Sigilo

7 Capítulo 6 - Levy


Notas iniciais
Olá pessoinhas lindas! Aqui está mais um capítulo para vocês. Boa leitura!

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Capítulo 6

Levy



Quando Gajeel mencionou que algo não cheirava bem, pensei que fosse uma expressão e não que era literal. Ao chegarmos nos portões percebemos que algo realmente estava fedendo ali. Um corpo. Um cadáver. Os guardas estavam em estados diferentes de susto, uns gritavam, outros apenas permaneciam estáticos. E eu... bem, eu estava agarrada a um braço do Príncipe, escondendo-me da horrenda visão do morto.

— Levy, quero que vá até aquela árvore e fique olhando apenas para ela, tudo bem? – Gajeel falou delicadamente, mas ainda podia se ouvir o comando na frase. Assenti com a cabeça em concordância e fugi para a árvore indicada. Fiquei olhando o tronco e tentava ignorar os sons que vinham de onde supostamente Gajeel deveria estar.

Um cadáver foi jogado no portão do Castelo!

Uma enxurrada de suposições imundou minha mente. Isso seria um movimento daqueles homens que tentaram me matar? Teria alguma relação com os assassinatos que venho ouvindo? Então um pequeno alerta soou acima dos demais. Ele foi morto por Magia?

Mesmo não querendo olhar o morto e nem desobedecer um comando do Príncipe, acabei virando um pouco minha cabeça na direção do portão. Ignorando a bile que começou a subir, dei uma rápida avaliada no rosto do homem e vi uma pequena marca roxa em uma de suas têmporas, o restante do corpo parecia sem marcas.

Voltei meus olhos para árvore antes que fosse flagrada. Aquela marca não me parecia estranha, só não conseguia lembrar o porquê. A minha parte curiosa queria correr e procurar o significado, mas a contraparte ganhou e permaneci parada a espera de uma resposta, ou fala de Gajeel. Mais tarde eu procuraria, assim me livraria de perguntas indesejadas que podiam vir da minha curiosidade.

— Vamos – dei um pequeno pulo de susto. Gajeel estava atrás de mim e tinha uma expressão carregada, entretanto não poderia se saber o que passava em sua mente. Esse homem é um grande mistério as vezes.

Assenti e segui-lhe. Aparentemente Gajeel havia despachado o corpo com alguns soldados, ele provavelmente teria de reportar ao Rei pessoalmente o que havia ocorrido. Eu não sabia se deveria permanecer junto deles durante a conversa ou não, portanto fiquei esperando um comando do Príncipe de que eu fosse aos meus aposentos, mas nada veio.

Chegamos ao Jardim da Rainha em pouco tempo, havíamos cortado caminho por lugares estratégicos, mas a minha mente avoada não conseguiu decorá-los. Uma passeada pelo Castelo seria uma boa ideia de passar o tédio, assim conseguiria montar um mapa de saídas emergenciais. Fui ocupando a minha mente para não pensar em coisas indesejadas.

— Gajeel? Que cara é essa?

Voltei a realidade quando encontramos o Rei. Ele estava sentado em um dos bancos do Jardim, ao seu lado estava a Princesa Lucy. Os dois estavam de mãos dadas e pareciam se encontrar num momento romântico, quando constatei isso fiquei rubra e desviei os olhos das mãos.

— Preciso falar com você, Majestade – o tom de Gajeel foi sutil, mas a cara de Rogue mudou após a frase dita. Os irmãos fizeram uma troca de olhar significativa.

— Lucy, minha querida, importa-se de ficar na companhia da Senhorita McGarden por alguns minutos? Parece que meus deveres como monarca me chamam. Prometo não ausentar-me por muito tempo – o Rei propôs a bela moça loira que prontamente concordou.

Fiquei observando as duas silhuetas sumirem na Ala Real, de pé. Havia sido ensinada por Gajeel que só poderia me sentar perto de alguém da realeza caso fosse convidada, mas tal regra era dispensada para ele. Entretanto a Princesa não era o moreno, então permaneci onde estava.

— Está muito bonita, Senhorita McGarden – a Princesa comentou, levantando-se do banco e aproximando-se de mim.

— Obrigada, Alteza – respondi-lhe educadamente.

— Gostaria de me acompanhar em um passeio pelo Jardim?

— Como quiser, Alteza.

— Pode me tratar por Lucy e você quando estivermos sozinhas, essa formalidade toda me deixa envergonhada as vezes – ela deu uma risada e piscou um olho em camaradagem.

— Tudo bem, Lucy – concordei. Era de fato mais relaxante não precisar de toda aquela formalidade respeitosa. Eu havia sido criada em um lugar simples, ou seja, meus modos nunca eram formais o suficiente, sempre arrancavam algumas risadas ou caretas por parte dos moradores do Castelo.

Acompanhei Lucy e a observei enquanto cheirava as flores dali. Ela parecia um anjo. As roupas róseas davam um ar feminino a ela, sem tirar a sensualidade de suas curvas. Os cabelos louros estavam soltos e cacheados, aumentando a similaridade com os anjos. Comparando-me a ela, eu devia parecer um mendigo.

— Como conheceu o Príncipe Gajeel? – ela questionou-me, observando minha reação pelo canto dos olhos.

— A primeira vez que nos vimos já faz um bom tempo, foi após a morte da Rainha, quando ele acabou se isolando em Forte Negro – comecei a contar a pequena história inventada por Gajeel. Já tinha repetido ela tantas vezes, tanto para mim quanto para outros, que quase acreditava nela. – Eu era espevitada e gostava de perambular em lugares improváveis a uma criança. Foi em uma das explorações que acabei trombando em Gajeel. Ficamos bem amigos durante a estadia dele, mas ele precisou voltar para a capital e ajudar seu irmão e eu tive de me mudar para outro lugar por causa de meus pais.

— A sua história é bem interessante, Levy – os olhos acastanhados da moça brilhavam em curiosidade, ela parecia genuinamente interessada no conto de mentira. – mas parece que os Deuses queriam que vocês voltassem a se ver, não é mesmo?

— Parece que sim – dei um sorriso, lembrando-me de como realmente conheci o Príncipe.

— Quem dera se eu tivesse a mesma sorte – Lucy comentou em tom baixo.

Fiquei surpresa com a fala. Ela certamente era sortuda, ia se casar com o Rei! Aproximei-me dela com cuidado e peguei uma rosa vermelha do arbusto próximo.

— Não diga isso, a senhor... digo, você possui uma sorte grande. Casará com um Rei sensato que será um ótimo marido – disse-lhe, entregando a rosa a ela.

— De fato, mas as vezes fico imaginando em como as coisas seriam se acontecessem de maneira natural e não estrategicamente pensado. Querendo ou não, isso é quase um acordo, um contrato – um sorriso triste estampou a face dela – mas eu não deveria falar isso, não é certo e nem esperado da Princesa.

As palavras de Lucy ficaram martelando em minha cabeça mesmo depois de termos nos despedido. Naquele momento eu percebi que o seu casamento arranjado não lhe parecia tão agradável, e em como ela estava errada sobre mim e Gajeel. Não tínhamos algo natural, também estávamos presos a um acordo, um contrato.

Essa constatação me deixou triste, mas eu não entendia o motivo disso.



(…)



Não trave tanto a postura, assim vai parecer um pato de saias dançando.

A vontade de estapear o Príncipe de Fiore era enorme, mas continuei a sorrir cinicamente ao moreno que tentava me conduzir pelo salão de festas.

— Desculpe-me, mas meu professor ainda não me ensinou corretamente – retruquei, ainda sorrindo.

A face de Gajeel retorceu-se em uma careta, ele estava tentando não demonstrar sua irritação. Ele estava bravo? Ótimo. Pois eu também estava. As aulas de dança acabaram por se mostrar tremendamente desgastantes, tanto no emocional quanto no físico.

— De novo – ordenou, puxando-me para perto dele ao centro do salão.

Um, dois, três... Um, dois, três... Um, dois, três... Um, dois, três...

Repeti a contagem em minha mente enquanto tentava mover meus pés, sem arrastá-los no piso. Um aperto forte na minha mão direita advertiu-me a soltar o braço e frouxar o aperto nos ombros dele. Eu realmente estava tentando melhorar na dança, mas eu nunca havia sequer tentado isso antes de vir ao Castelo e preferiria que continuasse assim. Entretanto, o baile em homenagem aos Príncipes de Ghaléia estava chegando. E eu teria de dançar com Gajeel, na frente de várias pessoas.

Seria um desastre.

— Não podemos dar uma pausa? – supliquei, sentindo algumas fisgadas de dor vindo dos pés. Malditas sapatilhas de dança!

Sem responder, ele parou abruptamente e me largou. Fiquei ali parada, observando suas costas enquanto ele se dirigia ao banco, perto das janelas. Gajeel estava diferente desde a conversa com o Rei, isso era um fato. Os modos dele se tornaram frios e brutos novamente, fazendo-me lembrar de como ele era quando nos conhecemos. Isso me incomodava ainda mais que as palavras de Lucy.

— Eu não sei o que vocês conversaram, mas posso ver como isso está te afetando. Apenas cuide para não demonstrar isso perto dos Príncipes estrangeiros – comentei em tom de repreensão, sentando-me ao seu lado.

Gajeel limitou-se a bufar.

— Olha, por mais torto que pareça, estamos juntos nessa. Você sabe muito bem que eu não deveria estar aqui e nem estaria se não fosse por aquilo, mas se algum dia precisar desabafar ou apenas falar mal de algo, saiba que estou disponível. Afinal, você já deve ter notado que sou boa em guardar segredos – não sabia a razão para falar aquilo, mas as palavras simplesmente saíram de minha boca. Um tanto arrependida, levantei-me e fui para o centro do salão treinar os passos. Dessa vez descalça.

Ergui meus braços no ar, simulando um parceiro, e comecei a dançar. Fechei os olhos e imaginei uma bela música tocando ao fundo, conduzindo-me com seus acordes. Tentei não cronometrar meus passos, deixei que eles fluíssem livres. De tempos em tempos dava um giro, fazendo com que minha saia rodasse e acariciasse minhas pernas. Então, dois braços reais incorporaram na minha dança, sendo seguidos por um dorso definido e fortes ombros. Continuei a dançar de olhos fechados, deixando minha mente em branco.

Em algum momento tornei-me consciente de que era Gajeel dançando comigo, mas os seus modos estavam diferentes, estavam mais calmos, precisos e confiantes. Descobri que adorei o jeito que ele me segurava, parecia correto e seguro. Sua mão direita me mantinha bem próxima de seu corpo, sustentando-me.

Eu apenas queria que esse momento não acabasse, mas tive de abrir os olhos. Foi assim que a magia do momento acabou. Ele se separou e não encontrou meu olhar, preferindo fitar o teto acima de nós.

— Tenho uma péssima impressão do que pode vir no futuro, esses avisos devem ter um significado, nós que ainda não o descobrimos o real motivo disso – sua voz era baixa, parecia que estava apenas entoando seus pensamentos – Por que tudo tem de ser tão complicado?

Meu coração se aqueceu ao ver que ele estava se abrindo comigo, mostrando o verdadeiro Gajeel.

— Acabamos a aula por hoje, temos um tempo livre até a janta – ele anunciou, suspirando. Voltando-se para mim, seu olhar encontrou o meu. Havia um ar de preocupação neles – posso te pedir um favor?

Assenti em silêncio com medo de que se falasse algo, esse Gajeel se escondesse.

— Procure ficar em seu quarto e aproveite para descansar. Assim vou conseguir resolver algumas coisas com uma preocupação a menos.

— Claro – concordei.

Então ele se preocupava comigo afinal.



(…)



Entrei em meu aposento calmamente, apesar de o meu interior gritar para que eu corresse para os meus livros. Mas, esperei até que não conseguisse mais ouvir as passadas de Gajeel e tranquei a porta. Quando tive certeza de que não seria interrompida ou pega de surpresa, dirigi-me para dentro do banheiro. Vasculhando por entre as toalhas, acabei por achar o que queria.

Há dois dias estive perambulando pela Biblioteca a procura de alguma estante escondida, uma passagem secreta e acabei encontrando um fundo falso numa estante mais afastada. Curiosa como sou, acabei abrindo o compartimento e descobri três livros, eles pareciam bem antigos. Porém, antes que eu pudesse abri-los as aias do Castelo entraram no local, então fui obrigada a escondê-los entre a pilha dos livros que tinha pegado emprestado. Depois de trazê-los até meu quarto, resolvi escondê-los por segurança até que eu pudesse lê-los.

Sentei-me no chão do banheiro e abri um deles, o menor. Sua capa era de couro firme e tinha alguns detalhes em alto-relevo, o fato de não ter título me deixou ainda mais instigada. Abri cuidadosamente, com medo de estragar algo. Um pequeno arquejo veio de mim quando me dei conta do conteúdo, falava sobre Magia. Folheei outras páginas e constatei que ele era repleto de encantamentos e rituais. Uma coisa que me acalmou, apenas um pouco, foi que eram ritos para cura de pessoas e animais.

Motivada, peguei outro livro. Esse era o maior de todos. Repeti o que já havia feito com o primeiro e o analisei. O segundo tinha várias ilustrações e explicações de como a Magia funcionava e suas consequências. Por último, abri o terceiro. Meus olhos se arregalaram de prontidão, esse falava sobre Magia Escura, a proibida.

Quase dei um grito quando ouvi batidas na minha porta. Fechei o livro em um baque, assustada. Olhei o meu precário esconderijo e percebi que não era mais seguro guardá-los ali, então corri com eles para dentro de meu quarto e os coloquei debaixo do colchão.

— Senhorita? Está aí dentro? – a voz da aia soou do corredor, preocupada.

— Sim! Estou terminado de me trocar, já abro a porta – respondi, afoita.

Como o meu vestido não possuía armação, o volume das saias era menor, portanto dava para fingir que tomaria um banho. Enrolei-me no roupão o melhor que pude e fui abrir a porta. Destranquei-a e deixei que a aia tivesse passagem livre. Continuando com a minha mentira – mas não era tão falsa já que eu realmente deveria tomar banho – fui ao meu armário e procurei por um vestido um pouco mais requintado para o jantar.

A moça recolhia as sobras do lanche que fiz antes de ir para a aula de dança, ela parecia genuinamente envergonhada em ter esquecido de limpar a mesa. Porém, não era culpa dela. As pessoas daqui costumam deixar as portas de seus quartos destrancadas durante o dia, com exceção do Rei, para que os empregados possam entrar e limpá-los. Acontece que eu não me sinto confortável em deixar a porta aberta, então acabo por trancar sempre que saio. Isso dificulta as tarefas dos serviçais.

Tomei consciência de que essa minha mania tinha de continuar por um tempo, afinal não poderia deixar que tais livros fossem encontrados em meus aposentos. Nem gostaria de imaginar a confusão que daria, uma acusação de sou uma Maga é algo certo. E havia Gajeel, ele seria interrogado e as chances que descobrissem seu segredo eram altas.

Eu definitivamente devia ter cuidado de agora em diante, pelo menos até eu devolver tais livros ao seu esconderijo. Sem que ninguém note é claro.

Um suspiro de alívio saiu de mim assim que fui deixada a sós. Rapidamente tranquei a porta e me desfiz do roupão. As roupas também foram ao chão logo em seguida conforme me dirigia ao banheiro. Queria que meus problemas e os do reino também saíssem com a mesma facilidade de uma roupa. Porém as coisas não funcionam assim.

A banheira já estava cheia e a água morna, obra da aia com certeza. Afundei-me vagarosamente, aproveitando a gostosa sensação da água contra minha pele. Desfrutei do tempo que ainda me sobrava e tentei relaxar. Fiz uma pequena massagem nos pés para diminuir a dor que sentia, gemi só de pensar que deveria calçar os sapatos novamente para a ceia.

Tive de me trocar rapidamente quando percebi que a água começou a se tornar mais fria, sinal de que meu tempo já poderia ter passado todo e que me atrasaria. Soltei alguns palavrões enquanto vestia a roupa, os laços – desnecessários – atrapalhavam quando se tinha pressa. Após um tempo, enfim fiquei pronta. Agora só faltava que Gajeel aparecesse para descermos, mas nem sinal do moreno.

Aguardei mais alguns minutos, incomodada. Tamborilei meus dedos em cima da mesa e observava a porta, esperando uma batida. Nada.

— Ótimo – resmunguei alto.

Saí do quarto e tranquei a porta, guardando a chave em meu corpete. Segui para a porta em frente a minha e dei uma sequência de batidas, fortes por conta da impaciência e preocupação.

— Entre – sua voz soou de dentro do aposento. Dei um suspiro aliviada.

Girei a maçaneta com um tanto de medo, afinal eu nunca havia entrado no recinto e não sabia o que esperar de lá. Chicotes? Espadas? Vários itens de metal? Balancei a cabeça e entrei. Minha boca quase foi ao chão quando olhei o local. Estava organizado, limpo e cheiroso. Havia uma estante enorme recheada de livros, frascos coloridos e no centro dela havia uma pequena estatueta de metal representando uma bela mulher. O aposento tinha as mesmas divisões que o meu, o espaço para comer e receber visitas, uma porta que provavelmente dava ao quarto e outro ao banheiro.

Gajeel estava na soleira da porta do banheiro, terminada de enxugar o enorme cabelo. Dei um pequeno grito de surpresa quando notei a sua vestimenta, uma toalha enrolada no quadril. Rapidamente olhei para a estante e evitei contato com ele. A essa altura eu já devia estar vermelhadíssima.

No entanto, tenho de concordar que Gajeel tinha um físico maravilhoso. As cicatrizes que vi davam um charme a mais.

No que estou pensando?!

— Depois dizem que são as mulheres que demoram para se arrumar. Vá vestir uma roupa logo – anunciei, ainda observando a estante.

— Não precisa fingir que não gostou do que viu, baixinha. Mas vou atender seu pedido, antes que você saia correndo daqui – sua voz soou muito perto de mim, um arrepio desceu por minha espinha e meu coração acelerou. Então o desgraçado soprou em meu pescoço. Já ia me virar para repreendê-lo, mas ouvi a batida de porta que indicava sua entrada no quarto.

Sentei-me numa poltrona, próxima a janela, e tentei pensar em qualquer coisa exceto no corpo do moreno. Porém, meus pensamentos traíam-me e voltavam para aquele peitoral. Gemendo em frustração, dei-me conta do quão perigoso esse Príncipe era. Não poderia começar a me sentir atraída por ele. Nunca.

Notas finais
Enton, o que acharam do capítulo? Estou me esforçando para atualizar a fic o mais rápido que posso! Beijos e até mais.