"Deseje o céu, sonhe com estrelas"

Eu lembro do momento em que ela nos encontrou. Quando abri os olhos, ela estava lá. Havia algo antes disso? Eu só lembro do calor da minha irmã ao meu lado. O que nós... éramos?

"Anseie pelo mar, canções de baleias"

Ela nos deu comida e um lugar para ficar. Ela virou nossa mãe e nos deu nomes. Eu gosto do meu nome, e meu irmão também. O que nós... somos?

"Clame por terra, vasta, firme e forte"

Aquela vez, um aldeão disse que ia matar a mamãe. Ele tinha uma espada e cabelos escuros presos em uma longa trança. Foi naquele dia que a maldição despertou, mas tinha algo de errado. Não estava na hora. Não ainda. A maldição tomou conta e destruiu muita coisa, me lembro agora... e a mamãe ficou muito triste. Ela nos abraçou e tudo se apagou. O que será de nós?

"Almeje a vida, a luz, a morte"

Elementais, nascidos do desejo de alguém. Sem vontade própria. Sem sentimentos... até ela nos encontrar. Somos os filhos dela.

✰★✰★✰

— Bem vindos de volta...

Os marejados olhos carmesim que carregavam alívio e um sorriso reconfortante foram a primeira coisa que os gêmeos viram ao acordar. Yrina, a pessoa que os acolheu e criou, por quem destruiriam o mundo. Era ela.

— Mamãe?! — exclamaram ambos em uníssono.

Em poucos segundos, os três já estavam unidos em um pequeno amontoado de abraços, lágrimas e soluços em cima da cama.

— Eu senti tanto a falta de vocês! — Yrina enchia os dois de beijinhos e os apertava forte. — Eu sinto muito, muito mesmo! Fui covarde em manter vocês presos naqueles amuletos, me desculpem... Eu amo tanto vocês!

Darka, Amara e Miko estavam próximos da cama, observando ansiosos o reencontro de mãe e filhos.

— Eles não estão... daquele jeito estranho lá, né? — Miko semicerrou os olhos em suspeita. Estava quase se escondendo atrás de Amara, que apenas riu.

— Acredito que não. — observando o quão afetuosa era a reação dos gêmeos, Amara não conseguiu segurar um suspiro de alívio. — A coisa que fez eles ficarem hostis já se foi. Eles são eles mesmos agora.

Darka notou Yrina checar Dia e Noite várias e várias vezes, assegurando-se que não havia exagerado na transmissão de sua própria essência para eles. Estava extremamente feliz por ela, e principalmente por estarem juntos novamente depois de tudo.

— Mãe, nós fizemos de tudo pra te ver de novo! — Dia começou a explicar, enxugando as lágrimas. — O Noite e eu...

— Shhh... Eu já sei de tudo. Não precisam dizer nada. — Ela afagou os cabelos dos dois, os puxando para seus braços de novo. — O que passou, passou.

— Precisam dizer sim! — cruzando os braços, Darka começou a bater o pé no chão. — Cadê meu pedido de desculpas?

Os gêmeos tiveram um pequeno sobressalto ao ouvir a voz do jovem, finalmente se dando conta de que ele e os outros também estavam ali. Os dois se entreolharam, antes de Noite respondê-lo com outra pergunta:

— Quem é você?

— Ah, não. — O som do tapa que Darka deu em sua própria testa reverberou no quarto. — Cês tão de brincadeira comigo.

— Estamos sim! — Dia sorriu, ainda agarrada em sua mãe. — O milorde leva tudo muito a sério, não é, Noite?

— Verdade, mas ele tem razão.

Noite desceu da cama, ajudando Dia fazer o mesmo. Ambos cambalearam e pareciam um pouco desajeitados, provavelmente por conta dos dias que ficaram dormindo, mas conseguiram se levantar e curvar-se na direção de Darka.

— Sentimos muito pelo que fizemos.

— O que vocês fizeram? — Darka mantinha a pose de mau, mas era fácil notar que apenas tentava parecer zangado.

— Err... Quebramos algumas coisas... ? — Dia respondeu com um sorriso amarelo que logo desapareceu em um semblante de culpa. — Me desculpa. Achamos que se você fosse temido, as pessoas o respeitariam.

— Só pensamos que se todo mundo visse o quanto você e a mamãe são poderosos, eles nunca mais tentariam machucar ninguém da nossa família. — Noite completou.

Suspirando, Darka aceitou as desculpas e fez um cafuné na cabeça dos dois. Era compreensível os motivos pra toda aquela baderna, embora ele mesmo tivesse feito diferente se estivesse no lugar deles. Era o amor pela família que os guiava.

— E eu? — Cruzando os braços e batendo o pé, Miko tentava imitar a irritação de Darka. — Também quero desculpas da senhorita Dia!

Antes mesmo que pudesse se dar conta, Miko sentiu seus pés deixarem o chão quando Dia lhe puxou para um abraço.

— Você é o luziwurmo fofinho de antes! — Quase como uma criança apertando um ursinho de pelúcia, Dia esfregava o rosto em Miko de forma afetuosa. Apesar da intensidade, o luziwurno parecia gostar da demonstração de afeto e começou a rir. — Me perdoe, eu estava zangada e... acho que não era completamente eu.

— Falando nisso... Vocês lembram do que aconteceu em Jhotar? — perguntou Amara.

— Está tudo um pouco confuso desde o momento em que entramos na caverna. — Noite repassava sua memória daquele dia, mas apenas flashes confusos piscavam em sua mente. A única certeza era de que a "coisa" não estava mais lá. — Mas lembro do milorde dizendo que a mamãe estava esperando por nós.

— Para de me chamar disso, é ridículo. — Darka fingiu dar um cascudo em Noite, sem força.

Um leve ronco chamou a atenção de todos, que se viraram para ver Yrina dormindo pacificamente na cama. Exausta pela enxurrada de acontecimentos desde seu despertar, ela finalmente estava livre e ao lado de suas crianças. Darka sentiu um alívio enorme ao perceber que aquela simples soneca significava que ela se sentia segura.

— Acho melhor deixar ela descansar. — Ele tirou Miko do abraço apertado de Dia e colocou o luziwurmo em seus ombros. — Eu sei que vocês dois passaram as últimas três semanas dormindo, mas ainda não estão cem por cento recuperados. Então é melhor se juntarem a ela.

Amara concordou com a cabeça, ajudando os gêmeos a voltarem para a cama e se aconchegar em volta de Yrina, cobrindo os três com o lençol. Sentiu-se engraçado ao notar que havia de certa forma criado aquelas pessoas, e aquela situação não era muito diferente de colocar suas crianças para dormir.

— Sabia que a senhorita Yrina e eu temos uma coisa incrível em comum? — Miko observava os três enquanto apoiava o queixo na cabeça de Darka, sorrindo de orelha a orelha. — Nós dois temos muita sorte de ter conhecido você.

Levou um momento para Darka perceber o que Miko havia dito. Sentiu o coração apertar pensando em como estava grato por ouvir algo tão simples, mas ao mesmo tempo tão significativo. Ele fez diferença na vida de várias pessoas. Puxando Miko para seu colo, ele deu um beijo na testa da criança.

— Quer saber uma coisa? Eu também posso dizer o mesmo.

✰★✰★✰

— Bom, acho que com isso está tudo resolvido. — Daena se espreguiçou, estalando as juntas. Ela se encontrou com Darka e os outros no jardim após voltarem do quarto de Yrina. O fim da tarde já deixara o ar do mais fresco, e ela não segurou um longo suspiro. — De nada.

— Mas você não fez nada, Daena. — Cruzando os braços, Darka levantou uma sobrancelha em julgamento de forma teatral. Era divertido atazanar Daena, como se ela fosse a irmã mais nova que nunca teve. Amara sentou-se em um banco próximo com Miko para aproveitar o clima e assistir aquela divertida discussão também.

— Nada?! Se não fosse por mim, você ainda estaria chorando naquele estábulo fedido em Zieg, ou preso no calabouço do castelo, ou no fundo do rio de Caadis com a espada da tia Katarina... preciso continuar listando todas as vezes que salvei sua pele? Ingrato.

— Ah, verdade. Obrigado, ó princesa de Talphen. — Darka riu, fazendo uma reverência propositalmente desengonçada. — E obrigado também pelo que fizeram pela gente. Você e seu pai foram incríveis, nem acredito que realmente conseguiram retirar todas as acusações e limparam nossa imagem.

Orgulhosa de ter ajudado, Daena sorriu. Estephan havia usado toda sua influência de forma impressionante para esclarecer ao povo a confusão causada por Garion, e a menina não deixou de pensar como toda essa experiência até havia a aproximado de seu pai. Sua mãe estaria extremamente feliz também.

— Não foi difícil. Pra ser sincera, meu pai nem tinha feito tanto esforço assim pra te capturar. Ele nunca vai admitir, mas acho que também queria acreditar que você não era mau. Enfim, você tem roupa de baile ou só tem esse trapo velho que tá vestindo?

Processando a mudança repentina de assunto, Darka alternou o olhar entre a menina e Amara, que apenas deu de ombros como resposta.

— O que te faz pensar que eu tenho uma roupa de baile, Daena?

— Ué, todo mundo em Oenith tem uma.

— O Amara não tem.

— Mas eu sou de Ninell. — O mecânico franziu a testa na direção dos dois, um pouco confuso com sua inserção no assunto aleatório.

— Tá, deixa que eu arrumo uma roupa pra vocês também. — Um sorrisinho sutil denunciava o quão divertido Daena achou aquilo. — Meu baile de aniversário não vai ser estragado por dois caipiras cafonas.

— Tem formas menos ofensivas de convidar pessoas pra uma festa, sabia?

✰★✰★✰

O salão do castelo de Talphen transbordava uma animação calorosa, com dezenas de pessoas aproveitando o farto buffet e a música contagiante. Nervoso, Darka espiava pela abertura de uma das cortinas, escondido em um corredor mais vazio. Yrina o acompanhava, divertindo-se com a reação do filho adotivo.

— Você está muito elegante, o menino Amara vai gostar. Não precisa ficar com vergonha.

— O quê? Não é isso! Eu só... eu não quero que as pessoas reajam mal quando te virem. — Darka se endireitou, arrumando a roupa formal que Daena havia emprestado a ele. — Eu sei que o Estephan explicou tudo para o pessoal nos últimos dias, mas alguém ainda pode, sei lá, querer te prejudicar ou coisa assim.

— Aww, você está preocupado comigo? — A mulher apertou as bochechas do jovem. — Você é uma fofura, Darka. Eu amo você.

— Aii... — Era engraçado para ele como ao mesmo tempo que as demonstrações de carinho de Yrina eram familiares, era a primeira vez que Lauren recebia esse tipo de afeto desde que perdera a mãe. — Também te amo, Yrina.

A mulher sorria maternalmente em silêncio, observando o rosto de Darka antes de suspirar e fazer um cafuné em sua cabeça.

— Tenho algo a dizer.

— O que houve? — perguntou Darka, estranhando a mudança de seu semblante. — Tá tudo bem, Yrina?

— Vou voltar para Fearaniar. — O continente do oeste era sua terra natal, e ela sentia que precisava voltar ao ponto de partida para se recuperar totalmente. Não apenas sua forma física, mas também sua vida com Dia e Noite. — Apenas eu e os gêmeos.

— O quê? Mas assim, de repente? — Darka estava surpreso com a decisão. Não esperava ter que se despedir de Yrina tão cedo, ainda mais depois de tudo o que passaram.

— Não precisa se preocupar, meu amor. — Seus braços o envolveram com carinho, passando a certeza de que estava tudo bem. — Eu vou voltar em dois anos! Prometo trazer lembrancinhas de comer.

Ela sentiu as mãos de Darka apertando suas costas, se afundando um pouco mais em seu abraço. Queria levá-lo e mostrar o quão bonita era sua terra natal, mas sabia que ele ainda tinhas coisas para fazer ali.

— Vão ser dois anos muito longos! — A voz de Darka saiu abafada, o rosto ainda enterrado no colo de Yrina.

— Sabe... você e o jovem Amara tem o aroma de outras terras. Não daqui de Argrene, mas de um lugar muito mais longe.

Aquilo pegou Darka de surpresa. Ela se referia a suas vidas passadas...?

— Como você...?

— Eu só queria dizer que você está exatamente onde precisa estar. — Yrina sorriu, e deu um beijo na testa do jovem. — Os dois estão. E não precisa me explicar nada, se é o que está pensando.

Sem saber o que dizer, Darka a abraçou novamente. Pensou em contar tudo, sobre sua antiga vida e tudo que aquele mundo significava para ele, mas sabia que Yrina não queria entrar em detalhes. Ela apenas queria passar a certeza de que estava tudo bem.

— Obrigado.

— Ai que grude, vocês parecem chiclete. — Daena surgiu no corredor, usando um vestido turquesa adornado com laços e pingentes. Estava quase irreconhecível para Darka, que pensou como ela parecia realmente a princesa da capital agora. — Vamos, o pessoal tá esperando.

— Cadê o...

— Antes que pergunte, o Amara tá terminando de se arrumar. Miko desapareceu em algum momento no trajeto entre o quarto e o salão, mas não tô achando aquela pulguinha em lugar nenhum.

Na esquina do corredor perpendicular ao que estavam, atrás de Daena, Darka viu Miko surgir em extrema euforia carregando o que parecia ser uma assadeira cheia de pãezinhos de queijo enquanto Katarina apareceu alguns segundos depois, ofegante e tentando pegar a criança meliante.

— Devolva isso agora, luziwurmo!

— Mas a senhorita deixou eu pegar! — respondeu Miko, se escondendo atrás de Daena e enfiando o máximo possível de pães na boca.

— Eu disse que você podia pegar o que quisesse, mas não significa que podia pegar uma fornada inteira de pão!

— Mas eu quis pegar! Você disse que era o que eu quisesse e eu quis o pão de queijo.

— Pronto, pronto. — Darka foi até Miko, levantando a criaturinha como se fosse um gato fujão. — Sem discussão, sim? Vamos devolver a assadeira. Juro que vou te proibir de passar mais um segundo com a Daena, você tá ficando impossível.

— O que eu tenho a ver com isso?! — perguntou Daena.

— Você é uma má influência. — Apontando para o corredor, Darka se virou para a cavaleira. — Desculpa, Katarina, eu vou cuidar disso.

Katarina observou enquanto Darka e Daena seguiam pelo corredor arrastando Miko, discutindo de forma cômica. Pareciam irmãos, e até lembrava sua própria relação com Estephan de certa forma.

— É uma amizade muito bonita, tenho certeza que vai durar muito tempo. — Yrina comentou. Katarina apenas a espiou de canto de olho.

— Espero que sim.

A bruxa observou Katarina com certa curiosidade por alguns segundos, analisando-a. Ao fechar os olhos, respirou fundo.

— Você tem o aroma da Tharia. — ela sorriu. — Que nostálgico.

Congelando por um momento, a paladina lembrou do último encontro que teve com sua divindade protetora. A sensação do amor que virou ressentimento passou pela sua mente, mas não causou nada além de um desconforto emocional. O rosto de Yrina era empático, diferente da pena que Katarina esperava ver.

— Estive com ela por muito tempo, mas já se foi.

— Entendo. Espero que não tenha sido difícil, ela é uma pessoa intensa.

— Ela... sentia sua falta. — Katarina não sabia o porquê, mas era fácil conversar com Yrina. Quando olhou novamente para ela, viu um semblante triste e melancólico. — Sinto muito. Por tudo.

Comovida com o pedido de desculpas, Yrina sorriu. Sabia que vindo da paladina, era algo sincero. Queria abraçá-la, mas sabia que respeitar o espaço pessoal dela era o melhor afeto que podia dar naquele momento.

— Está tudo bem. Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.

✰★✰★✰

Sem conseguir segurar o nervosismo, Darka atravessava o movimentado salão para encontrar Amara. Segundo Daena, o mecânico estava esperando por ele no terraço, mas não soube dizer o que ele pretendia. Mesmo os cochichos dos convidados ao vê-lo atravessando o recinto não eram mais altos que seu coração batendo de ansiedade.

Parando na frente da porta coberta por uma cortina translúcida, Darka ajeitou sua roupa. Suas vestes lembravam muito vagamente um moderno hanbok preto, adornado com sobreposições de tecido cinza e dourado. Fitas vermelhas prendiam seu cabelo em um coque e contrastavam com o visual monocromático.

O vento fez o trabalho de levantar a cortina, o bastante para ele ver Amara esperando, sentado em um banco no meio do espaço. Ele olhava para a paisagem noturna à frente, perdido em pensamentos.

— A... Amara? A Daena me disse que você queria falar comigo...

Surpreso, Amara se levantou.

— Err... sério? Porque ela me disse a mesma coisa.

— Hein? — Darka se deu conta que foi uma pegadinha, mas tentou não pensar muito no objetivo dela. — Essa garota...

Quando seus olhos se acostumaram com a baixa luminosidade do local, Darka notou a roupa que Amara usava. Diferente da sua, ele trajava um conjunto quase vitoriano, com uma elegante camisa bege de mangas longas e uma calça corset preta de detalhes dourados combinando com uma delicada capa escura em seus ombros. Seus cabelos, presos em um rabo-de-cavalo baixo, deixavam uma longa franja pendendo no lado direito de seu rosto. Antes que pudesse comentar o quão ele estava belo, Amara sorriu, igualmente encantado com o amigo.

— Você tá... incrível, Lauren.

Ouvir seu nome depois de tanto tempo o pegou de surpresa. A essa altura, Lauren nem sequer sabia dizer quem era, sentindo-se tão interligada a Darka que era como se eles nunca tivessem sido pessoas diferentes. Quando se deu conta do elogio que recebeu, seu rosto ficou corado.

— Você que tá! Se não te conhecesse, diria que é um modelo daquelas lojas de roupas alternativas que ficavam me mandando spam no Instagram. — retrucou Darka. Ele se aproximou e sentou no banco, virado para o lado oposto do amigo.

— Isso é um elogio? Porque quando eu morri acho que isso ainda não era tendência.

— Apesar das ofertas duvidosas no inbox, os modelos eram bonitos sim. — Darka pensou um pouco. — Se não for um assunto sensível... quando você morreu?

— Não tenho certeza da data, ficar internado num hospital mexe com sua noção de tempo. Mas sei que foi em 2017, perto do natal.

Fazendo as contas de cabeça, Darka percebeu que Amara havia falecido bem próximo do lançamento do jogo. Sete anos antes de Lauren ser transmigrada. Outra informação aleatória surgiu em sua memória, e uma estranha teoria começou a se formar.

— Sabe... eu fui a primeira pessoa a entrar no jogo no lançamento em 2017, no fim do ano também. Ganhei um sorteio nas redes sociais que me garantiu entrada exclusiva por um dia. Esse foi um dos motivos pra eu jogar Red Ocean por tanto tempo.

— Sério? — Amara sorriu. — Vou levar isso como um elogio também.

— Eu tava aqui pensando... E se você veio parar no meu save por causa disso? Porque eu fui a primeira pessoa a jogar o jogo?

O olhar confuso de Amara encontrou Darka, e ele suspirou.

— Eu acho que nunca vamos saber.

Darka encarou o vidro da porta entreaberta do terraço tentando ver se havia algum resquício de seu rosto antigo em seu reflexo, mas nada ali lembrava a antiga Lauren. Os estigmas voltaram a cor marinho, seu cabelo branco como papel emoldurava o rosto triangular e seus olhos azuis continuavam brilhantes como ágatas. Por um momento, os olhos tristes e caídos de seu antigo eu vieram à sua memória, trazendo uma sensação de melancolia familiar, mas indesejada. Alguns segundos de silêncio se seguiram antes da expressão de Darka ficar um pouco séria.

— Acha que a gente vai voltar um dia?

A pergunta surgiu de repente, pegando Amara de surpresa. Não foi difícil entender sobre o que ele estava falando, e pensou um pouco antes de responder, temendo que aquilo significasse que Darka talvez quisesse voltar.

— ... não sei.

— Tomara que não. Sério. — Darka jogou a cabeça para trás, fechando os olhos. — Eu nem ia aguentar muito mesmo antes de vir parar aqui. Não sinto falta daquilo.

— Fico feliz que aguentou firme por tanto tempo. — Amara sorriu.

Darka encarou o jovem ao seu lado por alguns segundos, admirando-o. Saber que sua conexão com Amara era realmente especial e não apenas um escapismo que projetou para superar os momentos difíceis trazia um sentimento tão estranho e tão forte em Darka que seu coração apertou em seu peito. Sentia-se com sorte de ter o conhecido, e queria que ele soubesse o quanto era grato por isso. Além de ser a pessoa que estava lá com Lauren sendo um ombro amigo, também havia criado tudo aquilo que ele amava. Uma risadinha escapou de seus lábios, seguido de um suspiro.

— Sinceramente, Amara, eu te amo.

Levou um par de segundos para Amara processar a frase de Darka. Não estava esperando ouvir aquilo sendo dito de forma tão casual, e sentiu o rosto queimar em uma rapidez considerável.

— O... o quê?! — gaguejou, envergonhado. Tentou voltar o olhar para a paisagem para esconder sua face corada. — Do que está falando?

Amara sentiu os olhos do amigo o observando, curiosos. Ele nunca havia parado para pensar em como realmente se sentia em relação a Darka, mas a julgar pela sua própria reação era claro que não era apenas gratidão. Aquele jovem bobo e gentil era importante para ele também, e grande parte do seu pânico naquele momento foi por se dar conta da natureza dos próprios sentimentos. Ouvir ele dizer que o amava despertou um repentino e estranho calafrio em seu estômago.

— Tô falando sobre como você é importante pra mim. — Darka relaxou no banco de novo, agora olhando para o céu estrelado. — Tipo, muito mesmo. Cara, além de ser meu melhor amigo cê ainda criou meu jogo favorito. Não tem como não te amar, saca?

— Ah... — Amara ainda não conseguia dizer se aquilo era algum tipo de declaração, e isso o deixou um pouco nervoso. Ele riu, envergonhado. — Fico lisonjeado...? Não sei o que falar. Você também... é meu melhor amigo.

— Não precisa falar nada não, só queria que você soubesse mesmo. — O sorriso sincero e relaxado de Darka era indecifrável para o mecânico, que se pegou tentando detectar algum traço de intenção romântica naquela declaração.

Uma brisa dançou pelas mechas soltas de Darka, e a visão dele sob a luz lúgubre da cidade abaixo fez o peito de Amara apertar. Havia perdido muitas oportunidades antes, tantas que já nem ligava mais, mas sentiu que aquela que apareceu naquele instante seria muito complicada de perder. Ele se aprumou de repente, e ainda corado, se aproximou do amigo que apenas o observou de volta, surpreso. Suas mãos seguraram o rosto de Darka, o obrigando a encara-lo.

— Pois fique sabendo que eu também te amo, seu palerma! — Sua voz saiu um pouco mais alta que o esperado, resultado de seu nervosismo.

Darka mal teve tempo de pensar antes de sentir os lábios de Amara nos seus. Era um beijo desengonçado, mas gentil, que fez seu coração acelerar tanto que achou que sairia de seu peito. Sentiu suas orelhas queimarem e um calor se espalhar pela sua pele. Suas próprias mãos se moveram sem ele perceber, aninhando o rosto de Amara e puxando-o para prolongar o beijo. Quando o mecânico se afastou, a sensação do contato ainda persistiu por alguns segundos em sua boca.

A expressão do mecânico ao olhar no rosto de Darka foi de vergonha para surpresa, e ele começou a rir.

— Darka, você tá brilhando.

Os estigmas de Darka pulsavam, como se pequenos vagalumes estivessem passeando debaixo da pele de suas marcas.

— Ah, poxa! — A voz de Miko os alcançou, e ambos viraram para ver o luziwurmo entregando uma nota de dez draks para Daena.

— Eu disse que ele era um palerma. — A menina pegou a nota e colocou no bolso de seu vestido. — Nunca que ia tomar iniciativa.

— Mas ele confessou primeiro! Então são só cinco draks! Me dá meu troco.

— Apostamos o beijo, não a confissão.

— Mas que história é essa?! — Fingindo estar zangado, Darka se levantou e começou a correr atrás do luziwurmo, que se escondeu atrás de Amara.

Depois do pequeno caos recheado de risadas, abraços e apertos de bochecha, as badaladas do novo relógio da torre de Talphen anunciaram o começo da noite. Daena os apressou para a festa, enquanto Miko comentava sobre o farto buffet que os esperava. Amara, ainda corado, quis apostar uma corrida até o salão.

Antes de seguir os outros e entrar, Darka observou o céu noturno inundado de constelações, imaginando ter visto um "Final Feliz" escrito nas estrelas.

Notas finais
E chegamos no final dessa longa e bagunçada side quest! Eu comecei essa história há mais de um ano atrás (Abril/22), durante um período em que eu tentava fazer qualquer coisa pra tirar meu foco de pensamentos extremamente ruins e só queria escapar um pouco da realidade. Side Quest me acompanhou por esse momento sombrio da minha vida, e mesmo assim não quis colocar na história nada que referenciasse isso. Quis fazer uma aventura com final feliz, longe das complicadas e turbulentas coisas que acontecem no mundo real, e fico muito feliz de ter conseguido! Então, quero agradecer demais todo mundo que leu, comentou, favoritou e apoiou essa minha primeira empreitada no mundo da escrita! Aos leitores do Wattpad e Nyah!Fanfiction, em especial a Mandy por todo o feedback e dicas que tiveram muito impacto no rumo da história. A todos que se ofereceram para betar essa bagunça ao longo desse tempo (Noah, Galimeu e Senna) e a Karoruru e o Kaziel, meus dicionários de palavras esquecidas que suportaram minha chatisse em pedir ajuda. Side Quest não seria o que é hoje se não fosse por vocês ♥ E pra encerrar, eu dedico essa história a todos os escritores de primeira viagem, que criaram coragem para passar pelo perrengue que é dar vida aos mundos em suas mentes, sem medo de ser cringe.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!