Sigilo
5 Capítulo 4 - Levy
Notas iniciais

Sigilo
Capítulo 4
Levy
Atravessei o belo Jardim da Rainha amaldiçoando os costureiros do Castelo, eles deviam ter errado em alguma medida, pois o vestido estava lhe roubando o ar de tão apertado que ficou. Se bem que ele havia ficado lindo em meu corpo, até pareci ser outra pessoa!
O vestido de cor vinho havia realçado minhas particularidades, o corpete – mesmo que apertado – havia marcado a cintura e levantado um pouco os seios, tornando-me mais feminina. A longa e volumosa saia caía delicadamente até o chão, dando a impressão de que estou flutuando em vez de caminhando. Porém, o que mais me agradou não foi a roupa, e sim o penteado. A minha aia, ou dama de companhia, tinha prendido parte do cabelo com uma tiara, também cor vinho, deixando apenas algumas mechas emoldurando o rosto.
Por mais que eu fosse algo digno de ser olhado, a raiva por não conseguir respirar direito ainda estava impregnada em mim. Ficar bonita não é nada fácil. Continuei andando pelos corredores, seguindo os poucos pontos de referência que marquei na memória, indo em direção ao salão para o desjejum. Gajeel tinha explicado que a minha nova posição social exigia que eu comparecesse nos mesmos locais que ele, principalmente para as refeições.
— Está atrasada – o Príncipe saudou-me um tanto irritado quando cheguei nas portas do salão – já ia começar a ficar preocupado – emendou com uma voz mais carinhosa por conta dos guardas que estavam por perto.
Estreitei os olhos para ele antes de responder.
— Tive alguns problemas com a roupa.
Agora foi a vez dele de estreitar os olhos. Ele analisou-me de cima a baixo, o olhar deslizando em cada detalhe que conseguia. Por algum motivo senti-me envergonhada diante sua observação, então cruzei as mãos em frente ao peito numa tentativa de aliviar o desconforto. Gajeel aproximou-se de mim vagarosamente, como sempre fazia, parando a poucos centímetros do meu rosto.
— Ficou bonita – elogiou.
Congelei com suas palavras, eu não esperava esse tipo de atitude vindo dele. Mas o sorriso torto em seu rosto me fazia duvidar se era um elogio ou uma zombaria. Então o moreno estendeu uma mão para mim, erguendo uma sobrancelha como uma pergunta muda. Aceitei a mão com um suspiro. Entramos no salão de mãos dadas, ato que fez o Rei levantar as sobrancelhas e dar um sorriso torto.
Por que o Rei tem de ser tão lindo? Foi o que pensei ao vê-lo de pé ao lado da mesa, esperando-nos. O cabelo negro e curto dele estava bem ajeitado, as roupas lhe caiam perfeitamente, aumentando sua áurea de realeza. Fiquei lhe observando mais tempo que o necessário, então decidi desviar o olhar e focar em outra coisa, mas antes que pudesse fazer isso, ele me flagrou o fitando. Rapidamente virei a cabeça, fingindo analisar a mesa e as coisas postas nela, porém ainda consegui ouvir um riso abafado vindo do Rei.
Agora fiquei parecendo uma idiota.
O desjejum foi calmo, Gajeel e seu irmão trocaram piadas e jogaram conversa fora por diversas vezes, eles estavam claramente a vontade com toda a situação. Já eu fiquei concentrada em comer e responder as poucas perguntas que eram lançadas a mim; Está gostando da comida? Deseja algo em especial? Gostou do castelo? Foi bem atendia? A maior parte das questões vinham do Rei, portanto evitei lhe olhar diretamente enquanto respondia. Gajeel parecia se divertir com a minha pose reservada, um sorriso travesso permaneceu em seu rosto o tempo todo.
Estávamos quase terminado de comer quando um rapaz adentrou no salão, pelas roupas e modo como caminhava devia ser alguém de posição importante. As roupas avermelhadas combinavam com o chapéu que trazia em mãos, o cabelo loiro e longo estava preso por um laço abaixo da metade do comprimento das mechas. Assim que chegou próximo da mesa, curvou-se em uma reverência.
— Bom dia, Majestade – o loiro pronunciou após a reverência.
— Bom dia, Rufus – cumprimentou o Rei, levantando-se da cadeira – posso saber o que lhe traz aqui a essa hora?
— Vim para saber se devo organizar algum evento em boas vindas ao Príncipe e a Princesa de Ghaléia.
Tanto Gajeel quanto o Rei gemeram com a resposta.
— Acabei me esquecendo dessa visita, – Rogue comentou, fazendo uma careta – acha que seria adequado uma festa? – questionou, pedindo a opinião do loiro.
— Ajudaria a acalmar o ego do Príncipe, – Rufus deu de ombros – e impressionaria a Princesa.
— Voto por barrar aquele bunda-mole e mandá-lo de volta a Ghaléia – Gajeel sugeriu azedamente, levantando-se também.
Os outros dois riram com a ideia, pelo olhar que lançavam, pareciam bem tentados a fazer isso. Aparentemente o Príncipe não era uma das melhores pessoas a se conviver.
— Bem que eu gostaria, mas não posso simplesmente chutar meu futuro cunhado para longe de Fiore.
Assim que ouvi futuro cunhado uma partezinha de mim ficou triste. Por algum motivo tinha me afeiçoado ao Rei, mesmo sabendo que ele era um homem inalcançável a mim. Minha pequena animação se foi, então levantei-me de onde estava e aproximei-me de Gajeel.
— Posso ir ao Jardim? – pedi-lhe em voz baixa, não querendo atrapalhar a conversa do Rei e Rufus sobre a festa.
— Sim, eu te acompanho. Não quero ficar aqui e ter de ajudar a escolher a decoração – Gajeel estremeceu um pouco e fez uma careta, arrancando de mim um pequeno riso diante sua aversão a decorações.
(…)
— Prometa que não vai gritar.
Olhei para o Príncipe de Fiore com uma sobrancelha erguida. Ele havia nos guiado até uma parte mais afastada do Castelo que dava para um prado verdejante, lindíssimo por sinal, que na metade do campo, antes de chegar em uma floresta, havia uma construção espaçosa que se destacava no local.
— Prometo – respondi-lhe.
Após termos saído do salão, nos dirigimos ao Jardim da Rainha onde pude ficar um pouco em paz. Fato que não durou muito tempo, pois Gajeel levantou-se da grama na qual estava deitado, dizendo ter tido uma ideia. Então acabou arrastando-me para esse prado, e agora me levava para aquela construção. Quando mais nos aproximávamos, menos eu entendia o motivo de ter por que de ele me levar ali, pois agora mais de perto eu podia ver que era uma espécie de celeiro. Um celeiro bem construído, diga-se de passagem.
— Você já deve ter deduzido que isso não é uma casa para pessoas, certo? – Gajeel comentou em um tom de pergunta, enquanto abria a porta e segurava-a para que eu passasse. – O que eu quero te mostrar é isso – ele jogou a mão a frente, mostrando o interior do prédio.
A minha frente estava um espaçoso lugar, recheado de apetrechos para animais. Mais ao fundo tinha duas baias contendo dois cavalos – ou éguas – um de cor branca e outro de cor preta. Porém, o que me chamou a atenção não foram os cavalos, nem as enormes camas fofas de animais ou a decoração – que também era magnífica – e sim um gato negro que estava deitado preguiçosamente em cima de uma mesa.
Dei alguns passos para perto do bichano e Gajeel viu o que eu admirava. Ah, eu tinha uma queda de amores por gatos, sou apaixonada por essa espécie de animais, mas Makarov nunca me deixou ter um animal de estimação.
— Esse aí é o Phanterlily – o moreno aproximou-se e apontou para o gato que levantou a cabeça ao ouvir seu nome.
— Por que achou que eu fosse gritar? – questionei-lhe, lembrando da promessa feita antes.
— A maioria das mulheres parecem ter medo de animais, até mesmo de gatos – retrucou, fazendo um bico e coçando a cabeça. Rolei os olhos diante o motivo.
Cheguei mais perto da mesa, não conseguindo resistir mais. Aquela carinha fofa, apesar de ter uma marca de cicatriz perto do olho esquerdo, encantou-me. Corri para o gato e o peguei no colo, abraçando-o.
— Ele é uma fofura! – exclamei, coçando suas orelhas.
— Olha só Lily, ela te chamou de fofo – ele comentou com o gato, olhando o bicho com um jeito estranho, como se o tivesse zombando.
Phanterlily, ou lily, deu uma pequena rosnada em meu colo e ergueu a cabeça, olhando diretamente para mim, indignação dançava por seus olhinhos castanhos.
— Vou te mostrar quem é fofo – o gato falou.
O gato falou!
Minha boca despencou para baixo, surpreendida. Fitei Gajeel para ver se foi ele quem falou, fingindo ser o gato, mas o Príncipe estava caindo em gargalhada. Então o gato pulou do meu colo para o chão, caindo graciosamente. Dando mais uma olhada ofendida a mim, ele deu uma espreguiçada.
— Ah, não Lily! Aqui não!
Fiquei sem entender a exclamação de Gajeel para o gato, então apenas permaneci em silêncio, observando a cena que se desenrolava a minha frente. Com um pulo o gato começou a brilhar, assim que aterrissou novamente o gato havia sumido e em seu lugar havia um enorme pantera-negra.
Soltei um gritinho de medo e corri para o moreno, agarrando o seu braço. Eu juro que ouvi o felino dar uma risada abafada. Incrédula, fitei a pantera e constatei que ela tinha a mesma marca que o gato, a cicatriz próxima do olho esquerdo.
— Só pode ser brincadeira – comentei em voz baixa.
— Ainda sou fofo? – o animal falou, novamente, andando de um lado para o outro numa pose imperial.
— Você quase fez ela ter um ataque, Lily! O que combinamos sobre se mostrar para as pessoas? – Gajeel conversava com a pantera como se fosse a coisa mais normal do mundo. Agora não restava dúvidas, esse mundo é louco e cheio de magia, e eu fui parar bem no meio dele.
— Desculpe se lhe assustei, senhorita. Apenas não gosto quando me chamam de fofo – Phanterlily desculpou-se a mim. Não sabia o que era mais estranho, um gato se transformando em uma pantera ou essa mesma pantera se desculpando comigo, e de um jeito bem formal.
Tomando um pouco de coragem, saí de perto do Príncipe e aproximei-me do felino. Abaixei-me para ficar na mesma altura que ele, ficando cara a fuça com ele. Por algum motivo o meu medo dele passou, algo naquele olhar me dizia que ele não me machucaria.
— Tudo bem, eu que peço desculpas – respondi, sorrindo.
Eu acabei de falar com um gato/pantera.
Lily arreganhou os dentes num sorriso, o que de certa forma foi um tanto fofo. Mas jamais falaria isso, aprendi a lição de não mencionar essa palavra perto dele. Então o bichano veio para mais perto e cheirou-me, depois deitou ao meu lado.
— Gostei dela, você tem a minha aprovação.
O moreno apenas bufou e balançou a cabeça.
— Vamos, baixinha. Já lhe mostrei o que queria, agora tenho outras coisas para fazer – ele falou, puxando-me para perto da porta e longe de Lily.
— Certo – concordei, relutante – Até mais Phanterlily! – acenei para a pantera que agora havia voltado a sua forma de gato. Ele olhou-me e mexeu uma patinha como se acenasse de volta. Fofo!
Caminhávamos tranquilamente enquanto voltávamos ao Castelo, Gajeel parecia não perceber que ainda me segurava pela mão, mas eu era bem consciente disso. A mão dele era grande se comparada a minha, apesar de toda a pose rude, o seu aperto era delicado.
— Espero que tenha gostado do Lily, pois vai vê-lo com bastante frequência – ele falou, cortando minha linha de pensamento – queria te mostrar ele, assim não se assustaria caso o visse pelos corredores da Ala Real.
— Aquele espaço é destinado para o Phanterlily?
— Não, ele é para todos os animais ou companheiros meu e de Rogue – respondeu-me – e pode chamá-lo de Lily se quiser, afinal você já tem a aprovação dele.
Dei um pequeno riso com isso, ao menos consegui um novo amigo.
(…)
Se havia uma coisa que eu amei no Castelo, com toda certeza foi a Biblioteca. Eu tinha uma paixão enorme por livros desde criança, sempre que podia ou tinha dinheiro, ia ao mercado e comprava quanto livros conseguia. Mas a Biblioteca se tornou meu local predileto por outros motivos também, ele era uma espécie de refúgio. Desde a notícia sobre a vinda os Príncipes de Ghaléia o Castelo se tornou um alvoroço, as pessoas estavam mais agitadas que o normal e ocupadas com os preparativos da festa.
Então acabei me escondendo aqui nesses últimos três dias. Tanto Gajeel como o Rei vinham algumas vezes me ver e ajudar a procurar algum livro, eu sabia que os dois também gostariam de fugir de toda a agitação, mas os seus cargos não lhes permitia isso. Nessas horas é bom ser apenas uma garota de caso amoroso. Suspirei ao fechar o livro que estive lendo durante a última hora, Lily que estava deitado em meu colo ergueu a cabeça me avaliando. Dirigi-lhe um sorriso calmo e cocei suas orelhas, arrancando dele um ronronar.
Quem imaginaria que eu algum dia estaria dentro do Castelo de Fiore, sendo mimada pelos serviçais daqui e podendo desfrutar de uma enorme e linda Biblioteca? Nunca em meus sonhos eu teria imaginado algo assim. Apesar dos pontos negativos, como ter de guardar um segredo de Gajeel que deveria o ter matado, e ter de ajudar com a resolução dos casos de mortes misteriosas que assolam o reino, ficar na capital na companhia dos irmãos RedFox era um tanto agradável, por mais que não parecesse no começo.
— Devia comer algo, Levy – Lily aconselhou-me.
— Depois eu passo na cozinha e pego alguma fruta.
O gato pulou de meu colo e subiu na mesa a nossa frente.
— É sério, você precisa comer. Consigo ouvir sua barriga roncar daqui – insistiu, olhando-me seriamente.
— Certo, – rolei os olhos. – você venceu – concordei.
Levantei-me da confortável cadeira – que mais parecia um sofá pequeno – e peguei Lily no colo para sairmos da Biblioteca. Conforme segui os corredores ia vendo as mudanças na decoração por conta da festa, haviam mais flores postas em belos vasos, as cortinas tinham sido retiradas de algumas janelas para que deixassem a luz do dia entrar, em qualquer lugar que se andasse havia um fraco cheiro de algum perfume floral cítrico.
Passei na cozinha do Castelo e peguei uma maçã, apesar de uma cozinheira insistir que eu levasse mais coisas. Tanto ela quanto Lily me lançaram olhares reprovadores, querendo que eu comesse mais, porém eu nunca mais entraria naqueles vestidos de festa terrivelmente apertados que me esperavam no quarto se fizesse isso.
Estávamos passando perto da entrada principal quando ouvimos uma pequena comoção. Curiosa como sou, fui espiar o motivo do alarde. Aproximei-me devagar da entrada, tentando me ocultar em alguns vasos de flores, Lily tinha a cabeça e orelhas erguidas pronto para escutar tudo o que pudesse.
Um pequeno assobio de admiração escapou por meus lábios ao ver o motivo de tudo aquilo, os Príncipes de Ghaléia. A Princesa era uma visão e tanto, dona de iluminados fios loiros, um corpo de dar inveja a qualquer mulher, e um sorriso que lhe incitava a sorrir também. Já o Príncipe era mais sensual, tinha uma leve insinuação predatória em seu movimentos, parecendo-se com um tigre a procura da caça.
A dupla de irmãos loiros adentraram no Castelo de braços dados, não tardou muito e o Rei chegou até a entrada. Houve um cumprimento de mãos e algumas palavras trocadas, as quais não consegui ouvir, depois os três se retiraram e pela direção que tomaram deduzi que fossem ao Salão Principal.
— Espiar é feio.
Dei um pequeno grito de susto. Gajeel riu da minha reação e Lily soltou um pequeno rosnado, pois eu o tinha esmagado um pouco contra o peito.
— E assustar os outros também é – retruquei.
Ele limitou-se a rir e balançar a cabeça, enquanto se aproximava de mim.
— Venha, – ele me chamou, estendendo a palma a mim – temos de ajudar a acomodá-los no Castelo.
Dando um suspiro, peguei sua mão e entrelacei meu braço no seu. Quando passamos perto da entrada, vi nosso reflexo nos enormes vidrais que ali havia. Parecíamos uma pequena família, Gajeel, Lily e eu. Por algum motivo um sorriso me veio ao rosto quando constatei isso.
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