Sideways
6 VI - As The World Falls Down
Notas iniciais
VI
As the World falls down
— Mas Shina, como que você não me conta essa história de que levou o Milo de Escorpião pro templo dele depois daquela festa?
Shina bufou, enquanto Gisty a interrogava por mais detalhes.
O que, aliás, ela vinha fazendo por mais de uma hora. Ininterruptamente.
— Eu já falei, Gisty. Não foi nada de mais. Ele estava passando mal porque tinha bebido bastante, e obviamente não ia dar conta de subir sozinho até o templo dele, só isso.
— Como só isso, Shina? Você não disse que levou ele até dentro do templo?
— Levei.
— Mas e aí? — A outra bateu o pé. — Porque a Marin disse que o Aiolia disse que foi VOCÊ quem deu banho nele. Pelos deuses do Olimpo, você viu Milo de Escorpião do jeito que veio ao mundo e não me fala nada?
Shina suspirou, agora desolada.
Sim, porque Marin de Águia, numa espécie de vingança ao fato de Shina ter ajudado a instituir o apelido de 'Xaninho' ao seu namorado, acabou por revelar 'meio que sem querer' uma passagem recente sobre a amazona de Cobra a outras amazonas no Santuário (e ao Seiya, só para garantir que a história tivesse a repercussão devida): O fato de que Shina teve de bancar a babá de Milo de Escorpião durante um porre do aludido(1), com direito a ter de colocá-lo embaixo de um chuveiro sem roupas.
E sendo Gisty como era, agora a estava submetendo a um intrincado interrogatório acerca de todos (TODOS!) os detalhes acerca do famigerado episódio.
— Isso não vem ao caso, Gisty...
— COMO que não vem ao caso? — A outra quase teve uma síncope. — Você leva o Milo pra baixo de um chuveiro completamente nu e não me fala NADA? Mas que espécie de melhor amiga você é?
— Eu só acho extremamente indelicado ficar comentando uma coisa dessas.
— Mas eu não vou falar pra ninguém, juro! — A outra beijou os dois dedos indicadores, fazendo um sinal de cruz. — Mas me fala, ele é bem dotado?
— Gisty! — A italiana arregala os olhos verdes. — Isso é pergunta que se faça?
— Claro que é! E então?
— Ah, Gisty... Sei lá, eu nem reparei.
— Aaaah, sei. — Gisty pôs as duas mãos na cintura. — Deixa de mentira deslavada! Até porque é impossível não reparar nele sem roupa. Até você não é cega a esse ponto.
— Ei, eu não sou cega, ok?
— Não, claro que não. Só é tonta o suficiente a ponto de ainda estar encanada com o Seiya. Tem dó, Shina!
A italiana bufou de novo.
— O fato de eu não ter reparado nas partes íntimas de um homem desacordado não me faz ser cega, Gisty, só educada. — Retrucou, amargada. — E eu não estou mais encanada com o Seiya.
— Não devia estar mesmo, depois de ter acesso a uma visão dessas. Porque olha, me dá um calor só de pensar.
— Gisty!
— Ai, qual é, Shina. Você até pode achar que o Escorpião é metido, porque ele é; pode achar que ele é ranheta, porque ele é; e até pode achar que ele pega no seu pé de tão caxias que ele é. Em tudo isso você até que tem razão. Mas que ele é bonito, ele é. E muito, se quer saber minha opinião. Muito mais bonito do que o teu precioso Seiya, eu te garanto.
— Gisty...
— Aliás, eu bem que tenho pra mim que ele tem uma quedinha por você.
— Arrh, quando você começa com isso você fica impossível! — Ralhou a italiana, já com a pouca paciência que tinha consumida por completo.
Porém, também não é como se Gisty não tivesse seu tantinho de razão: Milo podia ser caxias, presunçoso, algumas vezes ranheta e muitas vezes metido como ele só, mas era sim um rapaz bem apessoado. Não só pelo rosto bonito e seus incríveis (e famosos) olhos de um azul céu de brigadeiro, mas também pelo corpo... digno de um cavaleiro de ouro. Em que ela tinha reparado sim, apesar da situação vexatória em que o dito cujo se encontrava.
Mas obviamente que a amazona de Vampiro não precisava saber disso, ou seus parcos momentos de paz iriam por água abaixo.
— Olha, Gisty, eu não quero mais falar sobre isso. Vamos deixar esse assunto pra lá e trabalhar que a gente ganha mais.
— Mas Shina, o que é que custa dividir os detalhes dessa história comigo? Eu não vou falar pra ninguém não, arre!
— Gisty, pela última vez: Eu não estou omitindo detalhe nenhum de você. É que simplesmente não tem detalhe nenhum pra dividir, só isso. Eu saí daquela festa, por um acaso peguei o táxi junto com o Milo até o Santuário e terminou que eu tive que levá-lo até a casa dele porque ele não estava em condições de subir as escadarias sozinho.
— Isso não explica como você foi parar dentro do quarto dele...
— O que você queria, que eu deixasse ele sozinho no estado em que ele estava?
— Por que não? — Gisty seguiu fustigando a amiga. — Porque não é como se vocês fossem amiguinhos de jardim de infância, ou coisa parecida... Afinal de contas, você nunca escondeu que não ia muito com a cara dele.
— Mesmo assim, Gisty. Ele pode não ser a pessoa mais legal do mundo, mas eu sou uma pessoa decente.
— Até mesmo com o cara que vivia pegando no seu pé e segundo relatos te criou a alcunha de mulher-cavaleiro? — A outra deu uma risada irônica. — Sei, Shina...
Shina rolou os olhos, já intuindo o que a amiga estava querendo insinuar.
Antes dos eventos iniciados pelo Torneio Galáctico no Japão, era bem comum que Gisty insinuasse uma e outra vez que ela tinha uma queda pelo Cavaleiro de Escorpião. Não tinha, aliás, quem tirasse da cabeça da então renegada Amazona de Vampiro que as ocasionais farpas que ambos trocavam nas poucas vezes em que se encontravam no Santuário fosse o que ela chamava de 'tensão sexual mal resolvida'.
Ideia estranha, claro; mas não é como se Gisty fosse uma pessoa de ter ideias muito normais.
— Por tudo que há de mais sagrado, Gisty... — A amazona de Cobra bufou. — Não vai começar de novo com essa história.
— Quem me dera. Essa história, como você diz, tem muito mais futuro do que sua obsessão por aquele cavaleirinho de bronze.
— Não é uma obsessão, Gisty. Ele viu meu rosto e...
— Tá, viu o meu também, e nem por isso eu fico lambendo o chão que ele pisa enquanto ele tá lá feliz e contente com a namorada dele.
— Eu não fico lambendo...
— Como não, Shina? Dá pra esquecer quem aqui é o 'escudo' oficial do Cavaleiro de Pégaso? O cara não pode levar um golpe que você já pula no meio pra defender, mesmo depois dele ter dito com todas as letras que não queria nada contigo...
— Eu não o defendi por ele. Eu fiz isso por Atena... Fiz porque era o meu dever enquanto amazona de prata.
— Sei.
— É sério, Gisty. Além do mais... — A italiana deu um suspiro, resignado. — Você não entende o que eu sinto por ele.
— Entendo sim. É obsessão, e daquelas brabas.
Shina suspirou, impaciente. Não tanto pelas palavras da amiga, mas pela carga de verdade que havia nelas.
Tudo aquilo era um sentimento estranho para si. Logo a si, que sempre desenhou-se para a guerra, para as batalhas; que sempre se bastou em seu orgulho de amazona de prata modelo que era.
E que, estranhamente, viu o coração que nem sabia que tinha ser enredado por uma paixão mundana, e que a fez trair todos os seus ideais.
Como Gisty saberia o que era isso? Como ela poderia entender o que se passava dentro dela?
— Olha, Gisty, tá na minha hora. — A outra passou a mão nos cabelos nervosamente. — Preciso ir até a arena.
— Certo, a gente se vê. — Ela viu a amiga soltar um bufido irritadiço, para depois dar de ombros e seguir por outro caminho. — Mas não pense que você está livre da sua dívida comigo, querida.
— Tchau, Gisty. — Shina abanou as mãos, em claro sinal de impaciência.
Aproveitou o caminho até a arena de treinos para seguir pensando na vida, enquanto apertava os olhos tentando defender-se da claridade do sol de início de tarde. Sentia falta da máscara, já ela protegia sua pele e seus olhos claros do sol. Mais do que isso: Sem a máscara agressiva que lhe escondia o rosto, se sentia até um tanto nua.
Soltou mais um bufido irritado, enquanto chegava até seu destino. E lá viu um grupo de cavaleiros reunidos; uns treinando, outros simplesmente matando o (agora muito) tempo ocioso que tinham enquanto 'supervisionavam' os treinos dos demais. Suspirou ao ver Milo no meio deles, porque intuía que levaria uma bronca do superior pelo atraso de dez minutos para comparecer até a arena.
— Amazona de Cobra apresentando-se ao turno de treinos, senhores. — Fez uma continência enquanto espigava a coluna, esperando pela repreenda do superior.
— Boa tarde, Cobra. — Misty de Lagarto deu-lhe um sorrisinho irônico. — Resolveu nos dar o ar da graça? Finalmente...
— Perdão pelo atraso, Lagarto. Não acontecerá mais. — Respondeu de forma lacônica, mas uma parte de seu cérebro estava surpresa de ter sido apenas isso o que aconteceu. Esperava levar uma das habituais espinafradas de Milo de Escorpião, mas o aludido permaneceu mudo como uma porta.
— Liberada para seu treino, Cobra. — Misty deu de ombros, mal disfarçando o sorriso irônico que carregava nos lábios finos e desenhados. Sorriso esse que se tornava sua marca registrada desde que tinha sido trazido de volta e reempossado como líder dos Cavaleiros de Prata(2), cargo que ocupava antes de sua derrota para Seiya.
E que ela ocupou, depois que ele passou desta para uma pior... Visto que ele estava no Submundo.
Suspirou de desgosto, porque ela tinha para si que fizera um ótimo trabalho ao ter assumido o posto; mas agora fora relegada novamente ao cargo habitual das amazonas do Santuário: o de mestra de aspirantes. Bem que ela sabia que, em termos financeiros, não recebera um tostão a mais por ter acumulado as funções, e Gisty já lhe dizia que não valia a pena o esforço de ser 'chefa' se não era para ganhar a mais por isso, mas não conseguia evitar de se ver preterida ao perder a antiga função extra.
Ainda mais para um tipo como Misty de Lagarto.
Mas verdade seja dita, Misty era muito menos ranheta do que o temível Cavaleiro de Escorpião, habitual corregedor das tropas do Santuário, e que exercia sua função com mãos de ferro e sanha por punir exemplarmente os que incorriam em faltas e erros, e mais exemplarmente ainda a sua pessoa.
E que, inexplicavelmente, não disse uma única palavra sobre seu atraso.
Não só isso: agora que tinha reparado melhor, o dito-cujo tinha sumido. Desaparecido, evaporado no ar.
Sentiu-se ainda mais irritada. Pensou consigo mesma que Milo podia estar querendo protegê-la por ter sido ela a tê-lo ajudado naquele momento de precisão. E isso era uma coisa que ela não admitia. Não admitia protecionismos de espécie alguma, mesmo que nesse caso fosse ela a beneficiária.
Ela era Shina de Cobra, a líder das amazonas do Santuário de Atena e não precisava de proteção de espécie alguma.
A imagem de um Milo saindo do táxi trôpego pela bebedeira se materializou em sua mente. "Melhor do que ficar o tempo todo na festa olhando para o Seiya com cara de bunda, não?"
Soltou mais um suspiro irritado.
Era irritante que Milo, alguém a quem ela jamais dera confiança, viesse também questioná-la sobre essa história. O que ela sentia ou deixava de sentir por Seiya era problema dela, e de ninguém mais; mas nesse Santuário moroso dos tempos de paz parecia que os pormenores de sua vida se tornavam assunto de todo mundo.
E ela morria de raiva de ser vista por todos como a pobre coitada preterida pelo seu amado Pégaso por conta de uma mocinha japonesa sem sal nem açúcar. Não suportava os olhares de pesar, os cochichos que sabia serem endereçados à sua pessoa, as palavras veladas de consolo dirigidas a si.
E doeu muito mais o comentário de Milo naquela voz empastada de bêbado cretino, como que lhe jogando na cara o seu infortúnio.
Para então agora ser protegida por ele, porque ela fizera sua obrigação de não deixá-lo desamparado naquele quarto.
Se ele não fosse seu superior, ouviria poucas e boas. Não, não. Muitas e más.
OOO
Milo saíra à francesa da arena, assim que viu a amazona de Cobra saudando os presentes em sua chegada.
Não teve ânimo para repreendê-la pelo atraso para comparecer à arena para coordenar o treino das aspirantes a amazonas. Não teve ânimo nem sequer para ficar por ali, e isso era uma constante desde o fatídico dia em que ela o trouxe para sua casa, no estado deplorável em que se encontrava.
Não era só a vergonha de se saber visto como veio ao mundo por ela, e nem de saber ter passado mal como passou na frente dela, embora ele tentasse desesperadamente convencer-se de que aquilo tudo já era motivo suficiente.
Foi até um bebedouro e tomou água, molhando o rosto enquanto praguejava mentalmente pela própria covardia. Covarde, era isso que ele era. Sair correndo assim porque ela chegou? Nem um moleque pré-adolescente não se comportava dessa maneira, quanto mais um cavaleiro de ouro...
Mas outra parte de si sabia que não conseguia lidar com aqueles olhos verdes olhando para si, e saber que ela não o olhava do jeito que olhava para ele. E isso era mais ridículo do que sair de fininho toda vez que ela chegava em algum lugar.
Olhou para a arena ao longe, e suspirou um tanto desanimado, para então voltar e cumprir ele as suas obrigações.
E calhou que o destino o fez quase trombar com ela, que ia em direção ao bebedouro que ele acabara de usar.
— Milo de Escorpião. — Saudou a amazona, com um olhar sério.
— Shina de Cobra. — O outro meneou a cabeça, já em vias de sair dali. Mas o olhar duro dela o prendia.
— Posso te fazer uma pergunta, Escorpião? — Shina levantou o queixo, séria; pensando que talvez, se confrontasse Milo por seu comportamento anterior, ela fosse se sentir melhor. Não aceitaria que Milo a protegesse por motivo algum, de forma alguma.
— Claro.
— Por que não me repreendeu pelo meu atraso, como o costume?
— Eu... — Milo piscou, processando a pergunta; para responder em seguida escolhendo bem as palavras. — Eu não vi necessidade. Misty estava presente; e cabia a ele fazer alguma colocação, ou não.
— Muito bem... — Shina levantou o queixo de novo, numa tentativa de parecer altiva como parecia com a máscara no rosto. — ...Se é assim. Porque eu quero que saiba que não tolero protecionismos. O favor que lhe fiz não precisa de pagamento, Escorpião.
Milo franziu o cenho e sentiu a raiva crescer em si. Raiva e amargura, em partes iguais. Uma parte de si dizia, sim, que ele a protegera, porque antes isso nunca o tinha parado em suas reprimendas aos subordinados; especialmente ela. Mas ele jamais admitiria, jamais. Ainda mais a ela, que lhe fizera o favor de cuidar dele quando precisara.
Não foi isso o que ela disse? Um favor.
— E por que eu a protegeria? — Milo levantou uma sobrancelha, carregando o sarcasmo na voz. — Você é problema de Misty de Lagarto e não meu, amazona. Eu já passei dessa fase de ter que ensinar burra xucra a se comportar como deve. Agora se me dá licença...
A amazona levantou uma sobrancelha, sentindo o sangue ferver enquanto o outro saía em direção à arena. Mas, em todo caso, era um terreno conhecido para si: Milo lhe dando patadas não era exatamente uma novidade.
OOO
— Credo, Milo, o que te aconteceu hoje? Tá constipado? — Aiolia massageava o maxilar, depois de um golpe particularmente forte do cavaleiro de Escorpião durante o treino na arena.
Cavaleiro esse que realmente lutava com uma fúria que se assemelhava a suas lutas reais, e não a um treino de aquecimento qualquer.
— Ui, gatinha, que é? Tá com medo de quebrar? — Milo avançou de novo para cima do colega de treino, que se esquivava já com certa dificuldade. — Para de fugir e luta, vai.
— Olha, não é por falar não, Milo... Mas você está pegando meio pesado. — Shura tentava intervir, já pela quarta (ou quinta) vez, dando voz a impressão dos demais que assistiam ao treino. — Não é melhor encerrarmos por hoje? Antes que alguém saia daqui machucado...
— Vocês deviam era mudar de nome! De cavaleiros de ouro pra cavaleiros de vidro! — Milo afastou-se de Aiolia, que seguia rindo ao imaginar o porquê do mau humor do colega, enquanto seguia massageando o maxilar. — Tudo um bando de fresco, viu...
— Milo, corre pro banheiro pra deixar de ser enfezado(3), cara! — Aiolia ria e ria. — Toma um laxante que passa!
— Vai tomar no c*! — Ouviu-se ao longe a voz de Milo gritando a plenos pulmões, enquanto Aiolia ria mais e fazia biquinho em alusão a mania do melhor amigo do outro, que falava palavrões tão ou mais cabeludos do que esse, mas apenas em francês.
Enquanto o resto do grupo continuava na arena, Milo subia pisando duro e soltando fogo pelas ventas. Seu humor não vinha sendo dos melhores desde o episódio da famigerada festa, e o percalço com a amazona de Cobra há pouco terminou por ser a gota d'água. Entrou bufando em sua casa zodiacal, com ganas de arremessar na parede a primeira coisa quebrável que visse pela frente.
O que viu pela frente, no caso, foi Hyoga de Cisne na entrada de sua casa.
— O que você está fazendo aqui?
— Procurando o Mestre Camus. — Respondeu o cavaleiro de bronze, impassível.
— Como você pode ver, ele não está no meu bolso. — Milo treplicou, ríspido. — Mais alguma dúvida? Porque se não tem pode ir pegando o caminho da rua.
— Nossa, que grosseria. — O mais novo fez um muxoxo, enquanto se preparava para sair. — A propósito, é bem provável que você o veja antes de mim, já que eu terei que voltar para a fundação Graad. Então você podia fazer a gentileza de avisá-lo que vai ter uma premiére para comemorar a inauguração do Cinema de Rodório, e nós cavaleiros estamos convidados.
— Premiére, sei. Que filme vai passar?
— Labirinto (4), aquele com o David Bowie.
— Ei, esse filme já estreou em Atenas faz uns meses, já! — Milo suspirou, irritado. — Nem pra trazerem um filme novo...
— Estamos em Rodório, queria novidade fosse pra Tóquio. Ou Atenas. De qualquer modo, não vai ser um estrago completo, já que vamos ganhar as entradas.
— Tá, eu aviso. Capaz que o Camus queira ir, mesmo.
— E você também está convidado, Milo. Vai ser uma ótima companhia para o Mestre Camus...
— Eu não vou. — Bufou o outro, apenas para ver o nipo-russo dar de ombros enquanto dava sua missão por encerrada e se dirigia à saída do templo.
— Ei, Hyoga... — Milo deu um riso seco e chamou a atenção do outro que já estava nas escadarias. — E você, não vai levar o Shun pra fazerem um encontrinho romântico?
Recebeu como resposta o elevar do dedo médio da mão direita do cavaleiro de Cisne.
OOO
Shina estava em sua cabana, colocando a água para ferver para então começar a fazer a sua janta. Estava particularmente irritada naquele final de noite, mas tinha decidido de si para si que tentaria relaxar um tiquinho que fosse.
Ouviu durante o treinamento das aspirantes algo sobre um evento de abertura de uma sala de cinema em Rodório, e pensava consigo que já não era sem tempo. Seria bom ter um cinema por ali para ver uns filmes, abstrair a mente do serviço de Atena, que apesar dos tempos de paz seguia não sendo fácil. E também para abstrair de seus próprios problemas.
Olhou para seu rosto, no reflexo da água que ainda não fervia na panela, para logo depois soltar um suspiro pesaroso.
Ela bem que sabia que era uma amazona, ela sabia também do que abrira mão para abraçar sua função da maneira como se deve. Era por isso que gostava da máscara, porque ela encobria a parte de si que não casava com seu rango, que não casava com sua reputação tão arduamente batalhada e construída. Ela encobria a mulher de rosto jovem e feminino, considerado bonito por muitos, mas que carecia da autoridade que a máscara de metal impunha.
O rosto que Seiya viu, a fragilidade que Seiya viu.
Achava que era por isso que começou a amá-lo, quando o deveria ter matado. Oportunidades certamente não faltaram; não só para matá-lo, mas também para simplesmente deixá-lo morrer, mas ela não podia. Jamais conseguiria.
Os olhos castanhos e risonhos dele jamais a permitiriam deixar que algo lhe fizesse mal.
Começou a cozinhar o macarrão na água já fervente, e em outra panela aquecia a carne. Era uma boa cozinheira, era uma boa amazona, era uma pessoa eficiente em tudo que se propunha a fazer, isso ninguém podia negar.
Mas nada disso era suficiente, não?
Lembrava-se dos olhos penetrantes de Cássius sobre si, e sentiu um nó na garganta.
Sabia sim, que não era boba, que seu aluno a via com outros olhos. Mas por muito que tivesse sido ele a pessoa mais próxima a si, por muito que gostasse dele, e soubesse do que ele sentia... Ela não o amava. Não do jeito que ele queria que ela o amasse.
Assim como Seiya não a amava, e nem amaria.
A vida não lhe fora justa nunca, essa era a verdade. Todos os cavaleiros mortos voltaram, era verdade; até mesmo os de rango mais baixo voltaram. Mas Cássius não era um cavaleiro, ele morreu para proteger Seiya, porque sabia o quanto ele era importante para si...
Cássius não voltou dos mortos. Seiya não a amou, e ela continuava sozinha.
Respirou fundo, engolindo o nó na garganta e espantando a lembrança dolorida de Cássius enquanto apressava o jantar.
Mas nunca podia evitar a lembrança do pupilo quando colocava a mesa com um prato só.
Terminou o jantar, comeu de forma mecânica; e depois levantou-se determinada a tomar um bom banho, bem quente de preferência.
Outro banheiro lhe veio na memória enquanto preparava seu banho, junto com a imagem de seu dono, o cavaleiro de Escorpião, prostrado pela bebedeira que lhe tirou a arrogância, a prepotência, a presunção e uma grande parte de sua dignidade. Deu um risinho ao lembrar-se da cena quando entrava na tina grande e cheia de água quente que ficava ao lado do chuveiro, e acomodou-se lá dentro; lembrando, com o sorriso nos lábios, a façanha que foi despi-lo de suas roupas para colocá-lo embaixo de uma ducha fria enquanto ele praticamente desfalecia em seus braços.
Ali, dentro da banheira, ela admitia de si para si que Gisty tinha muita razão: Mesmo naquela situação, era impossível não perceber que Milo era um rapaz bem apessoado. Não como Afrodite de Peixes, Misty de Lagarto ou o gêmeos de Gêmeos, mas ainda assim era um rapaz que fazia por merecer o adjetivo de bonito graças aos olhos muito azuis, os cabelos aloirados, a pele bronzeada que fazia um belo contraste com os cabelos e os olhos e, claro, o famigerado corpo que ele tinha.
E, por alguma razão, Milo tinha ficado ainda mais bonito naquela ocasião, sem a expressão arrogante no rosto sempre sério e sem o brilho duro de seus olhos, que lhe tiravam grande parte de sua graça.
Bem o contrário de Seiya; que mesmo que não fosse um rapaz exatamente bonito conseguia compensar-se com algo de charme e simpatia inegáveis. Embora tivesse a mania irritante de falar a coisa errada, na hora errada, em praticamente cem por cento das situações.
Deu outro risinho ao pesar que Milo deveria ser desses rapazes que ficam belos e atraentes assim, de boca fechada ou de preferência inconscientes, para que sua personalidade antipática não viesse estragar o resto.
Uma pena, pensava ela; enquanto se lembrava de um Milo semiconsciente, com os olhos desfocados, mas ainda assim de um azul tão intenso que doía na vista. 'Tem um par de olhos muito bonitos, aquele lá', ela pensava enquanto lembrava meio que sem entender porquê dos olhos do outro enquanto ela o sustentava no chuveiro gelado; olhos de um azul cerúleo que naquele momento pareciam olhos de criança. E, na tarde de hoje, já tinham de novo o brilho arrogante do soldado modelo das tropas douradas.
Mas continuavam lindos, ela não podia negar.
OOO
— Eu não estou acreditando até agora que você me trouxe até aqui pra ver esse filme, Camus.
— E você ia ficar em casa fazendo o quê, precisamente? — O francês impassível respondeu a Milo, que bufava na entrada do cinema de Rodório enquanto esperavam na fila com os bilhetes de entrada na mão.
E realmente não entendia porque tanta vontade de ver um filme que nem novo não era. Tinha estreado há uns dois meses, era verdade, mas nenhum deles o havia visto; posto que o filme ainda não chegara à locadora de fitas de vídeo de Rodório, onde os cavaleiros vinham alugar filmes e fitas cassete para os momentos de folga. Bem, não era como se a pequena (e sebosa) locadora tivesse títulos muito atuais, mesmo. Mas ainda assim era uma boa fonte de diversão para ele e Camus, e nisso tinha que agradecer o amigo cinéfilo por ter praticamente lhe obrigado a comprar o tal videocassete de quatro cabeças que lhe custou os olhos da cara, na época. Ele acabou ficando meio viciado em alugar filmes, embora não tivesse o mesmo gosto refinado do colega de Aquário. Mas sabia que era o único do Santuário que devolvia as fitas rebobinadas.
Porém, era um exagero dizer que ele fosse tão fissurado em filmes quanto o amigo; que praticamente vibrou ao saber que Rodório teria agora um cinema, por menor e mais desatualizado que ele fosse.
Agora que pensava nisso, era bem verdade que Camus ficava mais próximo a si na medida que percebia seu humor piorando. Talvez porque fosse, de todos, o único que soubesse o que realmente se passava. Estava sempre por perto nos últimos tempos, e agora praticamente o tinha abduzido de sua casa para trazê-lo até o cinema. 'Você vai nem que eu tenha que te colocar num esquife de gelo', lembrou-se do colega dizendo enquanto praticamente o arrastava para fora de casa com o intuito de ver o tal filme que tinha 'estreado' no cinema.
Ainda mais o filme com a história que lera na sinopse. Não era seu tipo de filme, decididamente.
Olhou em volta na fila do cinema, e surpreendeu-se de ver que, apesar das entradas gratuitas, poucos cavaleiros efetivamente vieram. Dos de ouro, só Aiolia que estava com Marin, num típico programa a dois. Os de Bronze compareceram em mais peso: Shiryu foi com Shun, Hyoga e uma Shunrei levemente afastada deles, em mais uma tentativa de deixar menos óbvio o envolvimento dos dois para um cavaleiro de Libra que parecia mais cego do que seu pupilo um dia foi. Riu-se por dentro, pois sabia que Shiryu tinha verdadeira paúra de que fosse descoberto por Dohko antes de (finalmente) criar coragem para assumir que ele e Shunrei há muito tempo não se viam mais como 'família', como seu antigo mestre teimava em insistir.
Mas o cavaleiro de Dragão não era o único ali em uma situação indigesta: June estava com Misty, enquanto o cavaleiro de Andrômeda estava visivelmente incomodado com o novo quase casal.
— Eu acho melhor a gente ir embora, Camus. Cheio de casalzinho... Aiolia e Marin, Shiryu e Shunrei, June e -heh- Misty... Já pensou se a gente senta do lado do Shun e do Hyoga? Eu não vim aqui pra ficar segurando vela. — O olhar gélido do cavaleiro de Aquário em sua direção foi aviso mais do que suficiente. — Tá, parei.
Mas enquanto Milo se divertia com a cara agora amarrada do amigo, seus olhos se pousaram sem querer na amazona de Cobra e na sua amiga Gisty, que acabavam de chegar e iam para o final da fila. E seu bom humor incipiente foi para o ralo.
A cutucada do amigo em seu ombro o fez acompanhar a fila que já andava em direção à sala de exibição, a contragosto.
OOO
— Ih, Shina, olha lá quem veio. O Milo!
— Eu vi. — Disse a outra, um tanto chateada por ter sido trazida à força de chantagem pela amiga para aquele programa. — Tá lá com o Camus, pra variar. Tanto que ele fala do Hyoga e do Shun, depois do tal episódio polêmico da Casa de Libra, mas esses aí também não desgrudam um do outro. Se eu não fosse uma pessoa idônea eu até ia pensar besteira deles dois.
— Nem fala isso, que é um desperdício sem tamanho! — Gisty arregalou os olhos. — O Milo tá muito bonitinho vestido a paisana. O Camus não fica atrás, também, mas eu não sou chegada em ruivos.
— Hm.
— Você não acha?
— Não.
— Ai, Shina, desisto de você. — Bufou a outra. — Aposto que já está aí pensando de novo no seu querido Seiya. Pelo amor dos deuses, a gente tem que te pedir uma sessão de descarrego.
— Gisty...
— Olha, faz o seguinte. Fica lá olhando o Milo, vai, que ele não é o Aiolia mas está gatinho pra chuchu. Sacou a piada?
— Gisty!
— Nossa, é só olhar, não arranca pedaço não!
Enquanto a italiana bufava, a fila andava para entrarem no cinema.
— Espera, Shina, que eu tenho que ir no banheiro.
— Mas agora? Olha como isso está lotado, a gente não vai nem conseguir sentar...
— E você quer o quê? Eu tenho que ir no banheiro, não dá pra esperar!
— Tá, tá. Vai logo lá então, mas não demora!
Cerca de dez minutos depois a amazona de Vampiro volta, para encontrar a amiga impaciente.
— Olha o tanto que você demorou! Nós não vamos achar lugar pra sentarmos juntas!
— Ai, credo... Mas nós nascemos grudadas, por acaso? — Gisty bufou. — Vamos entrando lá e deixa de reclamar.
Já dentro da sala de exibição, os augúrios de Shina se confirmaram.
— Olha aí, eu disse. Não vai ter lugar!
— Shh... — Gisty fez sinal para que a amiga baixasse o volume. — Olha, tem duas poltronas vagas uma na frente da outra, bem ali.
— Ah?
— Anda, vamos logo pra lá. — Gisty empurrou a amiga para uma fileira enquanto já entrava na outra, mas no meio do caminho até as poltronas foi interrompida pela amiga.
— Ei, volta, vamos trocar de lugar.
— Hã?
— A poltrona que está vaga é do lado do Milo.
— E?
— Ora, mas era só o que faltava! Eu não vou sentar do lado do Milo e...
— Ei, psiu, o filme já começou, sentem logo aí! — Uma voz irritada na sala escura instou as duas a sentarem logo, abortando a pequena polêmica.
Shina dirigiu-se até a poltrona ao lado da de Milo, e o saudou rapidamente para então sentar-se do seu lado naquele cinema.
Não pôde deixar de reparar, porém, que mais uma vez a amiga tinha razão: Vestido como um rapaz qualquer de sua idade e segurando um saco de pipoca, Milo era sim uma figura de chamar a atenção. Rosto bonito, cabelos ondulados, quase cacheados; que agora estavam presos num rabo baixo. E seus olhos azuis pareciam ainda mais claros naquela luz fria que vinha da tela do cinema. Não era só a cor, eles também tinham um formato bonito, amendoado.
Uma lástima que ele conseguisse ser uma criatura tão intragável.
De rabo de olho, viu o cavaleiro lhe oferecer pipoca num gesto discreto, e com um meneio de cabeça recusou. Ainda em sua visão periférica viu Milo voltar sua atenção ao filme que já começava enquanto começava a comer o enorme saco de pipoca junto com o amigo a seu lado.
Um pensamento maroto acerca da amizade próxima dos dois cruzou a mente da amazona, mas foi interrompido por um tapinha de Gisty em sem ombro, e logo sentiu a aproximação da amiga para cochichar em seu ouvido.
— Olha, Shina, não é que a atriz parece com você!
Prestando atenção, ela parecia sim. Cabelos negros, olhos verdes e grandes, rosto de traços delicados. Era parecida, mas isso para Shina não era um elogio.
Ela era uma guerreira; e para ela pouco servia ser 'sósia' de uma atriz de Hollywood.
Sua visão periférica captou, de novo, Milo voltando o rosto a si, exatamente no em que a amiga acabava de dizer o comentário inoportuno que ele certamente tinha ouvido.
— Desculpe. — Sussurou Shina para o cavaleiro a seu lado. Milo meneou a cabeça, mas não num gesto de irritação ou reprovação. Parecia mais um sinal de reconhecimento, como se ele concordasse com o que a outra tinha acabado de dizer.
Voltou a atenção ao filme que se desenrolava e que até era interessante; a história de uma menina comum mas que sonhava demais e acabou perdendo o irmão mais novo para os duendes de suas fantasias. Era bem verdade que não era o tipo de entretenimento que chamaria sua atenção em um primeiro momento, mas já que estava lá, não custava aproveitar.
Não pôde evitar, porém, de relacionar a história da moça em busca do irmão menor perdido a Seika, a irmã desaparecida de Seiya que sempre vivera em Rodório, e nunca deixou de procurar pelo irmão que foi levado de si. Mas mesmo com toda a procura, os dois não conseguiram se encontrar antes dos eventos que iniciaram a Guerra Santa contra Hades; num daqueles caprichos do destino que se fazem difíceis de entender.
A lembrança inadvertida de Seika imediatamente disparou o gatilho de suas emoções até Seiya, e a amazona engoliu em seco.
Ela não queria mais ficar pensando nele, mas não conseguia evitar.
Estaria ela, mesmo, tão obcecada pelo cavaleiro de Pégaso que até mesmo coisas tão banais quanto um filme qualquer eram capazes de fazê-la pensar nele?
Já imaginava Gisty lhe dando uma bronca, dizendo que aquilo já era doença; e que ela precisava deixar seu sentimento por ele para trás. Bom, ela estava tentando, não estava? Por exemplo, estava naquele cinema para esquecer essa parte de sua vida e seus problemas, mas falhava de novo. Falar e planejar era bem mais fácil do que fazer.
Tentou se concentrar no filme de novo, mas estava difícil. Algo em si a fazia se sentir triste, muito sozinha mesmo no meio de tanta gente naquele cinema.
Milo ajeitou-se na cadeira, num movimento que não passou desapercebido aos olhos treinados da amazona; e a atenção dela se voltou para o cavaleiro a seu lado. Olhou para ele, que percebeu o olhar e olhou para si de volta; e isso a fez se sentir meio ridícula. "Ele deve achar que eu sou doida", pensou a amazona, por ter sido surpreendida olhando para Milo sem razão aparente.
Voltou de novo sua atenção ao filme, no que Milo fez o mesmo.
De novo, seus pensamentos saíram do filme para a situação em que se encontrava. Se sentia perdida, queria uma saída; e nisso sim identificava algo de semelhança com a garota do filme e sua aventura no labirinto mágico. Ela também se sentia num labirinto, tateando uma saída que nunca encontrava; mas não buscava um simples irmão perdido.
Ela buscava... O que ela buscava mesmo? Para ser sincera, nem mesmo ela sabia.
Porque a guerreira que ela sempre fora não servia se estivesse enredada por um homem que amava, e que não podia matar. E nem podia ela abandonar as crenças em que acreditara por tantos anos, e para quem sacrificara seu lado mulher.
A mulher também não servia, porque não hesitaria em usar a guerreira para dar a vida pelo homem que amava, mas que não a amava de volta. Nunca ia amar.
Estava perdida, não via saída, porque não sabia nem por onde começar.
Viu a mocinha do filme comer uma fruta envenenada, ou mágica, não sabia direito; e a viu presa numa ilusão de onde precisava sair para encontrar o irmão perdido, com os acordes de uma música que estava para começar.
Um baile, onde todos usavam máscaras, e nada era o que parecia ser.
There's such a sad love
Deep in your eyes.
A kind of pale jewel
Open and closed
Within your eyes.
I'll place the sky
Within your eyes.
Há um amor tão triste
Profundamente em seus olhos.
Um tipo de jóia pálida
Aberto e fechado
Dentro de seus olhos.
Eu colocarei o céu
Dentro de seus olhos.
Shina soltou um suspiro, ouvindo a letra da música. O Rei dos Duendes prometia à mocinha mundos e fundos, bastasse ela deixar sua vida para segui-lo. Claro que ela não faria isso, mas algo em seu peito pesou ao ouvir os versos bonitos da música.
Fosse ela ali no lugar da mocinha, talvez aceitasse. Não tinha muita coisa a prendendo a vida que levava, mesmo.
There's such a fooled heart
Beatin' so fast
In search of new dreams.
A love that will last
Within your heart.
I'll place the moon
Within your heart.
Há um coração tão enganado
Batendo tão rápido
À procura de sonhos novos.
Um amor que durará
Dentro de seu coração.
Eu colocarei a lua
Dentro de seu coração.
Dessa vez sentiu os olhos marejarem, mas não podia chorar. Mas sentia vontade, isso ela sentia.
Talvez por estar tão absorta em si mesma, ela demorou para perceber os olhos de Milo em si.
As the pain sweeps through,
Makes no sense for you.
Every thrill is gone.
Wasn't too much fun at all,
But I'll be there for you-ou-ou
As the world falls down.
Falling.
Falling in love.
Enquanto a dor varre,
Não faz sentido pra você.
Toda emoção foi.
Não era muita diversão mesmo,
Mas eu estarei lá para você
enquanto o mundo cai.
Caindo.
Se apaixonando.
"Pronto", ela pensou; "agora sim ele vai me achar uma moleirona mesmo, me vendo quase chorar desse jeito" ; mas algo nos olhos dele não condiziam com o olhar duro e reprovador que ela esperava. Pelo contrário, aqueles olhos azuis nunca lhe pareceram tão profundos.
E tristes.
Duas piscinas de azul cor de céu, mas afogados numa tristeza meio fora de lugar.
Olhava para ele de volta, sem entender porque ele a olhava assim; e se olharam por instantes que pareceram ser eternos.
O que ela via naqueles olhos, não conseguia entender.
E ele terminou por menear a cabeça e olhar de volta para a tela.
I'll paint you mornings of gold.
I'll spin you Valentine evenings.
Though we're strangers 'til now,
We're choosing the path
Between the stars.
I'll leave my love
Between the stars.
Eu o pintarei manhãs de ouro.
Eu o girarei noites de Namorados.
Embora nós sejamos estranhos até agora,
Nós estamos escolhendo o caminho
Entre as estrelas.
Eu deixarei meu amor
Entre as estrelas.
Shina sentiu um tanto de raiva, já que não entendia porque diabos ele a olhara assim. Por acaso ele ousava estar com pena dela?
Era isso que ela inspirava nas pessoas? Pena?
Apertou os lábios. Queria confrontá-lo, mas sabia que talvez não fosse uma boa ideia. Pelo menos não ali, certamente não era.
As the pain sweeps through,
Makes no sense for you.
Every thrill is gone.
Wasn't too much fun at all,
But I'll be there for you-ou-ou
As the world falls down.
Falling
As the world falls down.
Falling
As the world falls down.
Falling.
Falling.
Falling.
Falling in love
As the world falls down.
Falling.
Falling.
Falling.
Falling.
Falling in love
As the world falls down.
Enquanto a dor varre,
Não faz sentido pra você.
Toda emoção foi.
Não era muita diversão mesmo,
Mas eu estarei lá para você
enquanto o mundo cai.
Caindo
Enquanto o mundo cai.
Caindo
enquanto o mundo cai.
Caindo.
Caindo.
Caindo.
Se apaixonando
Enquanto o mundo cai.
Caindo.
Caindo.
Caindo.
Caindo.
Se apaixonando
Enquanto o mundo cai.
Olhou de volta para o cavaleiro; que agora tinha o rosto levemente franzido e olhava fixamente a tela em sua frente, totalmente alheio a ela.
Parecia uma atitude de desprezo, ela não sabia dizer ao certo. Mas era melhor desprezo do que pena, isso era. Decididamente era.
Ela não toleraria a comiseração de ninguém. Muito menos de Milo.
Makes no sense at all.
Makes no sense to fall.
Falling
As the world falls down.
Falling.
Falling in love
As the world falls down.
Falling.
Falling
Falling in love
As the world falls down.
Não faz sentido nenhum mesmo.
Não faz sentido nenhum para cair.
Caindo
Enquanto o mundo cai.
Caindo.
Se apaixonando
Enquanto o mundo cai.
Caindo.
Caindo
Se apaixonando
Enquanto o mundo cai.
OOO
O filme mal tinha acabado, e Milo se levantou dali como se fosse tirar Atena da forca. Camus o olhou sem entender, para então levantar também e sair no encalço do apressado amigo.
— Vem, Gisty.
— Mas onde...
Shina levantou-se atrás dos dois. Viu um Camus que ia ligeiro em direção ao Santuário. E nem sinal de Milo.
Tinha se esfumado no ar, de novo.
OOO
Milo chegou nas doze casas em tempo recorde para quem não tinha usado a velocidade da luz. Subiu até Escorpião , sendo interpelado apenas por um Aldebaran meio aturdido por ter vê-lo passar primeiro e nem sequer ter pedido licença para passar, como de praxe. Nem tomou conhecimento das queixas do cavaleiro de Touro, que quando terminou de falar viu que Milo já passava de Virgem e chegava até Libra.
Chegou em casa e foi direto para o banheiro de sua suíte, para se fechar lá dentro, trancar a porta e apagar a luz.
Não poderiam haver testemunhas do que aconteceria ali, mas já não estava mais conseguindo segurar uma estranha umidade em seus olhos, que secou meio sem jeito e com raiva de si.
Encolheu-se num canto, respirando fundo para tentar esfriar a cabeça.
E não saiu dali por um bom par de horas.
OOO
Passaram-se alguns dias do episódio do cinema, e tudo estava aparentemente normal. Bem, tão normal quanto podiam ser as coisas no Santuário, diga-se.
Exceto por Milo, que estava ainda mais irascível do que o costume. Mas ninguém podia dizer que ele não tinha consciência de seu próprio mau-humor, posto que evitava treinar em grupo e interagia o mínimo possível com todos, especialmente com Aiolia.
E talvez por esse comportamento mais arisco do que o usual em Milo, Shina acabou deixando para lá sua ideia de confrontá-lo novamente acerca dos sentimentos de pena que ela achava serem endereçados a sua pessoa.
Até mesmo ela sabia que cutucar Milo do jeito que ele andava era péssima ideia.
Então que lá estava, pensando sobre isso em sua casa, enquanto mais uma vez preparava seu jantar solitário com um prato só na mesa. Era uma hora em que ela ficava especialmente sensível, por conta das lembranças de Cássius e tudo; mas desde o bendito dia do cinema algo estava querendo mudar dentro de si.
Não que tivesse adorado o filme, mas a tal música não saía de sua cabeça.
Nem os olhos de Milo. As tais piscinas de azul céu carregadas de uma melancolia que ela não conseguia entender.
Shina não entendia bem o porquê, mas lembrava da música, e automaticamente lembrava de Milo.
Até mais do que andava pensando em Seiya, ultimamente.
Deu um riso seco, em ironia do próprio infortúnio.
Porque era só o que lhe faltava, deixar sua obsessão por Seiya de lado por uma obsessão pelos olhos de Milo de Escorpião. Isso sim, seria pior do que trocar seis por meia dúzia...
Afastou esse pensamento de si, posto que era loucura. Ela decididamente não precisava de algo que complicasse ainda mais a sua já complicada situação. Não mesmo.
Mas algo em si lhe dizia que era tarde. Era tarde, desde que aqueles olhos a olharam na sala de cinema. E então Milo não lhe saía mais da cabeça.
OOO
Fale com o autor