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4 Capítulo 3 - Nunca estará sozinha
Notas iniciais
Pegue um pedaço do meu coração
E torne-o todo seu
Assim, quando estivermos separados
Você nunca estará só
Nunca estará só
Never be alone — Shawn Mendes
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Querido diário,
Hoje as coisas parecem diferentes e eu estou com medo. Talvez porque eu tenha estado tanto tempo à deriva que não tenha notado o mundo ao meu redor. Eu estou bem e, meu Deus, como isso é bom. Mas eu tenho medo porque eu não quero que essa sensação de paz acabe. Não me entenda mal, diário. Eu ainda amo Tiago. No entanto, pensar nisso, tem começado a não me fazer tão mal e o medo é que, algum dia, esqueça quem ele foi.
Eu tenho medo do amor. Criar expectativas em alguém e começar a comparar com Tiago e arruinar tudo. E medo de o decepcionar, onde quer que esteja. Ele queria o mundo pra mim e, agora, teria que conquistar isso sem ele. Parece mais difícil do que se imagina.
A faculdade está tranquila e eu encontro Tony por lá, às vezes. Sua presença não me incomoda mais como antes e isso me assusta. Tudo me assusta, por que parece tudo novo. Amanhã vai ser o aniversário dele, ou melhor, deles e eu fui convidada por um de seus amigos para essa festa, que por sinal, é surpresa.
A família Andrade não era rica mas também não era pobre. Mas aquele aniversário seria grande. Na verdade, aniversários familiares sempre eram um grande evento, eles gostavam de comemorar fazendo sempre ser um dia especial. Tiago sempre foi mais reservado e independente nesse sentido. Eu lembro, diário, que ele odiava ter que pedir dinheiro para mãe, ele sempre se virou e era controlado nas dívidas. Tony gastava mais o dinheiro do pai com bobagens, pelo que eu ouvia dos comentários. No entanto, era claro, que ele havia mudado, ao menos, um pouco.
Espero que o dia seja bom amanhã.
—------***-------
— Noraaa! — Vic gritou, batendo na porta do quarto de Nora.
— Calma, tô indo — Ela disse borrifando um perfume e foi abrir a porta. Encontrou sua amiga sorridente segurando uma sacola de presente nas mãos.
— Menina, mas você demora pra se arrumar hein — Vic comentou revirando os olhos — Vamos logo.
— Eu claramente estava de preguiça na cama me perguntando se queria ir até levantar e ir tomar banho. Eu até me arrumei rápido, considerando a hora que decidi — Nora falou a verdade.
— Ainda tem o ônibus. O moovit diz que já vai passar — Ela falou — Não podemos demorar.
Isso era verdade. Aquele ônibus não era do tipo que Nora podia se dar o luxo de esperar passar outro, por que até passar já estaria na hora de voltar.
— Então vamos — A morena falou pegando a bolsa.
— Tchau Tia — Vic falou quando estavam saindo, se despedindo da mãe da amiga.
— Tchau mãe.
— Tchau meninas. Vão com Deus — Ali estava o cumprimento chave.
— Amém — Responderam juntas e saíram.
No horário esperado, o ônibus chegou. Com dificuldade, Nora subiu com a ajuda da aliada muleta. O motorista mal-humorado mal esperou ela estar equilibrada e saiu arrancando fazendo com que escorregasse e caísse em cima do garoto que subiu após ela. Ele a segurou.
— Ai meu Deus, me desculpa — Falou se equilibrando novamente.
— Não, tudo bem — Ele falou — Você está bem?
— Eu estou sim, sério, me desculpa — Estava envergonhada. Bom, aquilo não era a primeira vez que acontecia. Alguns motoristas não tinham a mínima educação.
— Relaxa — Ele sorriu e virou para o motorista — Com licença, mas você deveria prestar um pouco mais de atenção.
O motorista queria matar o garoto desconhecido mas somente pediu desculpas sem muita vontade.
Ela se admirou pela atitude dele e sorriu agradecendo. Tinha a sensação de que já tinha o visto em algum lugar. Passou a roleta e sentou ao lado de Vic que estava amaldiçoando o tal motorista até a próxima geração. O garoto sentou longe delas e Nora desejou saber de onde o conhecia.
—------***-------
A decoração da casa estava perfeita em vários tons de azul. A mãe de Tony estava muito linda arrumando os últimos detalhes com a ajuda de alguns jovens que imaginou serem outros amigos dele.
— Nora, querida, que bom que você veio — Ela a cumprimentou quando a viu — O Ton está chegando, nós iremos fazer silêncio e gritar surpresa quando ele entrar.
Luísa o chamava carinhosamente de Ton. Ele preferia Tony mas não reclamava. Ela era um amor de pessoa e ficou devastada quando Tiago morreu. Nora ouvira que ela se agarrou ao caixão chorando de tal forma que foi preciso muito esforço para afasta-la, passava mais tempo no quarto de Tiago chorando do que em qualquer outro lugar. Fora por isso que Tony acabou voltando, afinal ela estava sozinha naquela casa.
— Tudo bem — Assentiu — O que disseram pra ele não voltar até agora?
— Eu pedi a Helena para distraí-lo por hoje. Ela acabou de mandar mensagem dizendo que chegam em 10 minutos — Luísa respondeu.
Helena?
Quando ouviram o som do carro estacionando, todo mundo ficou em silêncio. Nora conseguia ouvir vozes rindo. O fechadura girou e então, Tiago entrou.
Ou melhor, Tony entrou.
A nostalgia do momento lhe atingiu em cheio. É claro que já havia participado de uma surpresa parecida. Tiago entrou pela porta e ficou, primeiramente, chocado, depois sorriu tão lindo que ela só conseguiu correr para os braços deles e o beijar.
Seu coração doeu com a lembrança.
Tony entrou ao lado de uma garota loira de cabelos curtos e repicados e assim como o gêmeo que tanto conhecia, ele fez a expressão de choque ao olhar pela sala lotada e decorada. Depois abriu um sorriso enorme e olhou para a garota ao seu lado que desejou parabéns e o abraçou. Ele a levantou e sorriu.
Aquilo parecia sufocante para Nora. Ela procurou Vic pela sala e a encontrou indo junto com os outros convidados cumprimentar Tony.
Ela não conseguia fazer parte daquilo. Precisava respirar. Nora se afastou para a varanda e observou a lua brilhante no céu. Sabia que poderia ser difícil, afinal aquele era o dia de Tiago também e ele deveria estar entrando ao lado de Tony por aquela porta.
Ela ouviu o coro de parabéns mas não saiu dali. Como Luísa aguentava a falta de um gêmeo na mesa dos parabéns? Nora desejou ser tão forte quanto ela.
— Te dou esse prato de coxinhas se colocar um sorriso nesse rosto — A voz de Tony soou. Assustando-a.
— Meu Deus Tony. Que susto — Ela se virou com os olhos arregalados — Desculpa, eu... não estava me sentindo bem — Se atrapalhou com as palavras — Mas feliz aniversário.
— Obrigada — Ele sorriu — Não vai aceitar as coxinhas? Se você não quiser comer, eu como — Pegou uma e comeu.
Ele era tão... Lindo.
— É claro que eu quero — Ela falou pegando o prato de suas mãos — Quem desperdiçaria coxinhas?
— Se alguém um dia fizer isso perto de você, convoque uma junta médica para verificar a sanidade mental — Tony disse divertido. Ela sorriu.
— Com toda certeza eu farei isso.
— Olha, o cruzeiro do sul — Ele falou apontando para um conjunto de estrelas no céu — Eu costumava sempre vir aqui na varanda e procurar essa. É a minha preferida.
— Porque? O que faz ela especial?
— Eu sentia como se estivesse sendo abençoado. Minha família estava sempre unida. Nós quatro. E eu costumava dizer que era o símbolo da nossa família — Ele explicou de forma nostálgica.
— Isso é bonito.
— Era bonito — Fez questão de especificar o tempo passado — Agora meus pais estão separados em estados diferentes e meu irmão não está mais aqui. O cruzeiro não faz mais sentido.
— Faz sim — Nora afirmou — As coisas mudaram mesmo de maneira irreparável. Mas esses momentos bons existiram e o cruzeiro está ali para que você não os esqueça.
— E se eu não quisesse lembrar?
— Você gosta deles. Senão sua voz não seria tão saudosa ao explicar sobre o cruzeiro — Nora estava certa.
— Mas há coisas que são difíceis de lidar como olhar no espelho — Ele a olhou nos olhos — Olhar e ver que eu sou tão parecido com ele, me lembrando que passei os últimos anos longe do meu irmão. Você tem sorte de ter visto seus últimos momentos.
— Eu não diria que sorte é uma boa palavra considerando isso — Ela apontou para a muleta — Eu nem tive tempo de me despedir, tudo aconteceu tão de repente.
— O gramado do vizinho é sempre mais verde — Ele comentou com leve divertimento.
— Isso é um fato — Ela assentiu.
— Eu entendo por que meu irmão se apaixonou por você — Ele falou olhando pra ela como se estivesse a admirando e se aproximou — Me pergunto se algum dia eu teria alguma chance.
Nora se assustou levemente quando ele tocou em seu rosto. Seu coração batia desenfreadamente com aquele toque. Ela gostou.
— Tony...
— Eu sei... Mas você me atrai. Não sei o que está acontecendo comigo.
Não sei o que está acontecendo, mas eu não quero ficar longe de você
Ela lembrou de quando Tiago a falou coisa semelhante.
— Tony... Desculpa, mas isso está errado — Se afastou — Eu não posso fazer isso.
— Nora — Segurou seu braço — Não vai... Eu consigo ver que você reage a mim.
Porque você é muito parecido com ele. Ela pensou.
— Tony, não faz isso — Se desvencilhou — Eu reajo porque você me lembra ele. Só por isso.
Ela não sabia se era realmente verdade aquilo, mas era o que imaginava. E de qualquer forma, era o irmão de Tiago, isso era estranho.
Ele suspirou triste.
— Tchau Tony!
Nora respondeu e saiu correndo.
Ela não podia fazer isso. Era errado. O que pensariam? Um irmão morreu e ela vai e se apaixona pelo outro.
You'll never be alone
Correu até a parada mais próxima e sentou esperando o ônibus que passaria dali a uma hora provavelmente.
— Olha, isso é estranho — Um garoto que ela não havia notado direito comentou.
— O quê? — E ela reconheceu como o garoto que a segurou no ônibus — Aah, você...
— Sim, bom, vamos ficar aqui por pelos menos 30 minutos ainda. Quando eu cheguei aqui, tinha acabado de passar um.
— Que morte horrível — Nora falou — Temos uma longa espera pela frente...
— Realmente, mas e aí? Me chamo Rafael e você?
— Nora. Me chamo Nora.
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