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21 Capítulo 20 - Gajeel
Notas iniciais

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Capítulo 20
Gajeel
— Então você também é Mago – Natsu comentou, sentando-se ao meu lado.
Havíamos dado uma pausa para os cavalos descansarem, bem como Kagura, pois ela ainda não estava recuperada. Aproveitei a desculpa de cuidar do meu cavalo para me afastar o olhar de todos. Após uma longa discussão com Minerva consegui que saíssemos um dia antes do que havia ameaçado. Nem todos ficaram felizes com a situação, pois Orga ainda estava um pouco dolorido após sair do seu estado pedregoso.
— Touché – respondi, irônico. Não estava com humor para conversas.
— Sabe, eu não fui contra levantar acampamento mais cedo, então largue de rabugice e converse comigo, garoto de lata.
Ergui uma sobrancelha, suprimindo um sorriso. Apenas Natsu sabia como alegrar o humor de alguém, até mesmo o meu.
— É ferro, não lata – retruquei, em tom mais calmo – e obrigado por me apoiar.
— Resgatar Princesas em apuro é o meu lema!
Lily também se aproximou, soltando um miado indignado.
— Das várias coisas que Levy é, uma Princesa em apuros está fora da lista – comentei, traduzindo o miado do meu companheiro.
— Agora fiquei curioso, você jamais defendeu com tanta força uma garota. Quais as coisas que Levy-san pode ser?
De fato Natsu enxergava coisas que quase ninguém via. Como o fato de eu me importar mais com Levy do que jamais havia feito, além da minha família. Era difícil explicar o porquê disso, quando nem eu mesmo entendia. Apenas posso afirmar que ela era muito importante para mim.
— Corajosa, curiosa, determinada, inocente, inteligente, emotiva, compreensiva, animada, fiel, companheira, apaixonante – listei, optando por um caminho mais fácil. E fiquei um tanto surpreso com tantas qualidades que enxergava nela, principalmente a última. A mais perigosa também.
Natsu apenas ergueu as duas sobrancelhas, admirado com a sinceridade.
— Adoraria ser amigo dela, parece ser uma ótima pessoa.
Assenti em concordância. Observando ele pelo canto dos olhos, percebi que várias vezes havia desviado o olhar para a Princesa de Ghaléia enquanto conversávamos.
— E quais adjetivos você daria para a Princesa ali – pedi, como se não tivesse notado o modo como ele se inclinava para ela quando conversavam, ou como era um tanto protetor em relação a estranhos.
— Lucy? — ponderou, surpreso pela pergunta.
Erguei a mão em sinal positivo.
— Nova – respondeu.
— Sério isso? — zombei dele, dando-lhe um soco no ombro.
Natsu revirou os olhos.
— Não digo no sentido de idade, ferroso. E sim no sentido de ser alguém a se conhecer, que ela é mais do que o título de Princesa. Existem camadas de personalidade escondidas nela que podem encantar quem descobrir.
Aparentemente não era apenas a minha pessoa que estava um pouco diferente. Natsu era mais aberto para as pessoas, mas não se fixava em mulheres por causa do passado conturbado com seu pai.
— Limpe a baba, romeu – caçoei, levantando para selar novamente o cavalo.
(…)
Estava escurecendo rápido demais para meu gosto. Não havíamos andado tanto quanto queria e a sensação de que a baixinha estava mais perto do meu alcance do que nunca me deixava uma pilha de nervos. Ignorei o restante do pessoal e continuei cavalgando, forçando-os a me seguir.
O ambiente tinha se alterado aos poucos, virando um campo ladeado por uma floresta. As árvores dali iam aumentando seu tamanho conforme adentravam na escuridão do mato. Por algum motivo aquela região me fazia ficar vigiando-a, como se esperasse por algum ataque inimigo.
Ou é apenas paranoia sua.
Minerva alcançou-me com sua montaria e praticamente gritou comigo para pararmos. Um pouco culpado por exigir demais dos outros, concordei em acampar ali mesmo. Apesar de ir contra meus instintos de ficar longe daquelas árvores.
Orga tentou fazer algo, mas a Dama das Ervas foi irredutível em deixá-lo em descanso. Tirando proveito da brecha, ofereci-me para pegar lenha para a fogueira, ato que o Nanagear queria fazer. Minerva olhou-me agradecida e em seguida me enxotou dali.
Em posse de minha espada e na companhia de Lily, fui aproximando-me da floresta. Ela estava em um nível mais alto que o acampamento, então precisamos subir uma pequena elevação cheia de galhos secos e capim selvagem.
— Levy!
Minha cabeça levantou-se de rompante ao ouvir o grito desesperado de uma garota, principalmente pelo nome gritado. Adrenalina ferveu por minhas veias enquanto corria para a origem do som. A meio caminho de lá um vulto pequeno rolou por entre as árvores, descendo o pequeno morro.
— Droga! — dessa vez foi eu quem gritou ao constatar que o vulto era o corpo de Levy rolando da floresta em direção a um amontoado de vagens espinhentas.
Lily transformou-se na pantera e ultrapassou-me na corrida, chegando nela antes que batesse nos espinhos. Praticamente joguei-me em cima dela verificando seu estado e ficando praticamente louco com a visão de tantos machucados. Seus olhos castanhos fixaram-se em mim por poucos segundos antes de desmaiar.
— Levy! — o mesmo grito de antes se fez presente.
Pegando Levy em meu colo, olhei a fonte do som e constatei que era uma garota baixa e de cabelos azuis-escuros, porém longos, que vinha correndo em nossa direção. Seu rosto claramente transmitia preocupação e medo.
— Quem é você? — pedi, apertando Levy em meus braços em um ato involuntário de proteção.
A garota parou a alguns passos de nós, de olho em Lily que estava andando de um lado para o outro em sinal de pare aí mesmo.
— Eu é que te pergunto! E solte a minha amiga! — exclamou, apontando para a baixinha em meu colo.
Ouvi uma comoção atrás de mim e desviei o foco da garota maltrapilha. Natsu, Minerva, Kagura e Hibiki vinham correndo em nossa direção. Todos ficaram espantados com a cena que estava se desenrolando diante deles. Eu com Levy no colo, Lily em forma de pantera e uma garota com a roupa parecida com a de Levy, tão machucada quanto.
— Vocês não parecem com os Rebeldes Vermelhos – a garota falou, olhando todos nós.
— De fato não somos rebeldes, somos uma comitiva do Rei Rogue – Minerva tomou a frente, dando pequenos passos em direção a garota – como se chama? — indagou, com a voz calma.
— Wendy.
— Wendy, pode nos explicar o que faz aqui com essa garota? — A Dama indicou Levy com a mão.
— O nome dela é Levy – retrucou Wendy com certa raiva, ato que me fez ficar um pouco melhor em relação a ela – e nós estávamos fugindo dos Magos Rebeldes. Agora que sei que não vão machucá-la ainda mais, por favor, me deixem chegar até ela, pois Levy precisa cuidar dos ferimentos.
Nem Minerva ou os outros estavam dispostos a permitirem isso, mas uma olhada para a baixinha me mostrou que ela realmente precisava de cuidados agora.
— Ok – respondi, permitindo.
— Gajeel! — Minerva censurou-me, percebendo tardiamente que usou meu nome em frente a desconhecida.
— Oh – Wendy soltou o ar como se estivesse aliviada – então você é ele.
Apesar de eu ter erguido uma sobrancelha questionando, Wendy apenas limitou-se a vir até mim e agachar-se perto de Levy.
— Vou advertir todos para que não me ataquem sem necessidade – começou, erguendo as duas mãos para que todos vissem – sou uma Maga, mas não estou contra o Reino, e minha Magia é de cura, portanto posso ajudá-la mais do que qualquer um.
Sua fala transmitia segurança, ninguém ali ousou desacreditar no que ela dizia.
— Então use-a – pedi, abrindo um pouco os braços.
As mãos da garota ficaram luminosas e descansaram sobre o tórax de Levy. Era visível que a curadora estava cansada, mas não mediu esforços para curar todos os ferimentos da outra. Quando terminou, dava para perceber o quão melhor a baixinha estava. Uma onda de gratidão me lavou, e tentei transmitir-lhe isso com o olhar. Wendy pareceu entender e deu um pequeno sorriso.
— Obrigada – Minerva havia saído de sua pose defensiva.
— Para isso que servem os amigos, certo?
E após dizer isso, Wendy também desmaiou. Lily jogou-se na terra, amortecendo a queda da Maga, que logo foi pega no colo por Natsu.
— Vamos voltar para o acampamento – Minerva ordenou, confusa com tudo que havia acontecido.
— Finalmente encontrei você – sussurrei para que apenas Levy ouvisse, enquanto voltávamos.
(…)
Hibiki tinha armado uma pequena enfermaria em sua tenda, mas insisti que trouxesse os equipamentos que precisava para a minha, pois não deixaria que Levy ficasse longe de meus olhos. E havia a pequena Wendy que precisava de cuidados também. Então Levy permaneceu comigo e a Maga foi instalada na tenda de Hibiki.
Estava sentado perto dela observando todos detalhes e tentando adivinhar o que tinha lhe ocorrido, imaginando todos os acontecimentos que tinha perdido. De algumas coisas eu sabia pelos pertences que trazia consigo, como o livro sobre Magos Scripts. Ela ainda era uma pessoinha curiosa sobre o tema.
— Posso entrar?
Olhei para a entrada e constatei uma Kagura tímida segurando o pano que era a porta.
— Claro.
A morena se posicionou ao meu lado e ofereceu uma maçã. Peguei a fruta, notando o quão faminto estava. Ficamos em silêncio enquanto comíamos, Kagura ficava fitando Levy curiosa.
— Como está a outra? — pedi, referindo-me a Wendy.
— Acordou um pouco enquanto a Princesa ajudava Hibiki a limpá-la. Perguntou sobre ela – indicou Levy com o queixo – e só após ser tranquilizada de que estava tudo bem, adormeceu.
Tive a leve impressão de um tom mais duro quando Kagura indicou a baixinha. Os anos que estudei as pessoas, aprendendo sobre o modo de agirem para prever uma mentira fez com que entendesse que a visita da minha antiga amiga não era apenas ocasional.
— O que quer perguntar? — indaguei, surpreendo-a.
Kagura tentou disfarçar, mas desistiu quando notou que eu não acreditaria no que dissesse.
— Por que se importa tanto? Ao menos sabe o passado dela?
Confesso que a pergunta me pegou desprevenido, principalmente pelo tom um pouco áspero dela.
— Levy foi uma das poucas pessoas que não julgou a pessoa que sou por ser Mago, entendeu-me como ser humano propenso a falhas. E se tem algo que aprendi nesse Reino cheio de descriminação, é que se deve prezar e cuidar dessas pessoas – respondi, deixando-a estupeficada pela sinceridade não esperada – portanto, não quero mais ouvir esse tipo de questionamento.
— Desculpe, não pretendia ofendê-lo – comentou, abaixando a cabeça.
— Não foi a mim que acabou ofendendo.
Ela soltou um suspiro.
— Só fico apreensiva em relação a Rogue, sobre as pessoas que estão perto dele. Entende? O reino virou um amontoado de Magos e ele está diretamente na mira deles, então fico receosa sobre a índole daqueles que tem um acesso mais fácil a ele, e isso resultar nele machucado, ou pior, morto.
De fato ela tinha razão, mas não deu para deixar de ficar levemente irritado pela pergunta, então assenti indicando que tinha entendi seu ponto, mas não comentei nada sobre ele.
— Vou ver se a Minerva precisa se ajuda. Quer algo?
— Não. Estou bem – respondi, sem olhá-la.
Novamente a sós, permiti que a máscara caísse. Timidamente e com medo que ela acordasse com o toque, passei os dedos por seu cabelo. Dentro de mim havia um furacão cheio de coisas que não entendia, dando coragem para continuar com a carícia.
A conversa com Natsu me veio a mente, lembrando o modo como a havia descrito para ele. Fixei-me na última palavra dita. Apaixonante. No fundo, sentia um pouco de medo de estar de fato nutrindo sentimentos por ela. Nada no que eu fazia que fosse relacionado a Levy era parecido com o que fazia anteriormente.
Eu não defendia garotas. Não ficava louco a sua procura. Não sentia a necessidade absurda de protegê-las. E nem as queria perto de mim, como estava querendo. A compreensão de que meu medo era real, fez meu coração martelar mais rápido.
Estou apaixonado.
Saber e admitir aquilo era esmagador. Pois, todos que presenciei se apaixonarem não ficaram bem. Meu pai adoeceu junto de minha mãe, e ficou ainda pior com sua morte. Vários soldados que fizeram parte da minha campanha afogavam suas mágoas na bebida, pois suas esposas ou noivas os haviam largado, ou que estavam longe demais deles. Todo aquele sentimento os fazia mais fracos, mas vulneráveis. E eu tinha receio que ficasse pior.
Não podia me dar ao luxo de fraquejar num momento como esse. Não quando Rogue era alvo dos Rebeldes. Então, forcei-me a tirar a mão de seu cabelo. Empurrei para um lugar escuro dentro mim o sentimento que tinha por Levy.
— Gajeel? É você?
Com esforço mantive o rosto neutro e não pulei ao seu encontro.
— Quem mais seria? — respondi, com a voz falsamente controlada.
Ela virou um pouco a cabeça em minha direção, seus olhos castanhos ficando mais vívidos conforme acordava, um sorriso pequeno brotou em seus lábios.
— É difícil acreditar que está aqui, parece uma miragem – comentou, rindo um pouco.
— Acho que bateu a cabeça com força quando caiu, baixinha – retruquei, brincando.
Uma careta lhe atravessou o rosto e imediatamente estava verificando seus ferimentos, procurando o sinal da dor. Foi um reflexo tão involuntário que quis me bater.
— Está tudo bem, apenas uma pequena dor de cabeça – Levy assegurou-me.
Seu hálito bateu em alguns fios de cabelo meu, indicando a nossa proximidade. Virei-me um pouco querendo colocar alguma distância, mas o efeito foi o contrário. Me vi a centímetros dela, meus lábios dolorosamente perto dos dela. A respiração de Levy aumentou, uma leve cor rosada pintou suas bochechas. Fiquei olhando-a hipnotizado, até que ela timidamente fechou os olhos. Acordei com um tranco e me afastei rapidamente, cobrindo-a com a coberta. Com isso ela abriu os olhos, confusa.
— Não achou que eu fosse te beijar, ia? — zombei para disfarçar minha própria condição.
Levy tentou esconder a decepção, mas ainda consegui ver. Algo dentro de mim deu uma pontada e rapidamente sufoquei.
— Óbvio que não – anunciou, erguendo o queixo com certo orgulho.
— Bom, já que acordou vou falar com a Minerva – disse-lhe, indo em direção a saída da tenda.
Não esperei por uma resposta, precisava respirar e organizar minha mente. Desviei dos demais e me refugiei perto dos cavalos, onde Lily estava ressonando. Sem querer lhe acordar, silenciosamente peguei uma escova e comecei a pentear meu cavalo.
Seria uma longa viagem até o Castelo, conclui pesaroso.
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