Side Quest: A Busca Pelo Meu NPC Favorito!
21 Capítulo 21 - slag_code.exe
— Como assim “ela é o lago”?! — Daena perguntou, irritada por estar encharcada. O pensamento de Yrina literalmente ser o lago causou uma certa ânsia.
— Eu senti ela lá, mas… — Darka ainda sentia uma leve impressão do abraço que recebeu.
— A manifestação física dela se dissolveu na fonte. — Dessa vez foi Amara quem comentou, pegando todos de surpresa. Sua expressão era de preocupação. — Esse não é um lago comum, ele também é a nascente do fluxo de magia. É por isso que você está brilhando.
Observando as marcas de suas mãos pulsando, Darka olhou de volta para o lago. Agora que sua visão se acostumou com a baixa luminosidade, ele conseguia ver as runas nas paredes descendo até o fundo da água, onde o brilho ficava mais forte. A estranha sensação de estar “carregado” fazia calafrios subirem em seu pescoço.
— Eu não entendi muito bem… — Daena parecia confusa. — Se aqui é de onde sai a magia e ela ficou presa nesse lugar, como não absorveu o poder para fugir?
— Seria como estar afundando e tentar beber a água para não se afogar. — Explicou Katarina. — Os selos serviam como torneiras fechadas e agora que foram abertas tudo voltou a fluir, mas por ter passado tanto tempo imersa nele a bruxa deve ter se desintegrado. Ângelo usou sua magia para prendê-la na nascente, e bloqueou as correntes para que ela não fugisse pelo fluxo.
— Acho que ela fez isso de propósito. — Darka tirou sua capa encharcada e prendeu seu cabelo em um rabo de cavalo, indo em direção ao lago novamente. — Ela me falou uma vez que conseguia “se tornar um com a natureza”. Achei que era só piada, mas depois do que a Katarina falou sobre ela ser uma deusa até que faz sentido.
— E como vamos montar ela de novo? — O nervosismo já tinha contagiado Miko também.
— Eu acho que consigo. — Darka entrou novamente na água. — Ela me ensinou uma coisa uma vez que acho que pode funcionar.
Muitos anos antes, quando Darka já tinha começado seu aprendizado de magia com Yrina, ele se perdeu em uma parte densa de um bosque enquanto buscava cogumelos. Vagou por horas até escurecer, quando se sentiu sendo puxado por uma energia invisível que o levou direto até a bruxa. Era como se o atraísse até ela, até algo familiar.
“É um feitiço de atração, que usa o apego de alguém como guia. Sabe quando você usa uma peça de roupa sua para ajudar um animal de estimação perdido a sentir seu cheiro e voltar para casa? É algo parecido. Ah, e você não é um animal de estimação, tá? Foi só um exemplo.” — Yrina explicou para Darka, apertando sua bochecha.
“Você se concentra no afeto que tem pela pessoa, e usa a magia para amplificar ele, tão forte quanto um farol.”
Ele fechou os olhos e tentou pensar em Yrina, na sua aparência singular, os cabelos verdes e volumosos emoldurando um rosto gentil, seus olhos carmesins o encarando com carinho. Ela não era sua mãe, mas isso não diminuía a importância que ela teve na vida de Darka. A lembrança do dia em que ela o encontrou surgiu em sua memória.
Naquele dia, havia chegado em sua cabana e encontrado seus pais mortos com flechas em seus corações. Darka estava desolado, soluçando de chorar no chão. Se sentia impotente, com medo, e acima de tudo, sozinho. Quando a mulher abriu a porta da cabana, viu a situação e foi em sua direção, o abraço reconfortante que recebeu foi como finalmente respirar depois de estar sufocando em fumaça.
Um abraço que não era estranho para Lauren, já que causava a mesma sensação do colo de sua falecida mãe na vida real. Graças a isso, não foi difícil assimilar o afeto que sentia em relação a Yrina e usar isso para atraí-la. Desde que havia transmigrado para o mundo de Red Ocean, ela tentava ignorar quaisquer outros sentimentos e preocupações que não fossem relacionados a encontrar Amara. Mas desde que encontrou o amigo e discutiram sobre o futuro daquele lugar, ela percebeu que por mais estranho e inexplicável aquilo fosse, ser Darka não era diferente de ser ela mesma. Era como se suas existências sempre tivessem sido uma só.
“Yrina, eu preciso de você.” — Darka repetia mentalmente, enquanto avançava no lago. Seu coração apertava com a saudade que não sabia que tinha. — “Sinto sua falta.”
Respirando fundo e prendendo o fôlego, ele mergulhou.
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“Talvez tenha sido só uma ilusão.” — A consciência de Yrina vagava, sonolenta. — “Não tem como ele estar aqui. Não deu certo.”
Ela não conseguia mais dizer quanto tempo havia se passado desde que foi selada. O fato de ser alguém que envelhece numa velocidade absurdamente lenta fazia com que fosse difícil saber se foram dias, anos ou séculos. A pior parte era ainda estar consciente o bastante para ser atormentada pela dúvida e tristeza, mas principalmente pelo medo de ter falhado com seu pupilo.
Muito antes de conhecê-lo, ela já havia falhado com duas crianças, e não queria que isso se repetisse.
A constante pressão do fluxo de magia onde estava presa era demais para o seu corpo físico, o que fez ela voltar à sua forma de deva pouco tempo depois de ser selada para não desaparecer. Como entidade, sua existência se resumia à uma presença espiritual que se espalhava pelo ambiente. Thariaknar, sua antiga parceira, sempre preferiu estar essa forma por ser mais leve e sutil.
“O que será que Thariaknar diria se visse como estou agora?” — Yrina devaneava. — “Provavelmente ia falar 'eu avisei' e me dar uma bronca. Ela ficou muito chateada e triste quando fui embora.”
Uma lembrança passou pela sua mente. Uma explosão brilhante e silenciosa. Um grande campo devastado. Uma cratera de um quilômetro de extensão, vazia. E bem no centro daquilo tudo, Dia e Noite, ainda pequenos.
“Na verdade… Acho que ela estaria decepcionada.”
“Yrina?” — Dessa vez foi a voz de Darka que alcançou a mulher. Claro como a luz do sol que ela não via há uma centena de anos. — “Eu tô aqui.”
“Acho que já cheguei num ponto onde perdi a pouca sanidade que tinha.”
“Yrina, sou eu…” — A voz fez uma pausa, insegura. — “Darka.”
“Não vou me deixar levar pela loucura, ele não está aqui de verdade.”
“Eu tô sim, cabeça de alga.”
Naquele momento, ela sentiu algo. Um reconhecimento, um afeto. Só ele a chamava assim.
Darka estava de olhos fechados, concentrado na presença de Yrina. O toque das mãos dela em seu rosto foi a primeira coisa que sentiu, seguida de um abraço repentino que tirou o pouco de fôlego que ele segurava com ajuda de magia. Retribuindo o abraço, ele a puxou para a superfície e notou que estava desacordada.
— Darka!? Tá tudo bem? — Daena gritava da margem, a poucos metros de onde estavam.
Ele se virou e foi na direção dos amigos, ajeitando Yrina em suas costas. As marcas de seu corpo já começavam a esquentar, aquecendo os dois e gerando um vapor sutil que emanava de sua pele. Katarina estremeceu ao ver a mulher, mas não sabia se a reação era sua ou de algum resquício da presença de Tharia, então ficou apenas observando quando Daena e Amara ajudaram Darka a sair da água e sentaram na margem.
— Ela morreu? — Miko se aproximou, sem tirar os olhos de Yrina.
— Já conversamos sobre essa pergunta, Miko. — Darka aconchegou a mulher mais perto, se concentrando em aquecê-la.
— Ela tem cheiro de bosque. — As mãos de Miko acariciavam o cabelo verde úmido. — Eu gosto.
Em um soluço, seus olhos se abriram. Voltar à forma física depois de tanto tempo a deixou um pouco tonta, mas seu primeiro instinto foi procurar Darka. Seu olhar encontrou o sorridente luziwurmo que segurava seu cabelo antes de ver que era seu filho adotivo quem a segurava.
Lágrimas começaram a correr pelo seu rosto e ela o puxou num abraço novamente.
— Me desculpa… Eu sinto muito, não consegui te proteger direito.
— Tá tudo bem. — Dessa vez, Darka retribuiu o abraço. — Sei que fez seu melhor.
Darka sentiu as mãos de Miko abraçando os dois, tentando participar.
— Linda reunião, mas ainda temos um problema aqui. — Daena interrompeu o momento. — Acho que eles estão chegando, ouvi um barulho lá em cima.
— Cadê a Katarina e o Amara? — Darka comentou, olhando em volta. A resposta à sua pergunta veio em forma de grunhidos em um canto da caverna.
Amara tentava segurar Katarina, que tremia e estava encolhida de joelhos, emanando levemente a mesma aura de quando lutaram em Caadis.
— Darka! Tira a Yrina daqui antes que…
Um estrondo interrompeu Amara, e os gêmeos surgiram da abertura por onde eles caíram, agora muito maior. Pedaços de escombros caíam no lago, enquanto os dois flutuavam apenas alguns metros acima dele. De mãos dadas, estavam sem suas máscaras e pareciam estar em transe.
Assim que viu as crianças, a expressão de Yrina se transformou em choque. Ela levou a mão ao cordão em seu pescoço onde duas argolas douradas pendiam, vazias.
— Dia e Noite…?!

Glossário:
Slag Code: Também conhecido como Bomba Lógica, é um conjunto de instruções inseridas em um programa que são projetadas para executar (ou 'explodir') se uma condição particular for satisfeita; quando explodido pode apagar ou corromper dados, imprimir uma mensagem falsa e ter outros efeitos nocivos.
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