Sigilo
4 Capítulo 3 - Gajeel
Notas iniciais

Sigilo
Capítulo 3
Gajeel
— Vamos dar uma pausa – ordenei ao erguer um braço para a comitiva. Ouvi vários resmungos, a maioria de agradecimento, porém um se fixou entre todos. A garota baixinha vinha soltando gemidos queixosos a algum tempo, fato que começou a minguar minha paciência. No mínimo não devia ser acostumada a tantas horas cavalgando.
— Graças aos Deuses – ela comentou em tom baixo, não querendo que eu lhe escutasse. Soltei um riso baixo, afinal tal coisa era um tanto difícil de se fazer. Magos possuem ótima audição, superior à de uma pessoa comum.
Desci de meu cavalo e o entreguei a um escudeiro. Dirigi-me para perto da moça com passos calmos, ela estava concentrada demais tentando descer de seu animal que acabou não me notando. Fiquei tentado a simplesmente dar um tapa no flanco do cavalo e fazê-lo correr por algum tempo, mas teria o trabalho de regatá-la depois.
— Agradeça a mim e não os Deuses, baixinha – comentei, parando ao seu lado.
Irritação dançou pelos seus olhos cor de avelã diante minhas palavras, certamente devia amaldiçoar-me em pensamentos. Revirando os olhos, coloquei minhas mãos debaixo de seus finos braços e a impulsionei para fora da sela. Assim que seus pés tocaram o chão, larguei-a.
— Hey! Mais cuidado. E meu nome é Levy, então pare de me chamar de baixinha – a azulada ralhou enquanto recuperava o equilíbrio. – além do mais, não lembro de ter pedido sua ajuda – continuou as reclamações.
A única coisa que fiz foi rir dela, pois após falar, ela foi de encontro ao chão percebendo que suas pernas não lhe obedeceriam. Lembro-me que isso acontecia comigo nas primeiras aulas de equitação, cavalgar não era algo simples no começo, mas seu corpo se acostuma e se fortalece com o tempo.
Seja sempre um cavalheiro, Gajeel. As palavras de minha mãe soaram aos meus ouvidos, enquanto olhava a pequena moça tentando se levantar. Rolando os olhos, fiz o que a lembrança da Rainha pediu. Com cuidado, passei um braço em torno da cintura dela e ergui, devagar, o seu corpo. A baixinha, ou Levy como prefere ser chamada, olhou-me com espanto diante meu gesto.
Deixei-a perto de uma árvore onde podia se encostar e descansar, então fui atender as exigências dos demais. Quando já havia terminado os afazeres fui me sentar num canto mais afastado, para pensar nos próximos passos. Afinal, algumas coisas tinham saído do planejamento inicial.
Repassei todo o momento em que resgatei Levy em minha cabeça para analisar os fatos separadamente. Após sentir a vibração no ar, consequência do uso da magia e coisa que somente magos conseguem sentir, saí correndo em busca da fonte. Tinha quase certeza de que haviam duas pessoas no local, mas quando cheguei lá encontrei apenas o Mago que surrava a baixinha.
Não perdi tempo em tentar interrogá-lo, estava claro que não sairia nenhuma palavra de sua boca. Os anos trabalhando em prol do Reino me ensinaram algumas coisas, uma delas é identificar uma pessoa fiel e calada. Então fiz o que fui mandado fazer, matei o homem.
Só que a sensação de deixar algo para trás incomodava-me. Por que eles estavam mudando os alvos? Sim, agora tinha uma quase certeza de que eram um grupo, bem organizado por sinal. Gemi em frustração, essa descoberta poderia fazer minha vida virar um inferno. Missões de captura, reuniões com os principais homens do Reino, e o pior, dizer a todos que ainda existem Magos. Fiore se tornaria um ninho de desconfiança, todos temendo o seu companheiro ou vizinho, pensando na possibilidade de a pessoa ser um Mago também.
Eu precisava avisar Rogue. Isso significava voltar para Magnólia e esquecer a viagem para o outro vilarejo.
— Mudanças de planos, pessoal – comuniquei, saindo do lugar onde estive.
(…)
— Traga essa moça aqui – meu irmão mandou, andando de um lado para o outro da pequena sala escondida – quero lhe fazer algumas perguntas.
Assenti com a cabeça e levantei-me da cadeira. Conforme seguía os corredores do Castelo, podia sentir alguns olhares questionadores para minha pessoa, todos haviam estranhado que o Príncipe havia chegado na capital com uma camponesa a tira colo. Ouvi dois ou três burburinhos de que eu poderia ter um caso amoroso com a azulada. Se eles soubessem da verdade...
Encontrei-a no quarto que havia lhe fornecido para descanso, ele ficava na ala mais afastada do Castelo, mas não chegava a ser parte da ala dos empregados. A baixinha estava sentada na cama, olhando a paisagem que a janela lhe fornecia. Devia estar absorta em pensamentos, pois não notou meu aparecimento, foi preciso duas pigarreadas e uma batida na porta para que ela se voltasse para mim.
— O Rei quer vê-la – assim que a frase saiu por minha boca, os olhos dela se arregalaram. Talvez eu não devesse ter dito tão diretamente, mas ser cortês era uma das qualidades que eu não possuía. Pelo menos não o tempo todo.
— Certo – respondeu-me, tentando soar confiante. Um sentimento de aprovação surgiu em mim ao notar a postura decidida dela, mesmo que as coisas tivessem saindo um pouco tortas para a moça, ela se mantinha de pé.
Acenei com a cabeça e saí do quarto, logo ouvi o som de pequenos passos me seguindo, não tardou para que a azulada aparecesse ao meu lado. Sim, eu havia diminuído as minhas costumeiras passadas para que ela me acompanhasse. Por que eu havia feito isso? Nem eu sabia o real motivo.
Quando entramos no Salão Real, onde Rogue costuma atender os pedidos da população, ouvi uma exclamação vir de Levy. Ela olhava abobalhada para a construção, os olhos dançavam de uma pintura a outra, querendo absorver todos os detalhes que via. Deixei um pequeno riso escapar, afinal compreendia como ela devia se sentir, eu também fiquei maravilhado com tudo isso ao ver pela primeira vez.
Senti sua pequena hesitação quando contornamos as escadarias que levavam ao trono, indo em direção a um pequeno corredor lateral. Ela não sabia onde estávamos indo, e pela sua cara devia ter julgado que o Rei estaria sentado na enorme cadeira avermelhada e cheia de ouro. Apenas ergui uma sobrancelha diante sua cara de confusão, ela encarou o corredor e depois a mim por algum tempo, então deu de ombros e voltou a me seguir.
— Aqui está – comentei, entrando na sala logo após ter empurrado delicadamente uma Levy para dentro. Fingi que o olhar zangado que ela lançava não era para mim, e fiquei admirando a adega de vinhos.
— Peço perdão pela atitude de meu irmão, senhorita... – Rogue adiantou-se como um perfeito cavalheiro, dando a volta na mesa e ficando de frente a Levy.
— Levy McGarden, Majestade.
— Como ia dizendo, senhorita McGarden, peço desculpas por essa atitude de meu irmão, ele esquece dos modos algumas vezes – Rogue continuou com a ladainha, olhando-me com repreensão. Depois pegou as mãos pequenas da moça e deu beijo em cada, fazendo uma baixinha ficar com o rosto corado.
Francamente...
— Bem, eu preciso lhe fazer algumas perguntas sobre o incidente em Ran – o Rei falou, voltando a sentar na cadeira de antes – Gajeel já me informou todos os detalhes do que viu e sobre o que a senhorita tinha falado, mas tenho duas questões que gostaria de fazer.
— Como quiser, Majestade – ela respondeu.
— Quando foi que percebeu que o seu sequestrador era um Mago?
— Quando ele me abordou pela segunda vez, após eu ter conseguido fugir até minha casa, mas antes que eu pudesse entrar, ele me parou usando magia – Levy contava com um tom calmo, porém havia um leve tremor em sua voz que denunciava sua inquietação.
— Entendo. Então ele tentou primeiramente lhe capturar sem magia, e quando não conseguiu resolveu usá-la – meu irmão resumiu o relato para si mesmo, tentando compreender a situação. – A minha próxima pergunta é, a senhorita ouviu algo de importante durante o tempo que foi refém?
A baixinha ficou em silêncio por um tempo, provavelmente repassando as cenas em sua mente e procurando por algo significativo. Esperamos pacientemente a sua resposta, tentar apressá-la não ajudaria em nada. Então, ela ergueu o olhar determinada.
— Um dos homens comentou que eu não servia como fonte. Ele não explicou ou deu mais detalhes além disso.
Então realmente havia uma segunda pessoa. Por que diabos eu não perguntei isso para ela antes? Ah, claro! Estava muito preocupado pelo fato de ela ter visto minha magia. Eu tenho que começar a pensar como um profissional novamente, não posso deixar que questões particulares atrapalhem as investigações.
— Tem certeza de que foi fonte que você ouviu? – o moreno questionou, querendo ter certeza de algo.
— Sim, Majestade, tenho certeza – ela respondeu, convicta.
— Obrigada pelas informações, Senhorita McGarden – Rogue agradeceu. – Agora vamos tratar de um outro assunto – ele mudou o tema da conversa tentando soar naturalmente, ele conseguiu convencer Levy, mas a mim não. Eu conhecia meu irmão bem demais, sabia que ele devia desconfiar de algo relacionado a tal palavra fonte. O que me incomodava era que eu não estava a par dessa desconfiança, afinal Rogue sempre me contava tudo. Ou quase tudo, como agora notei.
— Qual será a história que inventaremos para a permanência dela aqui?
Levy arregalou os olhos diante a questão dirigida a mim, ela devia pensar que estaria livre após essa pequena audiência. Dirigi-lhe um olhar zombeteiro, lembrando que não ficaria livre de mim tão cedo. Não seria nem louco de deixá-la solta com o meu segredo na ponta de sua língua, e Rogue sabia disso.
— Que tal uma empregada? – Ofereci.
— Ninguém acreditaria que você arrastou essa moça até aqui para servir o Castelo, ela seria bombardeada de perguntas assim que começasse a trabalhar – o Rei descartou a ideia – Seria melhor dizer que ela é uma parente distante.
— É uma boa ideia – concordei, porém havia uma falha – exceto que ninguém da minha comitiva vai achar que isso é verdade.
Rogue gemeu em frustração, eu compartilhava desse sentimento. Por que as coisas tinham que ser tão complicadas assim?
— Não seria menos trabalhoso se me deixassem ir para casa? – a baixinha falou, olhando para nós em súplica.
— Não – cortei suas esperanças rapidamente. Ela me olhou magoada, entretanto eu fingi que nem percebi seu olhar. Mesmo que por dentro eu me remoesse por colocá-la numa situação como essa. Mas caramba, era o meu pescoço em jogo!
— Já sei – Rogue anunciou, batendo as palmas. Olhei-lhe interrogativamente, instigando-o a nos contar sua epifania. – você não vai gostar muito, Gajeel, mas é a única coisa que podemos inventar no momento – não gostei nenhum pouco dessas palavras. – vocês vão fingir um caso amoroso.
— O que?! – Levy e eu soltamos ao mesmo tempo a nossa exclamação.
Meu irmão se limitou a erguer uma sobrancelha, ignorando nossa contrariedade. Fitei a moça e vi que ela preferiria ser uma empregada a isso, sua cara demonstrava sua total aversão a mim. Uma pequena onda de raiva passou por mim ao notar isso, sou homem e também tenho um ego! Ver uma mulher me rejeitando assim era no mínimo um ataque a minha masculinidade.
— Está bem, eu faço – falei para espanto dos dois. Rogue deu um sorriso maroto com isso, e Levy ficou ainda mais indignada.
(…)
Desde que saímos da sala de Rogue, Levy não dirigia o olhar ou a palavra para mim. Eu já estava cansado e irritado com a atitude. Então quando íamos chegando no corredor de seu quarto provisório, peguei sua mão e comecei a arrastá-la, pois tinha acabado de ter uma ideia.
— Onde está me levando? – ela perguntou, assustada.
— Espere e verá – respondi sem lhe dar maiores explicações.
Passei por vários corredores, costurei por entre as pessoas que andavam pelo Castelo, e finalmente cheguei onde queria. Ouvi a ofegação dela atrás de mim, eu lhe entendia. A nossa frente tinha um enorme jardim, recheado das mais diversas flores, árvores e vegetações. O Jardim da Rainha, o local criado pela minha mãe para dar uma alegrada a construção real. Mas meu objetivo não era o Jardim e sim a outra ala que havia do outro lado, a Ala Real.
Tanto eu quanto Rogue sempre gostamos de privacidade, porém a nossa posição não nos dava esse luxo. Até que um nobre, e amigo nosso, teve a ideia de construir um anexo ao Castelo, onde viria se tornar nossos dormitórios e de nossas noivas – quando as tivéssemos é claro –, o local se tornou nosso refúgio. E era para lá que eu me dirigia.
A essa altura a baixinha me seguia sem resistência, afinal estava encantada com tudo que via. Ela deu um suspiro quando voltamos a ficar dentre a construção, longe do ar puro do Jardim. Continuei meu caminho, agora com mais calma, pois não haviam tantas pessoas circulando aqui, era um lugar reservado para poucas pessoas.
Parei de arrastá-la quando chegamos dentro de uma sala escondida por trás de uma das seis portas do segundo andar, onde ficavam as nossas residências. A sala era uma espécie de recepção, onde as visitas podiam aguardar o dono desse quarto sem surpreendê-lo em sua cama. Todas essas seis portas levavam a quartos, e estávamos dentro de um deles agora.
— Você poderia me contar onde estamos agora, Alteza? – a pergunta veio com uma pontada de ironia.
— No seu novo quarto, minha querida – retruquei.
— Meu quarto? – Levy engasgou ligeiramente, olhando o local com mais atenção – isso não se parece com um quarto – ela apontou a saleta com os braços, como se me mostrasse o óbvio – e não me chame de querida.
Soltei um riso diante sua confusão, coisa que a deixou irritada. Essa coisinha azul se irrita com facilidade.
— A cama que você está procurando fica atrás dessa porta – indiquei a madeira branca ao meu lado esquerdo – mas se você quiser eu lhe mostro o móvel, querida.
O rubor subiu rapidamente em suas bochechas, os olhos se arregalaram e ela deu um passo para trás, surpreendida. Não consegui me segurar mais, deixei que a gargalhada presa saísse.
— Ah, relaxe! Eu não gosto de garotas pequenas como você – zombei.
— Idiota – resmungou – se bem me lembro eu já tinha um quarto, lá traz – ela continuou, apontando para trás de si, indicando o caminho que fizemos.
— Um quarto para futuros empregados – expliquei com paciência – ele não serve e nem é adequado para o caso amoroso do Príncipe.
— Eu não concordei com isso.
— Acostume-se – respondi, ignorando sua recusa – pois você querendo ou não, agora somos um casal – aproximei-me dela e inclinei-me um pouco para ficar cara a cara – minha querida.
Levei meu rosto para mais perto, surpreendendo-a mais uma vez. Então quando estava bem próximo, assoprei em seu rosto. Rindo, contornei-a e fui para a porta.
— Mandarei uma costureira aqui para que ela lhe tome medidas para novas roupas – comuniquei com a mão na maçaneta – qualquer coisa é só me chamar, meu quarto fica em frente ao seu no corredor. Depois eu volto para combinarmos a nossa historinha.
Assim que saí pude ouvir seu grito de exasperação. Eu com certeza estava começando a me divertir com essa situação.
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