Sigilo
30 Capítulo 29 - Levy
Notas iniciais

Sigilo
Capítulo 29
Levy
Quanto tempo leva para uma pessoa enlouquecer?
Peguei-me pensando sobre isso enquanto fitava a parede a minha frente. Estava presa no calabouço a mais de duas semanas, pelas minhas contas. O que não poderia significar nada, já que perdemos a noção do tempo quando somos enclausurados.
Após a invasão de Erza as coisas foram se caminhando de mal a pior. Ela conseguiu concluir sua preciosa arma, o demônio que subjugava todos a sua vontade, e agora mantinha o controle do Castelo. Lançou todos os Magos Revolucionários, juntamente de mim e Gajeel, no calabouço, preenchendo as celas do local.
Gajeel. Pensar nele doía. Ele estava separado de todos em uma cela especial, sem saber como o irmão estava e remoendo a traição da sua amiga de infância. Queria rastejar até ele e abraçá-lo, mas vários corredores nos separavam.
Ficou claro quem havia ajudado Erza a invadir o Castelo logo no segundo dia. Kagura enviara-lhe uma carta contando sobre os planos de Rogue sobre casar-se com Lucy, armando junto dela um plano de invasão durante a cerimônia.
Era engraçado como uma pessoa apaixonada tendia a fazer de tudo por aqueles que amava. Kagura foi um retrato perfeito disso. Enlouquecida por perder Rogue, quem amava, recorreu a Erza para que isso fosse impedido. Ainda conseguia ouvir os gritos da moça enquanto Erza mandava que a jogassem no calabouço também.
— Você prometeu que pouparia Rogue! Disse que só precisava da Lucy, e então iria embora! Prometeu que não o machucaria! — Kagura gritava, tentando soltar-se dos guardas de Erza – Me solta! Eu te ajudei!
A ruiva apenas sorria para a outra, escárnio claro em sua feição.
— Traidores não tem vez no meu reinado, querido rouxinol – ela respondeu, virando as costas e trancando todos aqui embaixo.
Imaginei que com Erza no poder, Juvia, Evergreen e o outro rebelde seriam libertos de suas celas, mas ela tinha tanta misericórdia para com fracos quanto traidores, conforme havia falado para Juvia assim que prendeu todos nós. Isso significava que a Maga da água estava largada a própria sorte, abandonada pela sua líder, a qual defendeu de nós com tanta vontade.
Tinha que admitir que a ruiva sabia como brincar com o psicológico das pessoas. Jogou-nos na escuridão e desde então não ouvimos mais nada dos Rebeldes, salvo aqueles que nos traziam comida uma vez ao dia. Vários gritaram e espernearam nos primeiros dias, outros choravam, e ainda tinham aqueles que suplicavam, mas nada vinha de lá de cima.
Deduzia, por ter lido várias estratégias de guerra da biblioteca real, que Erza mantinha Rogue e Lucy como reféns e os usava para manipular o reino a seu dispor. Provavelmente havia dado um modo de interceptar a notícia do casamento para que Ghaléia não mandasse seus homens, e se não tinha interceptado, devia estar se preparando para enfrentá-los.
Passei os dias tentando imaginar alguma saída, mas estava impedida de usar minha Magia pelas correntes que prendiam meus pulsos e tornozelos. Sendo assim, não podia arrombar as grades da cela nem mandar qualquer tipo de mensagem para Laxus, que estava torcendo que estivesse no Castelo.
Uma delicada borboleta azul entrou em minha cela pela pequena janela dela, voando sem medo. Admirei sua liberdade e graciosidade. Podia sair dali quando quisesse, podia ver quem quisesse. Desejei ser uma borboleta para voar dessas correntes e poder ajudar Gajeel, Rogue e Lucy.
Foi olhando aquela borboleta que notei o quão estúpida tinha sido durante esse tempo. Só havia tentado usar minha Magia Script, coisa que era impedida pelos grilhões. Porém eu tinha um dom extra, algo que não poderia ser impedido materialmente.
Algo que me ajudou quando estava com os Revolucionários em seu esconderijo.
Deite-me o mais confortavelmente que conseguia naquela cama de palha e respirei fundo para me acalmar. Fechei os olhos e expulsei qualquer pensamento de minha mente. Sabia que conseguiria, pois já tinha obtido êxito nisso anteriormente. Abri minha mente para a escuridão, permitindo-me flutuar em meu inconsciente.
Segui a pequena luz, indo para a sala repleta de imagens que já havia visitado. Andei por entre as imagens com cuidado, procurando por duas pessoas em específico, Lucy e Gajeel. Acabei por encontrar uma imagem da loira por primeiro e fiquei levemente surpresa pela imagem que encontrei. Ela estava em uma planície cercada por várias barracas com o símbolo de Ghaléia nelas. Era um acampamento de guerra.
Fixei-me na imagem, desejando ir até minha amiga. Logo fui saudada pelo ciclone cinza, enviando-me para ela. Ainda precisei de alguns segundos para me focar quando o novo local se estabilizava ao meu redor. Do mesmo modo que vivenciei antes, estava vendo a cena toda de cima. Imaginei-me como uma borboleta dessa vez, em vez de uma mosca.
A bela moça loira estava parada do lado de fora da maior barraca do acampamento, parecia observar os soldados em seus afazeres. Trajava vestes de combate femininas e uma longa capa avermelhada com o lema real RedFox bordado nas costas.
— Recebemos a notícia de que o Rei ainda está vivo – um rapaz de cabelos rosáceos aproximou-se dela, entregando-lhe uma carta já aberta – e uma resposta do Lorde Dragneel.
A moça leu a carta e então fez uma careta para o rapaz.
— Aparentemente seu pai deseja receber uma boa quantia de ouro em troca de homens para nossa causa.
O rapaz bufou, revirando os olhos.
— Ele não é o único, Lucy. Os Lordes Crysh, CasaDel e Tormunn também solicitam ouro pelos homens.
Lucy suspirou, sua expressão fechada.
— Qual nosso número atualmente, Natsu?
O rapaz também voltou-se a olhar os soldados.
— Quase mil de Gháleia. Sting trouxe mais homens do que o Rei Jude gostaria – ele respondeu – dentre esses, apenas cem são Magos. E de Fiore temos cinco mil. Em resumo, possuímos seis mil homens.
Lucy permaneceu um tempo calada, como se estivesse pensando em algo importante. Natsu observava-lhe com cautela.
— Responda a esses Lordes que se não apoiam o Rei e sua Rainha, estão contra o reino e que nos lembraremos de sua recusa com a coroa. Depois solicite a presença dos líderes dos esquadrões e de Sting para um conselho. Vamos fazer um cerco em Crocus – ordenou, fazendo com que o rapaz desse um sorriso.
— Como desejar, Majestade – respondeu, beijando uma de suas mãos antes de partir.
Chamei o ciclone cinza dessa vez, conduzindo-me de volta a sala das imagens. Não sabia quanto tempo se passara com a visão da situação de Lucy, mas ainda precisava verificar Gajeel. Não demorou muito para que encontrasse a sua imagem, sentado numa cela escura. Fixei-me na imagem, sendo tragada para ela através do ciclone cinza. Dessa vez já estava mais preparada enquanto o cenário se estabilizava e não precisei esperar a desorientação passar para notar o que ocorria.
O rapaz moreno estava sentado no chão sujo de sua cela particular. Ela era diferente das demais por ser inteiramente fechada, exceto pela minúscula janela na parede atrás dele. Ele fitava com raiva a mulher que acabara de entrar no recinto, parecia que gostaria de esmagar seu pescoço com as mãos pelo modo que as flexionava. Sua visitante trajava um majestoso vestido preto com detalhes rubros, e em sua cabeça havia uma coroa dourada fazendo contraste com seu cabelo densamente ruivo.
— Pensei que gostaria de receber notícias sobre seu irmão, o Rei – ela comentou, sorrindo – ou talvez da sua Consorte Real, aquela coisinha miúda.
O rapaz jogou-se contra a mulher, enraivecido, sendo impedido pelas correntes que lhe prendiam pelos pulsos, tornozelos e pescoço.
— Se eu souber que encostou num fio de cabelo deles, vai desejar jamais ter nascido – rosnou, rouco.
— Não posso tocar em Rogue por enquanto, fique tranquilo. Agora… sobre sua amante, não posso lhe prometer nada. Tudo depende de você for comportado, Gajeel – a mulher falou, colocando um dedo embaixo do queixo dele, erguendo seu rosto para que a fitasse.
— O que quer?
— Para onde Lucy e aquele seu amiguinho esquentado foram? — ela questionou, perdendo a voz doce.
A reação dele não foi a que ela esperava. O moreno ergueu as sobrancelhas e começou a rir.
— Você perdeu a Rainha!
O belo rosto dela transformou-se em uma carranca diante a zombaria dele.
— Ele não sabe de nada – ela comentou para quem quer que estivesse do outro lado da porta fechada – talvez a amante dele saiba. Acho que vou fazer uma visitinha até ela.
Gajeel entendeu o sentido da frase e tentou soltar-se das correntes para alcançar a ruiva.
— Dê-lhe alguns pesadelos, Atrabos – a mulher ordenou ao ser horrendo que abriu-lhe a porta.
O ser ergueu uma de suas compridas mãos e focou-se no rapaz enjaulado. O mesmo caiu gritando logo em seguida, as mãos apartando os dois lados do rosto, como se quisesse retirar a mão o que estava sendo forçado a ver.
— Não o judie muito, ainda preciso dele são – comandou, olhando com tédio a tortura.
O ciclone veio e puxou-me para fora daquela cena, provavelmente invocado pela dor em meu peito ao presenciar o que acontecia. Se antes eu detestava aquela mulher por seus ideais torpes e por seus crimes, agora eu a odiava com todas as minhas forças.
Agora, mais do que nunca, queria encontrar um modo de derrotá-la. Estava focada nesse pensamento quando a sala começou a girar, as imagens movendo-se ao meu redor cada vez mais rápido, tonteando-me.
Quando tudo finalmente se acalmou, encontrei-me numa variação dourada da antiga sala, em vez de branca. As imagens agora eram borradas nas bordas, levemente difusas, difíceis de se enxergar. Não pareciam estar completas, sempre havia um detalhe ou outro faltando-lhe.
Pelo canto do olho notei uma figura maior. Fui em direção a ela e só consegui identificar que pertencia a uma guerra. Franzi o cenho para ela, tentando entendê-la, quando fui puxada para dentro da imagem pelo ciclone cinza.
O cenário era um caos, como uma guerra deve ser. Era claramente um cerco a um enorme castelo. Haviam torres lançando bolas de fogo em direção a construção, homens lutando dentro e fora do castelo, árvores e aposentos queimando, gritos de dor e de incentivo. E em meio a tudo isso um grupo de pessoas se destacava no pátio central do castelo.
De um lado estava uma Rainha loira, acompanhada de um rapaz rosado, outro loiro e vários soldados. Do outro estava uma Rainha ruiva, acompanhada de um ser horrendo e vários soldados também. As duas lutavam de espada uma contra a outra, a ruiva parecia ter uma certa vantagem contra a loira. Os soldados, os dois homens e o ser horrendo lutavam entre si.
Um nevoeiro cinza cortou a cena, tornando difícil a visão da luta. Apenas um detalhe apareceu em meio da névoa, era o colar que a Rainha ruiva usava, parecia pulsar com vida. Sabendo de quem se tratava, esforcei-me para enxergar através da névoa, colocando minha vontade contra ela. Então, do mesmo modo que chegou, o nevoeiro saiu. Porém, a cena que se desenrolava agora era totalmente diferente da anterior.
Um Príncipe moreno lutava ao lado de seu Rei contra vários Magos da Rainha ruiva. Eles pareciam ganhar a luta, coisa que enfurecia a adversária. Ela gritou uma ordem para o ser horrendo, que no momento estava ficando cansado pela luta. Os Magos que lutavam contra o Príncipe e o Rei ficaram mais rápidos e mais fortes, revertendo a situação.
Dois Magos aproximaram-se do Rei pelas costas sem que ele percebesse e prepararam-se para um golpe mortal, entretanto quando a espada deles estava abaixando, o Príncipe entrou na frente e recebeu o golpe em seu lugar.
Fui lançada da cena pelo ciclone cinza, em choque pelo que presenciara. Continuei olhando abismada para a imagem borrada que agora flutuava na minha frente. Pedaços da cena repetiam-se, misturavam-se.
Sentei-me no chão dourado, tentando me acalmar. Precisava pensar.
Com a pouca calma que me restava fui repassando tudo que tinha visto. Lucy com um exército prometendo um cerco a Crocus. Gajeel preso sendo torturado. As duas cenas foram vívidas, estáticas, sem borrões ou névoas. Isso significava que eram reais e poderiam muito bem ocorrer naquele momento.
As duas últimas cenas foram Lucy e Erza brigando e Gajeel morrendo. Elas eram difusas, difíceis de serem enxergadas. A névoa sempre circulava ao redor, fatigando a visão do que ocorria. Além do mais, a sala onde elas se encontravam era diferente das demais.
Comparando os dois tipos de visões que tive, consegui concluir algo que fez meu coração sossegar um pouco. As cenas difusas não estavam completas, eram fragmentos do que viria ser o futuro. Meu instinto me dizia que meu pensamento estava no caminho certo.
Será que essas cenas poderiam ser modificadas?
Ironicamente, quem me deu a luz foi uma lembrança de Makarov. Ele sempre dizia que o seu futuro era ele quem escolhia e fazia.
Revigorada, levantei-me e encarei a cena que ainda flutuava a minha frente.
— Ele não vai morrer – sussurrei, firme.
Respirei fundo e foquei na cena novamente, recebendo o ciclone cinza.
(…)
Ainda estava pensando na nova cena que havia presenciado em meu passeio as visões, quando ouvi passos ecoando pelo corredor de minha cela. Pude identificar dois tipos de passos, um era pesado e o outro parecia estar de saltos. Pela visão que tive de Gajeel já imagina quem seriam meus visitantes.
Permaneci sentada enquanto Erza abria a cela e adentrava no local. Ela trajava as mesmas vestes, o vestido negro com detalhes rubros. Seu acompanhante era o Atrabos, que esperava do lado de fora. A Líder encarou-me por alguns segundos, avaliando-me.
— Estive esperando por nossa conversa por um bom tempo, sabia?
Continuei em silêncio, limitando-me a encará-la.
— Gostaria de ouvir uma história? — pediu, agachando-se a minha frente.
— Adoro ouvir histórias – respondi.
Erza bateu as palmas, sorrindo.
— Maravilhoso! — exclamou e então virou-se para o demônio – Atrabos me traga aquela cadeira, sim? A história é longa e quero sentar-me.
Um colar escorregou de dentro de seu decote enquanto sentava-se, balançando diante meus olhos. Com esforço mantive meu rosto neutro, pois aquele colar era exatamente o mesmo da visão. O pingente era um pequeno vidro cheio de um líquido vermelho anexado a uma estrutura ovular de ouro, ligando-o a corrente que também de ouro. Aquele líquido cutucou uma parte de minhas lembranças, mas infelizmente não consegui lembrar-me o que tinha lido sobre o objeto naquele momento.
— Bem, podemos começar agora – Erza comentou, alisando as saias.
— Sinta-se à vontade – murmurei.
Os olhos dela brilharam diante meu sarcasmo oculto.
— A história que vou contar é sobre uma garotinha. Essa garotinha nasceu num reino chamado Ghaléia, seu pai era um homem bem influente no reino, pois tinha uma longa amizade com o Rei. Por conta dessa amizade de seu pai, a garotinha vivia no castelo sob os cuidados da família real. Diziam que poderia até ser prometida ao Príncipe Herdeiro. Ela ficou amiga de várias pessoas do castelo, incluindo a Princesa e sua prima. As três era inseparáveis, estavam sempre juntas. Comiam juntas, dormiam juntas, brincavam juntas.
“As três adoravam brincar de luta, principalmente com espadas de madeira. Um dia enquanto brincavam, a garotinha da nossa história acabou machucando a prima da Princesa e foi castigada por isso. Era uma injustiça! A garotinha apenas era boa com as espadas, conseguia prever os movimentos das outras duas, sabia manejar melhor, tinha as melhores estratégias.
Como eram crianças, logo o acontecido foi esquecido. Mas, a garotinha ficou pensando sobre como era boa e foi pesquisar. Ela descobriu que o seu dom era na verdade Magia. Sua especialidade eram a luta. Ela podia lutar com qualquer arma e jamais perdia, sabia como planejar cercos e estratégias simplesmente por instinto. O Rei ficou encantado com a habilidade dela, enciumando a Princesa, pois ela ainda não tinha descoberto sua Magia. Os anos se passaram, e eventualmente a Princesa também descobriu que era Maga igual sua mãe. O Rei voltou seus cuidados para a filha, imaginando todas as maravilhas que ela poderia fazer, deixando a nossa garotinha de lado.
A cada dia as três meninas cresceram e foram se tornando belas moças, sendo cortejadas por todos os rapazes do castelo. A Princesa fora prometida a um Príncipe distante, e a nossa garotinha, agora quase mulher, foi dada em casamento para o Príncipe de Ghaléia. Ia tudo muito bem, até que a Princesa acabou se apaixonando por um rapaz das cozinhas.
A nossa moça ficou escandalizada com isso. Temendo pela reputação de sua amiga, correu contar ao Rei. O rapaz das cozinhas foi chicoteado por ter ousado almejar a Princesa e então mandado para um lorde distante, e a Princesa foi trancafiada em seu quarto por meses como punição. A moça só queria ajudar sua amiga, mas a Princesa não conseguia enxergar isso e acabou envenenando a amizade das três, jogando sua prima contra a moça também.
Sem a amizade das duas, a moça começou a andar com algumas pessoas da cidade real. Tinha cuidado para quem nem seu pai, nem o rei e seu filho, soubessem dessa amizade. Ela poderia perder o casamento com o Príncipe se soubessem. Ela e seus amigos gostavam de ir aos bares para provarem as mais diversas bebidas do reino, e foi em uma dessas visitas que acabou contando a eles, já sob efeito da bebida, que a Rainha faria uma viagem até sua amiga de infância e levaria vários presentes.
O problema foi que o local que eles visitaram era ponto de encontro de alguns saqueadores, e a notícia chegou até eles. Sem querer, ela acabou dando para os bandidos a fonte para um grandioso roubo. E foi o que ocorreu. Bandidos atacaram a comitiva da Rainha e acabaram matando ela no processo. O Rei ficou enlouquecido e mandou seus melhores homens para descobrir quem havia contado aos saqueadores.
A moça tentou culpar seus amigos, mas o efeito voltou-se contra ela. O Rei acabou descobrindo de suas amizades e sobre ter falado da viagem. Imediatamente seu noivado foi cancelado, seu pai caiu em desgraça perante o Rei, e a Princesa que estava voltando a ser sua amiga lhe culpou pela morte da mãe e pediu seu exílio.
Ela foi exilada como a Princesa tinha pedido. A moça foi mandada para o outro reino chamado Fiore. Seu pai havia arrumado a casa de um parente para que ela ficasse. E então ela mudou-se e começou a nova vida da melhor maneira que podia. Encontrou novos amigos, nova família e um amor.
A moça apaixonou-se perdidamente por um jovem rebelde de sua nova vila. Ele tentava convencer o povo de que a Lei contra os Magos daquele reino era um absurdo, que deveria ser abolida. Ele vinha conquistando vários seguidores e isso chamou a atenção do Rei Pai. Eles, o rapaz e a nossa moça, fugiram juntos com os seguidores dele e passaram a recrutar mais e mais pessoas pelo reino. Sua vida era maravilhosa ao lado de seu amado, estavam planejando se casar assim que tivessem a lei abolida. Mas, tudo foi escurecido quando uma doença afetou seu amado. Era uma praga que afetava apenas os Magos, os matando pouco a pouco, pois não havia cura alguma.
Enlouquecida de medo de perdê-lo, ela recorreu a todos os métodos que dispunham para curá-lo. Procurou livros, rituais, poções e nada adiantava. Ele morria um pouco a cada dia. Até que um dia ela encontrou um método que diminuía os danos da doença. Ela podia retirar a energia vital e mágica das pessoas e passar para seu amado, prolongando sua vida. Mas, vários dos seguidores eram contra esse tipo de método, o que causou uma divisão no grupo.
Infelizmente, apesar das tentativas da moça, o rapaz morreu em seus braços. Ela então foi elegida como líder pelos seguidores e prometeu a todos eles que encontraria a cura a qualquer custo. Mostrou a eles como prorrogar os sintomas para que usassem este método até que a cura fosse encontrada. Seguiu todas as pistas que possuía, procurou pelo reino inteiro e finalmente encontrou algo sólido sobre a cura.
Um homem havia a encontrado e guardado seu segredo com seus descendentes. E a única pista que ela tinha sobre esse homem era que seus cabelos eram azuis. Depois ela descobriu que a genética mágica sempre puxa o lado paterno, ou seja, seus filhos teriam cabelos azuis como o pai. Ela mandou que todas as pessoas com esse cabelo fossem capturadas. E assim foi feito, procurou esse descendente a todo custo e ninguém capturado sabia sobre a cura.
No fim só restava mais uma pessoa no reino inteiro com esse cabelo. E eis que o destino lhe entregou uma dádiva. Era a Consorte Real do Príncipe Herdeiro do reino. A moça poderia realizar seus dois desejos de uma vez só, achar a cura e conquistar a coroa por meio dessa moça. Infelizmente vários contratempos ocorreram e impediram que a moça pegasse a Consorte. Mas, finalmente esse dia chegou e ela tinha nas mãos o que queria.”
Erza levantou-se da cadeira, seu rosto era jubiloso. Aproximou-se de mim e segurou meu queixo com a mão esquerda, as unhas dolorosamente afundando em minha pele.
— Essa garotinha sou eu, Levy. E finalmente te tenho aqui – sussurrou, seu rosto colado no meu – e agora você vai contar para mim qual é a cura.
— Eu não sei de nada – respondi, sem desviar do seu olhar.
Erza ergueu uma sobrancelha, cética.
— Não é uma boa ideia mentir para mim, docinho. Posso ficar brava e o seu querido Príncipe vai sofrer as consequências.
Lembrei-me do modo como ele agonizava no chão, vendo os pesadelos que Atrabos lhe forçava a vivenciar. Mas, sabia que ele ficaria bravo se eu me rendesse tão fácil.
— Eu não sei nada sobre a cura – repeti, o coração doendo pelo que ela poderia fazer a Gajeel.
O belo rosto dela enfeiou-se com a carranca que se formou. Conseguia ver a raiva borbulhando dentro dela, trazendo seu pior lado para fora.
— Você – sua mão chocou-se contra meu rosto – vai – novamente bateu-me – me contar – outro tapa – a verdade – mais um tapa – sobre a cura!
O restante de sua visita, que durou até o meio dia, foi doloroso. Erza exigia a verdade e eu lhe negava. Ela me batia até se sentir satisfeita e repetia a pergunta e eu voltava a negar. Até que ela sentiu-se entediada das surras e ordenou a Atrabos que me fizesse sentir uma dor tremenda pelo corpo todo por um bom tempo, retirando-se das masmorras para almoçar.
O demônio olhou-me com aqueles olhos leitosos e parecia avaliar o que faria a mim. Fitei, deitada no chão sujo, ele erguer a mão em minha direção. Então tudo ao meu redor explodiu em dor. Meu corpo parecia ter sido jogado em uma fogueira e então em rio congelado, gerando as dores extremas dos dois tipos de temperatura. Tentei a todo custo não gritar, mas foi em vão. Não conseguia ouvir meus gritos, mas sabia que o fazia pela dor em minhas cordas vocais.
Não sei por quanto tempo fiquei naquele mundo de dor, mas quando tudo parou, sentia-me vazia. O demônio estava agachado bem próximo de mim. Se seu rosto tivesse alguma expressão poderia dizer que era de escárnio e diversão. Mexendo apenas meus olhos, pois não sentia o resto do meu corpo, analisei-o por inteiro.
Foi assim que notei que parte do seu peito estava faltando. Era exatamente o mesmo formato do pingente de Erza, e parecia sangrar continuadamente. A memória de minha leitura voltou, mostrando-se o significado daquele colar enquanto o fitava sair da cela, satisfeito pelo trabalho que tinha feito comigo.
Aguarde que seu fim está próximo. Pensei, agora montando um plano para sair daquele lugar.
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