Sideways

4 IV - Nessun Dorma


Notas iniciais
Sideways serão fics ambientadas no universo de Sui Generis, auto-conclusivas ou não. Mas não se preocupem, eu tentarei deixar claro para vocês quando for cada caso. E nenhum dos meus outros projetos de StS serão afetados, eu prometo. Assim como Sui Generis, elas não serão fics yaoi. A princípio, quero dizer. E o título da fic não tem nada ver com o filme homônimo (Sideways - entre umas e outras), que é bem interessante. Quem já viu sabe, quem não viu está convidado a ver! O quarto capítulo atende a inúmeros pedidos das muitas fãs de Camus de Aquário, Cavaleiro da Décima Primeira casa que faturou o prêmio Sui Generis na categoria Homem para Casar! Parabéns, Camyu, a fic é simples mas é de coração! E para homenagear o Santo de Aquário , teremos Hyoga de Cisne, que também ganha seu presentinho. A música incidental é fartamente explicada na fic, mas vou colocar aqui também para que possam lê-la enquanto ouvem a música: é Nessun Dorma, ária do último ato da ópera Turandot, de Giacomo Puccini. E, bem, vamos ao capítulo, então!

IV

Nessun Dorma

Em mais um dos raros dias de folga no Santuário, o homem conhecido como Camus de Aquário estava em sua casa, sem se incomodar com a baixa temperatura do local. Estava, mais precisamente, no living room da área privativa do templo, escolhendo um de seus (muitos) discos de vinil para apreciar uma boa música e um bom vinho.

Sorriu ao pegar o disco com as duas mãos, uma verdadeira raridade: Uma gravação de Turandot de Giacomo Puccini; tocada pela Orquestra Filarmônica de Londres e encenada pela já conhecida soprano Joan Shutherland e um tenor em franca ascensão, Luciano Pavarotti; datada de 1972. Sem dúvida nenhuma, uma das mais belas encenações desse clássico dos clássicos da ópera.

E olhem que de Turandot ele entendia: essa ópera não era só uma obsessão como Milo dizia; era uma de suas mais preciosas recordações, visto que era adorada por sua mãe. Ela, uma aspirante a cantora lírica que sofria de alguns problemas: a origem argelina, a compleição física frágil, a pobreza vinda da vida dura que levava na França, enquanto corria em busca de seu sonho e... bem, a falta do brilhantismo necessário em sua voz para converter a jovem de voz bonita mas magrinha e enfermiça em uma soprano de sucesso. Morreu moça, levada por uma pneumonia quando ele contava quase sete anos de idade, e como ninguém tinha notícias de seu pai ou de outros parentes (visto que a família da mãe ficou na Argélia enquanto ela partia em busca de uma carreira incerta), foi levado ao orfanato que o levou até o Santuário de Atena.

Colocou o disco para tocar, no último ato.

Apesar das poucas memórias que tinha da mãe, lembrava-se bem da adoração da mulher pela ópera que contava a história da jovem princesa que não queria se apaixonar e impunha a seus pretendentes três charadas mortais e que foi desafiada pelo intrépido príncipe tártaro, filho do rei deposto e descendente dos que a Princesa Turandot tanto odiava, e que acerta todas suas três perguntas mas a desafia a descobrir seu nome.

Era engraçado lembrar que sua mãe era uma pessoa tão sonhadora, tão não-conformista. Era irônico, até. Ela era, apesar de sua inteligência viva e paixão por música e óperas, uma mulher sem muito estudo pela origem humilde; e em nada ajudava sua condição de pied-noir(1) e que ele involuntariamente herdara.

Sim, porque apesar de nascido francês, sua terra natal nunca perdeu uma única oportunidade de lembrá-lo de sua mãe de ascendência argelina e do pai inexistente até para lhe dar um nome de família.

Mas sua mãe tinha a coragem dos ignorantes das regras da vida e uma vontade férrea, que a levou a lutar pelo seu sonho até as suas últimas forças, literalmente.

Deu errado, e ela deixou para trás o ruivinho franzino que pai já não tinha.

Não que até então sua vida fosse um mar de rosas: a busca incessante da mãe pela carreira de soprano a deixava muitas vezes distante de si, e aos cuidados de uma infinidade de pessoas estranhas; mas ainda que fosse assim ela fazia questão de, quando estava consigo, compartilhar com ele o brilho de seu sonho. E dividia aquilo com ele como se fosse o mais precioso dos tesouros.

Os primeiros acordes da Ária ressoavam pela sala, enchendo o ambiente com a música rica e as memórias.

Nessun Dorma era a ária preferida de sua mãe.

Nela, a Princesa furiosa pelo desafio do Príncipe Desconhecido ordena que seu reino passe a noite em claro, nos esforços de descobrir o nome daquele homem que venceu suas charadas. Mas o segredo bem guardado é conhecido pela escrava Liu que o amava em segredo e seu velho pai, o rei deposto; que são feitos prisioneiros pela guarda imperial para que lhe revelem o nome sob tortura.

Fechou os olhos, involuntariamente, ao lembrar da mãe tentando fazer a voz masculina do príncipe e manter a afinação, enquanto lhe cantava a música e explicava pela enésima vez a história do que cantava.

Il principe ignoto
Nessun dorma! Nessun dorma!
Tu pure, o Principessa,

nella tua fredda stanza
guardi le stelle
che tremano d'amore e di speranza...

Ma il mio mistero è chiuso in me,

il nome mio nessun saprà!

No, no, sulla tua bocca lo dirò,

quando la luce splenderà!

Ed il mio bacio scioglierà
il silenzio
che ti fa mia.

O príncipe desconhecido
Que ninguém durma! Que ninguém durma!
Você também, ó Princesa
Em seu quarto frio, olhe as estrelas
Tremendo de amor e de esperança
Mas meu segredo permanece guardado dentro de mim
O meu nome ninguém saberá
Não, não, sobre tua boca o direi
Quando a luz brilhar
E o meu beijo quebrará
O silêncio que te faz minha

Voci di donne
Il nome suo nessun saprà...

E noi dovrem, ahimè, morir, morir!

Coro feminino
O seu nome ninguém saberá
E nós teremos, oh!, que morrer, morrer

Nunca soube dizer porque sua mãe era tão afeita àquela ópera, ou àquela ária em especial. Mas tinha uma certa convicção de que ela se identificava de certa forma com o príncipe desconhecido, que desafiou a princesa para lhe provar o valor não pela origem, posto que essa lhe era um ponto negativo, mas pelo amor que carregava em si.

Suspirou e tentou engolir o nó na garganta com um gole de vinho.

Já ele, quando ficou sozinho no mundo, entendeu cedo que perdera sua mãe para o sonho louco que ela tinha de vencer suas adversidades e tornar-se cantora, mesmo quando era óbvio para todos que aquilo não aconteceria. Mas ela se recusou a aceitar o não como resposta e foi derrotada pelos seus sentimentos. E ele jurou de si para si, várias vezes, que jamais incorreria no mesmo erro de sua mãe.

Abraçou a vida reservada a si, e trabalhou sempre, desde muito cedo, para adaptar-se ao mundo que se apresentava. Não perderia seu tempo lutando contra seu destino. E, bem, ele não perdeu: no orfanato tornou-se um menino esperto, e com uma impressionante capacidade de se virar sozinho; e no Santuário tornou-se um aspirante forte e com o domínio emocional necessário para manejar uma das mais difíceis forças da natureza: o frio.

E destacou-se dos outros justamente por aquilo que poderia ter salvado sua mãe: o distanciamento emocional que o permitia ter a racionalidade necessária para dominar seus sentimentos.

O menino ruivo e franzino transformou-se em Camus de Aquário.

Com outro gole de vinho, pensou no pupilo que conheceu nas terras geladas da Sibéria: outro pobre coitado que perdera a mãe cedo, como ele. Mas havia uma diferença: Enquanto ele logo se desfez do luto por sua mãe e abraçou com pragmatismo a sua nova vida e as obrigações que viriam dela, Hyoga se agarrava nas memórias da mãe morta como se elas fossem a razão de sua vida. E naquele tempo achava que o menino seria fragorosamente derrotado pelo seu apego excessivo a um passado que já não existia, e ao apego a uma mãe já morta que acabaria por matá-lo também.

Mas o menino ruivo e franzino, filho da cantora sonhadora, ainda existia dentro de si. Ele sabia, e tentou por várias vezes sufocá-lo: No distanciamento da Sibéria, nas suas obrigações de Cavaleiro e Mestre, no pragmatismo de sua personalidade, no distanciamento seguro que mantinha dos próprios sentimentos...

Mas foi o menino quem assumiu o controle quando Hyoga o enfrentou na Casa de Aquário, e foi ele que se entregou à morte para ensinar o pupilo a última lição que ele deveria aprender.

Foi ele também quem aceitou o pedido de Shion, no submundo, para que encenassem uma caçada pela cabeça da Deusa Atena para na verdade alertá-la dos planos de Hades e levar até ela a mensagem fundamental à sua vitória.

E ele voltou consigo, forte como nunca, quando abriu os olhos para ter a chance de uma nova vida. E Camus entendeu que o menino ruivo e solitário que ele um dia foi era parte indelével de si, por mais que tentasse afastá-lo.

Mas lidar com ele era difícil, complicado, porque doía muito. Como doía.

Assim como sentia uma dor queimando seu peito todas as vezes que escutava essa ária, mas não conseguia parar de escutá-la.

Acompanhava com a mão direita o ritmo da música instrumental, como se tivesse uma batuta imaginária em seus dedos.

Ainda de olhos fechados, nem o vinho conseguia desfazer o nó em sua garganta. Quando deu por si, percebeu lágrimas em seu rosto.

O menino chorava dentro de si, de novo. Tentara por anos convencê-lo de que lágrimas eram inúteis, mas o problema é ele era tão teimoso quanto a mãe.

Teimoso como o Príncipe Desconhecido ao tentar conquistar sua Princesa Turandot.

Il principe ignoto
Dilegua, o notte!
Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle!
All'alba vincerò!

Vincerò! Vincerò!

O príncipe desconhecido
Parta, oh noite
Esvaneçam, estrelas
Ao amanhecer eu vencerei!
Vencerei! Vencerei!

Enquanto as lágrimas desciam pelo seu rosto, acompanhava com os lábios a letra da música que sabia de cor e salteado; impressa em sua memória pelos lábios e a voz de sua mãe. Os sentimentos que mantinha reprimidos dentro de si saíam aos borbotões, logo nele que nunca tinha se permitido chorar pelos muitos reveses de sua vida.

De todas as formas, ele vencera, não?

Suspirou devagar, tentando se recompôr enquanto os acordes finais da música tocavam, para então terminar sua taça de vinho, um tanto exausto.

— Mestre, posso entrar? — A voz suave de Hyoga se fez ouvir em seu living.

— Entre. — Camus limpou apressadamente o rosto, para parecer apresentável ao pupilo, que entrou assim que recebeu sua permissão.

De todos, talvez Hyoga fosse, junto com Milo e Isaak, as que melhor o conheciam. E para o cavaleiro de Cisne não foi surpresa ver a taça de vinho vazia e a capa do disco que o mestre estava escutando.

— Aceita uma taça de vinho, Hyoga?

Sim, obrigado... Turandot? — O nipo-russo deu um sorriso de lado enquanto recebia sua taça de Bordeaux; posto que seguramente ouvira a ópera incontáveis vezes durante seu treinamento na Sibéria, nos momentos em que o mestre se recolhia para colocar aquele disco para tocar.

— Um clássico é sempre um clássico. — Respondeu o francês.

Era certo que Camus gostava de óperas, o que por si só já era incomum o suficiente para um rapaz na casa dos vinte anos; mas Hyoga já tinha perdido as contas de quantas vezes ouvira o mestre escutar aquela em particular, e mais ainda aquela ária.

— Posso te fazer uma pergunta pessoal, mestre?

— Faça.

— Por que o senhor gosta tanto dessa música? — Perguntou o rapaz, na lata; hábito que ele estava aprendendo dos outros colegas cavaleiros de bronze: o de perguntar o que lhe vinha na cabeça.

Não que Camus não gostasse, mas ultimamente estava achando que o pupilo estava ficando um pouco invasivo em suas colocações.

Mas, bem, ele o tinha autorizado a perguntar, não?

— Ela me lembra uma pessoa.

— Alguém especial?

— Sim. — Camus divergiu o olhar para a parede, e soltou um suspiro que nem ele sabia que estava segurando. — Alguém especial.

OOO

Notas finais
1- Pied-noir: Em tradução livre, pé preto. É um apelido jocoso dado pelos franceses de nascimento a argelinos ou pessoas de ascendência argelina. Voilá, pessoas: aí está o capítulo de Camus de Aquário. Espero que gostem! E, para título de curiosidade, o nome verdadeiro de Camus nesse universo seria Albert Camus Gassion. Albert Camus como um nome composto, dado por sua mãe para homenagear o escritor e filósofo argelino; e o sobrenome Gassion, vindo de sua família materna, é uma homenagem deslavada à pessoa que inspirou a 'personagem' de sua mãe: Edith Giovanna Gassion, la môme Piaf.