Sideways
12 XII - O Iluminado
Notas iniciais
XII
O Iluminado
Numa noite particularmente quente, três cavaleiros se reuniam na Taberna; um ambiente de frequência duvidosa, mas com bebidas de preço honesto e procedência razoavelmente garantida na vila de Rodório.
Ditos cavaleiros se denominavam os 'Quatro Cavaleiros do Apocalipse', embora ali, naquele momento, houvesse apenas três. Kanon de Gêmeos/Dragão Marinho, o quarto elemento habitué do local, não estava presente naquela noite em particular.
Mas Shura, Máscara da Morte e Afrodite estavam.
Shura dificilmente seria um candidato adequado à vaga de 'Cavaleiro do Apocalipse', mas era do tipo que estava presente em qualquer evento etílico dentro do Santuário. Tinha uma afinidade estreita com copos, garrafas, fermentados e destilados; assim como os colegas de mesa.
Já os outros dois, porém, eram a perfeita definição de problemáticos do Santuário. Máscara da Morte não se restringia apenas a eventos etílicos: Era figurinha carimbada em qualquer evento que reunisse bebidas, ou mulheres, e era presença absolutamente confirmada em qualquer coisa que reunisse ambos. Afrodite, por sua vez, estava sempre por perto do amigo italiano e, apesar de sua bela figura e modos finos que contrastavam com os colegas cavaleiros em geral (e com o carcamano malcriado em particular), também era entusiasta ferrenho do semanal evento de levantamento de canecas na Taberna, e tinha uma resistência etílica comparável a dos profissionais da área. Se era por conta do treinamento semanal ou do sangue naturalmente venenoso, ninguém poderia saber, mas ele 'treinava' no esporte com o mesmo afinco que os colegas bons de copo.
E, naquela noite, estavam os três reunidos na Taberna há um bom tempo, e já iam pelo quinto (ou sexto) garrafão de cerveja caseira.
— Olha, pessoal, eu não aguento mais o Shaka. — Shura disse, já com alguns efeitos do álcool em seu organismo. — Sinceramente, eu não aguento mais.
— Mas o que foi que ele aprontou dessa vez? — Perguntou Afrodite. — Ou ainda é o negócio do cachorro?
— Você acha pouco? Eu tenho que esconder meu cachorro como se ele fosse um bandido armado e perigoso! — O espanhol se queixava, e não pela primeira vez. — Agora, triste de nós que não podemos tem ter um bicho de estimação em paz dentro de um lugar onde uma criatura encana que vai criar uma vaca no jardim das Árvores Gêmeas.
— Sinceramente, o Shion devia deixar. — Máscara da Morte retorquiu. — Porque eu queria só ver o indiano limpando a b*sta da vaca do jardim dele. Essa eu pagava pra ver.
— Isso você está supondo que ele fosse limpar o excremento da própria vaca, creio eu. — Afrodite ponderou. — Bem se vê que vocês não conhecem o Shaka. Ele não ia se incomodar com algo tão mundano quanto cocô de uma vaca. Fora que, claro, poderia servir de adubo pras árvores gêmeas, como não?
— Eu tô pouco me lixando se vai dar certo do Shaka criar a vaca lá dentro ou não. — Shura voltou a se lamuriar. — A única coisa que eu queria era poder criar meu cachorro em paz. Vocês não sabem como me dói não poder levar meu bichinho para passear normalmente.
— Pronto, vai começar a choradeira. — Afrodite sussurrou, entre os dentes.
— Mas não é choradeira não, cara. Vocês não sabem o quanto é frustrante ver seu bichinho crescer fechado dentro de uma casa...
— ...Templo... — Afrodite corrigiu o colega.
— ... Preso e cerceado do direito de ir e vir, feito cachorrinho de apartamento. Vocês não sabem o que é se estressar pra ensinar o cachorro a não latir por medo de que ele seja descoberto. Vocês...
— Vem cá, a gente veio aqui pra beber ou pra reclamar? — Máscara da Morte cortou o espanhol.
— Não conhece o Shura? No meio termo entre a depressão e a alegria alcoólica, tem a reclamação constante. — Afrodite colocou. — Mas enfim, não é como se ele não tivesse um fundo de razão, mas ficar só reclamando aqui não adianta de nada.
— E o que você sugere, Peixes? — Perguntou o espanhol.
— Partir pra ação...
OOO
Alguns dias depois, no templo de Peixes...
— Espera aí, como é a história? — Shura não tinha acreditado no que acabara de escutar.
— Simples. — Afrodite deu um sorriso radiante, e mostrou alguns incensos em sua mão direita. — Esses palitos aqui são os preciosos incensos de meditação do senhor Shaka de Virgem. Foi um milagre tê-los encontrado em um fim de mundo como Rodório, mas não podia perder a oportunidade...
— Isso eu entendi. Mas o que você vai fazer com esses incensos?
— Bom... Eu achei que você ia entender, uma vez que você já lutou contra ele, não?
— Lutei, sim... — Shura assentiu. — Mas não estou entendendo.
— Bom, nesse caso, você já teve a experiência de perder alguns sentidos ao fazer uma viagem nem sempre muito confortável pelo seu 'lado espiritual',c enquanto passeia pelos Seis Mundos. Eu não sei vocês, mas eu imagino que essa seja uma 'bad trip' daquelas bem brabas...
— Sim, é... — Shura meneou a cabeça em concordância. — Mas o que isso tem a ver com os incensos?
— Pierino(1), o Cabrito é lento assim ou ele tá fazendo isso pra me atazanar?
— Rudy(1), nem eu tô entendendo onde cê quer chegar, cazzo.
— Muito bem... — Afrodite disse, com um leve bufido. — Vocês sabem o que é LSD, não sabem?
— Sabemos, lógico. — Máscara da Morte bufou, já um tanto impaciente. — Mas o que tem o LSD a ver com os incensos?
— Tem a ver que eu consegui, com algumas fontes que não vem ao caso, uma forma de ácido que pode ser inalada... — Afrodite começou a explicar seu raciocínio. — Ou seja: se alguém queimar a solução, vai inalar o vapor e vai absorver o ácido pelas narinas. Sacaram?
— Não. — Foi a resposta uníssona dos dois à sua frente.
— Trocando em miúdos: Eu aditivei os incensos com um banho de ácido líquido, aí que o Shaka vai ter uma experiência lisérgica quando acender os ditos-cujos pra meditar, e vai provar do próprio veneno!
Máscara da Morte ria malevolamente, enquanto Capricórnio arregalava os olhos, alarmado.
— Mas o que é isso, cara? É pra gente pregar um susto no Shaka, não pra drogar o infeliz!
— Ele já te tirou alguns sentidos, Shura, não sei porque você está se doendo tanto.
— Máscara, eu estou me doendo porque eu não sou um psicopata que nem vocês dois! — O espanhol respondeu de bate-pronto. — Vocês tem ideia do quanto isso pode dar confusão?
— Ah, Shura, não seja estraga-prazeres. — Afrodite disse, num muxoxo. — Mesmo porque é uma dose pequena, não tem perigo não.
— Gente, pelo amor dos deuses do Olimpo, vocês tão falando em batizar os incensos do Shaka com ácido! Nem é que isso não compense, é a definição acabada de uma FRIA!
— E como a gente coloca os incensos na casa do Shaka? — Máscara da Morte, por sua vez, estava voltado para problemas mais práticos.
— Fácil: ele desce pra treinar, a gente entra lá dentro e coloca os incensos lá, junto com os que ele já tem...
— E como que nós entramos no templo de Virgem sem a permissão do dono da casa? — Shura replicou. — Cês tão vendo como isso não dá certo? É arriscado demais!
— Hum... — Afrodite parou, pensativo. — Tem razão. Uma pena, eu já até batizei os incensos todos... Bem, deixa eles aí, então. Mais tarde a gente vê o que faz com eles...
OOO
Após o episódio do 'batismo' dos incensos e a consequente impossibilidade de 'plantá-los' no templo de Virgem sem levantar suspeitas, os ditos acabaram ficando pela casa de Peixes, esquecidos em um canto da sala privativa do cavaleiro da Décima Segunda Casa por alguns... meses. Chegou-se ao ponto em que nenhum dos cavaleiros envolvidos naquele evento em particular se lembrava daquilo, até o dia em que Shaka, em pessoa, resolveu cruzar as Casas Zodiacais para ir falar com o Grande Mestre do Santuário...
...Provavelmente para discutir algo sobre a ameaça de processo judicial por discriminação religiosa que ele fez a Shion, na ocasião da negativa do Grande Mestre em permitir que ele criasse vacas no Jardim das Árvores Gêmeas.
De todos os modos, Shaka precisou passar por todas as casas zodiacais, inclusive pela de Peixes. E, ao passar por ela, novamente encontrou seu guardião entretido demais com seus rosais como para vir lhe dar pessoalmente o aval para sua passagem. Também não se deu ao trabalho de buscá-lo pelo jardim, então somente elevou seu cosmo em saudação para receber, imediatamente, a permissão para seguir em frente.
Mas, em algum ponto do seu trajeto, Shaka abriu lentamente os olhos (bloqueando, porém, a liberação de seu cosmo acumulado pela privação do sentido da visão; que era o que fazia quando queria efetivamente ver algo sem destruir tudo a sua volta; e por ocasião dos tempos de paz andava fazendo mais e mais). E, ao fazê-lo, viu algumas caixinhas de incensos indianos, legítimos, num canto da estante da sala de estar do sueco; bem parecidos com os que costumava usar para suas meditações.
E que estavam em falta na vila de Rodório, há um bom tempo.
Bem que Shaka pensou que não deveria pegar os incensos sem pedir permissão ao colega de armas, mas ele sabia que Afrodite não era dado à prática da meditação em busca da iluminação pessoal. E, por conseguinte, não era apegado ao uso de incensos para esse fim, muito mais nobre e valoroso do que usá-los para perfumar o ambiente, apenas.
E foi com o pensamento de que Afrodite teria de entender que aquilo era por um bem maior que Shaka esticou os braços magros e pegou os incensos, para então acomodá-los em sua túnica.
OOO
Após a estressante reunião com o Grande Mestre, Shaka voltava para seu templo disposto a meditar como talvez nunca antes em sua vida. A conversa com Shion fora difícil a ponto de fazê-lo considerar que talvez, quem sabe, existisse a possibilidade de que Mu tivesse razão em dizer que ele não deveria ter ameaçado Shion com um processo; mas bem que o antigo ancião também podia entender que não havia nada de mais em se criar algumas vacas em seu jardim.
Mas, de qualquer forma, não adiantava chorar sobre o leite derramado, e se Shion realmente tivesse aprendido uma coisinha ou duas sobre desprendimento e paciência com sua larga vida, em pouco tempo ele deixaria esse ressabio pelo processo de lado.
Ou, até, acabaria por lhe dar razão...
Chegou até seus aposentos privativos, trocando a túnica que vestia por uma outra, confortável o suficiente para não atrapalhá-lo em sua meditação. Pegou três dos incensos emprestados de Afrodite e os acendeu, para então se colocar em posição de lótus e começar a esvaziar a mente.
Uma sensação de torpor agradável o tomou, embora uma parte remota de seu cérebro começou a perceber um leve gosto metálico em sua boca. Tentou se concentrar, mantendo os olhos fechados e cerrando sua percepção aos estímulos externos, focando seu cosmo apenas no ambiente que o rodeava.
Mesmo privado da visão por andar com os olhos fechados, Shaka conseguia divisar o ambiente a seu redor por meio de seu cosmo, que se expandia em ondas pelo ambiente e reverberava nos obstáculos, alcançando-o de volta como ondas de um sonar. Não era exatamente como ver, mas não podia dizer que aquela forma de percepção não tinha seus encantos. E, de mais a mais, aquilo lhe era mais natural até do que a sobrecarga de cores que as formas imprimiam em seus olhos. As ondas iam e vinham de acordo com os obstáculos que encontravam pelo caminho, lhe descortinando o mundo que, mesmo escuro com a falta de luz, ainda se enchia de ondas e rastros de cosmo que sempre voltavam a si, num ciclo perfeito onde o obstáculo devolve a onda até sua origem para ensinar seu criador sobre o mundo que saiu para desbravar. Perceber o mundo assim era para poucos escolhidos dentre os muito que são chamados, e isso lhe dava certa paz, que invadia seu coração, como se os ventos de um tufão arrancasse seus pés do chão onde já não se enterravam mais(2)...
Deixou que seu cosmo se expandisse um pouco além, para aumentar a percepção do que estava ao seu redor, enquanto tentava esvaziar a mente e se centrar apenas na ideia da paz. E as ondas de cosmo que iam voltavam a si, como as naus que desbravaram o Novo Mundo partidas da Europa, que voltavam a seus reinos trazendo ouro, plantas, animais e especiarias; riquezas de um mundo virgem, inexplorado pelas mãos do homem dito civilizado mas cuja mente tacanha acreditava num Deus de Punição e Austeridade, numa Terra plana que se acabava em precipícios abissais; ignorantes da Terra que era redonda e cheia de maravilhas de uma natureza intocada pelo Velho Mundo, mas ainda assim tão rica e antiga em seus conhecimentos quanto a cultura europeia vigente então. Um velho mundo já contaminado pelas mazelas do homem, a soberba que cega o homem para aquilo que é novo, o temor de abandonar-se para descobrir o novo, a morte simbólica para abraçar uma nova vida. O homem teme a morte, mas é nela que a vida se renova, é nela que o Universo se transmuta e se mantém, como as ondas de cosmo que o abandonam para chocar-se com as cadeiras e paredes de seu templo; elas morrem para voltar a si, como almas obedientes que são as criaturas vivas no ciclo de nascer e morrer e nascer e morrer e nascer e morrer, em busca da iluminação das sucessivas encarnações. Pobres daqueles que não entendem que viver é sofrer, mas não porque o sofrimento é promotor de crescimento espiritual, não. O sofrimento vem do desejo, desejar traz apego, e o que nos traz apego nos aprisiona, nos traz sofrimento. Não romper essa cadeia é se condenar ao ciclo interminável das existências, Sâmsara preso ao Karma, Dukna que vem de Tanha, Sofrimento que vem do Apego.
As ondas reverberavam, se retorcendo na percepção de Shaka e transmutando a sala de meditação na representação da espiral de reencarnações entre os Seis Mundos; seu cosmo como almas obedientes que dançavam ao redor dos mundos e dentro deles, em espirais de espirais que se multiplicavam e mergulhavam em si como fractais de energia cósmica, numa explosão de luz, sombras, sons, tato, cores...
Cores?
Shaka abriu os olhos, e um clarão tomou conta da casa de Virgem.
OOO
Saori descia as escadas correndo, com Shion, Seiya e Shun em seu encalço; tão alarmados quanto a jovem pela explosão desordenada de cosmo vinda da casa de Virgem.
"Será um ataque? " Pensava a garota, já gata escaldada de tantas guerras e lutas, mas até para si agora a ideia lhe parecia improvável. Se Zeus ordenara a Paz, Hades vivia seu idílio romântico desde a mudança definitiva de Perséfone para seu reino, e Poseidon... Bem, ela e Julian estavam se entendendo muito bem, quem diabos resolveria atacar o Santuário, e justo na casa de Virgem?
Aliás, como que dito ataque chegou em Virgem sem alertar Leão, Câncer, Gêmeos, Touro e Áries primeiro?
A cada lance de escadarias (que ela descia com a galhardia de seu treinamento físico recente, uma vez que não tinha cabimento ela, Deusa da Guerra Justa e da Sabedoria, se representar na terra como uma menina sedentária que começava a acumular mais gordurinhas do que devia em seus seios fartos e seus quadris...) mais Santos se juntavam ao grupo, todos assustados com a manifestação do cosmo do cavaleiro da sexta casa.
Nos fundos do templo de Virgem, passaram pelas Árvores Gêmeas, um tanto desfolhadas pelo impacto recente, mas com claros sinais de que já aguentaram coisas piores.
— Isso porque acabaram de reformar o templo quase todo... — Shion estalou a língua, pensando nos gastos a mais que divisava nas rachaduras da parede do templo e em alguns buracos no teto, fora os destroços visíveis já do lado de fora.
Entraram, para encontrar a sala de meditação do Templo de Virgem em frangalhos, com vigas perigosamente pendentes no teto agora com um grande buraco embaixo de um Shaka razoavelmente desgrenhado, com os olhos semiabertos numa expressão de aturdimento.
Atena adiantou-se na direção do seu cavaleiro, enquanto os demais olhavam para o ambiente ao seu redor, em variados graus de assombro. Foi seguida por Shion, Dohko e Aiolia, enquanto um irritado Milo de Escorpião interrogava os cavaleiros das casas abaixo da de Virgem sobre como um inimigo pôde passar de forma tão fácil por suas defesas, sendo respondido com inegável rispidez por um Saga de Gêmeos que insistia em afirmar que ninguém, absolutamente ninguém passara por sua casa.
E enquanto Escorpião seguia discutindo com Gêmeos, os demais se empenhavam em buscar no ambiente devastado algum sinal do inimigo.
OOO
Shaka mal registrou o clarão que invadiu seu templo.
Agora, cores, formas, ondas de cosmo que iam e voltavam se fundiam em sua percepção, dando corpo a um ambiente que se transmutava dos Seis Mundos das Reencarnações para um lugar caótico, onde a destruição dava lugar a um céu azul além dos debris de um templo destruído; o azul do céu se misturava ao branco das nuvens, o calor do Sol ardia em sua pele, as vigas suspensas no teto flutuavam para formar os braços e pernas de Shiva como Nataraj, dançando em meio ao Universo moribundo, com os braços se movimentando de forma cada vez mais vigorosa, e um halo de luz e fogo em torno da figura majestosa que se movia com violência, a violência de Tandava, a dança perigosa que representava a destruição dos mundos velhos e decadentes para que Brahma os pudesse reconstruir e formar um universo novo, no eterno ciclo de destruição e renovação que permeia o cosmo desde os imemoriais tempos da Criação, e antes ainda; os braços de Nataraj se estendiam para tocá-lo e línguas de fogo vinham em sua direção, com o brilho cegante de um Sol que parecia se aproximar como uma imensa bola de fogo.
— Lasya... — Ele disse, se referindo ao espetáculo da dança gentil de Shiva ao recriar o mundo a partir do Caos, mas sua voz lhe pareceu distante, tão distante como se estivesse em outro mundo, num dos mundos das Reencarnações que seriam destruídos pela Divindade que dançava, e dançava e dançava, com braços e pernas se movendo em meio ao halo de fogo e luz que tingia seu mundo de amarelo, laranja, vermelho e branco. Um branco tão puro, tão claro, tão lindo que só podia significar renovação, renascimento, pureza de um universo novo, rodopiando em meio ao negro do Caos na dança ancestral a tudo que se conhecia, nas mãos de Shiva que agora se estendiam em sua direção, e ele tentou tocá-las, os muitos braços da divindade, prontos a lhe receber, mas ele se moveu, como se fosse arrastado dali para longe daquele espetáculo das Existências, como se não fosse próprio dele estar ali...
OOO
— Shaka, levanta, essas vigas vão cair! — Aiolia agora tirava dali o indiano, ainda perdido numa curiosa letargia, junto com Shion e Dohko; seguidos de perto por Saori, que rapidamente se afastava do buraco aberto no telhado de onde as vigas se penduravam, ameaçando caírem sobre suas cabeças. — Esquece essa tal de Laísa, pelos deuses, e levanta essa bunda magra daí! Shaka?
O aludido não respondia, e seguia com os olhos semiabertos, fixos no nada, com um fio de saliva escorrendo do canto direito de sua boca.
— Lasya, Aiolia, não é Laísa. — Dohko revirou os olhos. — Ele está falando de Lasya, a dança de Shiva para criar o Universo...
— Que seja! Pra que diabos ele vai falar disso agora? — O outro replicou, para pensar por um instante. — Mas será que ele foi atacado por uma divindade hindu?
— Muito pouco provável, Aiolia... De qualquer forma, seja o que for que tenha o atacado, é de um poder inédito até então. — Disse Dohko, aturdido pelo estado em que se encontrava o dono do mais formidável cosmo dentre todos os cavaleiros de Ouro.
— Mas se estamos todos em paz, quem poderia ter atacado Shaka assim? — Saori seguia sem entender, enquanto Dohko ajudava Aiolia a trazer o indiano de volta à realidade, sem sucesso.
OOO
Enquanto isso, Milo seguia teimando com Aldebaran, Máscara da Morte e Mu sobre sua teoria de que algo passou pelas suas casas para atacar Shaka, e os três respondiam (já quase a gritos) que nada passou por seus templos. Os outros cavaleiros ali presentes continuavam fazendo buscas no local: Uns no jardim das Árvores Gêmeas, outros na entrada do Templo de Virgem, e outros, como Afrodite, se ocupavam em revirar os escombros do que um dia foi a sala de Meditação de Virgem. Não encontrava muito: Pedaços de parede e teto no chão, inutilizando para todo o sempre um lindo tapete persa onde Shaka costumava meditar, alguns canos estourados que faziam água brotar das paredes, três incensos agora encharcados pela água do chão...
E foi então puxado a um canto ermo por um aparentemente irritadíssimo Shura.
— P****, que foi?
— Afrodite, seu p*to, o que foi que você fez?
— Eu? — O aludido franziu a testa, confuso. — O que eu poderia ter feito?
— Você, sim! — Shura agora não estava mais irritado, e sim parecia querer bater no colega. — Você drogou o Shaka, seu filho da mãe!
— Hã? — Afrodite seguia sem entender. — Não! Como eu ia fazer isso?
O sueco foi subitamente cortado pela visão uma caixinha vazia de incenso, que Shura praticamente lhe esfregava na cara. Não entendeu de primeira, mas depois de raciocinar alguns segundos, conseguiu se lembrar de onde conhecia aquela caixinha.
Eram um dos incensos que ele comprara para embeber em ácido, meses atrás; e que estavam, até onde ele sabia, na segurança sua casa... Mas, diante das atuais evidências, já não podia ter essa certeza.
— Mas...
— Seu filho da p*ta! — Shura seguia esbravejando. — Eu não te falei pra deixar essa história de incenso batizado pra lá? Agora taí a confusão armada!
— Mas eu não trouxe essas porcarias pra cá! — Afrodite estava atônito. — Eles eram pra estar na minha casa! Como que eu ia trazer eles aqui?
— E eles então criaram perninhas e saíram descendo as escadarias sozinhos até aqui? Tinha graça!
— Mas... Eu juro que eu não trouxe esses incensos aqui, juro! — Afrodite seguia teimando. — A não ser...
— A não ser o quê?
— Por Atena... — Afrodite começava a juntar dois e dois. — Ele esteve hoje mais cedo lá em casa!
— Sim, ele foi falar com Shion, e daí?
— Só se ele viu os incensos na estante...
— Viu como, criatura? Ele anda de olhos fechados!
— Ele abre os olhos de vez em quando, você sabe. Não que nem agora; mas quando ele quer, ele abre sem sair destruindo as coisas. Só se...
— ...Ele abriu os olhos e viu as caixinhas de incenso na sua casa? — Shura completou o raciocínio do outro. — Mas você acha que ele ia simplesmente pegar os incensos e se mandar?
— Ele não é o tipo de pessoa que pede as coisas pros outros, é?
— Ma che, quê é que cês tão cochichando aí? — Máscara da Morte interrompeu os colegas.
— Os incensos, cara. — Shura disse, entre os dentes. — O Shaka acendeu aqueles incensos batizados do Afrodite.
— Hã? Mas como que o Afrodite...
— Ele só pode ter pego essas porcarias de dentro da minha casa, quando passou por lá hoje cedo... — Disse um Afrodite pálido como uma folha de papel. — P*** que pariu... Eu vi os três incensos usados no chão da sala de meditação...
— Ele usou três incensos? — Shura estava quase às lágrimas. — Afrodite, eu vou te matar...
— E como que eu ia adivinhar que esse p*to ia pegar os incensos da p**** da minha estante? — O sueco explodiu. — E, pior ainda, que ele ia ter a ideia de acender os três de uma vez?
— Mas eu disse. Eu disse. — O espanhol agora andava em círculos, gesticulando raivosamente. — Eu avisei, não avisei? Eu sempre aviso. Mas não, o Shura é chato, o Shura é pessimista, é estraga-prazeres. Mas eu avisei que esse negócio ia dar m****. Mas quem é que me escuta? Ninguém!
— P****, Rudy... — Máscara da Morte, que em outros tempos morreria de rir com a história, estava agora apreensivo. — Ma che, não adianta agora chorar pelo incenso queimado. Agora a gente só pode ficar de bico calado, fingir que não é com a gente.
— Eu não sei se vocês estão percebendo a gravidade da situação! — Shura quase avançou no colega. — Mas o Shaka está lá, completamente louco, com a Saori, o Shion, o Dohko e o Aiolia do lado! Daqui a pouco alguém vai se dar conta de que o que ele tem não é ataque de inimigo coisa nenhuma, e sim uma bad trip do cac***!
— E o que cê sugere, cabrito? A gente ir lá e assumir a culpa? Não tem o que fazer. Ou melhor... Tem. Dar fim nos incensos que ele usou, antes que alguém menos ingênuo pegue os troços na mão...
OOO
"Shaka!"
Ouviu a voz de Shiva o chamando, e tentou ver algo em meio à luz e ao fogo que se afastavam de si. As formas de seus olhos e as ondas de seu cosmo se misturavam em cores sinestésicas, a luz de calor úmido e o negro e branco misturando-se aos braços de Shiva que ainda o buscava. Virou o rosto, balançou a cabeça, e viu o rosto de Aiolia, seu companheiro de batalhas, os olhos verdes com cheiro de relva e os cabelos encaracolados com cor de trigo no final de tarde, soltos ao vento formando a juba de um Leão imponente, dourado como as pradarias da África; e Aiolia estava lá, tentou tocá-lo, mas sua visão se borrava e fugia, as ondas o levavam para longe dali, e a pele de Aiolia escurecia, escurecia, sua juba não era mais uma juba dourada e sim cachos negros que escorriam sobre seus ombros, a pele agora cor de canela, os olhos negros e grandes, amendoados, o corpo mais magro, coberto de seda e ouro e joias.
"Shaka!" Não era mais Aiolia, e sim Siddhārtha Gautama diante de seus olhos, antes de ser tocado pela dor e o sofrimento do mundo, antes de seu despertar, antes de iniciar o caminho de sua iluminação. Ainda no seio de sua família, protegido das mazelas próprias do Carma de quem nasce e renasce na terra...
"Shaka!" Siddhārtha seguia o chamando, ao seu lado o homem idoso, o homem doente, o cadáver que boiava no Ganges, o monge asceta, e a luz brilhava ao longe, e ele sabia que tinha que alcançá-la...
"Shaka!" Agora outra voz o chamava, e não era Shiva, nem Siddhārtha; era Atena, com os cabelos castanhos se confundindo com o dourado das ondas de seu cosmo, os olhos verdes cinzentos com cheiro de chuva, o rosto jovem e os olhos antigos, a Deusa da Sabedoria e da Guerra Justa ainda menina, criança, necessitando de ajuda, de um guia no meio da escuridão, o sangue de poder extremo que curava o mundo e operava milagres. O sangue que revive armaduras, o sangue que exorcizou a escuridão que se apossou da alma de Shun, a luz e a escuridão na luta eterna que cria e destrói no universo que surge para um dia morrer... Mas que ainda assim precisa de um guia, precisa de alguém que empunhe a Luz para guiá-la no Caminho da paz espiritual...
— A verdade... Os Seis Passos... — Shaka tentou dizer, mas sua voz estava distante, grave e baixa como o vento que soprava, e Atena o olhava com tamanha afeição, seus olhos agora eram doces, verdes com gosto de esperança, a luz dentro da garota predizendo a Deusa Antiga e Sábia que deveria ser, e que precisava de ajuda.
De um guia de luz em meio à escuridão do Caos.
OOO
— Kanon, do que diabos você está rindo, criatura? — Saga, irritado, interpelou o irmão; que tinha ido ver Shaka de perto e agora voltava com um sorriso pícaro no rosto.
— De vocês, achando que algum 'inimigo' poderoso atacou o Shaka. — Kanon agora tentava disfarçar o riso. — Porque tá mais do que óbvio que o sacana tá em uma p*ta viagem de ácido...
— Quê? Eu não acredito que, no meio de uma situação de crise como essa, você me levanta um falso desse tamanho sobre o Shaka.
— Saga, me poupe, vai. Olha lá o tamanho das pupilas do indiano. A íris dele quase sumiu de tão dilatadas que elas estão. E ele tá, literalmente, babando...
— E daí?
— Daí que isso aí não é inimigo m**** nenhuma, isso é LSD! No mínimo os incensos de meditação dele são todos batizados com ácido, daqueles que quando queimam viram uma fumacê alucinógeno. Ou então tomou chá de cogumelo, mas eu não vi nenhum chá suspeito ali por perto... Em suma, Shaka de Virgem está doidão. Quero dizer, ainda mais doidão...
— Isso é loucura da sua cabeça. — Saga o cortou, taxativo. — Aliás, vem cá: Como é que você sabe tanto assim sobre LSD, hein?
— Eu? — Kanon parecia, subitamente, bastante desconcertado. — Eu... Eu não sei, eu só tô repetindo o que eu ouvi falar...
OOO
— Gente, eu acho que a gente devia chamar uma ambulância! — Dizia Saori em voz alta, visivelmente preocupada com um Shaka que seguia balbuciando coisas sem sentido sobre verdade, caminho, passos e iluminação; trêmulo e com o pulso acelerado como se estivesse à beira de um ataque.
— Pelos Deuses do Olimpo, ambulância não! — Não muito longe dali, a simples menção de ligar para a Emergência, porém, quase fez Afrodite ter um piripaque.
— Mas de repente o cara tá precisando... — Máscara da Morte não achava nada engraçado a visão de Aiolia e Saori tentando acalmar um Shaka agora visivelmente mais agitado no meio de sua 'viagem'.
— Você ficou louco? — Afrodite quase pulou no pescoço do outro. — Vai que, além da emergência, baixa a polícia aqui! Vamos todos em cana!
— Eu disse que ia dar m****, eu avisei todo mundo. — Shura seguia fulo da vida. — Agora aguenta, Peixes...
— E você acha que vai dar m**** só pra mim, é? Tão enganadinho, você está... Se eu cair, eu não caio sozinho, Shura, você fique avisado!
— Então vamos largar de conversa mole e procurar os incensos usados, cazzo, porque sem eles ninguém pode incriminar a gente! Se bem que vai ser difícil pro Shaka provar que focinho de porco não é tomada, é só você dizer que nunca viu incenso nenhum na sua vida!
— Só que eu não quero correr o risco, né? — Afrodite replicou. — Porque é só o que me faltava, aparecer polícia e emergência aqui pra dar de cara com o homem mais próximo de Deus no meio de uma viagem dessas. Daqui a pouco está todo mundo interrogando a gente atrás de saber de onde que ele tirou esse ácido que ele usou, e quem vai ter trabalho pra explicar que focinho de porco não é tomada somos nós.
— Vai me dizer que você tá com medo é da polícia, agora? — Shura replicou. — Agora vamos e venhamos, eu já te conheci mais corajoso, Peixes.
— Medo da polícia eu não tenho quando estou a trabalho, mas claro que não quero os meganhas atrás de mim por conta de acusação de tráfico de drogas...
OOO
"Shaka!"
Agora ele via Atena diante de si, com Siddhārtha e Shion, cujos pontos sobre as sobrancelhas brilhavam como fogo em sua testa, e o brilho aumentava, aumentava e aumentava até que os pontos se transformaram em faíscas de luz multicolorida. Sentia o cosmo emanando deles, em ondas telepáticas que entravam e saíam de sua cabeça, levando-o em um mar de verde como os cabelos do ex-ancião.
A voz dele se misturava com as ondas em sua mente, e com as ondas em seu cosmo, e com as cores e formas e luzes e sombras de um universo onde Criação e Destruição se espiralavam em torno da dança destruidora de Shiva, culminando tudo em um único ponto de luz inimaginável para onde tudo culmina, para onde é seu destino ir. Seu corpo está leve, mais leve do que antes, mais leve do que nunca, e nessa espiral ele flutua, flutua e flutua, sendo arrastado até essa luz cegante, mas cheia de cores, luz e sons, gostos e cheiros, e que depois se dividiam em dois pontos para novamente se transformarem nos pontos na testa de Shion.
Os pontos que o marcavam como filho de Lemúria, guardiões de uma cultura ancestral, guardiões dos segredos dos forjadores das armaduras, de uma cultura de homens fantásticos de longevidade extrema, guardiões do Caminho da Deusa e sua Ordem; a quem ele, mesmo faltando tão pouco para se livrar do Ciclo das Existências e chegar até seu Nirvana, jurou lealdade na sagrada missão de guardar e guiar a Deusa da Sabedoria e Protetora na Terra.
"Guiar a Deusa", dizia o Monge Asceta do lado de Siddhārtha, "guiar a Deusa na Terra, para manter o equilíbrio do Trimurthi", que era o ciclo de Criação, Manutenção e Destruição do Universo para que nele as criaturas seguissem no Ciclo das Existências que, apesar da Dor pelo Apego, é necessário que vivam para que tudo aquilo que tem Vida siga vivendo. "Mais importante que seu Nirvana, mais importante que a iluminação; é seu dever, sua missão"...
— Eu sou um Guia... Como Jesus Cristo, eu sou um guia dos homens no caminho das vidas... Mais importante que minha ascensão ao Nirvana... — Ele balbuciava, tentando alcançar as luzes que emanavam de Shion, de Atena, de Siddhārtha, e Shiva dançava cada vez mais rápido, a espiral girava cada vez mais rápido, destruição e criação se alternando, um e outro, no movimento dos braços de Shiva, no brilho dos olhos de Atena, no dourado do castanho de seus cabelos, nos olhos de Siddhārtha, no brilho multicolorido de Shion, e no seu cosmo em ondas, que ele elevava mais, e mais, e mais, e...
— Pronto... — Shion disse, assim que conseguiu fazer com que Shaka desmaiasse antes que detonasse outra explosão de cosmo, mesmo que com os olhos abertos. — Mas por todos os Deuses do Olimpo, ele estava tendo alucinações severíssimas!
— Deu pra perceber... — Kanon abafou um risinho, cochichando para Saga. — Porque agora ele estava achando que era o quê, dessa vez? Jesus Cristo Superstar?
Enquanto Saga ralhava com o irmão e Camus abafava um risinho pelo comentário jocoso da Outra Face de Gêmeos, Afrodite, Shura e Máscara da Morte disfarçavam o incômodo ao ouvir a palavra 'alucinações', mas não continham o alívio de ver que finalmente Shaka estava sob controle.
— Então o que houve não foi um ataque? — Milo perguntou, perplexo como os outros presentes, exceto Kanon, que batalhava para se manter sério.
— Não... — Shion negou. — Não creio que tenham sido desencadeadas por um ataque...
— Espera. Você está dizendo que o Shaka simplesmente meditou demais e começou a alucinar sozinho? — Milo exasperou-se. — Você tem noção do tanto que é impossível isso que você está dizendo?
Afrodite, Máscara da Morte e Shura batalhavam para que ninguém percebesse que eles suavam frio, mas a sorte resolveu lhes sorrir na forma de Kanon, que (depois de engolir os risos e se colocar o mais sério que podia) resolveu interferir.
— Milo, não é assim tão impossível, sabe... — O General Marina disse. — Ele pode ter jejuado muito, pode ter sido fome também...
— Mas e as pupilas dilatadas? — Milo tinha uma pulga atrás da orelha. — Se eu não conhecesse Shaka como eu conheço, eu podia jurar que ele se intoxicou com alguma coisa... Ou pior, foi intoxicado por algo, ou alguém...
— Caso isso fosse verdade, quem seria capaz de intoxicar Shaka de Virgem, Escorpião? — Kanon respondeu, meneando a cabeça. — De mais a mais, a fome pode fazer isso com uma pessoa, e até pior... Acreditem, eu sei do que estou falando. — Completou o general Marina, com um tom grave. — Agora, acho que o melhor é deixar o Shaka ter um bom descanso, para depois comer bem e tomar bastante líquido...
— Kanon tem razão. — Afrodite apressou-se em aproveitar a deixa. — Agora que ele parou de ter essas alucinações, é melhor levá-lo para seu quarto e deixar que ele descanse. Capricórnio e eu podemos até ficar aqui enquanto ele se recupera, não é, Capricórnio?
— Ah... — Shura coçou a cabeça. — Ah, sim, claro...
OOO
Shura ficou sentado no sofá do que restou da sala privativa da sexta casa, enquanto Shaka dormitava em seu quarto (que estava relativamente inteiro, apesar da destruição da sala de meditação) e Peixes seguia revirando os escombros do que sobrou do recinto em busca das evidências dos incensos usados por Virgem.
Ao fim de uma busca incansável, encontrou os incensos usados e os destruiu, junto com a caixinha encontrada por Shura; e depois disso ficaram ambos mais tranquilos, já que uma vez eliminadas as provas, pouco se poderia levantar contra eles.
Shaka acordou horas depois, com uma dor de cabeça fenomenal e uma sede que o fez beber quase um litro e meio de água na mesma hora em que se levantou. Tinha fome também, e comeu várias tigelas de arroz como que em indulgência pela sua 'meditação' anterior, mas o máximo que conseguiu, naquele então, foi ficar levemente empachado pelo excesso de comida, ao qual não estava acostumado.
Mas, momentaneamente, não conseguiu ficar intrigado com a vividez inédita de suas visões; pois sua cabeça parecia poder estourar a qualquer momento. Despachou Afrodite e Shura (que, por sua vez, não fizeram nenhuma questão de ficar por ali), para então voltar para seu quarto e dormir o quanto pudesse...
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— Kanon, vem cá... — Saga interpelou o irmão, horas depois.
— Diga. — O outro respondeu, sem tirar os olhos da tevê onde passava As Panteras.
— Se você tinha tanta certeza assim de que o Shaka tava numa viagem de ácido...
— Ele tava. — Kanon respondeu, um tanto irritado pela tentativa de seu irmão de competir com Farrah Fawcett. Não que fosse intencional, mas... Ele não podia mesmo deixar suas dúvidas existenciais pra depois, não?
— Por que você pôs panos quentes na história toda e não deixou que chamassem um médico?
— Eu não falei hora nenhuma pra não chamarem um médico. — Kanon disse, enquanto o seriado se fixava em cenas de ação que não lhe interessavam tanto (ou seja: aquelas onde Farrah não aparecia). — Mas você há de convir comigo que ia ser um vexame épico aparecer um médico no Santuário de Atena pra dizer pra Deusa e pro Shion que o Homem Mais Próximo de Deus está usando 'aditivos químicos' pra ficar ainda mais perto de Deus, não?
— E como você sabe, assim com tanta certeza, que ele estava mesmo doidão de ácido?
— Ah... — Kanon voltou os olhos para a tela da televisão. — Olha lá, a Farrah Fawcett apareceu de novo.
— Eu te fiz uma pergunta...
— Ela está de biquíni.
— Opa. — Saga se sentou no sofá, junto com o irmão, esquecendo o assunto por ora.
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Alguns dias depois, em Rodório.
— Senhor Shaka! — O dono da vendinha de produtos naturais e esotéricos saudou o cavaleiro de Virgem, cliente fiel. — Bom ver o senhor!
— Igualmente. — Respondeu o indiano, de olhos fechados e expressão de poucos amigos.
— Veio conferir as novidades? Ou veio em busca de um produto em especial?
— Na verdade, em busca de um produto em especial. — Disse o cavaleiro, tirando da túnica uma caixinha de incensos indianos vazia.
Uma das caixinhas dos incensos 'aditivados' por Afrodite.
— Oh. — O vendedor olhou a caixinha, e meneou a cabeça. — Bem, tenho alguns incensos indianos aqui, como você pode confe...
— Eu quero esta marca específica, com esse aroma específico. Exatamente igual a este.
— Bom... — O vendedor desanimou-se um pouco. — Esta marca, com esse aroma... Eu não vou ter...
— Hum. — Shaka torceu a boca em um muxoxo, visivelmente contrariado. — Bom, não tem problema. Mas... — Estendeu a caixinha para o vendedor. — Eu quero que encomende alguns iguais a este. Exatamente iguais.
— Bem... Tudo bem. Quantos o senhor vai querer?
— Quantos puder conseguir. — Disse Shaka. — Esse é o único incenso com os quais eu me permito meditar...
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