uma mansão relativamente simples, contendo vinte quartos principais, um salão de jantar, um salão para reuniões, a cozinha anexada aos dormitórios dos servos, salas para armas, comidas, estudos e tecelagem. O pátio era composto por um pequeno jardim para cultivo de frutas e um estábulo nos fundos da construção.
— Parece que ainda falta algum tempo antes do jantar – Hades comentou, após trocar uma breve conversa com o responsável pelo Forte – então posso lhe dar lições até que a comida esteja pronta.
Os olhos de Gajeel brilharam em expectativa. Ele simplesmente adorava os contos que o senhor falava, quase todos de sua terra natal, Ghaléia. O Rei de Fiore solicitou ao Rei Jude de Ghaléia um mestre em Magia para que seu filho mais velho entendesse melhor sobre o assunto, coisa que Jude aceitou de bom grado dado ao compromisso firmado junto de sua filha, a Princesa Lucy, ao herdeiro proclamado, Príncipe Rogue.
Os dois entraram na sala destinada aos estudos, repleta pelos livros que Hades trouxera junto de si. Haviam os mais diversos títulos, desde como aprender a caçar animais até Magias escuras.
— Teve pesadelos outra vez? — o senhor perguntou, sentando-se na poltrona perto da lareira.
— Não, senhor – o garoto respondeu, sentando-se no chão de frente para o outro.
De acordo com Hades, os pesadelos que o garoto começou a ter logo após a descoberta de sua Magia eram provenientes do choque emocional e físico do despertar mágico e a perda da mãe. Os poucos meses que se encontravam no Forte logo foram assombrados por eles, deixando Gajeel irritadiço e menos propenso a progredir com os exercícios. Hades teve que intervir com sessões de meditações e ir ocupando a mente dele com outras coisas, como essas histórias que contava ocasionalmente.
Hades tinha uma certa experiência com as reações de Magia em crianças e adolescentes. Em Ghaléia foi responsável pelos ensinamentos da Rainha Layla e depois em sua filha, Princesa Lucy, bem como suas fiéis amigas, Yukino e Erza. Ele sentia uma pontada de saudades das três garotas que deixara em seu Reino natal, mas sabia que elas estavam bem instruídas e não corriam mais riscos devido suas Magias. Claro, se continuassem agindo como lhes ensinara. Entretanto, não podia comentar que os pesadelos eram reversíveis com Gajeel, pois o fato de sua futura cunhada ser Maga ainda devia ser segredo devido a Lei Anti-Magos de Fiore. Lei essa que complicava a situação do próprio Príncipe.
— Sobre qual Magia gostaria de aprender hoje?
Gajeel pensou, a mão segurando o queixo enquanto listava todas que já tinha aprendido.
— De guerra.
O Gaebolg deu um pequeno riso devido a escolha. Em sua opinião haviam Magias mais interessantes por aí, como a Estelar, que permitia o seu usuário uma variante enorme de situações. Ou até mesmo a Magia de Gajeel, a Elementar. Mas, o garoto estava na famosa fase onde sonhavam em serem heróis de guerra, inspirados nas histórias populares ou de seus antepassados.
— Magias de guerra podem ter várias faces, meu caro. Temos as de reequipamento, onde o usuário pode trocar rapidamente de armadura que estão previamente armazenadas em seu inventário Mágico. Também existe a de Estratégia, onde o usuário consegue formular os mais inusitados movimentos e é praticamente invencível em batalha. E por fim, temos a Protetora, onde o usuário consegue formar barreiras que impedem que o inimigo penetre suas fileiras e ao mesmo tempo dá a chance de seus homens invadirem a inimiga.
— Uau – o Príncipe estava encantado – elas podem ser combinadas? — pediu, pensando nas coisas que já tinha aprendido.
Ele sabia que por vezes o Mago podia nascer com a possibilidade de adquirir mais Magias ao longo do tempo, desde que elas fossem parecidas com a sua principal. Por exemplo, se um Mago controlasse água poderia desenvolver sua Magia para controlar outros líquidos, como sangue, sucos, ácidos e até mesmo lava.
— Podem. Até conheço uma pessoa que possui as três modalidades – ele respondeu, pensando em uma de suas aprendizes em Ghaléia.
— Gostaria de poder combinar também – Gajeel lamentou.
Hades inclinou-se de leve na poltrona.
— Acredito que possa. Quem sabe outros minérios se dobrem a sua vontade – então, o rosto do senhor ficou pensativo – apesar de que sua Magia se expressa em seu corpo, e não externamente.
Gajeel ficou observando enquanto o outro parecia montar ideias, tentando encontrar um meio o garoto pudesse evoluir magicamente. Levantou-se e rumou para a parede oposta da lareira, a mesma que abrigava seus livros e as caixas que trouxera. Remexendo em uma das caixas, voltou-se para o menino um tempo depois, com um objeto em mãos.
— Pegue – instruiu.
Gajeel pegou o objeto, constatando que era uma argola de ferro partida. Franziu o cenho, confuso.
— Agora concentre-se e coloque sua vontade neste objeto, ordenando que a argola se restaure – Hades explicou, escorando-se na mesa.
Respirando fundo, o garoto olhou para a argola e imaginou-a se juntando e fechando o espaço partido entre ela. Sentindo um leve comichão em seu estômago, coisa característico quando se usava Magia. A argola em suas mãos deu uma estremecida e criou pequenos filamentos de ferro.
Hades olhava a cena encantado. Tinha presumido que a Magia do garoto fosse corporal, que ele apenas conseguisse manipular o ferro em torno de seu corpo, transformando membros seus no que quisesse, mas aparentemente se enganara. Gajeel era especial a seu ver, tinha o potencial de jogar com o ferro segundo suas vontades, seja nele mesmo ou externamente, quiçá, outros minérios. Eram raros esses tipos de Magos.
Era uma pena que estivesse educando-o para esconder sua Magia, em vez de desenvolvê-la.
— Vamos – O RedFox sussurrou, ansioso.
Mas, a argola não juntou-se mais do que havia feito.
(…)
Rogue caminhava apressado, estava atrasado para suas aulas, mas sua curiosidade na noite anterior fora maior que o sono, fazendo com que entrasse madrugada a dentro lendo os livros que encontrara por acaso na biblioteca.
Desde que seu irmão partira para Forte Negro, ele sentia a necessidade de aprender mais sobre Magia para que quando o outro regressasse o pudesse auxiliar. Os dois sempre foram parceiros e amigos, inseparáveis desde o berço. Ficar longe dele era angustiante para Rogue, principalmente sabendo do motivo do afastamento.
Resoluto que ajudaria Gajeel, Rogue começou a escavar os livros da biblioteca, procurando por qualquer coisa que falasse de Magia. O Príncipe achava um tremendo estorvo que seus antepassados tivessem limpado o local, queimando os livros que agora gostaria de ler. Estava quase louco por não encontrar nada quando se deparou com um fundo falso, escondendo três preciosidades.
Levou-os a seu quarto e prontamente achou um bom lugar para guardá-los. Tirando-os apenas na noite parrada para ler, mal se aguentando de ansiedade para saber o que eles escondiam, mas sabia que era impossível ler todos em uma noite.
Rogue chegou a sala de estudos sem fôlego, pois teve de correr os últimos metros para chegar logo. Quem o visse acharia que estava doido pelas aulas de política que vinha recebendo ultimamente, mas, na verdade, o garoto achava tudo aquilo perda de tempo. Para que precisava saber sobre batalhas de quase 400 anos antes de nascer? Porém, seu pai era irredutível sobre o conteúdo.
Afinal, era o próprio Rei quem lhe ensinava.
— Bom dia, papai – cumprimentou logo que adentrou no recinto.
Estavam no gabinete privado do pai, escondido no Salão Real, o mesmo que o monarca recebia as visitas da população. O Rei ergueu os olhos acinzentados da carta que lia quando o filho chegara, o olhar que dera demonstrava que estava irritado naquela manhã.
Ele era um homem charmoso apesar da idade. Os cabelos negros eram lisos e caíam nos ombros, formando uma cortina adornando o rosto oval. Sua falecida esposa dizia que era uma injustiça que ele tivesse cílios longos e curvados enquanto os dela eram menores. Sua pele era bronzeada dos anos que viajara por Fiore e além do reino. O físico havia decaído com os anos, mas ainda restava uma sombra dos músculos que cultivara enquanto jovem.
— Bom dia, Rogue. Está atrasado.
O herdeiro sentou-se no banco elevado, item solicitado por seu pai para que o garoto ficasse da altura correta a mesa durante as aulas.
— Desculpe, tive pesadelos – mentiu, descaradamente.
Se havia algo que Rogue vinha aprendendo muito era mentir eficazmente para seu pai. Desde a morte da Rainha, o homem ficara inflexível em relação ao único filho que ficara por perto, impedindo-o de sair do Castelo ou de brincar com outras crianças. Assim, o RedFox mais novo descobrira saídas e rotas que davam acesso ao exterior para poder fazer o que queria, e quando afrontado pelo Rei sobre onde estava, dizia que estava a ler ou qualquer outra coisa.
— Compreensível – o Rei comentou, abrandando um pouco seu humor – caso eles não cessem, procure Poluchka. Ela pode lhe dar algo para dormir melhor.
Rogue assentiu, sorrindo de leve.
— Notícias de Gajeel? — o garoto pediu, ansioso.
O pai enrolou a carta, guardando-a na gaveta em seguida.
— A última carta que recebi de seu instrutor, que foi a quase duas semanas, ele estava ótimo e progredia muito em seus estudos.
Os três haviam decidido que falariam sobre a situação de Gajeel como uma viagem a estudos. Que o Príncipe mais velho tinha decidido abdicar da coroa em prol do irmão, e foi viajar para aprender novas coisas sobre Fiore.
Rogue pensava que a população acharia estranha a atitude que seu pai inventara de Gajeel, mas a abdicação ao trono não era tão rara assim em Fiore. Vários herdeiros deixaram para seus irmãos ou irmãs a responsabilidade de guiar o reino, segundo as aulas que recebia do pai.
O local onde seu irmão fora também foi uma curiosidade para Rogue. Por que Forte Negro? Tinham tantos locais em Fiore, bem mais equipados do que a Ilha Galuna. Quando fizera a pergunta a seu pai, o mesmo sorriu compreensivo.
O motivo do Rei ter mandado seu primogênito para um lugar tão distante deles é que nessa Ilha a população era mais reclusa, quase não interagiam com o restante de Fiore, apenas mandavam o ouro para a coroa e em troca recebiam as ajudas que solicitassem.
Assim, caso o fato de Gajeel ser Mago viesse a ser de conhecimento dos moradores da Ilha não traria riscos para o Príncipe, afinal o segredo ficaria ali com eles. Sem contar, que o local não fora alvo de perseguições macabras como o restante do reino, deixando a população menos preconceituosa com Magos.
O Rei então iniciou os ensinamentos que preparara para o dia. Contou sobre como deveria agir com os Lordes, quais as características de cada família detentora das terras de Fiore, e quais eram extremamente fiéis a família real.
O nome Dragneel destacou-se devido à proximidade das duas famílias. Segundo o Rei, o Lorde Igneel era um grande apoiador da coroa e sempre atendia as solicitações que faziam, dizendo a Rogue que poderia confiar nele e em seu herdeiro, Natsu.
— Natsu não vem mais para cá depois da tragédia vermelha – Rogue comentou, triste pelo afastamento de seu amigo.
— É doloroso para ele o que ocorreu. Assim como é para nós – o pai comentou.
— Gostaria que ele viesse para cá, sinto-me sozinho desde que Gajeel partiu.
O Rei ficou pensativo. No fundo, sabia que isolar seu filho de todos com medo de perdê-lo não era uma atitude sábia. Era verdade que os Dragneel ficaram mais reclusos após a tragédia, mas quem sabe agora fosse uma boa oportunidade para se reunirem novamente e talvez isso voltasse a animá-los.
— Vou pedir a Gildarts para mandar uma carta a Igneel, pedindo que eles venham passar uma temporada conosco. Os Lordes CasaDel e Tormunn podem cuidar do sul por algum tempo – contou seus planos para o garoto que prontamente sorriu – mas, por enquanto precisamos continuar com nossas aulas.
— Certo, papai. Falta comentar sobre os Lorde Navish e Lorde Kartt.
(…)
Passaram-se cinco anos desde que Gajeel pisara em Forte Negro junto de Hades. Cinco anos cuidando para que sua Magia não aparecesse sem que quisesse. Cinco anos aprendendo sobre combate e estratégias de guerra. Cinco anos estudando o mapa de Fiore e aprendendo sobre os Lordes. Cinco anos longe de seu irmão.
Era final de outono em Ilha Galuna, e os poucos moradores dali corriam para fazer seus estoques de comida para o inverno que logo chegaria. O Príncipe, agora um rapaz, também precisava abastecer Forte Negro, portanto ajudava os servos a carregar os alimentos mais pesados do armazém central da ilha para dentro do Forte.
— Essa é a sétima saca de batata – comentou, jogando a saca no monte feito as pressas na sala de mantimentos.
— E as demais sacas do armazém? — Hades perguntou, escorado no corredor, observando seu tutelado.
— Deixei que a população pegasse uma quantia maior. Eles vão trabalhar no inverno contra o acúmulo de neve nas estradas e pontos importantes. Precisam estar bem alimentados – o rapaz respondeu, voltando pelo corredor que entrara – além do mais, a colheita esse ano foi relativamente menor.
— Ainda digo que é um desperdício que não seja o herdeiro. Sabe agir pelo bem do povo – o senhor comentou, seguindo o outro.
Gajeel soltou um curto riso.
— Meus motivos são de vosso entendimento, Mestre Hades. Além disso, vivi em Galuna tempo demais, os demais em Fiore nem devem lembrar de mim – pausou, colocando a mão no ombro do homem – Rogue é um bom rapaz, acredito na capacidade dele em governar. Mas, é cedo para falar disso. Papai está vivo e forte.
— Eu sei, Mab (Filho). Mas, minha opinião não significa muito por aqui, não sou um homem de Fiore – respondeu.
— Rydych yn poeni gormod, geezer (você se preocupa demais, velho)— Gajeel respondeu, usando a língua de seus antepassados, um dos seus aprendizados durante esse tempo.
Após levarem todos os alimentos para o depósito e verificarem se os demais no Forte precisavam de algo, Hades e Gajeel foram para o campo de treinamento. Com o passar dos meses, os dois viram a necessidade de um local separado de todos para que o Príncipe pudesse treinar combate usando ou não a sua Magia.
Descendo a pequena montanha e indo em direção a esquerda da vila local, por detrás das grandiosas árvores havia uma belíssima clareira. Fora ali que construíram seu campo. Preservaram ao máximo as belezas naturais da clareira, modificando pequenas coisas para o uso deles.
De um lado haviam três alvos feitos a mão pelos moradores, pois gostavam de ajudar no que podiam. Cada alvo tinha um propósito diferente, um para arco e flecha, outro para lanças e lançamento de adagas, e um último para golpes a longa distância usando os membros do corpo transformados pela Magia.
Em paralelo aos alvos haviam quatro troncos revestidos por lãs e panos para prática de golpes físicos, combate corpo a corpo, além de treinar a intensidade dos golpes dele verificando se podem quebrar determinados materiais.
Mais ao lado dos troncos haviam pedras de diversos tamanhos, varas de madeira e uma cama feita de pregos afiadíssimos, onde era testada a resistência física e Mágica do Príncipe. As pedras serviam de levantamento e arremesso, as varas eram usadas por Hades para bater em Gajeel e ver quando sua pele de ferro aguentava, bem como a cama, onde o rapaz deitava-se ou sentava-se para aguentar o máximo que conseguia manter a pele impenetrável.
Todo o intenso treinamento, aliado as sessões de meditações e aulas estratégicas mudaram o garoto franzino que chegara a cinco anos. Gajeel ficara alto e forte, suas roupas praticamente triplicaram de tamanho devido a massa e músculos que adquirira. Ele também deixou o cabelo crescer até o meio das costas, as pontas espetando para várias direções, dando-lhe um ar perigoso e poderoso. Seu olhar ficou mais afiado e concentrado, conseguia entender conversas a longas distâncias devido as meditações e sua mente trabalhava mais rapidamente.
Era um perfeito guerreiro. O Protetor do Reino.
— Quero que acerte dez vezes o alvo central número três. Lançamento direito – Hades instruiu, sentando-se no toco ao centro da clareira, perto o suficiente para ver a performance do rapaz, mas seguramente longe dos movimentos dele.
Entendo a fala, Gajeel posicionou-se de frente ao terceiro alvo, o que era usado para prática de Magia. Ele respirou fundo e remexeu o braço direito, concentrando-se. Jogou o braço para trás enquanto o membro tornava-se de ferro escuro e sua mão a ponta de uma lança. Com agilidade, o RedFox lançou o braço em direção ao alvo, o membro esticando-se e se projetando para frente com rapidez, acertando o centro com precisão.
— Um – ele contou.
Repetindo o gesto em pouco tempo, acertou novamente.
— Dois – continuou.
Gajeel fez a sequência com perfeição, demonstrando seu domínio. Hades deu um leve sorriso, contente pelo resultado que seu aprendiz mostrava. Sem dúvidas havia captado tudo o que tinha para lhe ensinar. O senhor sentia um leve aperto no peito, pois estava na hora do rapaz voltar para sua família, pois seu dever aqui terminara.
— Está pronto – comentou, levantando-se.
O rapaz olhou, surpreso. Imaginava que teria mais aulas por, pelo menos, um ano. Ele ergueu as sobrancelhas, sem palavras.
— Enviei uma carta a seu pai ontem a noite, avisando sobre seu progresso. Em poucos dias deve chegar um navio para lhe buscar.
— E quanto a você, Geezer?
— Voltarei para Ghaléia – Hades deu de ombros – não a muito o que se fazer na minha idade, rapaz.
Gajeel sentia um misto de felicidade e tristeza com o rumo da conversa. Feliz por finalmente rever seu pai e irmão, poder abraçá-los após esses anos. E triste por ter de se despedir de Hades, uma amizade especial que criara nesse tempo, sabia que sentiria falta do velho implicando com ele.
— Pode ficar em Crocus se quiser. Sei que meu pai pode lhe arrumar um bom cargo na corte – comentou.
O Gaebolg balançou a cabeça.
— Não tenho mais paciência para cortes, Mab. Mas, nada me impede de vir visitá-lo uma vez ou outra – respondeu, começando a andar – agora, mova essa sua carcaça, precisa arrumar seus pertences. Não vou fazer suas malas, mesmo com a nossa amizade.
Dando as costas para Gajeel, Hades rumou em direção ao Forte. Apressou os passos para que o rapaz não visse as teimosas lágrimas que queriam cair. Sou mesmo um velho sentimental, ele pensou, segurando o choro e o riso.
E conforme Hades dissera, um navio atracou na Ilha uma semana depois. Gajeel embarcara envolvido pelos votos de felicidade e esperança dos moradores. Quanto a Hades, o Rei lhe permitiu que ficasse em Forte Negro por mais algum tempo antes de voltar a Ghaléia. Os dois, Mestre e aprendiz, despediram-se de longe, um acenando para o outro, pois sabiam que mais do que isso acabariam emocionados demais.
A viajem de volta a capital foi calma, sem tempestades ou problemas marítimos. O restante do caminho, a cavalo foi igualmente tranquilo. Gajeel aproveitou e fez paradas rápidas nas regiões importantes do reino durante o caminho, verificando como seu pai e irmão eram vistos pela população e para que lembrassem de seu rosto.
Os dias pareciam longos demais para o Príncipe conforme a distância com a capital ia encurtando. Mas, segurou sua ansiedade e seguiu o ritmo normal. Sua chegada ocorreu quase um mês depois de sair de Galuna, e parecia que todos estavam a sua espera nas ruas.
Havia gritos de festa em Crocus quando Gajeel entrara na cidade real. Sentiu-se alegre pela emoção que aquelas pessoas emanavam pela sua volta, seu coração encheu-se de felicidade, a tristeza da separação de Hades fora posta de lado por um tempo.
Cumprimentou aqueles que ladeavam a via central que dava para o Castelo, ocasionalmente inclinava-se no cavalo para bagunçar os cabelos das crianças. O RedFox estava estasiado pela admiração que via nos olhos daqueles pequenos. Jamais pensara que fosse tão importante para seu povo.
Quando finalmente chegara aos portões do Castelo, seu coração praticamente explodia em seu peito de tamanha emoção. Era uma mistura de saudade, felicidade, ansiedade, medo e expectativa. Entregou sua montaria para um servo e correu para a construção.
Seu pai, o Rei, e seu irmão, Príncipe Rogue, estavam de pé nos degraus da entrada. Quando alcançou-os, os três perderam a pose real e se abraçaram fortemente, cada qual querendo apertar o máximo que podia o outro em seus braços. Eram cinco anos de distanciamento se acabando naquele momento.
Os que presenciavam a cena disseram depois que conseguiram ver uma luz envolver os três, como se a falecida Rainha os tivesse abençoando. A família estava reunida novamente.
— Bem-vindo ao lar, meu filho – o Rei sussurrou, rouco por conter o choro.
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